Como a crise mundial reflete na Argentina?Aprofundam-se os traços de atraso e submissão colonial
Ramon Basko
O Governo, seus ministros, os economistas e os jornalistas amigos afirmavam que a Argentina não sofreria os efeitos da crise mundial; que o elevado superávit comercial e fiscal, o nível de reservas, o crescimento da economia e outros indicadores asseguravam que, desta vez, a Argentina ficaria resguardada. Mas, pelo contrário, todas as fraquezas da economia argentina ficaram potencializadas com esta nova crise, em todos os terrenos.
Dívida externa
Apesar da negociação realizada da dívida em default e do pagamento à vista de toda a dívida com o FMI, a dívida externa continua sendo hoje um dos principais problemas. O Governo faz um enorme esforço para conseguir superávits fiscais que lhe permitam acumular dinheiro para pagar os vencimentos da dívida, deixando de atender demandas populares urgentes. Contudo, o dinheiro não dá. O Governo deve sair ao mercado financeiro internacional para pedir dinheiro emprestado para cumprir com seus compromissos, incrementando, assim, a dívida. O único auxílio internacional chega da Venezuela e não é barato. Na última negociação com o Governo da Venezuela por um bilhão, a taxa de juros chegou até quase 15% ao ano- uma taxa extraordinariamente alta. Em 2009 vencem US$ 20.200 milhões dessa dívida e o Governo sai para pedir empréstimos desde agora para mostrar aos capitalistas que terão com que pagá-los. A pressão do capital financeiro aumentando o chamado "risco país" e dizendo que a Argentina não poderá pagar os vencimentos do próximo ano, entrando em default novamente, age como uma grande chantagem para tirar mais benefícios com a especulação e impor mais e mais condições colonialistas sobre a Nação.
Os empresários continuam tirando divisas do país
No último ano, saíram mais de US$ 20 bilhões por conceitos diversos. As multinacionais transferem para suas casas matrizes o máximo possível de utilidades, mostrando pouca disposição para reinvestir seus ganhos no país, mostrando as limitações do chamado "modelo produtivo" que impulsiona o Governo. No primeiro semestre do ano, tiveram um lucro de US$ 1.502 milhões.
O aumento dos preços internacionais dos produtos primários que a Argentina produz, especialmente a soja, entusiasmou o Governo, porque permitia a entrada de um grande caudal de divisas e, mediante a cobrança de retenções (direito às exportações), podia assegurar os recursos para pagar a dívida externa e manter o pagamento de subsídios multimilionários a grandes capitalistas. Essa ajuda foi como uma corda no pescoço para o Governo, uma vez que os grandes produtores agropecuários e exportadores iniciaram uma grande luta para reduzir a magnitude das retenções às exportações, de mais de três meses, o que terminou com uma derrota do Governo, limitado em suas aspirações de incrementar os recursos.
O notável aumento dos preços no mercado mundial, resultado de uma maior demanda, a utilização de parte da produção para a elaboração de biodiesel, e um componente de especulação, favoreceu o incremento dos preços no mercado interno, gerando mais inflação. Os produtores pretendem ter um preço no mercado local similar ao que conseguem com a exportação. O componente especulativo dos preços internacionais se multiplica pela intervenção dos chamados "fundos de investimento" que tentam se introduzir nesse terreno para obter grandes ganhos em pouco tempo.
O desespero dos capitalistas para não perder a oportunidade de ocupar um espaço no mercado internacional da soja e aproveitar seus bons preços estendeu a fronteira agrícola, substituindo outras produções tradicionais, alterando o equilíbrio ecológico em vastas regiões, utilizando poderosos herbicidas, acabando com florestas, impermeabilizando os solos e criando condições de desertificação. A conclusão é que, nos próximos anos, a Argentina poderia precisar da importação de carne e leite, mesmo tendo sido, até poucos anos atrás, um dos primeiros exportadores desses produtos no mundo. A produção de soja no próximo ano superará os 50 milhões de toneladas, um pouco mais de 50% da produção agrária total. O grande paradoxo é que em um país que produz alimentos para 300 milhões de pessoas, há dezenas de milhares de crianças desnutridas, mal-alimentadas.
A vantagem inicial que o Governo teve com a desvalorização da moeda, que permitiu frear as importações massivas de mercadorias, especialmente vindas da Ásia, acabou. A inflação devorou essa vantagem e hoje a relação peso-dólar é similar àquela existente no plano de convertibilidade (Governo Menem/De la Rua). Já se começa a perceber que a entrada de mercadorias afeta alguns setores da produção, como o têxtil. Esse tema, que no passado recente provocou uma terrível desocupação - a mais elevada que se conhece -, poderia começar a se repetir: as tendências já aparecem. Promove-se uma política francamente protecionista da produção nacional, dando as costas a todas as negociações, que, como a Rodada de Doha, pretendem uma liberação total do comércio mundial, para terminar de afundar as economias dos países atrasados. Não se trata de defender os patrões e suas utilidades; de produtores eles passam rapidamente a ser importadores, deixando os operários na rua. Para nós, trata-se da defesa dos postos de trabalho. A crise mundial empurra a queda dos preços de uma quantidade de bens que pressionam por substituir e destruir as produções locais.
Os capitalistas utilizam o argumento de que não se pode concorrer com os custos de mão-de-obra dos países asiáticos e com sua escala de produção, que lhes permite baratear os processos de produção e inundar de bens todos os mercados, exigindo que os trabalhadores argentinos aceitem mansamente salários miseráveis e as piores condições de exploração.
Desnacionalização da economia
A Argentina havia conseguido o auto-abastecimento de petróleo quando a exploração, a extração, a refinação e a distribuição estavam nas mãos do Estado. A privatização da YPF, em poder da Repsol, provocou um retrocesso considerável nas reservas de petróleo. As petroleiras aspiram impor o preço internacional do petróleo no mercado interno, o que vão conseguindo, embora o custo de sua produção seja bem inferior ao do Oriente Médio, e sem a necessidade de pagar pelo oneroso translado do combustível. A perda da soberania também nesse terreno deixou a economia à mercê das multinacionais, cujo único objetivo é incrementar o máximo possível sua rentabilidade.
O Governo de Kirchner, que pretendia recriar uma burguesia nacional, ficou, mais que antes, à mercê das multinacionais que dominam a economia. Em lugar de promover o desenvolvimento das forças produtivas, reforçou-se o atraso e a submissão da Nação. A Argentina concentra suas exportações em produtos primários, extrativos, o que demonstra sua fraqueza industrial. A vantagem de câmbio não foi aproveitada para melhorar e ampliar a produção, mas para engrossar os lucros dos capitalistas que ganharam como nunca antes.
Ao contrário daquilo que afirmava o Governo, aprofundou-se a desnacionalização da economia. Todos os setores rentáveis da economia estão em mãos estrangeiras, enormes extensões de campo, com lagoas, rios e lagos, foram compradas por empresas do exterior. Testemunhamos, inclusive, uma "invasão" de capitalistas brasileiros que, aproveitando a força de sua moeda, dominam ramos da produção como frigoríficos e indústrias de cimento. A concentração de meios de produção não pára e a pressão aumenta.
A voracidade das multinacionais se traduz em diversas formas de corrupção, orientadas a saquear as arcas nacionais, com escândalos multimilionários, como os denunciados Skanska, da Suécia, Siemens, da Alemanha, IBM, dos Estados Unidos, Aerolineas Argentinas e YPF, por parte da Espanha: manobras de corrupção em grande escala, das quais também participam os Governos das nações imperialistas.
A degradação e a desintegração capitalista chegam ao nível máximo, mostrando seu rosto de barbárie.
A dominação imperialista no terreno econômico se traduz em todos os terrenos. Sob sua direção, impõem-se os exercícios militares conjuntos, a presença ameaçadora da IV Frota, a sanção da chamada Lei Antiterrorista para enfrentar a rebelião dos oprimidos, a presença de tropas argentinas no Haiti, a eliminação da figura jurídica de subversão econômica que se podia aplicar a empresários e diretivos.
Longe de abrir para a burguesia um caminho de libeação para aproveitar a crise atual do imperialismo, o que se provoca é uma maior prostração e submissão ao amo imperial, aceitando suas regras e imposições. A burguesia é uma classe antinacional, condição que não poderá reverter.
Governo de outra classe
É preciso um Governo que, primeiro, se preocupe com as urgentes necessidades populares, utilizando todos os recursos naturais e humanos disponíveis. Mas isso não poderá ser feito por nenhum Governo da burguesia, de nenhum dos seus setores. É necessário um Governo de outra classe, outra classe de Governo. Essas tarefas só poderão ser realizadas por um Governo autenticamente popular, que represente os interesses das maiorias, um Governo operário-camponês, que não seja produto de algum processo eleitoral ou constituinte, mas o produto genuíno de uma revolução social acaudilhada pela classe operária, pela frente única antiimperialista, que liberará definitivamente a Nação oprimida do imperialismo:
- expropriando, sem pagamento, todas as grandes extensões de terras, os portos, os trens, os silos, todos os grandes meios de produção aplicados à exploração agropecuária;
- nacionalizando o comércio exterior e a banca (sem pagamento), e sob controle operário coletivo;
- deixando de pagar e desconhecendo toda a dívida externa;
- expropriando, sem pagamento, todas as multinacionais, recuperando todos os recursos naturais e todas as empresas localizadas em setores estratégicos, reestatizando todas as privatizadas; impedindo o fechamento de fábricas; - decidindo o que se produz e onde, o que se exporta e a quem, protegendo a indústria local perante as importações (não os empresários);
- trazendo de volta as tropas do Haiti, etc
Ramon Basko Membro do Conselho Editorial do jornal Massas
Tradução de John Lionel O'Kuinghttons Rodríguez
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