Editorial

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Viva a Revolução Russa!

A Revolução Russa culminou no dia 25 de outubro de 1917, no calendário russo (Juliano), ou 6 de novembro, no nosso (gregoriano). Vão-se, portanto, 90 anos desde que o proletariado, unido aos camponeses pobres e aos soldados, organizado em sovietes (conselhos) e dirigido pelo Partido Bolchevique, tomou o poder da burguesia e instaurou o Estado operário.

A revolução emergiu em plena guerra imperialista, encabeçada pela Alemanha e pela Inglaterra, que despedaçava a Europa e impunha miséria às massas. A Rússia se distinguiu do restante do continente europeu por ter um partido marxista profundamente enraizado na classe operária. Assim, no exato momento, foi possível concretizar a orientação de Lênin de transformar a guerra imperialista em guerra civil pela tomada do poder e constituição de um governo operário e camponês, baseado nas organizações soviéticas.

Há 90 anos, o mundo capitalista estremeceu com a insurreição e a vitória do programa da revolução socialista. Confirmavam-se as premissas históricas do Manifesto do Partido Comunista, redigido por Marx e Engels. Tarefa que a insurreição proletária da Comuna de Paris, de 1871, não conseguiu cumprir, que era manter o poder e transformar a propriedade privada dos meios de produção em propriedade social, devido à ausência do partido marxista, pôde fazê-lo o proletariado russo.

A revolução de Outubro foi a abertura para a revolução mundial. As condições para tal se encontravam mais avançadas na Alemanha, com seu portentoso e organizado proletariado. No entanto, a social-democracia alemã de Kautsky não tinha o programa à altura dos acontecimentos, e traiu a revolução, apoiando a guerra imperialista de seu país.

A Revolução Russa teve de se impor isoladamente ao capitalismo mundial. Foram decisivos o apoio generalizado da classe operária internacional e a constituição de partidos comunistas em boa parte dos países, que permitiram a edificação da III Internacional, em 1919. Não houve, porém, força dos jovens partidos comunistas para evitar que a União das Repúblicas Soviéticas permanecesse ilhada pela burguesia mundial.

Lênin demonstrou, em várias ocasiões, o perigo que corria a revolução devido ao isolamento e ao cerco econômico e militar impostos pelas potências. A derrocada da burguesia russa teria de ser continuada em outros paises, sem o que a nova economia não teria como sobreviver. O proletariado apenas havia rompido um dos elos da cadeia mundial do capitalismo e derrotado uma das frações da burguesia internacional. Lênin previu a possibilidade de um retrocesso da revolução, uma vez que não era possível desenvolver o socialismo nos limites das fronteiras nacionais.

A constituição de duas tendências - a de Stalin e a de Trotsky - logo após a morte de Lênin, em 1924, se deu justamente sobre essa questão estratégica. O processo de restauração capitalista e desintegração da União Soviética deu razão a Trotsky.

O nacionalismo de Stalin levou a uma política internacional de traição, confirmada em 1927 na China, em 1936/37 na Espanha, em 1933/40 na Alemanha etc. E a fazer do isolamento uma vantagem, o que resultou na ficção nacionalista de que o socialismo havia percorrido um significativo caminho de construção. A teoria e orientação do "socialismo em um só país" de Stalin concluiu com a destruição da III Internacional.

As crises capitalistas, a  Segunda Guerra Mundial e a luta de classe que se desencadeou no período possibilitaram êxitos da economia soviética e uma certa estabilidade interna, que alimentaram as ilusões do nacionalismo stalinista. Os regimes que surgiram dos levantes insurrecionais, como na China, Hungria (1949) e Cuba (1959), logo se colocaram sob a influência do nacionalismo soviético. A guerra fria do pós-guerra, chefiada pelos Estados Unidos, obscureceu a política anterior de coexistência pacífica de Stalin com o imperialismo, prolongando as ilusões nacionalistas travestidas de internacionalismo.

Após a morte de Stalin, em 1953, recrudesceu o antagonismo entre o mundo capitalista e os países que haviam expropriado suas burguesias. Estados Unidos e União Soviética expressavam os dois blocos.

Tratava-se de as potências imperialistas bloquearem as revoluções que haviam conquistado países do leste europeu, asiáticos e do Caribe (Cuba). A recuperação do terreno perdido pelos capitalistas se deu pela superioridade econômica. O fato de a revolução não ter ocorrido em nenhum país de economia avançada continuou a pesar em favor do capitalismo. E a favorecer o isolamento nacionalista que dividiu a União Soviética, Iugoslávia e China, por exemplo.

As pressões dos EUA na década de 1970 sobre a União Soviética indicaram a prevalência do imperialismo. As ocupações militares da Hungria, em 1956, e da Tchecoslováquia, em 1968, refletiram o esgotamento da política stalinista, conduzida pelos epígonos Kruchev e Brejnev, embora o primeiro tenha exposto os crimes de Stalin, para retomar a linha da coexistência pacífica.

Na década de 1980, as potências haviam recomposto seu poder, e indicavam novas tendências de crise capitalista. A União Soviética se mostrava em situação de bloqueio econômico,o que se manifestava no conjunto dos países de economia estatizada. A restauração capitalista na União Soviética é assumida oficialmente pelo Estado operário degenerado. Materializava-se a tendência histórica do nacionalismo stalinista de levar à restauração.

A invasão do Afeganistão pela União Soviética, em 1979, foi o palco de disputa territorial. Indiretamente, os Estados Unidos, aliados ao Irã e Paquistão, infligiram a derrota às forças militares russas, que se retiraram em 1989. Evidenciou o declínio da ditadura burocrática. Abriu definitivamente o caminho para as tendências pró-capitalistas internas à União Soviética.

A Perestroika e a Glasnost, de 1985, cuja concepção é de Gorbatchev, expressaram as tendências internas de reconstrução da propriedade privada dos meios de produção e as pressões externas do capital. É fundamental entender que o nacionalismo socialista possibilitou a reestruturação de um poder interno burguês impulsionado pela burocracia, que usou, para isso, as próprias empresas estatais.

O enfraquecimento do regime stalinista, que desfigurou completamente a ditadura do proletariado, levou a divisões internas à própria burocracia do Estado. O descontentamento das massas com os privilégios dos mandantes e a situação de crise econômica deram lugar a movimentos que foram canalizados para a restauração. O fenômeno se estendeu para o leste europeu, representado figurativamente pela queda do muro de Berlim, em 1989.

A restauração reintroduz as leis de funcionamento do capitalismo e todos seus males, como a exploração do trabalho, o desemprego e a miséria de milhões. Destrói conquistas fundamentais para o futuro da humanidade sem exploradores e sem explorados, sem o saque de um país sobre o outro, motivo das guerras.

Nesses 90 anos, vimos o quanto a Revolução Russa marcou inteiramente o século XX. Demonstrou as teses do socialismo de Marx e Engels. A restauração em curso não contraria o socialismo científico, ao contrário, o confirma. Sem o desenvolvimento da revolução internacional que atinja países altamente industrializados, não há como uma revolução sobreviver historicamente em um só país, ou em países isolados uns dos outros e dirigidos por posições nacionalistas.

Em todos esses anos, o capitalismo usou sua força econômica e militar para esmagar as conquistas da Revolução Russa. Foi necessário que, nas entranhas da própria revolução, se gerasse e desenvolvesse o germe da contra-revolução. A burocratização e a degeneração do Partido Bolchevique pela condução de Stalin, que sequer admitiu a preservação de Trotsky no exílio e que fez dos processos de Moscou  (1934-1938) uma das maiores ignomínias da história, foram condições fundamentais para promover o termidor.

Os 90 anos da Revolução Russa devem ser vistos por essa trajetória e pela perspectiva que o capitalismo oferece às massas. O programa e os fundamentos da revolução de Outubro de 1917 mantêm-se intactos e atuais. O capitalismo se mostra cada vez mais violento contra a vida dos trabalhadores e potencializa suas tendências bélicas. 

Erson Martins de Oliveira

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