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Home >> Revista PUC Viva >> 34, Oriente Médio, abril de 2009 >> Irã: sob ameaça de intervenção imperialista

Irã: sob ameaça de intervenção imperialista

APROPUC-SP

Erson Martins de Oliveira e Sérgio Augusto Brunetto

Barack Obama anunciou uma nova política mundial, distinta da do seu antecessor republicano George W. Bush. Diante do Irã, não adota a definição de "eixo do mal", que incluía a Síria e a Coreia do Norte. Participam dessa condição o Iraque e o Afeganistão, mas ambos estão sob intervenção bélica. Por essa caracterização, os Estados Unidos tinham como objetivo ir à guerra para destruir o "eixo do mal", tipificados como agentes do terrorismo mundial.
Os combates no Iraque e no Afeganistão demonstraram imensas dificuldades dos Estados Unidos. A resistência impôs e vem impondo importantes derrotas ao exército norte-americano e a seus aliados, principalmente à Inglaterra. Uma das promessas eleitorais de Obama foi retirar as tropas do Iraque e fortalecer a intervenção no Afeganistão. A estratégia do novo Presidente é consolidar o governo títere no Iraque, destruir a resistência dos Talebans no Afeganistão, dissuadir o Irã de dominar a energia nuclear a ponto de obter a bomba e obrigar a Coreia do Norte a destruir seu programa nuclear bélico.
O governo do Irã alega o direito de ter seus reatores para fins pacíficos. Os Estados Unidos e seu clube atômico (Inglaterra e França) não admitem que nenhum país possa ter a energia nuclear, sem que esteja sob seu controle e sua supervisão, por meio da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
A ocupação do Iraque, em 2003 (1991, primeira invasão) teve como justificativa a existência de um programa de armas químicas e atômicas pelo governo de Saddam Hussein. O que se mostrou falso. A razão era o petróleo e a necessidade de os Estados Unidos se fortalecerem militarmente no Oriente Médio.
A retomada da crise mundial no pós-guerra, principalmente a partir da década de 1970, impulsionou as tendências bélicas do imperialismo, encarnadas hegemonicamente pela burguesia ianque. A derrota no Vietnã expôs as fraquezas dos Estados Unidos e assinalou sua decadência, embora continuassem a dominar sem contestação das demais potências e a desenvolver sua poderosa máquina de guerra, não só pela tecnologia mas também pela expansão de bases em todo o globo.
Em 1978, a dinastia Pahlevi, sustentada pelos norte-americanos e ingleses, interessados no controle das fontes petrolíferas do Irã, foi contestada pelo movimento nacionalista, encabeçado pela fração do clero mulçumano. As massas se sublevaram e deram o poder aos aiatolás, em 1979. A República Islâmica, oficializada em abril de 1979, que sucedeu a monarquia não fez senão dar continuidade ao capitalismo e instituir novas relações políticas sob o comando da ordem religiosa.
O nacionalismo xiita pôs em marcha a recuperação do poder nacional sobre as riquezas petrolíferas, limitando a ação dos Estados Unidos e da Inglaterra. A fração liberal da burguesia iraniana, que participou da derrubada do xá Reza Pahlevi, procurou, assim que a revolução se afirmou, colocar limites no poder dos aiatolás e no nacionalismo. Era do interesse do imperialismo enfraquecer os nacionalistas, incentivando a ascensão da ala liberal, tendente a posições pró-imperialistas.
A divisão das novas forças que edificaram a República Islâmica abriu caminho para os Estados Unidos retomarem sua influência. Tornou-se evidente que os partidários do aiatolá Ruhollah Khomeini, que encarnou a liderança da Revolução e ocupou a posição de chefe supremo da República Islâmica, iria radicalizar o nacionalismo. A evidência mais cabal se manifestou no episódio da ocupação da Embaixada dos Estados Unidos e dos reféns norte-americanos, cujo objetivo era exigir do governo ianque a extradição do xá Reza Pahlevi. O apoio de Khomeini ao cerco da Embaixada levou à completa ruptura de relações, de tal forma que os Estados Unidos estiveram prestes a agir militarmente para resgatar os reféns.
A estruturação do novo regime trouxe dissensão na base do movimento. Os "Combatentes do Povo" (mujahedin), que se organizaram militarmente para enfrentar a monarquia Pahlevi e fizeram parte de sua derrocada, pretendiam reformas burguesas mais profundas. Preconizavam um regime republicano, em que o Estado estivesse formalmente separado da religião. Os mujahedin encontraram eco no primeiro presidente da República Islâmica, eleito pelo voto, Abolhasan Bani-Sadr. A tentativa de um levante armado contra o regime de Khomeini resultou em massacre dos mujahedin e o presidente foi destituído pelo Parlamento.
A revolução antimonárquica não podia avançar mais, como pretendiam os mujahedin. A luta se daria no seio do regime teocrático. A morte de Khomeini, em junho de 1989, facilitou o avanço da oposição inclinada a restabelecer os laços com os Estados Unidos e demais potências. A cisão se dará no seio da burocracia islâmica. Ali Hashemi Rafsanjani é eleito com o programa pró-Ocidente, em outras palavras, pró-imperialista, ainda que não tão declarado, como não poderia ser. Internamente, propõe reformas liberalizantes em favor da classe média e medidas que flexibilizam os dogmas islâmicos. Mas pouco pôde fazer, uma vez que o poder permanecia concentrado na alta cúpula religiosa do "Conselho de Guardiães". Ali Khamenei herdou a autoridade de Khomeini. Assentado na estrutura teocrática, limitou o reformismo pró-abertura às potências do presidente liberal.
Dois anos depois da reeleição (1993) de Rafsanjani, os Estados Unidos acusam o Irã de incentivar o terrorismo internacional e estabelecem um bloqueio econômico. O ataque é dirigido contra o regime xiita.
Os reformistas pró-abertura continuam a ganhar terreno com a eleição em 1977 de Mohammad Khatami, aliado de Rafsanjani, e com a eleição para o legislativo em 2000, em que a oposição obtém a maioria. Essa disputa no seio do governo, do regime e da burocracia estatal é acompanhada por manifestações da pequena burguesia estudantil e setores femininos da classe média que continuam a reivindicar a flexibilização do código islâmico. A repressão da República Islâmica recrudesce, mas apenas retarda o avanço dos liberais.
Chama atenção o fato de Khatami ser reeleito com 78% dos votos em 2001 e, mesmo contando com a maioria parlamentar conquistada em 2000, não conseguir implantar seu programa liberalizante. Ocorre que o legislativo e o executivo não podem decidir medidas que contrariem o nacionalismo e o código de conduta da República Islâmica, amparada pela Guarda Revolucionária. Os liberais, por enquanto, não ousaram questionar a estrutura política do Estado que ocupou o lugar da monarquia Pahlevi. A burguesia iraniana mostrou-se débil ao entregar o poder à casta religiosa e se sujeitar a uma estrutura política em que, por cima do parlamento, do executivo e do judiciário, impera o Conselho dos Guardiães, chefiado por um aiatolá.
Em 2005, a fração liberalizante de Rafsanjani sofre um revés: ganha a presidência Mahmoud Ahmadinejad. Desbancados os liberais, fortalece-se o poder dos aiatolás alinhados com Ali Khamenei e o nacionalismo antinorte-americano. Em 2002, amplia-se a dissensão internacional em torno do Irã. George W. Bush lança sua campanha contra o "eixo do mal" e a Rússia permite aos iranianos darem seus primeiros passos rumo à energia nuclear, iniciando a construção de um reator atômico.
Acionada pelos Estados Unidos, a AIEA, em 2003, exigiu que o governo iraniano comprovasse que não construía um programa secreto de aquisição da bomba nuclear. Portanto, a questão nuclear começou sob a presidência dos liberais.
Ahmadinejad será o presidente talhado a enfrentar as pressões do imperialismo para que o Irã não alcance o ciclo completo da energia nuclear e as condições para ter a arma nuclear. O Pentágono vazou planos de intervenção militar. Israel fez incursões aéreas sobre o Irã, sinal de ameaça de um bombardeio às usinas nucleares.
No complicado quadro do Oriente Médio - ocupação do Iraque, choque militar permanente de Israel e Palestina, invasão israelense do Líbano - o Irã ocupa um lugar estratégico, embora esteja na Ásia Central.Trata-se de um país que controla parte significativa da produção petrolífera mundial, avançou na industrialização, venceu a guerra contra o Iraque, portanto constituiu uma força de guerra, tem condições para obter a bomba atômica e sem ser árabe passou a ter influência na questão palestina e libanesa. Os Estados Unidos o acusam de armar os movimentos Hezbollah e Hamas.
A bandeira de Ahmadinejad de destruição de Israel e a afirmação de que o Holocausto não existiu refletem bem o calor dos atritos e a necessidade do Irã de ganhar força junto aos árabes. Estados Unidos e Israel - um enclave do imperialismo no Oriente Médio, constituído no quadro da Segunda Guerra - estão com as armas apontadas para o Irã. Está claro que o cerco dos Estados Unidos e seus aliados ao país persa não é um fato isolado; tem a ver com a necessidade do imperialismo de manter o controle do Oriente Médio.
As eleições de junho de 2009, que reelegeram Ahmadinejad, indicaram a evolução da cisão no interior da República Islâmica e a via por onde o governo Obama pretende penetrar com sua "nova" política internacional. A contestação da lisura do pleito pelo candidato opositor, Mir Hossein Mousavi, um protegido de Rafsanjani, que vem ganhando força no "Conselho de Discernimento" (outro organismo de poder do Estado teocrático), expôs a dimensão das fraturas do regime.
As manifestações de rua contra a fraude, a repressão, mortos e milhares de presos indicaram o curso da crise política. Ahmadinejad acusou a interferência externa. Obama procurou se manter à distância para não ser acusado e prejudicar suas manobras diplomáticas. Certamente, não é preciso identificar a CIA e os dólares para se comprovar a ação imperialista de apoio à oposição. As pressões internacionais sobre o governo dos nacionalistas bastam para se ter a noção do intervencionismo. Mousavi contou com o apoio dos Estados Unidos.
As massas que se manifestaram pelo voto e depois nas ruas são arrastadas pelas duas variantes da política burguesa e da cisão na burocracia do clero islâmico. Não era do interesse de uma parcela dos partidários de Ahmadinejad que a repressão extrapolasse com mortes, prisões de autoridades e torturas. Ocorre que a crise é impulsionada por forças centrífugas, de forma que a Guarda Revolucionária ganhou autonomia e agiu desenfreadamente.
A política de distensão e de mãos estendidas de Obama objetiva fortalecer a fração liberalizante que, apesar de não homogênea, permitirá a penetração das exigências do imperialismo de abertura às multinacionais e controle da produção da energia nuclear. A questão nuclear ocupa o centro da ofensiva dos Estados Unidos contra o Irã, mas não se esgota em si. O imperialismo pretende reduzir ao máximo a influência do Irã no Oriente Médio, discipliná-lo e colocá-lo sob suas ordens. É o que se passou com o Iraque. O nacionalismo de Saddam Hussein se tornou inaceitável e não porque era uma ditadura, como se propagandeou. Nenhum país semicolonial pode se arvorar independente das diretrizes das potências e dos negócios das multinacionais.
Em julho, Obama fez uma peregrinação pela Europa e o Oriente Médio para divulgar a nova face dos Estados Unidos. Reuniu-se com o presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, para tratar do armamento nuclear, regido pelo acordo Start I, de 1991, que terminará em fins deste ano. Foi lançada a bandeira de novo pacto, que prevê redução de uma centena de ogivas. Obama se apresentou como arauto da paz e do desarmamento nuclear. Na realidade, não muda o essencial, que é o armamento altamente destrutivo. O novo pacto serviu de máscara para a Rússia permitir o uso de seu território pelos Estados Unidos, para viabilizar a ocupação do Afeganistão.
Em 1979, a União Soviética invadiu o Afeganistão. Estados Unidos, Paquistão e Irã apoiaram a resistência dos mujahedins, que derrotaram os ocupantes russos em 1989. A burocracia herdeira do estalinismo, com a guerra no Afeganistão, atingia o ponto alto de sua decomposição. Agora, a Rússia, em avançado estado de restauração capitalista, facilita a ocupação norte-americana do Afeganistão. A Rússia tem interesses econômicos e geo-estratégicos com o Irã. Obama a leva em seus cálculos. Age no sentido de neutralizar seu apoio a Teerã.
Obama fez com que a reunião do G-8, no início de julho, aprovasse um comunicado exortando o governo iraniano a aceitar a boa vontade dos Estados Unidos em abrir canais diplomáticos para a questão nuclear. Na verdade, a moção é uma ameaça. A Secretária de Estado, Hillary Clinton, em seguida, deu o tom daquilo que os Estados Unidos pretendem: "O Irã não tem o direito de desenvolver tecnologia nuclear para fins militares e nós estamos determinados a impedi-lo de fazer isso, mas esse país tem o direito à energia para fins civis" (O Estado de S.Paulo, 16 de julho). O vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, incentivou Israel a atacar as instalações nucleares do Irã, com o argumento de que se trata de uma "ameaça existencial" (O Estado de S.Paulo, 7 de julho).
Ocorre que a noção e o sentido de direito a que se refere Hillary Clinton são ditados pelo imperialismo. As duas grandes guerras e a mortífera máquina militar são criações do capitalismo da época monopolista. A maior demonstração de barbárie foi o teste com a bomba atômica despejada sobre Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945, quando o Japão já estava praticamente derrotado. As potências se armaram com ogivas e criaram as condições para que algumas nações atrasadas tivessem a bomba atômica, como Índia, Afeganistão e Coreia do Norte. No Oriente Médio, Israel é um poder nuclear graças às potências. Constitui um perigo para a região, por expressar o domínio imperialista.
No início do século XX, a Pérsia (que em 1935 passou a se chamar Irã) semicolonial enfrentou o recrudescimento das disputas interimperialistas, voltadas a controlar seu território. A Inglaterra mantinha a Índia como colônia e forçava passagens pela fronteira ao sul da Pérsia. A Rússia, ao norte, procurava avançar seu império na Ásia Central. Um povo que protagonizou uma das mais extraordinárias epopeias históricas, desde a fundação do Império Persa em 539 a.C., responsável por avançada cultura desde a Antiguidade, chega ao século XX submetido à Europa de capitalismo avançado e imperialista.
As potências se lançaram a sufocar o movimento revolucionário democrático, liderado por setores da burguesia urbana contra a velha dinastia dos Qadjar, que conservava relações de produção feudal. Em 1906, conquista-se uma Constituição, que mantém o poder do xá e institui uma Assembleia a ser eleita. O clero islâmico comparece como guardião. Ao não mudar as relações feudais e o poder dos latifundiários, o movimento burguês constitucionalista concluiu inócuo.
Lênin assinalou a importância da revolução de 1905 na Rússia para o movimento democrático antifeudal e antimonárquico, bem como para a independência e autodeterminação dos povos. Em outubro de 1908, resumirá: "Essencialmente, tudo quanto ocorre agora nos Bálcãs, Turquia e Pérsia é uma coalizão contrarrevolucionária das potências europeias contra o ascenso da corrente democrática na Ásia". (Los acontecimientos de los Balcanes y Persia, Obras Completas, tomo XV, p. 239).
Em 1907, realiza-se a Convenção Anglo-Russa de divisão da área de influência ao sul e ao norte da Pérsia. Em 1914, Winston Churchill impõe aos persas a autorização para os ingleses explorarem o petróleo. A Pérsia passa a ter um papel ainda mais importante para o imperialismo. As disputas entre Inglaterra e Alemanha se acirram. Precipita-se a Primeira Guerra Mundial por uma nova divisão do mundo. A Inglaterra passa a dominar mais amplamente a Pérsia e usa seu poder para evitar o avanço da Revolução Russa de 1917.
A guerra pôs fim ao Império Otomano. E permitiu que a Inglaterra e a França retalhassem o Oriente Médio de acordo com seus interesses. Novos Estados foram edificados de acordo com os interesses da Inglaterra e da França. O Irã asiático também receberia o impacto desses acontecimentos. Ao norte, foi ocupado pelas forças britânicas, que usou o território para obter em posição de força o armistício com os turcos.
A dinastia Qadjar estava esgotada, havia necessidade de as forças produtivas capitalistas dominarem. Em 1921, Reza Khan a derrubou por meio de um golpe militar e estabeleceu a dinastia Pahlevi. Assim, rasgou a Constituição de 1906, reduziu a influência do clero e disciplinou os chefes tribais. Contra a nova dinastia, durante 30 anos, desenvolveu-se uma oposição nacionalista, numa espécie de frente ampla, composta por setores da burguesia urbana, da pequena burguesia e do clero.
Em 1951, Mohammad Mosaddeq, liderando a Frente Nacional, chega ao poder, tornando-se primeiro-ministro. A ascensão dessa figura nacionalista se deu devido às mudanças sofridas pelo Irã, ocupado na Segunda Guerra pela Inglaterra e pela União Soviética. O xá aproximou-se do nazismo e foi forçado a abandonar o poder, passando-o para o filho Mohammad Reza. A dinastia enfraquecida se tornou suscetível a manifestações populares e permitiu a mudança política sem que houvesse uma revolução.
O governo Mosaddeq lançou um conjunto de reformas democratizantes (na política, na agricultura, na educação, nas forças armadas). Estabeleceu equidistância do imperialismo. Reviu o contrato de concessão de prospecção do petróleo de 1933 e nacionalizou as reservas e instalações petrolíferas. Mahammad Reza, apoiado pelas potências, tentou um golpe em agosto de 1953, fracassou e fugiu do país.
A Inglaterra havia perdido terreno na região e os Estados Unidos avançavam hegemonicamente, promovendo a Guerra Fria. O Irã não podia inclinar para posições que favorecessem a União Soviética. O petróleo se tornou a principal fonte de energia. O governo norte-americano organizou a derrubada do governo nacionalista de Mosaddeq, que caiu, vítima de um golpe militar, em 19 de agosto de 1953, supervisionado pela CIA. Restabeleciam-se os tentáculos da dominação interna do imperialismo.
Instruído pelo amo, a ditadura de Reza Pahlevi inicia uma reforma agrária, põe em ação um plano de industrialização, faz algumas concessões, como voto para as mulheres, e adota uma linha laicizante. Mas ainda no início dos anos 1960 a oposição retoma as atividades políticas, apoiando-se no descontentamento das massas. Assim, a Revolução Islâmica de 1979 foi o elo final dos combates reiniciados em 1963, sob sangrenta repressão. "Nos anos 1973, 1974 e 1975, calcula-se que houve por volta de 300 execuções; o número de presos políticos cresceu enormemente, até alcançar dezenas de milhares" (Irán, un eslabón débil del equilibrio mundial, p. 28). O governo autocrático, preposto dos Estados Unidos, não tinha como sobreviver senão à base da violência reacionária.
Com a valorização do petróleo, a economia atrasada do Irã foi impulsionada. Avançou na industrialização, estruturou o setor de serviços e melhorou o uso da terra. Mas não deixou de depender da exportação do petróleo. Destaca-se o fato de o Irã se tornar um comprador de armas dos Estados Unidos.
A indústria militar e o comércio de armas ganharam gigantesca dimensão no pós-guerra, sob a hegemonia dos Estados Unidos e o monopólio de suas multinacionais. O Irã, com seus recursos petrolíferos, não poderia ficar à margem desse comércio. Sob o argumento do poderio soviético, os Estados Unidos descarregaram no país armamentos cada vez mais sofisticados. "Em 1966, foi autorizado o primeiro envio de armas tecnologicamente avançadas, os F-4 Phantom, dois anos antes que esses mesmos aviões fossem proporcionados a Israel". (...) "A aparição do Irã como potência militar importante foi confirmada com publicidade em junho de 1973, ao ser anunciada a compra de armamento - a maior parte dos EUA - pela soma de 3 bilhões de dólares, uma fábula na época" (Irã, un eslabón débil del equilibrio mundial, p. 90).
O Irã comandado por Reza Pahlevi se destacou na doutrina de Henry Kissinger e do governo Nixon de criar pontos estratégicos armados em todo o globo, sob o controle dos Estados Unidos. O conflito entre os países árabes e Israel fez parte dessa estratégia. "O aumento das exportações de armamento norte-americano começa em 1972, sobretudo em razão da guerra árabe-israelense de 1973 e da alta do preço do petróleo" (Irã, um eslabón débil del equilibrio mundial, p. 94). Estava liberada por Richard Nixon a venda de todo tipo de armamento convencional à ditadura Pahlevi. Com as armas, vieram os assessores militares, etc.
A síntese dos principais acontecimentos e elos internos e externos que marcam a história moderna do Irã evidenciou a impossibilidade de uma revolução democrática burguesa que arrancasse o país do atraso econômico-social e da condição semicolonial. O movimento revolucionário do início do século XX se esgotou com a Constituição de 1906. O golpe de 1921 não fez senão conservar o regime dinástico. O governo nacionalista de 1951 não foi capaz de realizar a revolução agrária e liquidar a estrutura do regime monárquico. A restauração da dinastia dos Pahlevi fez uma caricatura de reforma agrária e política. E a Revolução Islâmica estabeleceu um regime semelhante ao da Constituição de 1906. A burguesia iraniana retardatária mostrou-se débil para encabeçar um movimento revolucionário. O Irã esteve e está à mercê das potências. Na divisão mundial capitalista, mantém a posição de semicolônia, exportadora de matéria-prima e importadora de manufatura.
Lênin defendeu o movimento democrático das massas persas contra a monarquia, os latifundiários e os chefes feudais. Convocou os socialistas a defenderem a autodeterminação das nações oprimidas. Chamou o proletariado russo a combater o czarismo sanguinário e imperial. E formulou a seguinte estratégia histórica: "Somente a revolução mundial do proletariado pode derrotar a força unida dos bandidos coroados e do capital internacional. A tarefa candente de todos os partidos socialistas é intensificar a agitação entre as massas, desmascarar o jogo dos diplomatas de todos os países e mostrar com inteira evidência distintos acontecimentos que provam o vil papel de todas as potências aliadas, de todas por igual, tanto daquelas que cumprem diretamente o papel de gendarme como aquelas que são cúmplices, amigas e financistas do gendarme" (Los acontecimientos de los Balcanes y Persia, Obras completas, p. 239).
A revolução proletária na Rússia mostrou o caminho. As tarefas democráticas do país semifeudal e atrasado foram assumidas pela revolução socialista. Também poria fim à opressão nacional, típica do capitalismo colonialista e imperialista. A República Soviética pôs fim imediato ao expansionismo do czarismo, eliminando o domínio no norte da Pérsia. A degenerescência do poder soviético por Stálin recolocou a opressão nacional, fenômeno que se manifestou com o bloqueio da revolução mundial.
O movimento democrático persa esbarrou no domínio das potências, que necessitam das semicolônias para continuar a acumulação do capital. O nacionalismo iraniano não teve melhor sorte e não terá com a República Islâmica.
A formulação estratégica de Lênin, antes mesmo da Revolução Russa, de que "somente a revolução mundial do proletariado pode derrotar a força unida dos bandidos coroados e do capital internacional", mostrou-se historicamente correta. A desintegração da ex-União Soviética e a restauração capitalista não a retificam. Pelo contrário, demonstram que o capitalismo em decomposição caminha para catástrofes. As guerras no Iraque e no Afeganistão, as ameaças de intervenção no Irã e na Coreia do Norte, a ofensiva de Israel contra o Líbano e a Palestina, o conflito da Índia com o Paquistão e a necessidade dos Estados Unidos de ampliarem suas bases militares no mundo, inclusive nas fronteiras da Rússia, indicam o crescimento das tendências bélicas do imperialismo.
O Irã terá de se sujeitar à diplomacia de Obama, cuja exigência é a mesma de Bush, ou enfrentará a máquina de guerra dos Estados Unidos, de Israel, Inglaterra e França. Um ultimato foi dado pelo G-8. Sob a fala mansa de Obama, abrigam-se as armas mortíferas do Pentágono. Os Estados Unidos reorientaram sua política mundial, desgastada pela belicosidade de Bush. Procuram refazer as alianças e criar as condições políticas para o intervencionismo no Irã.
Os trabalhadores do mundo inteiro estão chamados a defender o direito do Irã de controlar a energia nuclear e a bomba, frente ao ultimato e às ameaças militares do imperialismo. Estão chamados a combater pela autodeterminação dos povos semicoloniais e oprimidos. Estão chamados a apoiar a luta do proletariado e demais explorados a se libertarem da República Islâmica e do obscurantismo clerical.
O Irã não poderá dar um passo de enfrentamento com o imperialismo sem que seja por meio da revolução proletária. Terá de expropriar a burguesia iraniana e transformar a propriedade privada dos meios de produção em propriedade social (socialista), por meio de um governo operário e camponês. Assim realizará as tarefas democráticas pendentes, entre elas a revolução agrária, o fim da opressão sobre as mulheres e a independência nacional.
A luta pela autodeterminação do Irã se estende às nações oprimidas do Oriente Médio, particularmente à Palestina. Em nenhum caso haverá solução sem que seja pela via do socialismo. Em quaisquer pontos da luta na região se coloca a estratégia histórica dos Estados Socialistas do Oriente Médio, para a qual tem importância o combate anti-imperialista e anticapitalista no Irã asiático.
As divisões e os conflitos são decorrências do capitalismo e dos interesses particulares da burguesia. As massas oprimidas, ao contrário, não só têm a perder com as disputas interburguesas. Terão de se unir em torno do partido revolucionário, a ser construído.
A defesa do direito do Irã de dominar a tecnologia militar atômica não significa defender o armamento da burguesia. Trata-se da necessidade de as nações oprimidas se defenderem perante o poderio das potências. A burguesia será desarmada pela revolução social. A derrocada mundial da classe capitalista e a constituição da sociedade comunista porão fim à indústria bélica. Não havendo a necessidade econômica de uma nação oprimir outra, não haverá necessidade de nenhum tipo de arma. A verdadeira paz mundial se alcançará pelas revoluções socialistas. É condição para isso defender o Irã da ameaça militar dos Estados Unidos e seus aliados.

Erson Martins de Oliveira é professor do Departamento de Arte da PUC-SP;

Sérgio Augusto Brunetto é professor de história da Rede Estadual de São Paulo.

Referências bibliográficas

BENZ, Wolfgang e GRAML, Hermann. História Universal: problemas mundiales entre los dos bloques de poder. Siglo XXI. México: Siglo Veintiuno Editores, 1982.
___________________. La época del imperialismo: Europa 1885-1918. México: Siglo Veintiuno Editores, 1975.
BEHRANG. Iran: um eslabón débil del equilibrio mundial. México: Siglo Veintiuno Editores, 1980.
LENIN, V.I. Obras completas. Madri: Akal Editor, 1977.
MASSOULIÉ, François. Os conflitos do Oriente Médio: século XX. São Paulo: Editora Ática, 1994.

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