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O fim de um ciclo e o início das grandes greves - A APROPUC esteve prestes a se extinguir em 1985, mas professores eternamente indignados não permitiram

APROPUC-SP

O professor Rui Cezar do Espírito Santo foi presidente da APROPUC num período de transição da entidade. Ocupou o cargo de abril a junho de 1985. Foi um mandato tampão, mas continuou na diretoria na gestão seguinte, presidida pela professora Zilda Iokoi.
O professor Espírito Santo destaca em seu depoimento aquele momento em que Associação passava por uma fase de esvaziamento, fim de um ciclo e início de outro, de grandes greves por melhores salários.

De repente, presidente da APROPUC

"Foi um processo muito curioso. Eu defendia, especialmente com os meus alunos da disciplina Direito de Organização das Pessoas, o direito sindical, o direito das associações de classe. Eu estava dando uma aula sobre isso, quando um aluno levanta e diz assim: 'Rui, você está defendendo isso e está tendo uma assembléia para extinguir a APROPUC.' Aí, eu disse: 'Bem, coerentemente com a aula que eu estou dando, eu vou para essa assembléia para não deixar fechar!' E participei dessa assembléia, fiz um discurso a respeito da preservação da entidade e saí de lá presidente! A entidade ia ser fechada naquele momento por falta de candidatos para dirigi-la. Fui um presidente eleito pela assembléia. Acho que um caso único na história da APROPUC, porque em todas as outras houve eleições diretas."
A partir daí, segundo o professor Espírito Santo, o movimento foi reavidado e a APROPUC retomou o diálogo com a Reitoria, mantendo a tradição democrática da PUC e a sua representação docente.

A luta pela melhoria dos salários

O País atravessava um longo período inflacionário. A PUC sofria duplamente com isso. De um lado, os professores e funcionários reivindicando reajustes legítimos, de outro, os alunos protestando contra os aumentos das mensalidades. O professor lembra: "Foi decisiva a luta da APROPUC, na manutenção dos níveis de salários. Os protestos dos professores faziam com que a Reitoria se movimentasse no sentido de buscar recursos."
As condições de trabalho é destacada por Espírito Santo como uma conquista ainda por vir. "Nós precisamos avançar mais. Há uma luta permanente em torno das condições de trabalho. A PUC ainda oferece condições de trabalho precárias. É só pensar na falta de respeito aos docentes, que trabalham dando aula com música, com batucada, com barulho de corredor. Eu sei que é difícil resolver esse problema, mas eu acho que a APROPUC tem o dever de ir mais duro contra essa falta de condições de trabalho, de silêncio para trabalhar, salas de aula melhores. Porque, espaço físico nós temos, mas é preciso investir na sua melhoria."

Democratização da universidade

As eleições diretas para reitor, no entender do professor, é uma conquista definitiva e a associação dos docentes, os funcionários e os estudantes têm tido um comportamento aguerrido que garante a manutenção desse e de outros direitos.
"A PUC tem sido respeitada pela Fundação São Paulo em grande parte por isso. Houve um episódio, alguns anos atrás, em que a Fundação São Paulo tentou interferir dentro da universidade e os protestos da APROPUC foram decisivos para que a Fundação São Paulo não fosse além do que os Estatutos lhe permite." "As pessoas que trabalham aqui sabem que existe um perfil interno de universidade que não se repete lá fora. A PUC mantém um perfil de universidade onde os professores dispõem de um espaço livre que não se encontra em outras. Ela não é nem pública e nem privada e não chega, sequer, a ser da Igreja, embora a entidade mantenedora seja a Fundação São Paulo - que na verdade não mantém coisa nenhuma -, apenas é fundadora da PUC. A PUC tem quase que uma vida independente dessa fundação. As nossas lutas têm demonstrado isso."

O vazio deixado pelo Ciclo Básico

"O Ciclo Básico tinha uma característica que hoje precisava ser retomada, que é a interdisciplinaridade. Ele se caracterizava exatamente por isso.Havia uma postura de humildade dos professores do Ciclo Básico, porque vinham de áreas diferentes e sabiam o quanto eles eram aprendizes dentro de uma universidade. Havia o espírito do eterno aprendiz. Isto, às vezes, se perde dentro de uma universidade quando o especialista isolado se julga o dono da verdade. Professores de áreas distintas, formando um núcleo coeso que se reunia permanentemente numa discussão extremamente criativa.
A perda dessa discussão e desse espaço deve servir de motivo para que se retome a abertura de novos espaços interdisciplinares, que se perceba a riqueza da discussão de especialistas de diferentes áreas numa ação conjunta."
O professor Espírito Santo finaliza ressaltando o papel da APROPUC na discussão dos últimos Estatutos, aprovados pelo CONSUN em janeiro deste ano. Sobre o período de greve, lembra que a consciência adquirida nessas lutas pode ser usada "na defesa de outros princípios e de outras questões, como a qualidade de ensino e a melhoria da universidade como um todo."

BOXE
Ação coerente com o ofício

Rui Cezar do Espírito Santo, 62 anos, é professor de Didática na Faculdade de Educação. É formado em direito com mestrado em Educação. Foi presidente da APROPUC no período de abril a junho de 85, cumprindo um mandato de transição e preparatório para as eleições realizadas em junho daquele ano. O professor fez parte de uma diretoria que reergueu o movimento dos professores da PUC.

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