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Uma página histórica escrita com democracia - A APROPUC foi ponta de lança na batalha pela democratização da universidade e da sociedade brasileira

APROPUC-SP

Quando o professor Aloízio Mercadante Oliva veio para a PUC, em 1978, a universidade e o movimento social no País viviam um período de intensa mobilização. As greves operárias arrombavam as portas da ditadura. O professor Mercadante já prestava assessoria ao movimento sindical e sua tese de mestrado era justamente sobre o sindicalismo no ABC, antes da primeira greve. "Logo que entrei na universidade, me associei à APROPUC e comecei a participar do movimento docente", conta ele.
Em seu depoimento, o professor destaca o papel que desempenhou a PUC e a APROPUC na condução da democratização da universidade, na luta sindical e no debate acadêmico dentro e fora da PUC.

A luta democrática era a prioridade

O professor Mercadante explica porque foi fundo na militância na PUC. "A luta democrática era fundamental para a sociedade e o movimento docente começava a emergir. A PUC teve um papel de destaque por causa de d. Paulo Evaristo Arns. Ele também acolheu vários professores exilados que voltavam ao País e expulsos das universidades públicas. A PUC acabou reunindo uma geração progressista, competente, inovadora. Era um projeto educacional e cultural muito interessante.
Neste contexto, o Tuca foi um espaço fundamental de rearticulação da sociedade civil até o seu incêndio em 1982 e a APROPUC, em todo esse período, esteve a frente desse processo."
Presidente na terceira e quarta gestões, ficou no comando da entidade de 1980 a 1984. Ele relata a participação da Associação. "Nós estivemos a frente na luta pela Anistia, na luta pelas liberdades democráticas, contra as prisões, torturas, a repressão política, ainda muito forte. Tivemos um papel de destaque na luta pelas diretas, vestimos a PUC inteira de amarelo. Estava na frente de todas as articulações importantes da sociedade civil pela democracia. E a APROPUC era a ponta de lança nesse processo.

A democratização da Universidade

"Do ponto de vista trabalhista, na minha gestão, teve inovações interessantes: nós fizemos o primeiro contrato coletivo de trabalho, garantimos estabilidade de emprego para os professores. Instituímos a primeira licença-paternidade na história do Brasil, em 1981, e a primeira licença-maternidade e paternidade extensiva a filhos adotivos, que era uma outra concepção de maternidade/paternidade inovadora e adequada a um país como o nosso."
"Outra grande contribuição foi a democratização da universidade e a PUC foi a vanguarda no País. Nós fizemos a primeira eleição direta para reitor. Elegemos a professora Nadir Khouri. Esta foi uma luta da APROPUC. Toda a regulamentação, o voto direto, universal, de todas as instâncias de direção da universidade."
Segundo Mercadante, a Associação não via a direção eleita da universidade como patrão. "Era uma relação de conflito e parceria. Conflito, porque havia a relação trabalhista. Nós tínhamos problemas salariais que não eram pequenos. Fazíamos paralisações, exigíamos negociações. Ao mesmo tempo, fazíamos parceria porque era uma Reitoria eleita pelo voto secreto, direto e universal da comunidade. Uma Reitoria comprometida com a luta democrática, que acolheu a SBPC quando ela foi proibida na USP. Então, nós tínhamos responsabilidades na luta democrática, sabíamos o papel de resistência que a universidade desenvolvia. A universidade tinha sido invadida em setembro de 77. A comunidade reagiu. Então, era uma universidade especial. A Reitoria não era propriamente o patrão. A relação patronal era com a mantenedora. Mas com a Reitoria havia conflitos trabalhistas e uma relação de parceria na luta democrática."

A APROPUC e o movimento sindical

"A dimensão fundamental da APROPUC foi a luta democrática dentro da PUC para mostrar uma nova universidade ao País e a participação ativa na sociedade. Então, começamos a articular a participação na luta sindical que começava a emergir como novo sujeito histórico da luta pela democracia e por reformas profundas da sociedade, com as greves operárias do ABC. E nós organizamos delegações da APROPUC para ir a todos os Primeiro de Maio no ABC, arrecadamos fundos de apoio às greves do ABC, vendemos bônus, nós levantamos recursos para eles."
Além disso, a APROPUC participou da discussão e da organização de todo o processo de criação da CUT, mantendo representantes em todas as instâncias. Mercadante fala do processo democrático e do Ciclo Básico. "Deixamos uma história bonita na entidade e, do ponto de vista do processo de democratização da universidade, finalizou com a constituinte da PUC formada por delegados eleitos pela comunidade para discutir um novo projeto de estruturação da instituição.
O Ciclo Básico era uma unidade vital, uma nova concepção de universidade, interdisciplinar, participativa, de vanguarda. Nós não conseguimos sustentar isso e não foi possível negociar. Na minha visão, o seu fim foi um erro da universidade. Nesse final de século, com a evolução tecnológica, o desafio da cidadania exige uma visão mais articulada, universalizante. Ter um tempo para se dedicar àquela visão global, sistêmica, articulada do mundo, é fundamental na formação do estudante universitário. A PUC devia rever o fim do Básico porque foi um elemento dinamizador e transformador da universidade, que veio contra a maré da reforma universitária."

Compromisso social da universidade

Mercadante considera que toda uma geração foi prejudicada academicamente pelo engajamento profundo dentro da PUC, pela participação ativa na construção de uma nova universidade e da luta democrática, enfrentando resistência até de parte do corpo docente. E finaliza: "A APROPUC e a PUC foram uma página muito bonita da história da universidade brasileira. Elas deixaram uma mensagem, que a universidade tem que se voltar para os problemas sociais, participar mais da sociedade civil. Essa busca do espírito crítico, da formação universal, de compromisso social, mais sensibilidade com a solidariedade, com a fraternidade, a busca da justiça, da democracia, eu tenho certeza que marcou aquela geração. Eu tenho muitas saudades daquela época porque foi um tempo muito bonito da luta democrática e da vida da universidade brasileira."

BOXE
Desejo de continuar na PUC

O professor Aloízio Mercante Oliva, 44 anos, terminou a FEA-USP em 1975 e fez mestrado na Unicamp. Em 1978, entrou na PUC, no Departamento de Economia e deu aulas nas Ciências Sociais. Presidiu a APROPUC em duas gestões, de 1980 a 1984. Nesse período, fez parte da Andes e da organização da CUT, como representante da Associação. Foi assessor da CUT, depois deputado federal pelo PT, candidato a vice-presidente na chapa do Lula e a vice-prefeito na chapa de Luíza Erundina. Voltou a dar aulas na PUC em 1995 e sua vontade é continuar como docente na universidade.

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