O ensino público e o gratuito saiu da agenda Foi um período difícil e muito rico em debates em torno do caráter da instituição
O cenário da universidade naqueles anos era de uma crise financeira profunda e permanente. Já era passado, segundo a professora Maria Luísa, o período em que a PUC, de fato, cumpriu um papel de vanguarda nas discussões das políticas sociais, acadêmicas e culturais. O salto qualitativo em sua estrutura acadêmica e administrativa não acontecia. Maria Luísa expõe a seguir a sua visão desse período.
Universidade pública e gratuita
"Num determinado momento das múltiplas crises pelas quais a PUC passava, ou passa, se criou um movimento para a estadualização da universidade. Foi um movimento de penetração bastante grande. A PUC é dirigida por uma entidade chamada Fundação São Paulo, ela tem vínculo com a Igreja Católica. Portanto, em princípio, essa entidade devia responder pelas soluções das crises. Se ela não tinha condições, outras entidades podendo, deveriam assumir. A transformação da PUC em escola pública perpassou o movimento dos professores enquanto uma tese de defesa do direito à educação gratuita e pública."
Mas havia uma divisão entre os professores sobre qual deveria ser o caráter da universidade. A professora Maria Luísa destaca. "O movimento se dividia em uma ala que defendia a chamada fundação mista, com a participação do Estado e da Igreja. Era a continuidade do caráter privado da instituição. Outra ala defendia o caráter público e a conseqüente estadualização. A APROPUC abriu espaço para o debate. O movimento foi bonito, houve o plebiscito e venceu a proposta de estadualização."
"No processo de disputa da diretoria," lembra Maria Luísa, "os professores que representavam a proposta de estadualização apresentaram uma chapa. Acho que foi a primeira vez na história da APROPUC que uma diretoria assumiu uma posição bem marcada entre duas ou três possíveis que existiam no professorado."
A divisão das forças internas da PUC
As dificuldades de implementação de uma das propostas correntes e a riqueza do debate marcaram esses anos, segundo Maria Luísa. "Do ponto de vista da educação, a Igreja tem alguns dogmas que dificilmente seriam rompidos pelos seus adeptos mais progressistas. Eu até brinco parafraseando uma referência ao período imperial ('nada é mais conservador do que um liberal no poder') que, em termos de educação, nada é mais conservador que a ala progressista da Igreja. Ela dava com muito medo, meio passo, sem coragem de dar um passo, necessário e possível em benefício dos princípios defendidos do ponto de vista político e educacional por esse grupo.
Foi se gerando um embate entre dois grupos que eram aliados em muitas das lutas.
A PUC foi tomada por um recuo muito grande. Esse grupo ligado à Teologia da Libertação é muito forte dentro da universidade e quando ele está realmente apostando em bandeiras avançadas, a força do movimento interno é muito maior.
Aí a PUC começou, não por acaso e com muita freqüência, a viver do passado, de um passado de glórias políticas e de coragem, de exemplos de um Brasil democrático. Quanto mais ela lembrava e fazia uso publicamente disso, mais ela ia perdendo esse papel do ponto de vista social."
O papel da Fundação São Paulo na PUC
Com a frustração do movimento pela estadualização da PUC, continua a professora, "o movimento se voltou às questões internas do ponto de vista pedagógico. A partir do momento que o movimento pela escola pública se esvazia, a diretoria da APROPUC dirigiu um movimento no sentido de que a Fundação São Paulo tinha a responsabilidade de transformar essa estrutura acadêmica em algo melhor. E levamos as lutas, digamos assim, tradicionais, uma das quais permanente que foi a questão do contrato de trabalho."
A função da Fundação São Paulo foi ficando clara, recorda Maria Luísa. "Houve uma constituinte e, a partir daí, eu comecei a ver que era uma ilusão a gente discutir os estatutos da universidade sem discutir os Estatutos da Fundação São Paulo. Quando o Conselho Universitário aprovou os estatutos, a Fundação apareceu obstruindo o processo de aprovação e substituição dos antigos Estatutos pelo novo. A partir daí, nós começamos a nos dirigir diretamente à Fundação São Paulo, quando a Reitoria não tomava atitudes de ser a representante do corpo docente e dos funcionários no trato com a mantenedora.
Nós queríamos encarar objetivamente a situação da PUC. Ela é uma escola católica não só de nome. Estamos trabalhando para uma escola particular, vamos exigir que essa entidade assuma essa responsabilidade e promova as condições para que o ensino tenha um significado para a cultura nacional."
O Ciclo Básico democratizou as relações
A professora Maria Luísa não participou do Ciclo Básico e tinha algumas discordância de sua condução pedagógica, mas destaca alguns de seus aspectos importantes. "Ele criou uma fração de professores que vivia integralmente do magistério da PUC. Estavam envolvidos naquilo que faziam e praticavam não só a docência mas toda a vida universitária. Eu tive diferença com esses colegas, mas isso não impedia de reconhecer o sentido universitário na forma como eles concebiam o que estavam criando, que era uma coisa nova. Professor universitário muitas vezes é só um nome. Ter espírito universitário, ter uma atitude universitária é uma coisa rara na história da educação brasileira. Esse grupo trouxe para a APROPUC essa forma de atuação regular."
Maria Luísa entende que algumas das razões para a desmobilização do professorado são as alterações sofridas pela carreira do docente, às vezes, causando deformações e transformando o professor num carreirista. "É a corrida pelo cargo, pelo título, pela quantidade de artigos que ele escreve, de livros que ele publica. Esse lado quantitativo passa a ser muito forte na prática da avaliação de desempenho. A tentativa de trazer o padrão empresarial de organização para a universidade e para a educação explica a situação de hoje e porque uma entidade de classe fica mais difícil de ser levada."
BOXE
Todo o magistério dedicado à PUC
A professora Maria Luísa Santos Ribeiro, 50 anos, participou do movimento dos professores da universidade durante todo o tempo. Foi da diretoria por várias gestões. Presidiu a APROPUC de 1988 a 1990. Mestre e doutora em Filosofia da Educação, foi professora da PUC por 25 anos. Aposentada, hoje é secretária-executiva da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (APNPed), com sede na PUC. Quando se aposentou, tinha a expectativa de conseguir um contrato de 20 horas para realizar pesquisas de maior porte, coisa que não pôde fazer durante o exercício do magistério na PUC, tendo em vista a sua dedicação em sala de aula.
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