O caráter da Revolução Russa
Leon Trotsky
O caráter da Revolução Russa
Os escribas e políticos liberais, socialistas-revolucionários e mencheviques preocupam-se muito com a significação sociológica da Revolução Russa. Será uma revolução burguesa ou qualquer outro tipo de revolução? À primeira vista, esta teorização acadêmica pode parecer um tanto enigmática. Os liberais não têm nada a ganhar ao revelarem os interesses de classe que estão por detrás da "sua" revolução. Quanto aos "socialistas" pequeno-burgueses, em geral, eles não utilizam a análise teórica na sua atividade política, mas preferem invocar o "senso comum", ou seja, a mediocridade e a ausência de princípios. A verdade é que a opinião de Milioukov-Dan, inspirada por Plekhanov, sobre o caráter burguês da Revolução Russa, não contém uma única pitada de teoria. Nem Yedinstvo, nem Rietch, nem Dien, nem a Rabotchaia Gazeta matam a cabeça para definir bem o que entendem por revolução burguesa. O objetivo das suas manobras é puramente prático: trata-se de demonstrar o "direito" da revolução burguesa para exercer o poder. Mesmo se os sovietes representam a maioria da população politicamente formada, mesmo se em todas as eleições democráticas, na cidade e no campo, os partidos capitalistas foram ultrapassados por larga margem, "dado que a revolução tem um caráter burguês", é necessário preservar os privilégios da burguesia e dar-lhe no governo um papel que a configuração dos grupos políticos no país não lhe dá absolutamente direito. Se devemos agir de acordo com os princípios do parlamentarismo democrático, é evidente que o poder pertence aos social-revolucionários, quer estejam sozinhos ou aliados com os mencheviques. Mas, como "a nossa revolução é uma revolução burguesa", os princípios da democracia estão suspensos e os representantes da esmagadora maioria do povo recebem cinco pastas no governo, enquanto os representantes de uma ínfima minoria obtêm duas vezes mais. Que vá para o diabo a democracia! E viva a sociologia de Plekhanov!
"Suponho que vocês queriam uma revolução burguesa sem a burguesia?", pergunta sutilmente Plekhanov, fazendo apelo às idéias de Engels e mesmo à própria dialética.
"É exatamente isso", interrompe Milioukov. "Nós, os cadetes, estaremos dispostos a abandonar o poder que o povo, com toda a evidência, não nos quer dar. Mas não podemos escapar-nos perante a ciência". E ele refere-se, claro, ao "marxismo" de Plekhanov como autoridade.
Dado que a nossa revolução é uma revolução burguesa, explicam Plekhanov, Dan e Potressov, devemos definir uma aliança política entre os trabalhadores e os exploradores. E, à luz desta sociologia, a fantochada das ameaças físicas entre Boublikov e Tseretelli revela-se em toda a sua significação histórica.
Denota-se um certo dissabor, que é mesmo próprio do caráter burguês da revolução, que serve agora para justificar a coligação entre os socialistas e os capitalistas, a qual, durante um bom par de anos, foi considerada por esses mesmos mencheviques como conduzindo a conclusões diametralmente opostas. Dado que numa revolução burguesa, gostavam eles de dizer, o governo no poder não deve ter outra função que não seja a de salvaguardar a dominação da burguesia, é claro que o socialismo nada tem a ver com isso, o seu lugar não é no governo, mas no seio da oposição. Plekhanov considerava que os socialistas não podiam sob nenhuma condição participar num governo burguês e atacou violentamente Kautski, cuja firmeza admitia, neste ponto, certas exceções. "Tempora legesque mutantur" [1], diziam os políticos saudosos do antigo regime. E parece que será também o caso para as "leis" da sociologia de Plekhanov.
Pouco importa a contradição entre as opiniões dos mencheviques e do seu líder Plekhanov, porque, quando se comparam as suas declarações antes da revolução com as de hoje, um único pensamento domina as duas fórmulas: não se pode fazer uma revolução burguesa "sem a burguesia". À primeira vista, isto pode parecer muito evidente, mas trata-se apenas de um grande disparate.
A história da humanidade não começou com a conferência de Moscou. Houve algumas revoluções antes. No fim do século XVIII, houve em França uma revolução, que se designa, com toda a razão, como a "Grande Revolução", e que era uma revolução burguesa. No decurso de uma das suas fases, o poder caiu nas mãos dos jacobinos, que eram apoiados pelos "sans-culottes", ou seja, pelos trabalhadores semiproletários das cidades e que interpuseram entre si e os girondinos o evidente retângulo da guilhotina. Mas apenas a ditadura dos jacobinos deu à Revolução Francesa a sua importância histórica, fazendo dela a "Grande Revolução". E, no entanto, essa ditadura foi instaurada não apenas sem a burguesia, mas ainda contra ela e contra a sua própria vontade. Robespierre, que não pôde iniciar-se nas idéias de Plekhanov, substituiu todas as leis da sociologia e, em vez de apertar a mão aos girondinos, cortou-lhes a cabeça. Isso era cruel, sem dúvida, mas essa crueldade não impediu que a Revolução Francesa se tornasse a "Grande Revolução", dentro dos limites do seu caráter burguês. Marx, em nome de quem se cometem hoje no nosso país tantos disparates, disse que "o terrorismo francês no seu conjunto não foi mais que uma forma plebéia de acabar com os inimigos da burguesia" [2]. E, como essa burguesia tinha muito medo desses métodos plebeus para acabar com os inimigos do povo, os jacobinos não privaram a burguesia apenas do poder, mas aplicaram-lhe ainda uma lei de ferro e de sangue cada vez que ela fazia qualquer tentativa para deter ou "moderar" o trabalho dos jacobinos. É claro, portanto, que os jacobinos cumpriram e realizaram uma revolução burguesa sem a burguesia.
A propósito da revolução inglesa de 1648, Engels escreveu: "Para que a burguesia pudesse recolher todos os frutos chegados à maturidade, bastava que a revolução ultrapassasse de longe os seus primeiros objetivos, como foi novamente o caso da França em 1793 e da Alemanha em 1848. Reside aí certamente uma das leis da evolução da sociedade burguesa" [3]. Vemos que a lei de Engels é diametralmente oposta à da construção engenhosa de Plekhanov, adotada pelos mencheviques e espalhada por toda parte como sendo do marxismo.
Claro, pode objetar-se que os jacobinos pertenciam eles mesmos à burguesia e à pequena burguesia. Isso é realmente verdade. Mas não será também o caso da pretensa "democracia revolucionária" dirigida pelos socialistas-revolucionários e mencheviques? Entre o partido cadete, que representava os interesses dos maiores ou menores proprietários, e os socialistas-revolucionários, não houve nenhum partido intermédio, em nenhuma eleição, fosse na cidade ou no campo. Deduziu-se daí, com uma certeza matemática, que a pequena burguesia teria encontrado a sua representação política nas fileiras dos socialistas-revolucionários.
Os mencheviques, cuja política não difere em nada dos socialistas-revolucionários, refletem os mesmos interesses de classe, mas isto não está em contradição com o fato de serem também apoiados por uma fração dos trabalhadores mais atrasados e mais conservadores e privilegiados. Por que é que os socialistas-revolucionários se mostraram incapazes de assumir o poder? Em que sentido e por que é que o caráter "burguês" da Revolução Russa (se se supõe que é esse o caso) obrigaria os socialistas-revolucionários e os mencheviques a substituir os métodos plebeus dos jacobinos pelo processo bem elevado de um acordo com a burguesia contra-revolucionária? Claro, é preciso procurar essa razão não no caráter "burguês" da nossa revolução, mas no caráter lamentável da nossa democracia pequeno-burguesa. Em vez de utilizar o poder que tem na mão como órgão da realização das exigências essenciais da História, a nossa democracia fraudulenta tem passado respeitosamente todo o poder real para a "clique" contra-revolucionária e militar-imperialista, e Tseretelli, na conferência de Moscou, pôde mesmo vangloriar-se pelo fato de os Sovietes não abandonarem o poder à força, após a sua derrota numa luta corajosa, mas por sua plena vontade, com prova de auto-apagamento político. Porém, não é com a docilidade do veado que estende o pescoço para o cutelo do carrasco que se podem conquistar novos mundos.
A diferença entre os terroristas da Convenção e os capitulados de Moscou é a diferença que existe entre os tigres e os veados: apenas uma diferença de coragem. Mas tal diferença não é fundamental, não faz mais que disfarçar uma outra diferença decisiva no plano da própria democracia. Os jacobinos encontravam a sua base nas classes dos pequenos proprietários ou não-proprietários, incluindo o embrião de proletariado que então já existia. No nosso caso, o proletariado industrial saiu da democracia imprecisa para ocupar na História uma posição em que exerce uma influência de primordial importância. A democracia pequeno-burguesa perdia as suas qualidades revolucionárias mais importantes à medida que essas qualidades se desenvolviam no proletariado ao libertar-se da tutela pequeno-burguesa. Este fenômeno foi, por sua vez, devido ao grau incomparavelmente mais elevado de desenvolvimento capitalista na Rússia em relação à França dos fins do século XVIII. O poder revolucionário do proletariado russo, que não pode de nenhuma forma ser avaliado segundo a sua importância numérica, fundamentou-se sobre o seu poder produtivo imenso, que aparece mais claramente que nunca em tempo de guerra. A ameaça de uma greve dos caminhos de ferro lembra-nos novamente, hoje, como todo o país depende do trabalho organizado do proletariado. O partido pequeno-burguês e camponês, logo desde o início da revolução, estava submetido ao fogo cruzado dos grupos poderosos, formados pelas classes imperialistas, de um lado, e o proletariado revolucionário e internacionalista, do outro lado. Na sua luta para exercer uma influência própria sobre os trabalhadores, a pequena burguesia não deixou de se orgulhar do seu "talento para gerir o Estado", mesmo do seu "patriotismo", e mergulhou assim numa dependência servil em relação aos grupos capitalistas contra-revolucionários. Ao mesmo tempo, perdeu toda a possibilidade de liquidar a antiga barbárie que impregnava os setores da população que lhe eram ainda afetos. A luta dos socialistas-revolucionários e dos mencheviques para influenciar o proletariado cedia cada vez mais o lugar a uma luta do partido proletário para obter a direção das massas semiproletárias das cidades e das aldeias. Dado que eles transmitiram "de plena vontade" o seu poder para as "cliques" burguesas, os socialistas-revolucionários e os mencheviques foram obrigados a transmitir integralmente a missão revolucionária para o partido do proletariado. E isso bastou logo para demonstrar que a tentativa para abordar as questões táticas fundamentais por uma simples referência ao caráter "burguês" da nossa revolução pode simplesmente conseguir espalhar a confusão no espírito dos trabalhadores atrasados e iludir os camponeses.
No decurso da Revolução de 1848, em França, o proletariado tinha feito já esforços heróicos para agir de forma independente. Mas não revelava ainda uma teoria revolucionária clara nem uma organização de classe reconhecida. A sua importância na produção é infinitamente menor que a atual função econômica do proletariado russo. De resto, antes de 1848 havia uma outra revolução, que resolveu à sua maneira a questão agrária, e daí resultou um isolamento muito nítido do proletariado, sobretudo em Paris, em relação às massas camponesas. A nossa situação a este respeito é infinitamente mais favorável. As hipotecas sobre a terra, as obrigações vexatórias de todo o gênero e a exploração agressiva da Igreja impõem-se à revolução como problemas inelutáveis, que exigem medidas corajosas e sem compromisso. O "isolamento" do nosso partido em relação aos socialistas-revolucionários e aos mencheviques não significaria de modo nenhum um isolamento do proletariado em relação às massas oprimidas das cidades e dos campos. Pelo contrário, uma oposição política resoluta do proletariado revolucionário perante a pérfida defecção dos atuais dirigentes do Soviéte apenas pode provocar uma diferenciação salutar entre os milhões de camponeses, arrancar os camponeses pobres à influência esmagadora dos poderosos mujiques social-revolucionários e fazer do proletariado socialista um verdadeiro e autêntico porta-voz da revolução popular e "plebéia".
Finalmente, uma simples referência vazia de sentido ao caráter burguês da Revolução Russa não nos diz absolutamente nada sobre o caráter internacional do seu próprio meio. E reside aí um fator de fundamental importância. A grande revolução jacobina encontrou-se confrontada com uma Europa atrasada, feudal e monárquica. O regime jacobino caiu, deixando espaço para o regime bonapartista, sob o peso do esforço sobre-humano que foi necessário fornecer para subsistir contra as forças unidas da Idade Média. A Revolução Russa, pelo contrário, encontra diante de si uma Europa que a distanciou muito e alcançou o nível mais elevado do desenvolvimento capitalista. O atual massacre demonstra que a Europa atingiu o ponto de saturação capitalista, que já não pode continuar a viver e a crescer na base da propriedade privada dos meios de produção. Este caos de sangue e de ruínas é a insurreição furiosa das forças caladas e sombrias da produção, é a revolta do ferro e do aço contra a dominação do lucro, contra a escravatura assalariada, contra o miserável impasse das nossas relações humanas. O capitalismo, caído no incêndio de uma guerra que ele mesmo desencadeou, grita à Humanidade pela boca dos seus canhões: "Torna-te vitoriosa ou farei mergulhar-te sob as minhas próprias ruínas quando cair!"
Toda a evolução passada, os milhares de anos de história da Humanidade, das lutas de classes e de acumulação cultural concentraram-se agora no único problema da revolução proletária. Não existe outra resposta e não há outra saída. E é isso que faz a admirável força da Revolução Russa. Não se trata realmente de uma revolução "nacional" e burguesa. Quem assim a compreende mergulha no reino das alucinações dos séculos XVIII e XIX. A nossa pátria no tempo é o século XX. O destino futuro da Revolução Russa depende diretamente do evoluir e do resultado da guerra, ou seja, da evolução das contradições de classes na Europa, às quais esta guerra imperialista confere na verdade uma natureza catastrófica.
Os Karenski e os Kornilov começaram muito cedo a falar a linguagem dos seus ditadores rivais. Os Kaledine mostraram os dentes muito cedo. O renegado Tseretelli compreendeu muito cedo o sentido do dedo desprezível que lhe apontava a contra-revolução. Até agora, a revolução apenas disse a sua primeira palavra e dispõe ainda de reservas espantosas na Europa Ocidental. Em vez dos apertos de mão dos chefes-de-fila reacionários e dos salamaleques da pequena burguesia, chegará o momento do grande abraço do proletariado russo e de todo o proletariado da Europa.
(Proletarii, nº 8, 22 de Agosto de 1917.)
Questões de táticas internacional
Os agrupamentos políticos de classe apareceram na Revolução Russa com uma clareza sem precedentes, mas a confusão que reina no domínio da nossa ideologia é também um motivo que não tem precedentes. O atraso do desenvolvimento histórico da Rússia permitiu à intelligentsia pequeno-burguesa adornar-se com penas de pavão da mais deliciosa teoria socialista. Mas essa bela plumagem tem apenas a função de cobrir a sua nudez já manchada. Se os socialistas-revolucionários e os mencheviques não assumiram o poder em princípios de março, em 16 de maio, ou em 16 de julho [4], isso nada tem a ver com o caráter "burguês" da nossa revolução, nem com a impossibilidade de a levar a cabo sem a burguesia. Deve-se, sim, ao fato de os "socialistas" pequeno-burgueses, inteiramente amarrados nas malhas do imperialismo, não se mostrarem ainda capazes de realizar uma décima parte do trabalho que os jacobinos cumpriram há cento e vinte e cinco anos. Falam muito acerca da defesa da revolução e do país, mas isso não os impedirá de entregar as suas posições, uma após outra, à reação burguesa. Por isso, a luta pelo poder torna-se no primeiro e principal problema da classe operária, e nós veremos a revolução despojar-se simultânea e integralmente da sua roupagem "nacional" e burguesa.
Portanto, ou nós conheceremos um espantoso salto para trás, em direção a um regime imperialista forte, que acabará muito provavelmente em monarquia: os Sovietes, os comitês agrários, as organizações de soldados e muitas outras coisas ainda em preparação, e os Kerenski e Tseretelli serão colocados à margem. Ou o proletariado, arrastando atrás de si as massas semiproletárias e abandonando os seus dirigentes de véspera (e nesse caso também os Kerenski e os Tseretelli serão postos à margem), estabelecerá o regime da democracia operária. Os êxitos posteriores do proletariado dependerão então, acima de tudo, da revolução européia e particularmente da revolução alemã.
Na nossa opinião, o internacionalismo não é uma noção abstrata, que apenas existe para se trair a todo o momento (o que é agradável para Tseretelli e Tchernov), mas antes um princípio diretamente dominante e profundamente prático. Alguns êxitos perduráveis e decisivos são inconcebíveis, aos nossos olhos, sem uma revolução européia. Não podemos, pois, conseguir certos sucessos à custa de formas e de combinações suscetíveis de criar obstáculos no caminho do proletariado europeu. Se não fosse por esta razão, veríamos numa oposição sem compromisso com os social-patriotas a condição sine qua non de todo o nosso trabalho político.
"Camaradas de todo o Mundo", exclamou um dos oradores no congresso pan-russo dos Sovietes, "atrasem a vossa revolução social ainda por mais cinqüenta anos!" É inútil dizer que esse conselho bem intencionado foi acolhido com os aplausos satisfatórios dos mencheviques e dos socialistas-revolucionários.
É precisamente neste ponto, sobre a questão das suas relações com a revolução social, que a diferença entre as diversas formas de utopismo oportunista pequeno-burguês e o socialismo proletário se torna importante. Existe um bom número de "internacionalistas" que explicam a crise da Internacional como uma intoxicação passageira devido à guerra e pensam que, mais cedo ou mais tarde, reencontrará a sua posição anterior, que os antigos partidos políticos tomarão novamente a antiga linha da luta de classes que, por momentos, perderam de vista. Esperanças infantis e irrisórias! A guerra não é uma catástrofe exterior; ela destrói o equilíbrio da sociedade capitalista pelo levantamento das forças produtivas em evolução nessa sociedade, contra os limites impostos pelas fronteiras nacionais e as formas da propriedade privada. Portanto, ou sofreremos convulsões contínuas das forças produtivas, sob a forma de repetidas guerras imperialistas, ou acabaremos por encontrar então uma organização socialista da produção: é essa de fato a questão que a História coloca diante de nós.
Ora, do mesmo modo, a crise da Internacional não é um fenômeno exterior ou devido ao simples acaso. Os partidos socialistas da Europa constituíram-se numa época de relativo equilíbrio capitalista e de adaptação reformista do proletariado ao parlamentarismo nacional e ao mercado nacional. "Mesmo no partido social-democrata", escrevia Engels em 1877, "o socialismo pequeno-burguês encontra os seus defensores. Os próprios membros do partido social-democrata que reconhecem os conceitos fundamentais do socialismo científico e a natureza prática da palavra de ordem de socialização de todos os meios de produção declaram que a realização dessa palavra de ordem somente é possível num futuro longínquo, do qual é praticamente impossível determinar a data precisa" [5]. Graças à duração considerável do período "pacífico", esse socialismo pequeno-burguês tornou-se realmente dominante na antiga organização do proletariado. Os seus limites e a sua falência assumiram formas bem chocantes desde que a acumulação pacífica das contradições cedeu o lugar a um espantoso cataclismo imperialista. Não foram apenas os velhos governos nacionais, mas também os partidos socialistas burocratizados que cresceram com eles, que demonstraram não estar à altura das exigências do progresso. E tudo isso se teria podido realmente mais ou menos prever.
"A tarefa do partido socialista - escrevíamos nós há doze anos - consistia e consiste sempre em revolucionar a consciência da classe operária como o desenvolvimento do capitalismo revolucionou as relações sociais. Mas esse trabalho de agitação e de organização furta-se a certas dificuldades internas. Os partidos socialistas europeus (e sobretudo o mais poderoso de todos eles, o partido alemão) alcançaram já um certo conservadorismo, que é tanto mais acentuado quanto as massas mais largamente adotaram o socialismo e a organização e a disciplina dessas massas se revelam mais completas. Por isso, a social-democracia, enquanto organização que exprime a experiência política do proletariado, pode num dado momento constituir um obstáculo imediato no caminho da luta aberta entre os trabalhadores e a reação burguesa. Por outras palavras, o conservadorismo propagandista socialista do partido proletário pode, num dado instante, impedir a luta direta do proletariado pelo poder" (Nasha Revolutsia, 1906, p. 285) [6]. Mas, se os marxistas revolucionários estavam longe de fetichizar os partidos da II Internacional, ninguém podia prever que a destruição dessas gigantescas organizações seria tão cruel e tão desastrosa.
Ora, para novos tempos, novas organizações. Sob o batismo do fogo, os partidos revolucionários espalham-se agora por toda parte. Os inúmeros descendentes ideológicos e políticos da II Internacional não viveram em vão. Mas passam agora por uma purificação interna: gerações inteiras de filistinos "realistas" são postas de lado e as tendências revolucionárias do marxismo são pela primeira vez reconhecidas na sua plena significação política.
Em cada país, a tarefa não é manter uma organização que sobreviveu a si mesma, mas reunir os elementos revolucionários realmente ofensivos do proletariado que são, na luta contra o imperialismo, atirados já para as primeiras filas. No plano internacional, a tarefa não é reunir e "reconciliar" os socialistas governamentais nas conferências diplomáticas (como em Estocolmo) [7], mas assegurar a união dos internacionalistas revolucionários de todos os países e procurar uma linha de conduta comum para a revolução social em cada país.
Na verdade, os internacionalistas revolucionários que se encontram à frente da classe operária não são hoje, através da Europa, mais que uma insignificante minoria. Mas nós, os russos, deveremos ser os últimos a espantar-nos com esse estado de coisas. Sabemos com que rapidez, no decurso das crises revolucionárias, a minoria pode passar a ser uma maioria. Logo que a acumulação do descontentamento da classe operária acabe por fazer estalar a carapaça da disciplina governamental, o grupo de Liebknecht, Luxemburgo, Mehring e os seus partidários [8] assumirá imediatamente um papel dirigente à frente da classe operária alemã. Apenas uma política revolucionária socialista pode justificar uma cisão na organização, mas ao mesmo tempo ela torna essa cisão como inevitável.
Os mencheviques internacionalistas, aqueles que se aparentam com o camarada Martov, recusam-se a reconhecer, contrariamente a nós, o caráter revolucionário-socialista da nossa tarefa política. A Rússia, declaram eles no seu programa, não está ainda preparada para o socialismo, e o nosso papel é necessariamente limitado à fundação de uma república democrática burguesa. Toda a sua atitude se fundamenta na recusa total dos problemas internacionais do proletariado. Se a Rússia estivesse sozinha no Mundo, sim, o raciocínio de Martov seria correto. Mas nós estamos empenhados na concretização de uma revolução mundial, que inclui, pois, o proletariado russo. Em vez de explicar aos trabalhadores que os destinos da Rússia estão hoje indissoluvelmente ligados aos da Europa, que o êxito do proletariado europeu nos assegurará uma realização mais rápida da sociedade socialista e que, em contrapartida, uma derrota do proletariado europeu nos lançará para a ditadura imperialista e a monarquia, acabando por nos reduzir à condição de simples colônia da Inglaterra e dos Estados Unidos, em vez de subordinar toda a nossa tática aos objetivos gerais e aos objetivos do proletariado europeu, o camarada Martov considera a Revolução Russa de um ponto de vista nacionalista estreito e reduz a tarefa da revolução à criação de uma república democrática burguesa. Esta forma de colocar o problema é fundamentalmente falsa, porque sobre ela plana a ameaça do nacionalismo mesquinho que conduziu à queda da II Internacional.
Limitando-se na prática a uma perspectiva nacional, o camarada Martov reserva para si a possibilidade viver no mesmo campo que os social-patriotas. Juntamente com Dan e Tseretelli, espera atravessar ileso a "epidemia" de nacionalismo, porque esta acabará com a guerra, e ele tem a intenção de regressar nessa altura, ao mesmo tempo em que os outros, aos caminhos "normais" da luta de classes. Martov está ligado aos social-patriotas não por uma simples e vazia tradição de partido, mas por uma atitude oportunista sobre a revolução social, que não deveria, na opinião deles, representar qualquer papel na formulação dos problemas de hoje. E é isso o que realmente os separa de nós.
A luta para tomar o poder não constitui simplesmente, na nossa opinião, a próxima etapa de uma revolução democrática. Não, é antes o cumprimento do nosso dever internacional, a conquista de uma das posições mais importantes sobre o conjunto da frente de luta contra o imperialismo. E é este ponto de vista que determina a nossa posição sobre a pretensa questão da defesa da pátria. Uma deslocação temporária da frente de um lado ou do outro não pode deter nem desviar a nossa luta, porque ela se dirige contra os próprios fundamentos do capitalismo, que parece aplicar-se à mútua destruição imperialista dos povos de todos os países.
Revolução permanente ou massacre permanente - é essa a luta de que depende o destino da Humanidade!
(Proletarii, nº 10, 4 de Agosto de 1917.)
Notas:
1. "Os tempos e as idéias mudam" (N. do T.).
2. Marx, Burguesia e contra-revolução, artigo publicado em 1858.
3. Engels, Socialismo utópico e socialismo científico, Estudos Filosóficos. Edição portuguesa da Editorial Estampa, Lisboa (N. do T.).
4. A revolução começou em 8 de março em Petrogrado. Em 11, o soviéte de Petrogrado entrou em funções. Em 12, foi criado o comitê executivo provisório da Duma. Verificou-se em maio uma crise ministerial provocada pela demissão de Milioukov em 15 de março, e isso conduziu à formação do primeiro governo de coligação. Ocorreu depois nova crise em 16 de julho, que deu lugar ao segundo governo de coligação.
5. Engels, prefácio ao livro O Problema da Habitação, Éditions Sociales, Paris, 1957, p. 13. (N. do T.).
6. Trotski, Bilan et Perspectives, págs. 463. (N. do T.).
7. A conferência de Estocolmo, proposta pelos socialistas escandinavos para fazer pressão em favor da paz sobre as nações beligerantes, não se realizou. Em abril de 1917, o dinamarquês Borbjerg alargou o convite aos Sovietes de Petrogrado; os mencheviques e os socialistas-revolucionários aceitaram, mas os bolchevistas recusaram (Cf. a nota de L. C. Fraina, 1ª parte, nota 5 do cap. 1).
8. Os elementos de esquerda, contrários à guerra, da social-democracia alemã, sob a direção de Liebknecht, Rosa Luxemburgo e Mehring, constituíram em 1 de janeiro de 1916 o "Grupo Internacional", que em seguida se tornou conhecido sob o nome de "Liga Spartacus" e, em 1 de janeiro de 1919, se transformou no Partido Comunista alemão (Ver o livro Revolução Socialista e Social-Democracia, Ed. Fronteira, col. "Revolução", nº 12).
Leon Trotski. In: A luta pelo poder. Amadora, Portugal, Gronteiro, 1977
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