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Movimento PUC Viva: A luta pela autonomia universitária

APROPUC-SP

Uma das páginas mais emocionantes no movimento PUC Viva foi a luta por uma PUC autônoma, onde toda a comunidade pudesse decidir seus destinos.
Em 1991, durante a gestão da professora Leila Bárbara como reitora, a Fundação São Paulo, mantenedora da PUC, resolveu intervir na universidade de uma forma radical. Com o intuito de instaurar um novo projeto de gestão universitária, assume como secretário-executivo da Fundação o sr. Vicente Benzinelli. Academicamente, Benzinelli pretendia enfrentar a crise financeira implantando um modelo de universidade onde menos cursos (aqueles que apresentassem mais procura e os dotados de excelência acadêmica) compusessem o rol de opções da PUC.
Para tanto, algumas medidas se faziam necessárias, entre elas, desvincular a área administrativa e financeira dos centros de decisão acadêmica e comunitária da universidade, fazer com que a Fundação tivesse assento permanente no Consun e modificar o contrato de trabalho dos professores, fazendo com que aqueles que lecionassem nas chamadas ilhas de excelência tivessem contratos mais vantajosos, com dedicação exclusiva e os demais trabalhassem em regime semelhante a hora-aula.

Duplicidade de poderes

Não demorou muito tempo par que a tal política criasse uma duplicidade de poderes entre os interesses da comunidade universitária e o secretário-executivo da Fundação São Paulo. A Reitoria viu-se de mãos atadas, pois as deliberações da comunidade eram sistematicamente vetadas pela Fundação.
Hesitante entre tomar o partido de professores e funcionários, a postura da professora Leila Bárbara obriga as associações a tomarem o caminho da mobilização: do dia 24 de setembro de 1992, inicia-se a maior greve da história da PUC. Reunidos em assembléia convocada pela APROPUC, os professores paralisaram as suas atividades por tempo indeterminado. Como reivindicações básicas estavam a reposição integral do índice do ICV-Dieese, pagamento dos atrasados relativos ao erro de aplicação da política salarial, política de reposição mensal de salários, compromisso de que não haveriam mais demissões na universidade e pagamento das dívidas que a Fundação São Paulo tinha com os professores.
Por trás de tudo isso, estava a intransigência da Fundação São Paulo, interessada em implantar seu novo modelo e minar a resistência das associações de professores e funcionários. A greve recebe a adesão dos funcionários que também decidem paralisar as suas atividades dia 9 de outubro. Juntamente com os professores, eles também reivindicavam índices mais compatíveis para os seus reajustes salariais.
Por outro lado, as assembléias de professores vinham apresentando presença cada vez maior de participantes. Eles haviam recusado algumas propostas que consideravam irrisórias. Dia 8 de outubro, diante da passividade da Reitoria e da intransigência da Fundação, a assembléia convocada pela APROPUC resolveu radicalizar o movimento, aprofundando suas formas de luta.
O ano de 1992 era o último ano da gestão da professora Leila Bárbara e, em junho, havia acontecido eleições gerais na PUC. Entre quatro chapas concorrentes, venceu a do professor Joel Martins, que viria a falecer no ano seguinte, ficando em seu lugar o vice-reitor acadêmico, professor Antonio Carlos Caruso Ronca, atual reitor da universidade.
Diante dos impasses que se apresentavam nas negociações, uma das alternativas foi a de envolver a Reitoria eleita na discussão do processo. Esta, alegando o princípio de não interferência na gestão da professora Leila, disse à presidente da APROPUC, professora Madalena Guasco Peixoto, que acompanharia os fatos, entretanto, não intervindo enquanto Reitoria eleita. A assembléia da APROPUC de 14 de outubro reivindicava que a nova Reitoria fosse empossada imediatamente, pois a permanência da equipe da professora Leila representava um sério obstáculo para a solução do impasse.

Fundação radicaliza

Em 23 de outubro, a Fundação São Paulo também resolve radicalizar e envia uma carta onde institui uma Comissão que deveria realizar um levantamento e estudo do quadro docente da PUC. Na realidade, tal ato constituía-se na instalação de uma auditoria acadêmica, estranha à comunidade que deveria julgar os professores com parâmetros espúrios (como qualificavam as associações).
Em 13 de novembro, uma passeata com professores, funcionários e estudantes sai da PUC e vai até a Cúria Metropolitana, no bairro Higienópolis, onde não foram recebidos pelo cardeal, mas deixaram claro seus protestos contra a intervenção da Fundação.
A crise agravou-se quando em novembro somente parte dos salários foram creditados nas contas dos professores. Anúncios classificados eram encontrados nos principais jornais de São Paulo denunciando a crise: "Universidade de boa qualidade procura mantenedora responsável - S.O.S. PUC", dizia um classificado da Folha de São Paulo de 23 de novembro. Simbolicamente, a comunidade realizava o enterro do sr. Vicente Benzinelli e da Fundação São Paulo.

Fim da greve, início do movimento

Dia 23 de novembro, os funcionários voltaram às atividades, que seriam retomadas pelos professores somente no dia 31, após 66 dias de paralisação (a mais longa da história da PUC), depois da assinatura, por parte da nova Reitoria, de um documento que previa que o pagamento de professores e funcionários seria feito conforme os valores firmados pela Reitoria anterior, em acordo com as associações.
Uma das reivindicações principais do movimento não aconteceu de imediato, mas depois de algum tempo: o então secretário-executivo da Fundação São Paulo, Vicente Benzinelli, desgastado pelos protestos da comunidade, seria substituído. Ocupou o cargo, o novo vice-reitor administrativo, acumulando as duas funções. A diretoria da APROPUC Leda Rodrigues afirmava ao mural TodoDia, "Esta foi uma greve que começou com a reivindicação de perdas salariais e acabou desembocando em problemas fundamentais da PUC. Discutimos o papel da Reitoria em sua instância de representatividade e autonomia da universidade, na medida em que a Fundação tenta intervir a todo o momento no acadêmico e administrativo, quando o seu papel é de manter financeiramente a PUC".
O grande saldo do movimento foi o salto de qualidade da consciência conquistada pela comunidade. Em novembro, em plena greve, realizou-se em frente ao Tuca um ato reunindo setores representativos da comunidade. Esse ato convocaria uma manifestação ainda maior para o dia 7 de dezembro, decidindo também o lançamento de um número especial de um jornal, em formato tablóide, que divulgaria o nome e as idéias do movimento que agitou a universidade durante todo o segundo semestre de 1992: PUC VIVA.
A manifestação de 7 de dezembro lotaria o Tuca, presentes não só a comunidade puquiana, mas representantes de setores da sociedade civil, e lançaria as bases para que, em agosto de 1993, o movimento tivesse continuidade efetiva com um jornal semanal (iniciativa da APROPUC e AFAPUC, o jornal mural PUCviva, que cotidianamente tenta resgatar a determinação da comunidade em manter sua independência e dignidade.

BOXE
Somente a mobilização garante a autonomia

Hoje, aos 20 anos da APROPUC, vivemos uma clima de aparente calma, com a secretaria-executiva da Fundação São Paulo e a vice-reitoria administrativa sendo acumuladas pelo professor Adhemar De Caroli. As questões mais polêmicas no âmbito financeiro são aparentemente equacionadas sem maiores traumas para a comunidade. Porém, esta situação é provisória, e ninguém garante que, de um momento para outro, volte a acontecer a duplicidade de poderes que marcou a gestão Leila Bárbara. Tal perspectiva surge com mais intensidade num momento em que se vislumbra a substituição de dom Paulo Evaristo Arns, ao que tudo indica, por um bispo de tendência mais conservadora.
Para Madalena Peixoto, presidente da APROPUC, "só podemos ter uma verdadeira autonomia universitária na medida em que a composição e a própria configuração da Fundação São Paulo se modifiquem, numa gestão onde Reitoria e comunidade possam de fato gerir a universidade. A exemplo do movimento PUC VIVA, somente a comunidade organizada conseguirá uma real autonomia universitária, onde possam deliberar efetivamente sobre a condução acadêmica e comunitária da PUC-SP", conclui a professora Madalena.

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