Levar a luta para um patamar superior - A Universidade exige uma discussão sobre o seu futuro imediato e a APROPUC tem um papel a desempenhar nesse cenário
Em 1985, o mandato do professor Aloízio Mercadante havia terminado e não se apresentava nenhum grupo para compor a diretoria. Havia a proposta de a APROPUC encerrar as suas atividades. Segundo alguns, a universidade havia se democratizado e as pessoas não estavam mais interessadas na luta sindical. Seu fechamento, segundo a professora Zilda Iokoi, era uma conseqüência natural das tentativas frustradas de se montar uma chapa. Houve um movimento tendo a frente professores que eram contra o fim da Associação, entre eles, o professor Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida.
A crise de identidade da PUC
A professora Zilda também foi contra o fechamento da Associação. "Fiquei com a tarefa de montar uma comissão temporária para articular um grupo para fazer o trabalho. Conseguimos montar um chapa que foi eleita em 85. Até 86, eu dirigi a APROPUC. Nós pegamos uma fase muito difícil em que a PUC tinha problemas de dívidas, de caixa na gestão do Luís Eduardo Wanderley."
Em 1986, a crise da PUC era de tal proporção que foi realizado um plebiscito para se saber qual era a posição da comunidade puquiana sobre a possibilidade de tornar a universidade numa instituição pública. Seja municipal, estadual ou federal. Venceu a proposta de tornar a PUC pública.
Relata a professora Zilda: "Estivemos com d. Paulo que nos disse que não queria uma coisa dessa natureza."
Sem pesquisa e sem recursos
A Associação colocava que se tratava de uma luta corporativa, de defesa do trabalho e do salário e que a PUC se virasse para conseguir os recursos. Foi o momento em que a PUC começou a se fortalecer como uma universidade de pesquisa, pois passou a haver incentivo para que a maioria dos professores buscassem a titulação.
"Existia um grupo muito significativo de professores que já estavam fazendo suas titulações e tinha um certo interesse que esses professores com titulação fizesse projetos para pensar a obtenção de recursos por parte da PUC. Foi uma experiência muito rica e a administração da PUC assumiu bem essa parte."
A questão sindical se organizava na discussão e na defesa do conjunto da universidade brasileira. "A APROPUC participava e liderava a discussão acadêmica, fazia seminários de maneira intensa, sediava encontros e esteve presente nos grandes seminários organizados em defesa da universidade brasileira."
Lembra a professora Zilda que "o movimento docente estava muito ativo e muito preocupado em discutir a universidade como um todo. A PUC viveu em meados da década de oitenta um processo de evasão muito grande. As pessoas se capacitavam e saiam da PUC. Ela precisou valorizar um pouco mais os seus docentes e funcionários para ter um grupo com mais longevidade."
Sofrendo os efeitos da mobilização
Ao mesmo tempo em que os professores participavam da discussão acadêmica, encerravam um processo de Constituinte da PUC (a discussão dos novos Estatutos da universidade), ainda tinham que garantir a representação na Associação. Um dos motivos do esvaziamento da APROPUC na época foi o engajamento dos docentes na vida interna da universidade, sem tempo para a vida sindical. A professora Zilda enfatiza estes diferentes papéis desempenhados pelos professores. "Esse grupo que chegou e que vinha com essa dimensão da luta entrou nessa frente e conseguiu produzir ao lado dos que faziam administração um combate pela valorização do salário. Eu entrei em 82 fiquei até 86 e nós dirigimos seis greves. E greves muito fortes, muito mobilizadas, de assembléias de 300, 200 pessoas. Quem não entrava em greve? Uma parte da Medicina de Sorocaba entrava na greve, o Direito e Economia entravam parcialmente da greve. O resto todo entrava. Tinha um respaldo grande e nós fazíamos mobilizações conjuntas, professores e funcionários e negociávamos salários publicamente."
O papel da ação sindical é destacado pela professora Zilda na construção da democracia na PUC. "Não é porque existe uma universidade democratizada que os interesses corporativos deixam de existir. Eles passam a ser medidos por duas coisas fundamentais: a avaliação de competência e a busca por soluções democraticamente discutidas. Isso é útil, rico e leva à solução dos problemas."
O papel da PUC-SP e da associação
De acordo com a professora Zilda, a PUC e a sua associação docente não podem ficar alheias às discussões que acontecem na esfera das universidades públicas e no âmbito federal. O sistema universitário nacional pode sofrer mudanças importantes a curto prazo. Outra questão, é a saída da APROPUC da Andes. Segundo ela, "No campo das universidades particulares, a PUC tem um papel fundamental, ela é uma universidade que conseguiu dar conta de fazer pesquisa, capacitação, valorização do quadro de trabalho e ela tem que ser ponta de lança na reversão dessa coisa escabrosa que é esse sistema de ensino empresarial, lucrativo. A Andes sofre muito com a perda da APROPUC."
Finalizando, a professora Zilda ressalta que é preciso mudar o patamar de ação. "Hoje, é preciso fazer a defesa do sistema universitário, enquanto um sistema que tem como ponto fundamental a articulação do ensino e da pesquisa. Mais de 70% do ensino superior pertence ao ensino privado. Se você excluir quatro ou cinco experiências de ensino bom, o resto tem ensino superior é muito ruim.
A gente tem que ter uma década de valorização da universidade brasileira, do ensino superior que vai nos levar a todos para um patamar mais acima. Nós, aqui da Adusp, temos muito interesse de discutir conjuntamente com a APROPUC os desafios que estão colocados pela frente. No estado de São Paulo a crise é muito grande."
BOXE
"Foi o lugar onde eu mais aprendi"
A professora Zilda Márcia Gricoli Iokoi, 50 anos, atualmente, dá aulas na disciplina de América Latina Contemporânea na graduação e na pós-graduação da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da USP. Saiu da PUC e foi para a USP em 1986. Pertence à direção da Associação dos Docentes da USP (Adusp) e a Associação dos Professores Universitários de História.
Zilda dirigiu a APROPUC entre 1985 e 1986, num período de retomada do movimento reivindicativo dentro da PUC, quando longas greves aconteceram.
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