Protagonista da história recente do sindicalismo - O papel desempenhado pela APROPUC na reconstrução da democracia foi marcante
O segundo presidente da APROPUC, Laurindo Lalo Leal Filho, atualmente trabalha na Escola de Comunicações e Artes (USP). A sua gestão, entre 1978 e 1980, aconteceu em anos marcantes para o movimento social no Brasil. E, sem dúvida, lá estava a associação dos professores puquianos com a sua contribuição histórica para a reconstrução da democracia no País. Grandes greves operárias aconteceram em 78, 79 e 80. Os movimentos dos professores e estudantis caminhavam firmes na sua reorganização. Em seu depoimento, entre muitas outras participações, o professor Lalo destaca a contribuição fundamental dada pela APROPUC na criação da Associação Nacional dos Docentes do Ensino Superior (Andes).
A caminho da democracia
Lalo foi convencido a participar da diretoria como presidente. "A segunda gestão da associação dos docentes da PUC foi contemporânea à gestão da professora Nadir Khouri. Lalo lembra que foi "um momento de transição da PUC, de centralizador, eu diria até autoritário, para um modelo mais democrático. Foi dona Nadir que encabeçou esse processo na Reitoria. Isso representou uma dificuldade porque é muito mais fácil se trabalhar como líder sindical contra um patrão que assume seu papel de patrão do que um professora de princípios democráticos bastante arraigados. Por outro lado, facilitou porque o diálogo foi sempre permanente, as portas sempre estiveram abertas para o nosso trabalho."
Professor também é trabalhador
A APROPUC, desde a sua origem, atuou em várias frentes. Lalo explica, "A entidade sempre teve uma dupla vertente. Uma sindical, de reivindicações salariais, para colocar o salário e outras reivindicações em dia. Foi interessante porque não havia uma tradição do professor universitário de se colocar como trabalhador. O professor universitário em geral se colocava mais como um intelectual. Eles tinham vergonha de fazer reivindicações salariais. O nosso trabalho foi de mobilização para mostrar que tínhamos os mesmos problemas das outras categorias de trabalhadores. Havia uma efervescência política e sindical, tínhamos assembléias numerosas, os professores passaram a se assumir como trabalhadores. Isso resultou até na criação, muito incentivada pela APROPUC, da Andes - que hoje é o sindicato dos professores das universidades públicas federais e estaduais. A USP faz parte. Na PUC se concentrou o movimento de criação da Andes.
De outro lado, a vertente voltada para a melhoria da qualidade da universidade. Nunca nos despreocupamos disso, tínhamos grupos de trabalho que discutiam a qualidade do ensino, a relação sociedade e universidade, o papel da universidade voltada para uma produção dirigida às necessidades sociais. Essas duas vertentes sempre caminharam juntas."
Eleições diretas de reitor a presidente
A participação política da APROPUC, transcendia os limites da PUC e do movimento universitário, expandindo-se para toda a sociedade. O professor nos conta que "foi na gestão de dona Nadir que nós conseguimos ter representação nos Conselhos. Havia um compromisso político dos professores. A PUC acabou sendo um centro de debates de outros setores da sociedade civil. Eu me lembro da nossa participação na famosa greve dos metalúrgicos do ABC, em 1980, onde o Exército ameaçou intervir, havia um grande número de professores da PUC e a APROPUC estavam presentes oficialmente. Participávamos das reuniões do Sindicato dos Metalúrgicos para darmos não só o apoio político, mas até logístico, quando fosse preciso."
O ciclo básico como núcleo central
Lalo vê desta forma o papel do ciclo básico na organização dos professores da PUC. "Foi fundamental. O grande sustentáculo da APROPUC foi o ciclo básico, embora tivéssemos na diretoria, e sempre fizemos questão disso, professores do pós-graduação, da Faculdade de Direito, de Economia, que não tinham vínculo com o ciclo básico. O ciclo básico foi uma das experiências mais frutíferas do ponto de vista do debate acadêmico, da criação cultural, da discussão do papel da Universidade já feito no País. Ele fez ressurgir a idéia de Universidade como unidade de conhecimento e não um conhecimento fragmentado como é hoje. Com a abertura democrática, aquele papel que ele tinha de consciência crítica, acaba se perdendo, porque o que se discutia no ciclo básico, e só nele, só na Universidade e só na PUC, passou a ser discutido amplamente pela sociedade."
Sobre a participação dos docentes na vida institucional, Lalo pergunta se a atual situação econômica do país leva o professor a pensar primeiro na sobrevivência e se isto traz conseqüências no seu comportamento profissional e militante.
"A Universidade mantém com os professores uma relação trabalhista como qualquer outra. O problema é quando ela é pública ou semi-pública como a PUC. Isso dificulta a relação porque muitos professores acabam tendo um papel ambíguo, podem vir a fazer parte da administração, mas ao mesmo tempo são funcionários. Isso é um fator complicador para a organização dos docentes."
A PUC hoje
Com a crise da PUC, muitos professores foram trabalhar em outras universidades mas mantêm um relação afetiva forte com a instituição e seus antigos colegas. Lalo é um exemplo deste comportamento. "Estou fora da PUC só fisicamente. Mantenho relações de amizade. Não quero cortar esse vínculo. Ela era uma universidade exemplo do ponto de vista da sua organização interna, da sua democracia interna, da participação, mas ela sofria com as crises constantes. O relato que os professores me fazem do cotidiano é muito diferente da época que eu trabalhava lá."
Finalizando a sua rápida análise sobre o período em que passou pela PUC, Lalo comenta. "Foi uma experiência rica, mas situada historicamente. Só podia acontecer naquele momento. A sociedade se organizava e a PUC passava a ser um centro de resistência à ditadura e colocava essa potencialidade a serviço da redemocratização do País e da reorganização dos professores em nível nacional. Pessoas que ocupam hoje cargos importantes no País vinham a APROPUC. Nas suas próprias universidades não tinham espaço para discutir os seus problemas."
BOXE
Relação afetiva com a PUC
O professor Laurindo Lalo Leal Filho é livre-docente pela Escola de Comunicações e Artes - ECA-USP, onde trabalha atualmente na graduação e pós-graduação com televisão modelos institucionais de rádio e televisão, respectivamente.
Lalo foi presidente da APROPUC de 78 a 80. Na época, além de trabalhar na PUC, era editor de jornalismo internacional na TV Cultura. Participou da Andes e do movimento sindical.
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