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A Internacional e a "defesa nacional"

APROPUC-SP

Vladimir Lênin


Não é verdade que a Internacional tenha consagrado pouca atenção ao problema da guerra. Quase todos os Congressos Socialistas Internacionais se ocuparam dela. Uma análise dos fatos passados bastará para demonstrar isto. A antiga Internacional[1] consagrou a este problema duas resoluções em dois Congressos. A segunda Internacional dele se ocupou em oito Congressos e em oito resoluções. Tratou, por outro lado, a questão colonial em cinco resoluções.

É inexato que a Internacional tenha ensinado aos operários que eles não tinham senão que averiguar se uma guerra era defensiva para que a questão ficasse em seguida truncada e que não lhe restasse mais que pôr o fuzil ao ombro e ir a exterminar o "inimigo". Quem quer que se dê a pachorra de percorrer as resoluções autênticas da Primeira e da Segunda Internacional convencer-se-á de que nada de semelhante foi jamais resolvido.

Examinemos estas resoluções:

Em 1867, no Congresso Lausana, a Primeira Internacional elabora uma moção detalhada sobre a guerra. O ponto fundamental está na indicação de que "não basta suprimir os exércitos permanentes para terminar as guerras, porém uma transformação de toda ordem social é para tal fim, igualmente necessária". Uma só medida prática foi tomada: a adesão a Liga da Paz burguesa-democrática (com a qual, dizemos entre parêntesis, não tardou em romper). Em 1867, no Congresso de Bruxelas, a Internacional "recomenda muito particularmente aos operários parar o trabalho em seu país em caso de guerra".

O conselho Geral da Primeira Internacional adota em 1866, no começo da guerra austro-prussiana, uma resolução na qual recomenda aos proletários considerar este conflito como o de dois tiranos e tirar partido da situação para a sua própria emancipação.

Em um manifesto às Trade Unions, em julho de 1868, o mesmo Conselho Geral, no qual não é ignorada a influência preponderante de Karl Marx, escrevia: "As bases da sociedade devem estar na fraternidade dos trabalhadores, libertados das mesquinhas rivalidades nacionais. O trabalho não tem pátria."[2]

Tais são as resoluções da Primeira Internacional. Na Conferência de Londres, em 1888, os deputados social-democráticos recebem o mandato de trabalhar para a instituição de Cortes de Arbitragem para Liquidação dos Conflitos entre os Estados.

No primeiro Congresso da Segunda Internacional (Paris 1889), tomou-se uma precisa resolução antimilitarista. Reivindicação principal: a substituição dos exércitos permanentes pelas milícias populares.

Em 1891, o Congresso de Bruxelas, "considerando que a situação da Europa torna-se cada ano mais ameaçadora...; considerando as campanhas patrioteiras das classes dirigentes, convida todos trabalhadores a protestar por uma agitação incessante contra todas as tentativas de guerra e... declara que a responsabilidade das guerras recai em todos os casos... sobre as classes dirigentes".

Em 1893, o Congresso de Zurique declara: "A social-democracia revolucionária internacional deve insurgir-se com a maior energia contra as aspirações patrioteiras das classes dirigentes. Os representantes dos partidos operários tem de rechaçar todos os créditos militares e protestar contra a manutenção de exércitos permanentes".

Em 1896, o Congresso de Londres declara: "A classe operária de todos os países deve opor-se à violência provocada pelas guerras como se opõe a todas as violências das classes dirigentes a seu respeito..."

Em 1900, no Congresso de Paris, a Internacional decide categoricamente que "os deputados socialistas de todos os paises estão incondicionalmente obrigados a votar contra os gastos militares, navais e contra as expedições coloniais".

Em 1907, em Stuttgart, depois de haver examinado a questão sob todos os seus aspectos, a Internacional adota uma resolução circunstanciada, cuja passagem mais importante é esta: "se rebenta a guerra, apesar de tudo, os socialistas tem por dever intervir para apressar o fim e tirar de todas as maneiras partido da crise econômica e política, para sublevar o povo e precipitar por isso mesmo a queda da dominação capitalista".

Em 1910, em Copenhague, a resolução de Stuttgart é confirmada e a Internacional declara uma vez mais que é "o dever invariável dos deputados rechaçar todos os créditos de guerra."

Em novembro de 1912, no Congresso de Bale, reunido durante a guerra dos Bálcãs, a Internacional dá uma clara ameaça de revolução se os governos criminosos chegarem até a guerra mundial. "Que os governos não esqueçam - declara o Congresso de Bale - que a guerra franco-alemã provocou a erupção revolucionária da Comuna, que a guerra russo-japonesa pôs em movimento as forças revolucionárias dos povos da Rússia. Os proletários consideram como um crime fazer fogo uns contra os outros em benefício dos capitalistas, por rivalidades dinásticas e tratados diplomáticos secretos".

E comentando a resolução de Bale, não foi o único a declarar: "Não iremos à guerra contra nossos irmãos, não atiremos sobre eles; se as coisas chegarem a uma conflagração, isto será a guerra sobre outra frente, será a revolução". Vitor Adler dizia categoricamente: "aproxima-se a hora em que o proletariado se servirá das armas postas em suas mãos; o proletariado intervirá como acusador; aproxima-se a hora em que o proletário terá em suas mãos o punhal com que executará sua sentença". (Fazemos esta citação pelo Basler - Vorwaerts, nº 277).

Tal era, até o presente, a linguagem da Internacional. Procurar-se-á em vão, achar nestas moções uma aprovação da guerra, ainda que defensiva.

A Internacional dizia como combater a guerra, como fazer quando a guerra estale. Dizia: "votai contra os créditos, chamai a massas aos combate, preparais a guerra civil (A Comuna dada como exemplo); recordai que as guerras não são mais que violência das classes dirigentes contra os operários, que elas são engendradas pela ordem capitalista." Apelava à luta contra a guerra moderna. Em suas moções sobre a política colonial, a Internacional, apesar dos revisionistas, desejosos de fazer uma política colonial "socialista", repetia muitas vezes que as guerras do período capitalista são feitas exclusivamente por mercados de milhares e milhões.

Porém, hoje!... Como desonraram a Internacional os social-patriotas de todos os países! A Internacional não disse nunca que os socialistas deviam participar da "defesa nacional" em toda guerra defensiva. Na época das guerras imperialistas, teria sido um absurdo puro. Kautsky escreveu uma vez:

Na situação política mundial dada, não se pode sequer imaginar uma guerra, na presença da qual fosse admissível o proletariado ou a democracia interessados na defesa contra a agressão. Por certo, os princípios da democracia nos põem na obrigação de defender a independência nacional e os princípios do internacionalismo, nos obriga à defesa da independência de cada nação. Nenhuma parte porém, da independência das grandes nações, nas quais temos que pensar quando se fala de guerra, acha-se ameaçada. O único perigo de guerra atual é criado pela política colonial mundial, em relação à qual o proletariado tem, desde o começo, adotado resolutamente uma atitude negativa... Nestas condições, não precisamos dizer aos governos que podem contar com o entusiasmo dos operários senão atacados por inimigos exteriores por causa de sua política exterior; e sim que temos que condenar toda guerra possível como um crime contra os interesses do povo. (Neue Zeit, 1907, p. 885). 

Em 1907, Kautsky não tinha deixado ainda aviltar com o papel de sábio bonzo e de teórico anexo aos senhores Sudekun e Haase. Compreendia que a guerra atual não podia ser senão uma guerra imperialista, que a pátria alemã não arriscava de modo algum o perder a sua independência, que defender o principio da independência das nações não equivalia a casar legalmente o Partido Social Democrata com os junkers prussianos.

Nas guerras imperialistas que caracterizam toda nossa época, o assaltante pode se encontrar amanhã na situação de defesa e vice-versa. Por esta razão, já não podia a Internacional aconselhar em todas as ocasiões a guerra defensiva. Não temos que confundir as perigosas declarações isoladas de alguns líderes socialistas com a opinião da Internacional. A Internacional pronunciou-se, é verdade, mais de uma vez, pelo direito das nações de disporem de si mesmas. Desde Copenhague (1910), recomendava "defender o direito de todos os povos disporem de si mesmos". A antiga Internacional, a Primeira, fez as mesmas declarações. Podem, porém, referir-se a uma guerra imperialista tão típica como a do ano de 1914?

A diferença entre uma guerra ofensiva e uma guerra defensiva é, na maioria dos casos, completamente duvidosa, escrevia Kautsky, ainda em 1905 (ver o "Patriotismo"), e em 1907, no Congresso social-democrata alemão, em Hessem, Kautsky, replicando a Bebel, disse ainda:

Na realidade, a questão não se apresentará para nós, num caso de guerra, em relação a tal ou qual nação separada, já que a guerra entre as grandes potências converter-se-á em uma guerra mundial e não se limitará a dois Estados. Acontecerá que um bom dia tentará ludibriar aos trabalhadores alemães de que França seja o agressor. O governo francês, por seu lado, fará o mesmo. E nós seremos as testemunhas de uma guerra em que os operários franceses e alemães, igualmente entusiastas e seguindo aos seus governos, estrangular-se-ão entre si.

Não, o critério da guerra defensiva, isto é, da "defesa nacional" não vale nada para os socialistas. Nós não estamos contra toda a guerra. Em 1848, Marx e Engels preconizavam a guerra revolucionária ofensiva da Alemanha contra a Rússia. A Nova Gaseta Renana escrevia: "somente a guerra contra a Rússia seria uma guerra da Alemanha revolucionária, uma guerra na qual poderia resgatar seus pecados e arranjar forças, vencer aos seus próprios autocratas".

Quão longe estamos do que hoje fazem os Sudekum e os Haase que ajudam a seus "próprios autocratas" a melhor estrangular o proletariado alemão!

A Internacional não justificou nem preconizou jamais o que fizeram os social-patriotas, em Alemanha, em Áustria, em França e na Bélgica. A simples coleção das resoluções da Internacional constituiria o melhor requisitório contra os oportunistas que as rasgaram, conduzindo assim a própria internacional krach. Os oportunistas eram muito fortes na Internacional, porem não o suficiente para afirmar, sob sua égide o patriotismo trombeteado hoje por Haase, Vaillant, Hervé e Sudekun. No momento em que o oportunismo e o patrioterismo triunfaram temporariamente nos maiores partidos da Europa, deixou de viver.

Outra Internacional a substituirá.  


Notas:

[1] Lênin se refere à Primeira Internacional fundada por Karl Marx. (N. do T.)

[2] Paráfrase do famoso postulado do Manifesto Comunista: "os operários não têm pátria". Nos tempos atuais os Sudekun, os Bernestein e os Plekanov também consideram esta afirmação como "antiquada". (Nota do autor).


Vladimir Lênin. In: A luta contra a guerra. Rio de Janeiro, Calvino Filho Editor, 1934.

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