O imperialismo e a guerra
Rui Costa Pimenta
As declarações dos analistas da imprensa burguesa especializada em economia indicam que a capacidade dos bancos centrais de conter a inflação e permitir que a economia se desenvolva com a liberação de crédito acessível ao mercado parece ter se esgotado.
A onda inflacionária desencadeada pelo aumento dos preços dos alimentos e pela disparada do preço do barril de petróleo - que já chegou a mais de 140 dólares e caminha em tendência de alta contínua - levantou a preocupação entre os investidores e especuladores das bolsas de valores dos principais países do mundo. Alguns analistas calculam que o preço do barril caminha para os 200 dólares. Que contraste com os dois dólares de 1972!
Para compreender a situação atual e permitir estabelecer as linhas que podem conduzir seu desenvolvimento daqui para a frente, é necessário fazer uma retrospectiva e estabelecer um ponto de partida para a crise.
Como a crise se desenvolveu até agora
O mecanismo complexo que vem conduzindo o desenvolvimento dessa crise até aqui tem como base a crise histórica do capitalismo que veio à tona na década de 1970 após um período - excepcional e inesperado - de crescimento econômico mundial nas décadas de 1940, 1950 e 1960. Os esforços dos países imperialistas para contornar a crise, que criaram a ilusão, nos anos 1990, de que a economia capitalista havia encontrado uma via de saída para a crise, mostram-se agora apenas e tão somente como causa do debilitamento do imperialismo e do agravamento da crise que retoma, a partir dos acontecimentos do segundo semestre de 2007, seu curso natural.
A escassez das reservas de petróleo da principal economia do mundo - os Estados Unidos - é um extraordinário sintoma de uma crise que é, ao mesmo tempo, econômica e política. A incapacidade de atender à demanda futura, detectada em fins da década de 1990 e início da década atual, levou à invasão do Iraque em 2003 com o objetivo explícito de controlar as reservas do país, um dos mais ricos em petróleo no mundo.
A tentativa de controlar militarmente o país e, com isso, exercer uma pressão sobre os demais países do Oriente Médio e procurar desequilibrar a balança em favor da sustentação da economia norte-americana provou-se um fracasso. Cinco anos depois da invasão, o governo norte-americano se encontra às voltas com um verdadeiro impasse, que vem se arrastando desde poucos meses após o início da invasão.
Aqui, pode-se verificar a linha de continuidade da crise justamente neste ponto nodal da crise atual. A invasão do Iraque é a continuidade da crise que levou à Revolução no Irã em 1979 que, por sua vez, levou à invasão russa no Afeganistão o que, por sua vez, levou ao enfrentamento entre o imperialismo e a burocracia russa, redundando no colapso da URSS em 1991.
As incertezas geradas pela incapacidade de dominar o Iraque enfraqueceram as expectativas do mercado de que o imperialismo norte-americano tenha a capacidade de suprir a demanda por petróleo. Essa desconfiança - fundamentada, diga-se de passagem, no fracasso militar e no verdadeiro atoleiro em que se transformou o Iraque - é reforçada ainda pelas tendências convulsivas no desenvolvimento e na expansão da crise para os demais países do Oriente Médio e de regiões próximas como o Sul da Ásia. Entre a invasão do Afeganistão e do Iraque e os dias atuais já se passaram inúmeras crises de características nitidamente revolucionárias em praticamente todos os países que formam um corredor de Israel, no Mar Mediterrâneo, à China, no extremo oriente. A expectativa de que os Estados Unidos consigam manter os compromissos no mercado de futuros diminui rapidamente. Se o imperialismo norte-americano não teve capacidade de controlar de forma direta um único país - apesar de ter sido necessário fazê-lo -, para conseguir dominar sua produção de petróleo, o que se pode esperar da tentativa de impor essa dominação a muitos outros, cada um com suas próprias contradições?
Por mais que a imprensa burguesa tente ocultar ou distorcer essa realidade, é cada vez mais evidente o enorme grau de decomposição das forças do imperialismo norte-americano, coração do imperialismo mundial.
A crise política, ainda latente em terras norte-americanas, vem se desenvolvendo em outras partes do mundo. Assim como a economia norte-americana é a mais importante do planeta, fazendo girar à sua volta e em função da sua manutenção as economias de praticamente todos os países, os Estados Unidos são o centro da crise política mundial. Cada pequeno avanço na crise do regime político norte-americano se desdobra em uma catástrofe social, como se uma pequena oscilação na base de sustentação econômica e política fizesse estremecer os países atrelados ao imperialismo, abalando seus principais aliados no Oriente Médio, na Ásia e na América Latina.
Os senhores da guerra
Existe uma política internacional do imperialismo para aproveitar a situação atual e fazer um investimento muito grande para liquidar as forças opositoras armadas em todos os lugares do mundo antes que a situação mundial mude completamente. O imperialismo sabe que essas forças, em um momento de crise, podem controlar um país completamente, como se vê muito claramente hoje no caso do Nepal. Trata-se de uma política de extermínio das FARC, do ETA, do Talibã, da Al-Qaeda, do Hezbollah, etc.
Houve um momento em que a política do imperialismo era incorporar as guerrilhas ao regime político burguês "democrático", uma vez que estava completamente na defensiva. Agora os Estados Unidos não querem mais essa solução, por um lado porque a crise se agravou demais, e, por outro, porque considera que a situação de momento permite uma política de extermínio da guerrilha. O imperialismo armou o governo dos paramilitares colombianos para eliminar fisicamente os guerrilheiros.
A incorporação desses grupos aos regimes políticos não vai ocorrer por conta da evolução da situação política. Uma FARC legal seria aliada dos regimes de Hugo Chávez, Rafael Correa, Evo Morales, Daniel Ortega, Fidel Castro - o bloco nacionalista na América Latina. Com isso, metade da Colômbia estaria alinhada a esse bloco e o imperialismo não pretende permitir isso.
Um estudo divulgado pelo Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (Sipri, na sigla em inglês) revelou que os gastos militares em todo o mundo aumentaram 45% nos últimos dez anos. Estados Unidos, Rússia e China estão no topo da lista dos países que mais compraram armas - o investimento bélico continua em expansão. Somente entre 2006 e 2007 o aumento dos orçamentos militares desses países foi de cerca de 6%.
Segundo o estudo, as guerras do Iraque e do Afeganistão, além do investimento militar da Rússia e da China (após considerável crescimento econômico) são os principais fatores para o aumento dos gastos militares entre 1998 e 2007. Outra razão levantada seria a quantidade de forças de segurança espalhadas em todo o mundo: foram realizadas 61 operações em 2007, o maior número desde 1999.
Um outro dado mostra que o período de menor gasto militar ocorreu entre 1988 e 1997, após o fim da Guerra Fria e da União Soviética que, sozinha, foi responsável por reduzir cerca de um terço dos gastos militares no mundo.
Em 2007, os gastos globais com equipamento bélico foram de US$ 1.339 trilhão, ou seja, US$ 202 por cada habitante do planeta Terra, segundo informou o Sipri.
Os Estados Unidos são, de longe, os maiores investidores (e fornecedores) da indústria bélica e, portanto, fomentadores da guerra. O ano de 2007 atingiu recorde como o maior gasto militar desde a Segunda Guerra Mundial. Desde os atentados de 11 de setembro, o Pentágono aumentou seu orçamento em 59% em relação a 2001. Só as guerras do Iraque e do Afeganistão já custaram à classe operária norte-americana mais de US$ 3 trilhões, o que esvaziou os cofres públicos e é hoje um dos elementos centrais para a recessão econômica no País. Os Estados Unidos representam 45% dos gastos militares mundiais!
O estudo do Sipri mostrou que entre 2002 e 2007 houve um aumento de 7% das exportações de armas, seja por meio de vendas, convênios ou acordos de cooperação. Estados Unidos, Rússia, França, Reino Unido e Alemanha representam juntos 80% das transações. Entre os maiores compradores no período 2003-2007 estão Coréia do Sul, China, Turquia, Grécia, Índia, Israel, Arábia Saudita e África do Sul. Na América do Sul, os maiores compradores nesse período foram o Chile e a Venezuela. O Brasil é o 12º maior investidor militar do mundo.
A América Latina é o Oriente Médio amanhã
Uma movimentação particularmente significativa do governo brasileiro chamou a atenção. O governo enviou ao Congresso seu plano de orçamento com um aumento de quase quatro vezes nos gastos militares - um gasto maior do que o de todas as áreas sociais juntas.
O governo Lula está realizando o maior plano de investimentos militares desde os tempos da ditadura militar.
No mesmo momento em que o governo lançava seu orçamento, José Sarney, ex-presidente da República e senador do PMDB, homem de confiança dos comandos militares, lançava em discurso a necessidade de o Brasil se armar, pois não deveria aceitar, segundo ele, que a Venezuela se arme e se torne uma ameaça. A ameaça, no entanto, não é a Venezuela, mas as massas oprimidas da América Latina, em particular as do próprio Brasil.
A Venezuela ameaça permanentemente a formação de um cartel latino-americano dos hidrocarburetos, uma Opep latino-americana que só não se formou ainda porque o Brasil se opõe a esse projeto. Essa alternativa, se fosse levada adiante de forma conseqüente - o que está fora do alcance do nacionalismo burguês -, seria um grande golpe contra o imperialismo norte-americano.
O Brasil, em uma guerra com a Venezuela, cumpriria o mesmo papel que cumpre no Haiti: um exército de reserva para o imperialismo, um instrumento da dominação imperialista sobre todos os países atrasados, inclusive o próprio Brasil.
O ataque colombiano no Equador contra um acampamento das FARC foi um avanço do imperialismo no sentido de transformar a América Latina em um Oriente Médio onde, em nome da luta contra o terrorismo, em pouco tempo, pode-se chegar a atacar e violar as fronteiras de qualquer país na caça a supostos terroristas - até mesmo o Brasil. Já foi apresentada pelos Estados Unidos uma proposta no sentido de que a luta antiterrorista não pode respeitar as fronteiras nacionais.
A crise consiste, no entanto, em que a ofensiva norte-americana enfrentou um bloqueio. Existe uma situação objetiva que não permite o desenvolvimento dessa tendência. A crise e a reação dos governos à crise expuseram o limite.
A crise nos países andinos é a expressão aguda de uma crise potencial de toda a América do Sul. O conflito entre as burguesias dos países andinos reflete as tendências revolucionárias das massas sul-americanas em seu conjunto contra o imperialismo.
Esta é uma etapa do desenvolvimento da luta de classes no subcontinente. A crise revela ainda as profundas limitações da política do nacionalismo burguês de Chávez, Morales e Correa. Visivelmente, o novo surto de nacionalismo burguês não está à altura das contradições que estão se expressando na situação política nem tem as mesmas possibilidades de desenvolvimento estável que teve no passado devido à envergadura da crise capitalista.
A questão não se reduz a um conflito entre os países latino-americanos, mas entre as massas e a política do imperialismo para a América Latina.
É o mesmo que aconteceu entre Irã e Iraque. Após a revolução iraniana em 1979, os Estados Unidos começaram com a campanha contra o governo iraniano, acusando-o de fanatismo e de ser uma ditadura. Em seguida, os Estados Unidos usaram a ditadura "laica" de Saddam Hussein - até certo ponto de fachada "socialista", por ser dirigida pelo partido Baath, nacionalista burguês que se afirmava ele mesmo socialista. O nacionalismo burguês laico em declínio foi usado pelo imperialismo contra o nacionalismo religioso em ascensão.
A ingerência do imperialismo na América Latina também está sendo aprofundada por meio da reativação da IV Frota da Marinha norte-americana na América do Sul. Após 58 anos, a IV Frota voltará a patrulhar os mares latino-americanos. São 15,6 milhões de milhas quadradas nas águas que vão desde a América Central até o Sul, além do México e dos territórios europeus do lado Atlântico.
A frota é composta por 10 porta-aviões, 90 aviões de guerra e dois reatores nucleares. Esta faz parte de um conjunto formado com as frotas II, III, V, VI e VII, espalhadas pelos oceanos de todo o mundo.
A IV Frota, criada para combater os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, foi desativada em 1950, mas o aprofundamento da crise levou os Estados Unidos a reativá-la em julho deste ano.
A Frota responderá ao Comando Sul, sediado em Miami, responsável por controlar todas as operações militares na América Latina.
Além disso, para reforçar o controle sobre a região, analistas de assuntos militares afirmam que o Comando Sul está instalado na Tríplice Fronteira - entre Argentina, Brasil e Paraguai -, onde os Estados Unidos apontam a existência de atividades do Hezbollah no comércio ilegal de mercadorias.
Próximo alvo: a Europa
No ano em que a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) faz seu 59º aniversário, um encontro realizado em Bucareste, na Romênia, aprovou a instalação de escudos antimísseis na República Tcheca e na Polônia (pacto Washington-Praga-Varsóvia), proposta dos Estados Unidos para constituir um enclave militar no Leste Europeu sob a falsa alegação de que o projeto visa impedir ataques de mísseis balísticos de países como o Irã e a Síria.
As resoluções aprovadas em Bucareste mostram a culminação de uma crise sem precedentes que vem se arrastando desde o fim da União Soviética. Os Estados Unidos estão tentando moldar a Otan às necessidades da "guerra contra o terrorismo".
Desde o fim da Guerra Fria, os Estados Unidos vieram pouco a pouco se estabelecendo no Leste Europeu através do incentivo à completa divisão da região. Esse incentivo, diga-se de passagem, significa guerras sangrentas, massacres e os mais variados crimes de Estado contra as nações.
Na região dos Bálcãs, a independência unilateral de Kosovo significou mais uma tentativa do imperialismo de garantir sua presença e influência política no Leste Europeu e em todos os ex-blocos soviéticos.
Enquanto a crise do imperialismo norte-americano se desenvolve em seu próprio terreno, os elos mantidos com os países europeus mais desenvolvidos arrastam esses países para o centro da crise.
Um dos casos mais críticos na Europa é o da Turquia, marcando o limite do continente europeu com o Oriente Médio. A intervenção militar da Turquia no Iraque, a serviço dos Estados Unidos, levou a uma crise no país. A crise com os curdos, uma etnia sem Estado, espalhada entre o Sudeste turco, o Norte do Iraque, Irã, Síria, Armênia e Azerbaijão, liga ainda mais estreitamente a crise européia com a do Oriente Médio.
O atoleiro do imperialismo
O Iraque transformou-se no eixo principal da crise econômica do imperialismo, que não tem condições de sustentar o conflito por mais tempo e cuja derrota pode ter conseqüências tão ou mais graves ainda. A invasão do Afeganistão e do Iraque terminou por desestabilizar toda a região.
O Irã também vem sendo alvo de todo tipo de acusações caluniosas por parte do imperialismo para abandonar seu programa de enriquecimento de urânio. Inspetores da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) já conferiram as usinas iranianas e confirmaram que o projeto visa somente a produção de energia.
A campanha liderada pelo imperialismo norte-americano é uma repetição da velha estratégia para uma eventual invasão militar. Antes de ser invadido e ocupado, o Iraque também foi acusado de possuir armas de destruição em massa, teoria que até mesmo o Pentágono foi obrigado a admitir posteriormente ser infundada.
No campo econômico, nos últimos 20 anos, aproximadamente, a China se converteu em uma das principais fontes de financiamento da política econômica do imperialismo norte-americano. Para se livrar de uma parcela da produção industrial que se tornou muito pouco lucrativa quando realizada nos Estados Unidos, onde a mão-de-obra é mais bem-remunerada, os acordos estabelecidos ao longo dos anos deram à China a vantagem na produção e montagem de uma série de produtos industrializados, vendidos de volta aos Estados Unidos por um preço muito menor.
O dinheiro deslocado para a China com a repetição dessa operação ao longo dos anos traz agora uma situação em que o país, predominantemente agrário, se encontra sob a pressão das contradições entre o desenvolvimento capitalista de uma parte da sua economia, impulsionado principalmente pelos Estados Unidos, e a existência de uma população enorme vivendo com pouquíssimos recursos industriais. A crise com o Tibete, ainda em marcha, é uma expressão dessa contradição. A região não recebeu nem mesmo uma fração da riqueza que entrou no país e ficou concentrada nos centros urbanos e em uma parcela ultraminoritária da população.
A crise chinesa se liga ainda à da Índia que, embora não tenha se desenvolvido abertamente, vem se acumulado e tende a se equilibrar através de explosões periféricas, como o conflito com o Paquistão na região da Caxemira, com a própria Índia sobre a fronteira exata com o Nepal.
A crise mundial do imperialismo abre de par em par as portas para revolução proletária. Em todos os países em que a cobertura democrática da ditadura exercida pelo capital financeiro internacional começa a se romper coloca-se como questão fundamental o problema da direção do proletariado. A internacionalização da economia, o estreitamento das relações entre os monopólios capitalistas não deixam dúvidas das características socialistas gestadas na época do capitalismo imperialista em crise.
Na época da invasão russa no Afeganistão, em 1979, um alto diplomata norte-americano justificou a política do seu governo de desestabilização da URSS, a contragosto e para espanto da burocracia stalinista, com a metáfora de que a crise mundial assemelhava-se a uma corrida em uma montanha-russa, sem qualquer trocadilho em inglês. Hoje, a velocidade dessa montanha-russa é infinitamente maior e a corrida, ainda mais vertiginosa.
Rui Costa Pimenta, jornalista, é editor do jornal Causa Operária e presidente nacional do PCO
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