Diplomacia das arábias
APROPUC-SP
Alexandre Rocha
O comércio do Brasil com os países árabes chegou a US$ 20,3 bilhões no ano passado, 3,7 vezes mais do que em 2003, primeiro ano do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. O crescimento foi maior do que o da balança comercial brasileira como um todo, e as 22 nações que compõem a Liga Árabe se tornaram, como bloco, o quinto maior parceiro comercial do país. Cada vez mais empresas buscam negócios no Oriente Médio e Norte da África. Hamdulillah!, ou "graças a Deus", em árabe.
Na realidade a intervenção divina tem pouco a ver com o desenvolvimento desse quadro. O avanço das relações comerciais é o resultado mais visível da ocorrência de uma série de fatores políticos e econômicos.
Em primeiro lugar, logo no início do seu mandato anterior, Lula estabeleceu como prioridades da política externa do seu governo a aproximação com outros países em desenvolvimento e a busca de mercados alternativos para os produtos brasileiros. Nesse cenário, a intensificação das ações diplomáticas e comerciais em direção aos árabes foi uma das principais metas.
Já em dezembro de 2003, Lula fez sua primeira viagem à região, passou por Líbano, Síria, Emirados Árabes Unidos, Egito e Líbia. Apesar de o Brasil concentrar a maior colônia de origem árabe fora do mundo árabe, antes de Lula o último chefe de estado brasileiro a visitar o Oriente Médio foi o imperador Dom Pedro II. Vale lembrar que a comunidade libanesa no país é maior do que a população do próprio Líbano.
Desde então, Lula esteve também na Argélia, no Catar e, mais recentemente, na Arábia Saudita. Ocorreram também duas reuniões de cúpula América do Sul-Países Árabes (Aspa), diversos encontros de ministros das duas regiões e o lançamento de negociações de acordos comerciais com Egito, Marrocos, Jordânia e o Conselho de Cooperação do Golfo (GCC, na sigla em inglês), bloco formado por Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Omã.
Além disso, não foram poucas as missões comerciais e outros encontros de negócios organizados pela iniciativa privada e por governos, especialmente pela Câmara de Comércio Árabe Brasileira, sediada em São Paulo. A cooperação bilateral ultrapassou as fronteiras do comércio e chegou a outras áreas, como agropecuária, saúde, educação, cultura, ciência e tecnologia, política e investimentos recíprocos.
Do ponto de vista econômico, as duas partes souberam aproveitar o momento de pujança global anterior à crise financeira. Basta lembrar que, fora do ramo de commodities, as empresas brasileiras tinham pouca tradição exportadora. Com a desvalorização do real, no final do governo de Fernando Henrique Cardoso e começo da gestão Lula, e o aquecimento da economia global, o mercado externo se tornou mais atraente e muitas companhias passaram por um rápido processo de internacionalização. O país começou a ganhar mais com a venda de commodities agrícolas e minerais, cujo preço aumentou por causa da demanda, especialmente da China, e as exportações em geral foram diversificadas com a introdução de novos produtos, fornecedores e importadores.
Nesse período, por exemplo, o Brasil se tornou o maior exportador mundial de carne bovina, deixando para trás concorrentes de peso, como Estados Unidos, Argentina e Austrália. É bom lembrar que o país alcançou essa posição sem ter acesso a uma parte significativa do mercado mundial do produto, uma vez que grandes centros consumidores como os Estados Unidos, o Japão e a Coreia do Sul impõem barreiras comerciais travestidas de sanitárias. Os árabes tiveram peso importante na evolução do negócio, e hoje estão entre os principais destinos da mercadoria brasileira.
Embora alimentos e minério de ferro sejam os principais itens vendidos pelo Brasil ao mundo árabe, nos últimos anos a pauta de exportação passou a incluir produtos de alto valor agregado, como os aviões da Embraer, que hoje fazem sucesso na região, além de material de construção, caminhões, ônibus, máquinas agrícolas e serviços.
Do lado árabe, países que já dispunham de grande liquidez começaram a ampliar suas reservas monetárias de maneira inédita com a valorização sem precedentes do petróleo, que chegou a US$ 150 por barril em julho do ano passado, antes do aprofundamento da crise. No segundo semestre de 2003, o barril estava cotado em cerca de US$ 25. Hoje, mesmo após uma forte queda, o preço gira entre US$ 50 e US$ 60, ou seja, mais do que o dobro do que era há seis anos.
Some-se a isso os atentados de 11 de setembro em Nova York e Washington. Com medo de eventuais bloqueios na "Guerra contra o Terror" do governo Bush, investidores árabes tiraram seu dinheiro aplicado nas economias centrais. Na época, falava-se em algo como US$ 300 bilhões em recursos árabes à procura de novos investimentos. O valor parece até pequeno se comparado com as somas angariadas pelos governos da região após a valorização do petróleo. Só o fundo soberano de Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos, chegou a ter quase US$ 1 trilhão antes da crise.
Com dinheiro na mão e em busca de alternativas, os árabes passaram a investir pesadamente em seus próprios países, especialmente nas áreas de infraestrutura e construção civil. Na região do Golfo o boom imobiliário tornou-se notícia no mundo inteiro com a execução de megaprojetos, com o emirado de Dubai na linha de frente. Mas o dinheiro foi aplicado (e continua a ser) também em outros locais, especialmente os com forte vocação turística, como Egito, Jordânia, Síria e Marrocos. A Argélia, também grande exportadora de petróleo e gás - e uma das principais fornecedoras do Brasil - anunciou muito antes do governo Lula o projeto de construção de 1 milhão de casas populares. A Líbia, após Muammar Kadafi fazer as pazes com a Europa e os Estados Unidos, passou a ser um destino de negócios bastante procurado por causa de seus cofres abarrotados de petrodólares.
Isso impulsionou as exportações brasileiras de alimentos, material de construção e serviços, já que as nações árabes precisam de comida para um batalhão de trabalhadores, matéria-prima para erguer prédios e engenheiros para projetar seus empreendimentos.
Mesmo com grande parte dos países árabes dominada por dinastias autocráticas, parte dessa bonança chegou à população, especialmente por meio da geração de empregos. O forte aumento da importação de carne bovina na região é considerado um indicador disso, segundo representantes do setor. Com o aumento da renda, as pessoas passam se alimentar melhor e a consumir, especialmente, mais carne. Isso ocorreu também no Brasil.
No mesmo período em que a economia prosperava, a região foi palco de três guerras bastante sangrentas: primeiro a invasão do Iraque pelos Estados Unidos, depois os ataques de Israel ao Líbano e, por último, a ofensiva israelense na Faixa de Gaza. Do ponto de vista comercial, os conflitos pouco afetaram o comércio do Brasil com os árabes, pois os principais parceiros do país nessa seara não foram militarmente atingidos.
No caso do Iraque, que nos anos 1980 foi um importante destino das exportações brasileiras, a política do "petróleo por comida" instituída pelos Estados Unidos e pela Organização das Nações Unidas (ONU) na década de 1990 já havia afetado consideravelmente o comércio. Após o início da guerra e o fim do embargo, os negócios até aumentaram, e em alguns momentos atingem cifras significativas, mas não constantes como ocorre com outros mercados.
Em relação ao Líbano, embora existam ligações fortes com o Brasil por causa da imigração, o país é pequeno e seu comércio relativamente também é. O principal produto de exportação do Brasil aos libaneses é gado vivo. Embora tenha ocorrido uma interrupção nos embarques durante o ataque de Israel, eles foram retomados pouco tempo depois.
Na Palestina a situação é mais difícil de mensurar, uma vez que não existem dados oficiais sobre a entrada e saída de produtos e serviços do país, pois o comércio formal é feito pelas fronteiras israelenses. Não se sabe com exatidão o que chega aos territórios ocupados.
Mas a iniciativa de aproximação brasileira não se limita ao comércio. Então o governo do Brasil condenou desde logo a invasão do Iraque, participou dos esforços de ajuda ao Líbano e vem tentando cada vez mais ser um ator importante nas negociações de paz entre palestinos e israelenses. Isso não é de hoje: o Brasil foi um dos primeiros países a receber uma representação diplomática palestina, que tem status de embaixada.
Mais recentemente, o país participou da conferência de Annapolis, nos Estados Unidos, ainda sob o governo Bush, que discutiu o processo de paz na região. Após os ataques em Gaza, o governo brasileiro anunciou a doação de US$ 10 milhões para ajudar nos esforços de reconstrução do território, destinou US$ 1 milhão, junto com a Índia e a África do Sul, para a construção de um complexo esportivo em Ramallah, na Cisjordânia, e enviou remédios e alimentos aos habitantes de Gaza durante a ofensiva. Antes, no final de 2007, já havia recebido refugiados palestinos.
Essas ações, além de pavimentarem o caminho da aproximação com o mundo árabe, fazem parte de um objetivo maior da diplomacia brasileira, que é garantir um "protagonismo" do país na política internacional. O chanceler Celso Amorim esteve diversas vezes no Oriente Médio e já chegou a ser portador de mensagem do presidente sírio, Bashar Al-Assad, ao então primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert.
Além disso, o governo brasileiro tem estado à frente de outras iniciativas, como a formação do G-20 comercial, grupo de países em desenvolvimento que atua na Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC); o fortalecimento do G-20 financeiro, grupo das 20 maiores economias do mundo, no enfrentamento da crise; e a proposta de reforma da ONU, especialmente do Conselho de Segurança.
Mas os conflitos não são o único problema dos países árabes. Há também a dependência excessiva das maiores economias regionais no petróleo e o fato de a grande maioria das nações da região serem governadas por regimes autocráticos. A democracia é um conceito raramente aplicado na região.
Além da submissão das populações e da imprensa, tais governos geram outros problemas, pois a falta de novas lideranças impede também o surgimento de novas ideias. Muitos dos líderes árabes estão velhos, há bastante tempo no poder e são incapazes de responder aos desafios da realidade atual.
Prova disso foi a última reunião de cúpula da Liga Árabe, em março, no Catar, cuja decisão mais importante foi a defesa do presidente do Sudão, Omar Al-Bashir, que tem prisão decretada pelo Tribunal Penal Internacional (TPI). Por incrível que pareça, o Sudão foi o primeiro país africano a embarcar na campanha brasileira de promoção dos biocombustíveis. Foi o primeiro país do continente a construir uma usina de etanol, totalmente importada da brasileira Dedini.
No mais, o ponto alto da reunião foi a saída intempestiva de Kadafi do plenário, após ofender o rei saudita, Abdullah Bin Abdulaziz Al Saud, e se declarar "o decano dos líderes árabes" e "o rei dos reis da África". Numa coisa ele está certo: é o decano dos líderes árabes, pois em 2009 completa 40 anos no poder.
Esse quadro gera problemas de ordem prática. A Arábia Saudita, maior economia do mundo árabe, é praticamente refém do sistema legal que criou, baseado no wahabismo, corrente islâmica sunita fundada pelo teólogo Muhammad Ibn Abd Al-Wahab, no século 18, e seguida pele família Al-Saud. Ela prega uma volta aos princípios básicos do Islã, espelhando-se naquilo que o profeta Maomé fez e disse, mas sem renegar o uso de facilidades modernas típicas da sociedade de consumo.
Esse sistema implica a observância rígida de regras religiosas que impedem as mulheres desde dirigir automóveis até gerir um negócio sem autorização masculina. Num país de mais de 27 milhões de pessoas, isso significa cerca de 50% da população sem trabalho, sendo que hoje a renda obtida pelo homem não é suficiente para sustentar a família, muitas vezes numerosa. Além disso, o índice de desemprego é alto e muitos estrangeiros da Ásia ou de outros países árabes ocupam funções não desejadas pelos sauditas, como garçons, motoristas e pedreiros.
Há uma preocupação real no país com o destino dos jovens sauditas, especialmente com a criação de empregos. Mas há obviamente outras. A interpretação mais radical do wahabismo credita aos mais básicos programas de lazer a pecha de diversionistas. Em Riad, a capital, por exemplo, não existem cinemas. A população jovem, além de em parte desocupada, está entediada. Quem diz isso é o radialista saudita Samar Fatany, em artigo publicado em 18 de maio pelo Arab News, principal jornal em inglês da Arábia Saudita.
O rei Abdullah em si não é um retrógrado; muito pelo contrário, vem defendendo a importância de haver emprego para os jovens e as mulheres, porque sabe que na panela de pressão social o futuro é sempre incerto. Tem que batalhar, nesse sentido, a oposição de teólogos radicais e da sua própria família, que tem dezenas de milhares de membros.
O curioso é que num cenário político incerto, as empresas brasileiras parecem mais dispostas a investir no mundo árabe do que os árabes aqui. Prova disso são companhias como a Randon, de implementos rodoviários, que tem linhas de montagem no Marrocos e na Argélia; a Marcopolo, que está concluindo uma fábrica de ônibus em parceria com uma empresa local no Egito; a mineira Biomm, que acaba de firmar um negócio com uma empresa saudita, no valor de US$ 100 milhões, para produção de insulina para o Oriente Médio; e construtoras como Engeprot, Odebrecht, Andrade Gutierrez e Queiroz Galvão; a própria Petrobras; e a Vale, que investe num projeto de US$ 1,3 bilhão em Omã.
Há seis anos era difícil encontrar uma empresa brasileira que tivesse negócios com o Oriente Médio e o Norte da África. Hoje é difícil encontrar uma que não tem ou que não queira ter.
Do outro lado, os árabes são mais cautelosos, ainda muito acostumados a olhar para os Estados Unidos e a Europa como destino dos investimentos. Eles ainda vêem o Brasil somente como o país do futebol. Os nossos ídolos que passaram ou ainda estão na Seleção Brasileira, como Ronaldo, Ronaldinho, Kaká e Robinho, são amplamente conhecidos lá, mas o país mesmo é amplamente desconhecido. Quando se fala das dimensões continentais, do tamanho da população e da atividade econômica, as reações são de espanto.
E é preciso ver para crer. A maturação de negócios entre os árabes tem uma velocidade diferente da nossa. Geralmente eles demoram muito mais para fechar um negócio, são mais cautelosos e gostam de conhecer bem a outra parte antes de bater o martelo. Interesses anunciados há cinco anos estão sendo confirmados agora, como a fábrica da egípcia El-Sewedy em parceira com uma companhia mineira para a produção de material elétrico no Brasil e do grupo Eloumi, da Tunísia, para a fabricação de cabos para a indústria automotiva no Paraná.
O príncipe saudita Alwaleed Bin Talal, um dos homens mais ricos do mundo, fez uma declaração interessante durante encontro com o presidente Lula em Riad. Ele disse que durante muito tempo os investidores árabes tiveram seus olhos, e seu dinheiro, voltados para as economias centrais, mas que "agora é hora do Sul". "Inshallah", como dizem os árabes, ou "Oxalá", como dizemos nós. Pv
Na realidade a intervenção divina tem pouco a ver com o desenvolvimento desse quadro. O avanço das relações comerciais é o resultado mais visível da ocorrência de uma série de fatores políticos e econômicos.
Em primeiro lugar, logo no início do seu mandato anterior, Lula estabeleceu como prioridades da política externa do seu governo a aproximação com outros países em desenvolvimento e a busca de mercados alternativos para os produtos brasileiros. Nesse cenário, a intensificação das ações diplomáticas e comerciais em direção aos árabes foi uma das principais metas.
Já em dezembro de 2003, Lula fez sua primeira viagem à região, passou por Líbano, Síria, Emirados Árabes Unidos, Egito e Líbia. Apesar de o Brasil concentrar a maior colônia de origem árabe fora do mundo árabe, antes de Lula o último chefe de estado brasileiro a visitar o Oriente Médio foi o imperador Dom Pedro II. Vale lembrar que a comunidade libanesa no país é maior do que a população do próprio Líbano.
Desde então, Lula esteve também na Argélia, no Catar e, mais recentemente, na Arábia Saudita. Ocorreram também duas reuniões de cúpula América do Sul-Países Árabes (Aspa), diversos encontros de ministros das duas regiões e o lançamento de negociações de acordos comerciais com Egito, Marrocos, Jordânia e o Conselho de Cooperação do Golfo (GCC, na sigla em inglês), bloco formado por Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Omã.
Além disso, não foram poucas as missões comerciais e outros encontros de negócios organizados pela iniciativa privada e por governos, especialmente pela Câmara de Comércio Árabe Brasileira, sediada em São Paulo. A cooperação bilateral ultrapassou as fronteiras do comércio e chegou a outras áreas, como agropecuária, saúde, educação, cultura, ciência e tecnologia, política e investimentos recíprocos.
Do ponto de vista econômico, as duas partes souberam aproveitar o momento de pujança global anterior à crise financeira. Basta lembrar que, fora do ramo de commodities, as empresas brasileiras tinham pouca tradição exportadora. Com a desvalorização do real, no final do governo de Fernando Henrique Cardoso e começo da gestão Lula, e o aquecimento da economia global, o mercado externo se tornou mais atraente e muitas companhias passaram por um rápido processo de internacionalização. O país começou a ganhar mais com a venda de commodities agrícolas e minerais, cujo preço aumentou por causa da demanda, especialmente da China, e as exportações em geral foram diversificadas com a introdução de novos produtos, fornecedores e importadores.
Nesse período, por exemplo, o Brasil se tornou o maior exportador mundial de carne bovina, deixando para trás concorrentes de peso, como Estados Unidos, Argentina e Austrália. É bom lembrar que o país alcançou essa posição sem ter acesso a uma parte significativa do mercado mundial do produto, uma vez que grandes centros consumidores como os Estados Unidos, o Japão e a Coreia do Sul impõem barreiras comerciais travestidas de sanitárias. Os árabes tiveram peso importante na evolução do negócio, e hoje estão entre os principais destinos da mercadoria brasileira.
Embora alimentos e minério de ferro sejam os principais itens vendidos pelo Brasil ao mundo árabe, nos últimos anos a pauta de exportação passou a incluir produtos de alto valor agregado, como os aviões da Embraer, que hoje fazem sucesso na região, além de material de construção, caminhões, ônibus, máquinas agrícolas e serviços.
Do lado árabe, países que já dispunham de grande liquidez começaram a ampliar suas reservas monetárias de maneira inédita com a valorização sem precedentes do petróleo, que chegou a US$ 150 por barril em julho do ano passado, antes do aprofundamento da crise. No segundo semestre de 2003, o barril estava cotado em cerca de US$ 25. Hoje, mesmo após uma forte queda, o preço gira entre US$ 50 e US$ 60, ou seja, mais do que o dobro do que era há seis anos.
Some-se a isso os atentados de 11 de setembro em Nova York e Washington. Com medo de eventuais bloqueios na "Guerra contra o Terror" do governo Bush, investidores árabes tiraram seu dinheiro aplicado nas economias centrais. Na época, falava-se em algo como US$ 300 bilhões em recursos árabes à procura de novos investimentos. O valor parece até pequeno se comparado com as somas angariadas pelos governos da região após a valorização do petróleo. Só o fundo soberano de Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos, chegou a ter quase US$ 1 trilhão antes da crise.
Com dinheiro na mão e em busca de alternativas, os árabes passaram a investir pesadamente em seus próprios países, especialmente nas áreas de infraestrutura e construção civil. Na região do Golfo o boom imobiliário tornou-se notícia no mundo inteiro com a execução de megaprojetos, com o emirado de Dubai na linha de frente. Mas o dinheiro foi aplicado (e continua a ser) também em outros locais, especialmente os com forte vocação turística, como Egito, Jordânia, Síria e Marrocos. A Argélia, também grande exportadora de petróleo e gás - e uma das principais fornecedoras do Brasil - anunciou muito antes do governo Lula o projeto de construção de 1 milhão de casas populares. A Líbia, após Muammar Kadafi fazer as pazes com a Europa e os Estados Unidos, passou a ser um destino de negócios bastante procurado por causa de seus cofres abarrotados de petrodólares.
Isso impulsionou as exportações brasileiras de alimentos, material de construção e serviços, já que as nações árabes precisam de comida para um batalhão de trabalhadores, matéria-prima para erguer prédios e engenheiros para projetar seus empreendimentos.
Mesmo com grande parte dos países árabes dominada por dinastias autocráticas, parte dessa bonança chegou à população, especialmente por meio da geração de empregos. O forte aumento da importação de carne bovina na região é considerado um indicador disso, segundo representantes do setor. Com o aumento da renda, as pessoas passam se alimentar melhor e a consumir, especialmente, mais carne. Isso ocorreu também no Brasil.
No mesmo período em que a economia prosperava, a região foi palco de três guerras bastante sangrentas: primeiro a invasão do Iraque pelos Estados Unidos, depois os ataques de Israel ao Líbano e, por último, a ofensiva israelense na Faixa de Gaza. Do ponto de vista comercial, os conflitos pouco afetaram o comércio do Brasil com os árabes, pois os principais parceiros do país nessa seara não foram militarmente atingidos.
No caso do Iraque, que nos anos 1980 foi um importante destino das exportações brasileiras, a política do "petróleo por comida" instituída pelos Estados Unidos e pela Organização das Nações Unidas (ONU) na década de 1990 já havia afetado consideravelmente o comércio. Após o início da guerra e o fim do embargo, os negócios até aumentaram, e em alguns momentos atingem cifras significativas, mas não constantes como ocorre com outros mercados.
Em relação ao Líbano, embora existam ligações fortes com o Brasil por causa da imigração, o país é pequeno e seu comércio relativamente também é. O principal produto de exportação do Brasil aos libaneses é gado vivo. Embora tenha ocorrido uma interrupção nos embarques durante o ataque de Israel, eles foram retomados pouco tempo depois.
Na Palestina a situação é mais difícil de mensurar, uma vez que não existem dados oficiais sobre a entrada e saída de produtos e serviços do país, pois o comércio formal é feito pelas fronteiras israelenses. Não se sabe com exatidão o que chega aos territórios ocupados.
Mas a iniciativa de aproximação brasileira não se limita ao comércio. Então o governo do Brasil condenou desde logo a invasão do Iraque, participou dos esforços de ajuda ao Líbano e vem tentando cada vez mais ser um ator importante nas negociações de paz entre palestinos e israelenses. Isso não é de hoje: o Brasil foi um dos primeiros países a receber uma representação diplomática palestina, que tem status de embaixada.
Mais recentemente, o país participou da conferência de Annapolis, nos Estados Unidos, ainda sob o governo Bush, que discutiu o processo de paz na região. Após os ataques em Gaza, o governo brasileiro anunciou a doação de US$ 10 milhões para ajudar nos esforços de reconstrução do território, destinou US$ 1 milhão, junto com a Índia e a África do Sul, para a construção de um complexo esportivo em Ramallah, na Cisjordânia, e enviou remédios e alimentos aos habitantes de Gaza durante a ofensiva. Antes, no final de 2007, já havia recebido refugiados palestinos.
Essas ações, além de pavimentarem o caminho da aproximação com o mundo árabe, fazem parte de um objetivo maior da diplomacia brasileira, que é garantir um "protagonismo" do país na política internacional. O chanceler Celso Amorim esteve diversas vezes no Oriente Médio e já chegou a ser portador de mensagem do presidente sírio, Bashar Al-Assad, ao então primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert.
Além disso, o governo brasileiro tem estado à frente de outras iniciativas, como a formação do G-20 comercial, grupo de países em desenvolvimento que atua na Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC); o fortalecimento do G-20 financeiro, grupo das 20 maiores economias do mundo, no enfrentamento da crise; e a proposta de reforma da ONU, especialmente do Conselho de Segurança.
Mas os conflitos não são o único problema dos países árabes. Há também a dependência excessiva das maiores economias regionais no petróleo e o fato de a grande maioria das nações da região serem governadas por regimes autocráticos. A democracia é um conceito raramente aplicado na região.
Além da submissão das populações e da imprensa, tais governos geram outros problemas, pois a falta de novas lideranças impede também o surgimento de novas ideias. Muitos dos líderes árabes estão velhos, há bastante tempo no poder e são incapazes de responder aos desafios da realidade atual.
Prova disso foi a última reunião de cúpula da Liga Árabe, em março, no Catar, cuja decisão mais importante foi a defesa do presidente do Sudão, Omar Al-Bashir, que tem prisão decretada pelo Tribunal Penal Internacional (TPI). Por incrível que pareça, o Sudão foi o primeiro país africano a embarcar na campanha brasileira de promoção dos biocombustíveis. Foi o primeiro país do continente a construir uma usina de etanol, totalmente importada da brasileira Dedini.
No mais, o ponto alto da reunião foi a saída intempestiva de Kadafi do plenário, após ofender o rei saudita, Abdullah Bin Abdulaziz Al Saud, e se declarar "o decano dos líderes árabes" e "o rei dos reis da África". Numa coisa ele está certo: é o decano dos líderes árabes, pois em 2009 completa 40 anos no poder.
Esse quadro gera problemas de ordem prática. A Arábia Saudita, maior economia do mundo árabe, é praticamente refém do sistema legal que criou, baseado no wahabismo, corrente islâmica sunita fundada pelo teólogo Muhammad Ibn Abd Al-Wahab, no século 18, e seguida pele família Al-Saud. Ela prega uma volta aos princípios básicos do Islã, espelhando-se naquilo que o profeta Maomé fez e disse, mas sem renegar o uso de facilidades modernas típicas da sociedade de consumo.
Esse sistema implica a observância rígida de regras religiosas que impedem as mulheres desde dirigir automóveis até gerir um negócio sem autorização masculina. Num país de mais de 27 milhões de pessoas, isso significa cerca de 50% da população sem trabalho, sendo que hoje a renda obtida pelo homem não é suficiente para sustentar a família, muitas vezes numerosa. Além disso, o índice de desemprego é alto e muitos estrangeiros da Ásia ou de outros países árabes ocupam funções não desejadas pelos sauditas, como garçons, motoristas e pedreiros.
Há uma preocupação real no país com o destino dos jovens sauditas, especialmente com a criação de empregos. Mas há obviamente outras. A interpretação mais radical do wahabismo credita aos mais básicos programas de lazer a pecha de diversionistas. Em Riad, a capital, por exemplo, não existem cinemas. A população jovem, além de em parte desocupada, está entediada. Quem diz isso é o radialista saudita Samar Fatany, em artigo publicado em 18 de maio pelo Arab News, principal jornal em inglês da Arábia Saudita.
O rei Abdullah em si não é um retrógrado; muito pelo contrário, vem defendendo a importância de haver emprego para os jovens e as mulheres, porque sabe que na panela de pressão social o futuro é sempre incerto. Tem que batalhar, nesse sentido, a oposição de teólogos radicais e da sua própria família, que tem dezenas de milhares de membros.
O curioso é que num cenário político incerto, as empresas brasileiras parecem mais dispostas a investir no mundo árabe do que os árabes aqui. Prova disso são companhias como a Randon, de implementos rodoviários, que tem linhas de montagem no Marrocos e na Argélia; a Marcopolo, que está concluindo uma fábrica de ônibus em parceria com uma empresa local no Egito; a mineira Biomm, que acaba de firmar um negócio com uma empresa saudita, no valor de US$ 100 milhões, para produção de insulina para o Oriente Médio; e construtoras como Engeprot, Odebrecht, Andrade Gutierrez e Queiroz Galvão; a própria Petrobras; e a Vale, que investe num projeto de US$ 1,3 bilhão em Omã.
Há seis anos era difícil encontrar uma empresa brasileira que tivesse negócios com o Oriente Médio e o Norte da África. Hoje é difícil encontrar uma que não tem ou que não queira ter.
Do outro lado, os árabes são mais cautelosos, ainda muito acostumados a olhar para os Estados Unidos e a Europa como destino dos investimentos. Eles ainda vêem o Brasil somente como o país do futebol. Os nossos ídolos que passaram ou ainda estão na Seleção Brasileira, como Ronaldo, Ronaldinho, Kaká e Robinho, são amplamente conhecidos lá, mas o país mesmo é amplamente desconhecido. Quando se fala das dimensões continentais, do tamanho da população e da atividade econômica, as reações são de espanto.
E é preciso ver para crer. A maturação de negócios entre os árabes tem uma velocidade diferente da nossa. Geralmente eles demoram muito mais para fechar um negócio, são mais cautelosos e gostam de conhecer bem a outra parte antes de bater o martelo. Interesses anunciados há cinco anos estão sendo confirmados agora, como a fábrica da egípcia El-Sewedy em parceira com uma companhia mineira para a produção de material elétrico no Brasil e do grupo Eloumi, da Tunísia, para a fabricação de cabos para a indústria automotiva no Paraná.
O príncipe saudita Alwaleed Bin Talal, um dos homens mais ricos do mundo, fez uma declaração interessante durante encontro com o presidente Lula em Riad. Ele disse que durante muito tempo os investidores árabes tiveram seus olhos, e seu dinheiro, voltados para as economias centrais, mas que "agora é hora do Sul". "Inshallah", como dizem os árabes, ou "Oxalá", como dizemos nós. Pv
Alexandre Rocha é jornalista, editor-executivo da Agência de Notícias Brasil-Árabe (www.anba.com.br).
Voltar
|
Versão em PDF
|
Encaminhar
|
Imprimir
|










