De outubro vermelho ao meu desterro
Leon Trotsky
O Confinamento
Respondi, pois, à exigência de cessar toda atividade política, declarando que somente uma burocracia depravada em absoluto podia formular tamanha exigência, e que só uns renegados poderão acatá-la. Provavelmente, nem os próprios stalinistas esperavam outra resposta.
Passou-se um mês sem variações. Nossa comunicação com o mundo exterior se interrompeu por completo, até mesmo a comunicação ilegal organizada por alguns companheiros jovens, os quais, enfrentando imensas dificuldades, tinham me enviado com regularidade, para Alma Ata, abundantes relatórios procedentes de Moscou e de outros centros. Durante o mês de janeiro, recebemos apenas os jornais moscovitas. Quanto mais estes falavam da luta contra a direita, mais certeza tínhamos de que haveria uma investida iminente contra a esquerda. Este é o método de Stalin.
Decisão criminosa e ilegal
Enquanto isso, Volynsky, emissário do “Guepeu”, permanecia em Alma Ata, onde aguardavam novas instruções. No dia 20 de janeiro, chegou à minha casa, acompanhado de numerosos agentes armados dessa instituição, os quais se posicionaram junto a todas as saídas, e me apresentou o seguinte extrato da ata da Conferência Especial, simpatizante do “Guepeu”, datado de 18 de janeiro de 1929.
“Entendido: O caso do cidadão Leon Davidovitch Trotsky, acusado, conforme o artigo 58/1 do Código Penal, de atividade contra-revolucionária que se manifestou na organização de um partido ilegal cuja atividade tendia, nos últimos tempos, a provocar intervenções anti-soviéticas e a preparar uma luta armada contra o poder dos Sovietes.
“Resolvido: Confinar da U.R.S.S o cidadão Leon Davidovitch Trotsky”.
Quando me foi exigido o comprovante de que estava ciente dessa decisão, escrevi:
“No dia 20 de janeiro de 1929, foi-me notificada a resolução do “Guepeu”, criminosa pelo conteúdo e ilegal pela forma. - Trotsky”.
Qualifiquei essa decisão de criminosa porque se baseava conscientemente na afirmação falsa de que eu havia preparado uma luta armada contra o poder dos Sovietes. A utilização dessa fórmula, da qual Stalin precisava para justificar meu confinamento, constituía por si só uma atividade odiosa contra o poder soviético. Porque se fosse verdade que a oposição dirigida pelos organizadores da revolução de outubro, criadores da República dos Sovietes e do exército vermelho, havia preparado por meio das armas, a derrubada do poder soviético, esse fato significaria que a situação do país era catastrófica. Assim, nossos adversários do mundo burguês e até os mais dispostos às concessões deveriam dizer para si mesmos: “Não nos apressemos tanto para reatar as relações econômicas e esperemos o final da luta armada”. Afortunadamente, a fórmula utilizada pelo “Guepeu” era apenas uma insolente invenção policial. A política da oposição não tinha nada de comum com a preparação de uma luta armada. Tomamos como ponto de partida a profunda vitalidade do regime soviético, da qual estamos plenamente convictos. Nosso rumo é a reforma interna. Aproveito esta ocasião para proclamá-lo ante o mundo inteiro e proteger assim, embora só em parte, os interesses da República dos Sovietes contra o golpe que lhe é assestado pela fórmula completamente falaz do “Guepeu”, ditada por Stalin. Por maiores que sejam as dificuldades interiores da República Soviética na atualidade, não apenas por conseqüência de circunstâncias objetivas, mas também pela imponente política de vacilações, se enganarão aqueles que, contra seu próprio bem, novamente acreditarem na queda próxima do poder dos Sovietes.
Parece que Sir Austen Chamberlain não abraça essas ilusões. Seu critério possui um caráter muito mais prático. Por acreditar nos comunicados que a imprensa publica com insistência, especialmente o órgão norte-americano “The Nation”. Ele opina que as relações regulares com a União Soviética serão perfeitamente possíveis assim que Trotsky for “colado” no muro.
Esta lapidária fórmula prestigia o temperamento do ministro conservador, quem, no entanto, usa uma linguagem muito mais pacifista quando se trata da marinha de guerra norte-americana. Ainda que não esteja encarregado de nenhuma gestão diplomática, tomo a liberdade – em função do interesse geral e, parcialmente, do meu também - de aconselhar o ministro de Assuntos Exteriores da Grã-Bretanha que não insista em que sua exigência seja satisfeita. Stalin já demonstrou quão disposto estava para se adiantar aos desejos de Mister Chamberlain, desterrando-me da União Soviética. Se não fez ainda mais, não foi por falta de vontade. Na verdade, resultaria imensamente irracional punir, por esse motivo, a economia soviética e a indústria britânica. Além disso, permito-me lembrar que as relações internacionais se baseiam no princípio da “reciprocidade”. Mas não quero insistir nesse desagradável assunto.
Para meu resguardo, eu havia qualificado a resolução do “Guepeu”, além de criminosa no conteúdo, de ilegal na forma. Com isso, eu queria dizer que o “Guepeu” pode nos propor partir para o exterior sob ameaça de algumas sanções internas, mas não pode expedir alguém ao exterior sem o consentimento da pessoa expulsa.
Após exigir que me informassem para onde e como seria desterrado, tive como resposta que, ao chegar à Rússia européia, seria informado por um representante do “Guepeu” que viria ao meu encontro.
A marcha
No dia seguinte, com muita pressa, conseguimos arrumar nossos baús cheios quase exclusivamente de livros e manuscritos. Os dois “pointers” observavam, inquietos, a abundância de indivíduos estranhos e barulhentos no tranqüilo aposento. Digo de início que não houve, por parte dos agentes da NKVD, nem sombra de hostilidade, aliás, muito pelo contrário.
No dia 22, ao amanhecer, entrei em um ônibus com minha mulher, meu filho e uma escolta que nos levou por uma estrada, cheia de neve e escorregadia, até o desfiladeiro de Kurday. Este desfiladeiro se encontrava coberto de neve, resultado de uma forte tempestade. O poderoso trator que devia nos rebocar pela neve do Kuraday afundou por completo na neve com os sete automóveis que arrastava atrás de si. Durante a tempestade, morreram de frio sete homens e muitos cavalos. Foi mister transportar a carga em trenós dos aldeões. Demoramos mais de sete horas para percorrer uns trinta quilômetros. Por todo o caminho, havia muitos trenós abandonados cobertos de neve e com as pás para o ar, assim como numerosos carregamentos destinados à construção da estrada de ferro Turquistão-Sibéria, e numerosas cisternas de petróleo enterradas embaixo da neve. Homens e cavalos se refugiaram nas cabanas de inverno dos quirguizes.
Ao sair do desfiladeiro, prosseguimos de automóvel até Pichpeck (Frunsé), onde embarcamos no trem. Os jornais moscovitas que comprávamos nas estações testemunhavam a preparação da opinião pública para o desterro dos líderes da oposição. Na região de Aktiubinsk, nos avisaram por telégrafo que nosso desterro seria em Constantinopla. Exigi falar com duas pessoas da minha família que ficaram em Moscou. Reuniram-nos na estação de Riajsk, onde eles foram submetidos ao mesmo regime que nós. Um segundo representante da NKVD, Bulanov, procurava me convencer das vantagens de Constantinopla. Neguei-me categoricamente a partir. Conversações telegráficas de Bulanov com Moscou. Lá, tudo estava previsto, exceto a minha negativa de ir de bom grado para o estrangeiro. Havendo se perdido, nosso trem andava lentamente. Acabou parando em uma via vazia e logo depois em uma pequena estação para, por fim, parar entre dois bosques. Ali transcorreram horas e horas. Nas proximidades do trem, aumentava o número de latas de conserva vazias. Cada vez mais se aglomeravam ao redor, em grupos maiores, os corvos e gralhas para aproveitarem as sobras. Os aldeões não tinham lebres: elas haviam sido dizimadas no outono por uma epidemia terrível. Todos os dias, saía uma locomotiva com um vagão para buscar a comida em alguma estação importante. Dentro do vagão em que nos encontrávamos, reinava a gripe. Eu relia a Anatole France e o curso de história russa de Kliutchevski. O frio chegava a 38º Réamur [1] e a locomotiva andava pelos trilhos para não congelar. Através do ar, se interpelavam as estações T.S.H., perguntando onde estávamos. Minha família e eu não escutávamos essas perguntas porque jogávamos xadrez; porém, mesmo que as tivéssemos escutado, não saberíamos o que responder. Levados ali a noite, ignorávamos em que ponto nos encontrávamos: estávamos em algum lugar da região de Kursk e era tudo. Assim passamos doze dias e doze noites.
Ali soubemos da prisão de centenas de militantes, entre eles os que se chamavam “o centro trotskista”. Publicaram os nomes de Kavtaradzé, ex-presidente do Conselho de Comissários do Povo da Geórgia; Mdivani, ex-representante comercial da U.R.S.S. em Paris; Drobnis, uma das figuras mais heróicas da revolução na Ucrânia, etc. Todos eram militantes pertencentes ao partido desde sua fundação e organizadores de Outubro.
No dia 8 de fevereiro, declarou Bulanov:
- Apesar de todas as insistências de Moscou, o governo Alemão se nega veementemente a admitir você na Alemanha. Deram-me a ordem definitiva de levá-lo a Constantinopla.
- Não partirei por minha vontade, e assim declararei na fronteira turca.
- Isso em nada afetará esta questão, pois não será por isso que não será levado a Turquia.
- Vocês então fizeram um acordo com a polícia turca para eu ingressar à força naquele país?
- Não sei uma palavra a mais e não faço outra coisa a não ser cumprir ordens.
Depois de doze dias parado, o trem voltou a se mover. Ele havia crescido porque havia aumentado a escolta. Não podíamos sair do vagão durante todo o trajeto desde Pichpeck. Agora caminhávamos a todo vapor para o sul. Não parávamos mais a não ser nas estações pequenas para pegar água e combustível. Estas precauções se davam em conseqüência dos protestos que minha deportação gerou na estação de Moscou em janeiro de 1928. Então, manifestantes impediram com violência a partida do meu trem para Tachkent, de sorte que não pude ir embora até o dia seguinte, às escondidas. No caminho, os jornais traziam os ecos da nova campanha magna contra a luta mantida nas esferas superiores sobre a questão da minha prisão. A facção stalinista tinha pressa. Assim, tentaria vencer não somente os obstáculos da política, como os da Natureza. Estava confirmada a saída do navio Kalinin de Odessa; porém estava encalhado no gelo, e foram vãos todos os esforços para liberar sua saída. Moscou permanecia telegrafando para acelerar a partida. Com urgência, se conseguiu o barco “Ilitch”. Nosso trem chegou a Odessa às dez da noite. Contemplei pela janela os lugares familiares: nessa cidade, passei sete anos de minha vida escolar.
Nosso vagão foi arrastado até o navio. Fazia um frio atroz. Apesar da escuridão da noite, vi que o cais estava cercado por agentes e tropas da NKVD. Não houve outra coisa a se fazer do que nos despedir das pessoas de nossa família que haviam compartilhado minha detenção nas últimas duas semanas. Pela janela do vagão, olhava o navio que me estava destinado, e recordava de outro navio que também me levou a um destino contrário ao que desejava.
Era março de 1917, nas cercanias de Halifax, no Canadá. Marinheiros ingleses me pegaram pelos braços, na presença de muitos viajantes, para me afastar do paquete norueguês “Christianford”, que ia me levar, provido de todos os documentos necessários, para Cristiana-Petrogrado, Minha família, então, era composta dos mesmos que agora, só que doze anos mais novos. Meu filho mais velho, que tinha onze anos a época, golpeava com sua mãozinha um marinheiro inglês, sem que eu pudesse deter este gesto com o qual, candidamente, ele esperava conseguir minha liberdade e sobretudo minha posição vertical. Foi então que fiquei por um tempo no campo de concentração de Amhurst, ao invés de ir para Petrogrado.
Sem cargas e outros viajantes, o Ilitch zarpou do cais à uma da madrugada. Um barco rompe-gelo abriu nosso caminho por umas setenta milhas. Somente nos atingiu ligeiramente a tempestade que rugia na região. No dia 12 de fevereiro, penetramos no Bósforo. Entreguei ao oficial da polícia turca a declaração de que era trazido à força para Constantinopla. Não teve nenhuma conseqüência. O barco adentrou mais a baía. Depois de vinte e dois dias de viagem, havendo percorrido 6.000 quilômetros, nos encontrávamos em Constantinopla.
Como pode ocorrer isso?
Para a pergunta “Como pode ocorrer isso?”, cabe dar duas respostas: ora descrevendo o mecanismo de luta de grupos da direção, ora desvendando o movimento das mais profundas forças sociais. Ambos os métodos podem justificar-se. Não se exclui um do outro. É natural que, diante de tudo, o leitor queira possuir um resumo dos feitos, que deseje saber como se produziu uma mudança tão radical de orientação, por quais vias Stalin se apoderou do aparato estatal e o dirigiu contra os demais. Em proporção ao assunto fundamental da reorganização das forças de classes e da sucessão das diversas etapas revolucionárias, não tem mais que uma importância secundária o que diz respeito aos agrupamentos, combinações e personalismos; porém é perfeitamente legítimo situá-lo em seu justo lugar. Respondamos.
O que é Stalin?
O que é Stalin? Se tentarmos caracterizá-lo brevemente, conviria dizer que “é a mediocridade mais notável de nosso partido”. É dotado de sentido prático, de obstinação e tenacidade para perseguir suas causas. Seu horizonte político é extremamente restringido. Seu nível teórico parece dos mais primitivos também. O livro que compilou, As Bases do Leninismo- com o qual procurou pagar seu tributo as tradições teóricas do partido - delata mil erros escolares. Sua ignorância de línguas estrangeiras – não conhece nenhuma - o obriga a seguir a vida política de outros países unicamente pela referência dos outros. Sua configuração espiritual se mostra a de um empírico obstinado, desprovido de imaginação criadora. As esferas superiores do partido – entre a massa, em geral, não o conheciam - viam nele um homem adequado para exercer papéis de segunda e terceira ordem. O fato de que na atualidade representa o primeiro escalão é característico de um período transitório, de equilíbrio instável, muito mais do que o próprio Stalin. Já havia dito Helvetius: “cada tempo tem seus grandes homens, e se não os tem, os inventa”.
Como todos os empíricos, Stalin está cheio de contradições. Trabalha sem perspectivas, sob ação dos choques do momento. Sua linha política é uma série de ziguezagues. A cada uma dessas voltas, cria uma teoria ad hoc ou encarrega outra pessoa que a improvise por ele. Distinguiu-se por uma falta de escrúpulos extraordinários na maneira de tratar as pessoas e as coisas. Nunca terá dificuldades em chamar de branco aquilo que ontem chamava de negro. Com facilidade, poderia se fazer um catálogo assombroso das considerações de Stalin. Não citarei senão um exemplo que cabe melhor que outros no espaço de um artigo de jornal. De antemão, me desculpo por esse exemplo dizer respeito a mim pessoalmente.
No decorrer dos últimos anos, Stalin dedicou todos seus esforços ao “destronamento” Trotsky. Forjou com toda pressa uma nova história da Revolução de Outubro, uma nova história do exército vermelho e uma nova história do partido. Stalin deu o sinal de uma nova conjectura de valores, ao declarar no dia 19 de novembro de 1924: “Trotsky não desempenhou e nem poderia ter desempenhado nenhum papel especial no partido, nem na insurreição de outubro”.
Começou a repetir esta afirmação em todas as ocasiões. Então se recordou de um artigo que ele mesmo havia escrito motivado pelo primeiro aniversário da Revolução. Dizia o artigo, textualmente: “Todo o trabalho de organização prática da insurreição se desenvolveu sob a direção de Trotsky, presidente do Soviete de Petrogrado. Pode-se dizer, com certeza, que o partido, antes de tudo e sobretudo, deve a Trotsky a adesão rápida da guarnição ao Soviete e a hábil organização do Comitê Militar Revolucionário”.
Como Stalin se livrou desse difícil atoleiro? Muito simples. Dirigiu aos trotskistas uma boa quantidade de novos insultos. Há centenas de exemplos. Contradições assim caracterizam suas opiniões acerca de Zinoviev e Kamenev. Sem dúvida alguma, em algum momento bem próximo, repetirá o mesmo em relação a Rykov, Bukanin e Tomsky, de forma mais venenosa, os mesmos julgamentos que ontem dirigia à oposição.
Como Stalin poderia arriscar-se a cair em tamanhas contradições? Simplesmente porque intervém com seus discursos ou seus artigos depois de impossibilitar seus adversários de contestá-lo. Sua política não é mais que um eco de seu mecanismo de organização. O stalinismo é principalmente o trabalho automático do aparato estatal.
No que chamou de seu “testamento”, Lênin apontava dois grandes traços da personalidade de Stalin: sua brutalidade e sua deslealdade. Porém, até a morte de Lênin, estes traços não tinham alcançado seu pleno desenvolvimento. Sobretudo, Stalin se preocupa em imprimir o aspecto mais peçonhento possível à luta no seio do partido, colocando-se assim como fato consumado a cisão.
Dois pratos “apimentados”
Já em 1921, Lênin advertia o partido: “Esse cozinheiro não preparará mais que pratos apimentados”. Não é o único prato deste gênero o decreto da NKVD acusando a oposição de organizar a luta armada contra os sovietes.
Em julho de 1927, ou seja, estando a oposição dentro do partido, Stalin levantou de súbito a questão: “Seria a oposição hostil aos triunfos da U.R.S.S. nas futuras batalhas contra o imperialismo?” É inútil aludir que não havia a menor razão para lançar essa insinuação. Mas o cozinheiro começava a temperar o prato do artigo 58. Como tem uma importância internacional a atitude da oposição em defesa da U.R.S.S., estimo ser necessário, em interesse da República dos Sovietes, citar aqui uma parte do discurso com o qual respondi imediatamente a questão levantada:
“Deixemos de lado por um instante – dizia eu no plenário do Comitê Central e da Comissão Central de Inspeção de 1927 - a arrogância da pergunta. Recordemo-nos agora de como Lênin caracterizava os métodos de Stalin quando empregava, pensando severamente, as palavras “brutalidade” e “deslealdade”. Aceitemos a questão como foi levantada e respondamos. Somente os soldados brancos podem ser hostis ao triunfo da U.R.S.S. nas batalhas futuras contra o imperialismo. No fundo, Stalin está formulando outra pergunta, que é a seguinte: “A oposição sabe que minha direção incapaz de assegurar a vitória da U.R.R.S?” Sim, a oposição entende que a direção de Stalin tornará difícil nosso triunfo. Todo o oposicionista ocupará o posto de combate que lhe confie o partido, tanto na frente de batalha, com na retaguarda. Porém, nenhum de nós renunciará a seu direito e dever de lutar para corrigir a direção do partido... Em resumo: pela pátria socialista, sim; pela manutenção de Stalin, não.”
Mesmo que as circunstâncias tenham se transformado, estas palavras conservam toda a sua força para nós, hoje em dia.
Junto à falsa organização da luta armada pela oposição e nossa suposta hostilidade para com a U.R.S.S., sou obrigado a mencionar o terceiro prato do “menu” especial de Stalin. Trata-se dos atos terroristas.
Segundo pude conferir, ao chegar em Constantinopla, já encontravam eco na imprensa mundial alguns rumores imprecisos sobre certas intenções terroristas que dizem estar ligadas a certos grupos da oposição trotskista. Posso ver claramente a origem de tais rumores. Várias vezes, desde Alma Ata, adverti meus amigos que, dado o caminho que empreendia, Stalin deveria experimentar uma necessidade crescente de que houvesse intenções terroristas por parte dos trotskistas. Não há a menor esperança de imputar a oposição, dirigida por um Estado Maior de militantes bastante experientes e responsáveis, a preparação de um levante armado. Porém, atribuir um projeto terrorista a um grupo de trotskistas anônimos, configura-se como um problema muito mais fácil de se resolver. Visivelmente, os esforços de Stalin caminham nesse sentido. Denunciar em voz alta não conseguirá tornar este esforço impossível; mas, sim, torná-lo-ia de muito mais difícil realização.
Em 1926, o caráter dos métodos de luta de Stalin me obrigou a dizer-lhe, durante uma sessão da Mesa Política, que apresentava sua candidatura na qualidade de coveiro do partido e da Revolução. Agora repito esta advertência com uma força formidável em meu apoio. No entanto, tanto agora como em 1926, estou profundamente persuadido de que Stalin não triunfará no partido, e sim que o partido será quem vai vencer Stalin.
A vitória de Stalin
Stalin foi eleito secretário-geral do partido, mesmo com Lênin vivo, no ano de 1921. Por aquela época, a função tinha um caráter mais técnico do que político. Entretanto, Lênin se pronunciava contra a candidatura de Stalin. Foi precisamente sobre isso que se referia ao falar do “cozinheiro com tendências aos pratos fartamente apimentados”. Porém, cedeu às instâncias da Mesa Política, mesmo que sem grande entusiasmo. “Ensaiemos e já veremos...”, declarou.
A doença de Lênin modificou a situação imediatamente. Até então, era ele quem presidia a Mesa Política e tinha em suas mãos influência para mandar no que era essencial ao partido. Stalin, como secretário-geral, não era mais do que encarregado da execução e do trabalho secundário. Cada um dos demais indivíduos da Mesa se ocupava de suas funções particulares. Afastado do trabalho, Lênin passou automaticamente o mando do partido para Stalin. Não era senão uma situação provisória a que assim se criava. Ninguém propôs mudanças, porque esperava-se uma rápida recuperação do comandante. Entretanto, Stalin se entregava a uma atividade febril e colocava todos os seus homens no aparato estatal. Quando Lênin se recompôs de seu primeiro ataque e retornou ao trabalho por algum tempo, nos anos de 1922-1923, se assustou ao ver o quão burocrático havia se tornado o procedimento e o quanto havia progredido a onipotência de Stalin sobre a massa do partido.
Insistindo para que eu o substituísse no Conselho de Comissários do Povo, Lênin manteve conversação comigo no sentido de lutar prontamente contra a burocracia stalinista. A chave desse problema estava em empreender esta luta evitando a menor divisão possível do partido. Mas se agravou o estado de saúde do chefe. No documento conhecido como “testamento”, escrito no dia 4 de janeiro de 1923, aconselhava, com insistência, relevar Stalin a funções meramente essenciais, por sua deslealdade e por sua inclinação a abusar do poder. Mas não demorou muito para que voltasse à cama. Se reproduziu a situação provisória com Stalin à frente do partido. Durante o passar dos dias, ia diminuindo a esperança de que Lênin se curaria. A perspectiva de seu completo afastamento incitava a questão de saber quem iria dirigir o partido.
O septunvirato
Até então, ainda não se haviam tornado claras as divergências de princípios. Teve um caráter meramente pessoal a agrupação que se manifestou hostil à minha pessoa. “Impedir que Trotsky dirija o partido” foi a palavra de ordem de Zinoviev, Stalin etc. Mais tarde, durante a polêmica entre Zinoviev e Kamenev contra Stalin, foram divulgados os mistérios daquele período pelos mesmos que participaram do complô. Porque foi um verdadeiro complô. Havia-se criado uma Mesa Política secreta (o Septunvirato), da qual faziam parte todos os membros da Mesa Política oficial, exceto eu e quem estava próximo de Kuybychev, então presidente do Conselho Superior de Economia Nacional. Todas as questões eram previamente resolvidas na mesa clandestina, cujos indivíduos estavam ligados por um pacto coletivo. Comprometiam-se a não criar polêmicas uns contra os outros, e ao mesmo tempo, aproveitar todos os pretextos para intervir contra as minhas posições. Dentro dos organismos locais, existiam centros secretos análogos que estavam em contato com o “Septunvirato” de Moscou e observavam uma disciplina severa. Correspondiam-se com uma linguagem cifrada. Era uma perfeita organização ilegal dentro do seio do partido, e que a principio se dirigia contra um só homem. Selecionavam os funcionários responsáveis do partido e do Estado segundo um critério único: que estivessem contra Trotsky.
Durante o largo interlúdio causado pela doença de Lênin, efetuou-se incansavelmente esta tarefa, porém com muita prudência, de modo que, no caso de Lênin se recuperar, poderiam se conservar, em sua integridade, “as pontes minadas”. Exigia-se do candidato a qualquer função que adivinhasse o que se esperava dele. Aquele que “adivinhava” prosperava. Assim se criou uma forma especial de arrivismo que só se chamaria de “antitrotskismo” mais tarde. A morte de Lênin deixou tempo livre para a formação desta conspiração, permitindo-a mostrar-se na luz do dia.
Os indivíduos do partido que exteorizavam seu protesto contra esta política caíam vitimas de pérfidos ataques desencadeados por motivos que não tinham nada a ver com isso e muitas vezes eram inventados. Ao contrário, os elementos de pouca moralidade que durante o primeiro qüinqüênio de poder dos Sovietes foram eliminados sem piedade do partido, consolidavam sua situação com uma simples intervenção contra Trotsky. No final de 1923, se procedeu a mesma tarefa em todos os partidos da Internacional Comunista: foram expulsos alguns chefes e vieram a substituí-los outros, unicamente por sua atitude com respeito a Trotsky. Houve uma seleção artificial, não dos melhores quadros, mas sim daqueles com maior facilidade a se adaptar a nova realidade. A orientação geral se reduziu a substituir as personalidades capazes, que tivessem valor próprio, por mediocridades que tinham dívidas em relação à sua situação somente ao aparato estatal. Por sua parte, Stalin se converteu na expressão suprema de tal mediocridade.
As discussões
Assim estavam tomados três quartos do poder nos fins de 1923, e já se fazia possível transferir a luta para as multidões. Os diferentes exércitos ocuparam diversas posições de partida e aguardaram o sinal de ataque. Ele foi dado. As duas primeiras “discussões” francamente dirigidas contra mim, no outono de 1923 e no de 1924, coincidiram ambas com minha doença, o que não me permitiu intervir em nenhuma reunião do partido. Sob a pressão violenta do Comitê Central, começou a preparação da massa ao mesmo tempo e por todos os lados. Trouxeram à luz, desfigurando-as, exagerando-as e apresentado-as como questões atuais à multidão desinformada, minhas antigas desavenças com Lênin, que não só datavam de antes da Revolução, quando não da Guerra, e que desde muitos anos estavam abolidas pela luta comum. As pessoas ficaram atordoadas, derrotadas e intimidadas. Mesmo assim, descia um nível abaixo do procedimento de seleção de pessoal. Não foi mais possível exercer o cargo de diretor de fábrica, de secretário de célula de oficina, de presidente de comitê executivo de território, de contador ou de datilógrafo sem exibir seu antitrotskismo como referência.
Enquanto foi possível, evitei tomar parte nessa luta, tanto mais durante seus primeiros momentos, que tinham um caráter claro de complô sem motivos contra mim, pessoalmente. Porque, após iniciar-se uma luta de tal índole, adquiriria uma acuidade extraordinária que, sob uma ditadura revolucionária, poderia ter conseqüências terríveis. Não procede elucidar aqui se foi justo se esforçar às custas de enormes concessões pessoais para permanecer em um terreno que permitisse trabalhar coletivamente, se devia empreender uma ofensiva, não obstante a ausência de razões políticas suficientes. O caso é que optei pelo primeiro caminho, e apesar de tudo, não me arrependo. Há vitórias que nos levam a becos sem saída e derrotas que abrem novos horizontes...
Até quando se concentraram em profundas divergências políticas, rechaçando com energia a intriga pessoal, eu mantive o debate nos limites de uma discussão de princípios. A fim de facilitar a comprovação com cálculo e prognósticos contraditórios, me opunha a que se acelerasse a luta. Apressavam-na, com todo afinco, Zinoviev, Kamenev e Stalin, que se dissimulava por detrás dos outros dois primeiros. Precisamente, o que queriam, era não deixar tempo para que o partido refletisse e apreciasse as divisões que se baseavam na experiência. Quando Zinoviev e Kamenev se separaram de Stalin, este utilizou automaticamente contra eles a força adquirida quando perseguiu o trotskismo, força essa que eles tinham desenvolvido em comum acordo com ele.
Vitória das tendências moderadas e conservadoras
O que antecede não é uma explicação histórica do triunfo de Stalin, mas sim uma descrição rápida da maneira como ele obteve esta vitória. Sobretudo, não implica em uma queixa contra determinadas intrigas. Qualquer política que veja a causa de sua derrota nas intrigas do adversário está cega e infunde em lástima. A intriga supõe, de certo modo, o lado técnico do assunto, e não pode representar mais que um papel secundário. As grandes questões históricas se resolvem por obra das grandes forças sociais. A despeito de todos os seus vacilos e de sua instabilidade, a vitória de Stalin é uma manifestação das mudanças consideráveis que se produziram nas relações de classes da sociedade revolucionária; é o triunfo ou semitriunfo de certo meios e agrupações sobre outros, é o reflexo das mudanças que se efetuaram na situação internacional dos últimos anos. Porém, já se constitui, por si só, um grande tema este encadeamento de questões.
Por agora, me limitarei a não fazer mais que uma observação. Apesar de todos os erros e de todas as confusões que a imprensa mundial hostil ao bolchevismo cometeu ao julgar as diversas etapas e os diversos episódios da luta intestina da União Soviética, soube está imprensa distinguir com bastante justeza o núcleo social de semelhante luta: a vitória de Stalin implica a vitória das tendências mais moderadas e mais conservadoras, vencendo as tendências da revolução proletária internacional e as tradições do partido bolchevique.
Não tenho, pois, razão alguma para protestar contra os elogios tão freqüentes que a imprensa faz do realismo de Stalin. Minha outra questão é saber até que ponto se denota sólido seu êxito e em que sentido orientará sua evolução posterior.
Aonde vai a República Soviética?
Desde o golpe de Estado de outubro, as colunas da imprensa internacional não abandonaram esta pergunta. No momento atual, se formula a respeito de meu desterro que os adversários do bolchevismo consideram sintoma de um desenlace esperado há muito tempo. Não me cabe negar que este desterro tenha uma importância menos pessoal do que política. No entanto, tampouco neste momento aconselharei dar pressa a deduzir “o começo de um fim”.
Vão resultaria recordar como os prognósticos históricos se diferenciam dos prognósticos astronomicos no sentido de que são sempre relativos, facultativos e alternativos. E seria ridículo pretender fazer uma predição exata quando se trata da luta de forças vivas. O problema da previsão histórica consiste em distinguir o possível do impossível, e em deduzir, entre os diferentes conceitos teóricos, quais parecem mais verossímeis.
“Aonde vai a revolução?”: não poderá encontrar resposta tal pergunta, por pouco fundamentada que seja, senão no resultado da análise de todas as forças interiores daquela, assim como das circunstâncias entre as quais ela se agita. Semelhante estudo exige um livro. Desde Alma Ata, trabalhei neste livro, que espero acabar em breve. Aqui somente posso indicar os grandes traços das pautas que devem ser seguidas para buscar esta resposta. É certo que a Revolução Russa se acha próxima de sua liquidação? Estão esgotados os recursos internos? Que regime poderá suceder a ela: uma democracia, uma ditadura ou uma restauração monárquica?
O curso de um processo revolucionário é muito mais complexo que o de uma cachoeira em uma montanha. Porém, lá como aqui, se evidencia absolutamente normal a mudança de orientação mais paradoxal à primeira vista. Não convém exigir, em primeiro lugar, uma norma externa e esquemática. Antes, convém adotar uma norma natural, determinada pelo volume de água corrente, a topografia da região, o caráter das correntes de ar etc. Na política, isto significa que, depois das mais altas ascensões da Revolução, temos de prever a possibilidade e a probabilidade de descensos abruptos, às vezes prolongados, e ao contrário, nos períodos de maior decadência, como, por exemplo, no momento da contra-revolução de Stolypin (1907-1910), discernir os prolegômenos de uma nova ascensão.
Dois períodos principais
As três revoluções que a Rússia atravessou no último quarto de século constituem, na realidade, as etapas de uma só e mesma revolução. Entre as duas primeiras, transcorreram doze anos; entre a segunda e a terceira, não se passaram mais de nove meses. Os onze anos de existência da Revolução Soviética se decompõem, igualmente, em uma série de etapas, entre as quais se assinalam duas principais. A doença de Lênin e o começo da luta contra o trotskismo podem quase ser estimados como a linha que demarca as separa. Durante o primeiro período, as massas desempenharam um papel decisivo. A história não conhece outro exemplo de revolução que colocou em movimento massas semelhantes às que se insubordinaram na Revolução de Outubro. E existem hoje entes originais que a consideram uma aventura! Pensando assim, denigrem até reduzir a nada o que defendem. Qual seria o valor do organismo social que uma nova “aventura” poderia derrubar? Na realidade, o sucesso da Revolução de Outubro – único feito que durante os anos mais críticos resistiu a legiões de inimigos - foi garantido pela atividade e iniciativa das massas urbanas e camponesas. Sobre esta sólida base, pode-se criar o aparato governamental e o exército vermelho. Esta é, em todo caso, a minha principal dedução sobre minha experiência na matéria.
O segundo período, que trouxe uma transformação radical da direção do governo, se caracteriza por uma diminuição incontestável da atividade imediata das massas: o rio volta ao seu leito. Por cima da multidão, cada vez mais se eleva o aparato diretivo centralizado. Burocratizaram-se o Estado soviético e o exército. Aumentou a distância entre as esferas dirigentes e as massas. Cada vez mais o aparato estatal adquire um caráter de “fim por si”. O burocrata está cada vez mais convencido de que se levou a cabo a Revolução de Outubro exclusivamente para concentrar em suas mãos o Poder e garantir-lhe uma situação privilegiada. Creio que não há lugar para explicar como as contradições positivas que discernimos no desenvolvimento do Estado Soviético não comportam argumentos a favor de uma negação anarquista, quer dizer, total e estéril, do Estado em geral.
Em uma carta notável [2] consagrada aos fenômenos degenerativos do aparato governamental e do partido, meu antigo amigo Rakovsky indica de maneira muito demonstrativa como, depois da conquista do Poder, se formou no seio da classe operária uma burocracia independente, e como foi, primeiramente, somente funcional essa diferenciação, para tornar-se rapidamente em social.
Naturalmente, o processo interno da burocracia se desenvolveu em união estreita com outro, mais profundo, que surgiu subitamente dentro do país: com os princípios da N.E.P. (Nova Política Econômica), viu-se renascer uma ampla categoria de pequenos burgueses nas cidades. Ressuscitaram as profissões liberais. Na aldeia, ascendeu o aldeão rico, o “kulak”. Precisamente porque se havia alçado por cima das massas, o corpo de burocratas teve de se aproximar, ao abrigo de suas amplas esferas, destas camadas burguesas, e comprometer-se com elas. Cada vez mais foram criados pela burocracia uma trava maior à iniciativa e ao espírito crítico das massas. Sobre elas se acentuou a pressão do aparato estatal, tão mais facilmente quanto, conforme foi dito já, a reação psicológica das mesmas se expressava por uma diminuição de sua atividade política. Durante os últimos anos, discretamente ocorreu aos trabalhadores escutar esta apóstrofe dos burocratas ou dos novos proprietários: “Já não estamos em 1918!”. Dito de outro modo, modificou-se a proporção de forças às custas do proletariado.
Corresponderam a este processo de transformação outros internos ao partido. Não há de se esquecer nem por um instante que a nebulosa maioria de tal partido, que na atualidade conta com mais de um milhão de filiados, só tem um conceito confuso do que este era durante o primeiro período revolucionário, sem falar do período anterior à Revolução. Basta dizer que de 75 a 80% de seus membros ingressaram depois de 1923. O número de inscritos antes da Revolução era inferior a 1 para 100. A partir de 1923, se fundiu com uma massa amorfa, destinada a desempenhar o papel de material maleável nas mãos dos profissionais do Estado. Pareceu essa edulcoração da sustância revolucionária do partido como uma premissa inevitável para a vitória do aparato estatal sobre o trotskismo. Convém ressaltar também o aumento de manifestações de corrupção e arbitrariedade em conseqüência da burocratização do regime de Estado e do partido.
Os adversários dos Sovietes assinalavam com malevolência estas manifestações. Seria contra a natureza ser diferente disso. Porém, quando tentam explicar estes fenômenos pela ausência de uma democracia parlamentar, basta para os contestar, enumerar a grande série dos Panamás, começando, caso seja necessário, a contar pelo próprio negócio – mesmo que não tenha sido o primeiro - cujo o nome se converteu em símbolo, e terminando pelo recente “A Gazeta do Franco” e pelo ex-ministro Klotz. Se quisermos demonstrar que a França constitui uma exceção, e que, por exemplo, os Estados Unidos ignoram a corrupção política, colocaremos nossa maior vontade em crer nisso... Mas, voltemos ao assunto.
Os burocratas que se elevaram acima das massas são em sua maioria profundamente conservadores. Se inclinam a pensar que já está realizado aquilo que se faz indispensável à felicidade humana. Estes elementos professam um ódio orgânico à oposição. A acusam de sugerir com suas críticas que as massas deles duvidem, de destruir a estabilidade do regime e de ameaçar as conquistas de outubro agitando o espectro da “revolução permanente”. Esta camada conservadora, que constitui o maior sustentáculo de Stalin na sua luta contra a oposição, tende a avançar, muito mais que ele mesmo ou que o núcleo fundamental de sua facção, até a direita, à frente dos novos abastados. Daí o conflito atual dele com a direita. Daí a perspectiva, para o partido, de uma nova “depuração”, não só de trotskistas, cujo número se multiplicou em virtude das expulsões e desterros, senão também dos elementos mais ousados da burocracia. A política dualista de Stalin se desdobra em uma sucessão de ziguezagues, cuja conseqüência é um reforço do flanco direito e do flanco esquerdo em detrimento da facção de centro que governa.
Termidor
Mesmo quando a luta contra as direitas está sempre na ordem do dia, não por isso deixa de ser a esquerda o inimigo essencial de Stalin, como era antes. Agora, a questão – clara para a oposição há muito tempo - se torna uma evidência palpável.
Nas primeiras semanas da campanha contra a direita, iniciada a 10 de novembro último, eu expunha, por meio de uma carta dirigida desde Alma Ata aos companheiros que compartilhavam de meu ponto de vista, no que consistia a tática de Stalin. Ao chegar o momento propício, “quando a direita estiver suficientemente assustada, ele voltará seu poder de fogo contra a ala esquerda... A campanha contra a direita não é mais que uma prévia, um treinamento, para um novo ataque brusco contra a esquerda. Quem não compreendeu isso, não compreendeu nada”. Este prognóstico se realizou mais rápido e de um modo mais categórico do que se podia esperar. Aquele que, durante uma revolução, esbarra, sem romper, com a velha sustentação social, será forçado a qualificar de ascensão seu deslize e fazer passar por mão esquerda a sua mão direita. Por essa razão, os stalinistas qualificam a oposição de “contra-revolucionária” e fazem esforços desesperados para usar os mesmos pesos para diferentes medidas, ou seja, combater da mesma forma seus adversários de direita e os de esquerda. A partir desse ponto, é necessário aplicar para tais fins a palavra “emigração”. Com efeito, agora existem duas emigrações: uma provocada pela ascensão das massas revolucionárias, e outra que se torna índice do progresso das forças inimigas da Revolução.
Quando a oposição fala de Termidor, valendo-se de uma analogia com a revolução clássica dos fins do século XVIII, assinala o perigo que sobrevém da luta dos stalinistas contra a esquerda, dado os fenômenos e as tendências que acabamos de indicar, luta essa suscetível de converter-se em ponto de partida de uma transformação planejada da natureza social do poder soviético. Sem dúvida, a questão do Termidor requer explicações complementares, devido ao papel transcendental que desempenha na luta entre a oposição e a facção governante.
Recentemente, o antigo presidente do Conselho francês, M. Herriot, declarou que, por ter se sustentado pela violência nos últimos dez anos, o regime soviético havia assinado sua própria sentença de condenação. Quando visitou a Moscou em 1924, este político tentou, segundo pôde se compreender na época, formar dos Sovietes uma idéia mais benévola, senão, mais precisa. Porém, transcorrido um período de dez anos, deseja ele agora privar de crédito a revolução de Outubro. Devo confessar que não compreendo muito bem a política radical. Ainda assim, não há ninguém que tenha assinado para as revoluções cartas de prazo fixo. Dez anos levou a grande Revolução Francesa, não para instituir uma democracia, e sim para levar o país ao bonapartismo. Não por isso é menos inegável que, se os jacobinos não tivessem dado conta dos girondinos, nem tivessem mostrado ao mundo o exemplo do castigo radical infligido contra a velha sociedade, a humanidade inteira seria regida por uma só cabeça hoje em dia.
Tampouco se produziu alguma revolução que não comporte conseqüências para toda a humanidade. Porém, é necessário frisar que as revoluções não conseguiram conservar todas as conquistas feitas durante seus momentos de maior ascensão. Depois que realizam uma Revolução, uma classe, um partido ou alguns indivíduos começam a se aproveitar dela sobre outra classe, outro partido ou outros indivíduos. Somente um caluniador inveterado poderia negar a importância histórica universal da grande Revolução Francesa, mesmo quando a reação que a sucedeu foi tão violenta que conduziu o país à restauração dos Bourbons. O Termidor constituiu a primeira etapa no caminho da reação. Os novos burocratas e os novos proprietários queriam esbaldar-se em paz com os frutos da revolução; porém, os velhos jacobinos irredutíveis os estorvavam. Mesmo os novos proprietários não tiveram a audácia de levantarem uma bandeira própria, e foram obrigados a ficar sob a égide dos jacobinos. Criaram líderes provisórios, somente com aparência de jacobinos de terceira ordem, e seguindo a correnteza, preparavam o terreno para o advento de Bonaparte, esse que, com suas baionetas e seu código, reforçou o poder desses novos proprietários.
No país dos Sovietes, voltam a se encontrar os elementos do processo termidoriano, o qual conserva, evidentemente, sua originalidade íntegra... Durante os últimos anos, esses elementos têm se tornado evidentes. Os que atualmente detêm o poder desempenhavam um papel secundário nos acontecimentos decisivos do primeiro período revolucionário ou eram adversários declarados da Revolução, e não se aliaram a ela até o momento da vitória. Agora, a Revolução serve de disfarce – como sempre e por toda parte - a estes elementos e esses grupos que, sem deixar de ser inimigos do socialismo, se sentem fortemente debilitados para levar a cabo um golpe de Estado contra-revolucionário, e por esta mesma razão, propõem um deslize agradável sobre os trilhos da sociedade burguesa, um “descenso tranqüilo”, segundo expressão de um de seus ideólogos.
Mesmo assim, implicaria uma falta enorme dar por já efetuadas todas essas evoluções. Para sorte de uns e azar de outros, ainda estamos longe disso. A analogia histórica é um método sedutor, e por isso, perigoso. Seria muito superficial pensar que há uma lei cíclica particular das revoluções que as obriga, partindo dos Bourbons, voltar a eles após passar pela etapa bonapartista. A marcha particular de cada revolução se determina por uma combinação particular das forças nacionais com toda a situação internacional. Isso não anula o fato de haver alguns traços comuns a todas as revoluções, pelo qual nos permitimos recorrer às analogias, e até as exige de modo imperativo, se quisermos nos apoiar nas lições do passado, e não recomeçar a história eternamente pelo começo.
A sociologia poderia nos explicar porque se encontram latentes em qualquer revolução vitoriosa e digna deste nome as tendências ao Termidor, ao bonapartismo e à restauração. Toda a questão reside na força destas tendências, em suas combinações, nas condições de seu desenvolvimento. Quando falamos na ameaça do bonapartismo, não falamos de maneira alguma que isso é determinado por uma lei histórica qualquer. A futura sorte da Revolução será marcada pela luta das forças vivas da sociedade. Ainda assim, irão se produzir um fluxo e um refluxo, cuja duração dependerá, em uma imensa medida, dos acontecimentos europeus e mundiais.
Em uma época como a nossa, uma agrupação só pode se conceber aniquilada para sempre quando não perceba as razões objetivas de sua derrota e que experimente a sensação de ser uma folha de parreira arrastada por uma enxurrada.
Na hipótese de que experimente sensações uma folha de parreira...
É verossímil a conversão dos Sovietes em uma democracia parlamentar?
Se o poder soviético luta com dificuldades crescentes, se cada vez mais se acentua a crise de direção da ditadura, se não está descartado o perigo do bonapartismo, não seria melhor encaminhar-se em direção à democracia? Insinuada ou francamente, se formula esta questão numa porção de artigos consagrados aos últimos acontecimentos ocorridos na República Soviética.
De jeito nenhum opinarei aqui sobre o que é melhor ou pior. Quero colocar claramente o que é “verossímil”, quer dizer, o que se pode concluir da lógica objetiva do desenvolvimento. Já deduzo que não há nada mais inverossímil do que a conversão dos Sovietes em uma democracia parlamentarista, ou para falar claramente, que essa conversão é impossível em absoluto.
Amavelmente e em termos muito sensíveis, muitos jornais me explicam como meu desterro é resultado da ausência de democracia na Rússia, e como, por conseguinte, não devo me “queixar”. Antes de tudo, não me queixei a ninguém, e ademais, muitas vezes, ocorreu de me desterrarem os Estados democráticos. É completamente normal que os adversários dos Sovietes estimem hoje em dia a aguda crise de direção da U.R.S.S. como uma circunstância inelutável do regime ditatorial, cujo maior responsável, obviamente, sou eu. Em sentido geral, é justo. De nenhuma maneira procuro contestar o determinismo histórico a propósito de meu desterro. Porém, se a crise de direção é resultado da ditadura, e não do acaso, a própria ditadura saiu igualmente, e também não por acaso, da breve democracia instaurada pelo czarismo em março de 1917. Se a ditadura é responsável pelas repressões e demais desgraças, porque então a democracia se mostrou impotente para preservar o país da ditadura, e o que garante que hoje ela se mostre capaz de manter a ditadura afastada após a suceder?
Para expressar com maior clareza minha idéia, devo prescindir dos limites geográficos, e bastará recordar de certas tendências do desenvolvimento político na Europa desde a guerra, que não foi um mero episódio, mas sim o prólogo sangrento de uma nova era. Estão vivos quase todos os dirigentes da guerra européia. Na sua maioria, ao fim de tudo, disseram que esta era a última, e que, depois dela, haveria um reinado da democracia e da paz. Alguns acreditavam no que diziam. Hoje em dia, nenhum deles se aventuraria a pronunciar estas palavras. Por quê? Porque a guerra nos conduziu a uma época de grandes tensões, grandes lutas, com a perspectiva de novas grandes guerras. Agora mesmo, sobre os trilhos da dominação universal, se precipitam, um de frente ao outro, dois trens poderosos. Não se pode medir nossa época com a régua do século XIX, que foi o século da expansão da democracia por excelência. Sob muitos aspectos, o século XX se distinguirá do XIX mais do que toda a história moderna se distingue da idade média.
Em um jornal de Viena, M. Herriot enumerou os sinais de retrocesso da democracia frente à ditadura. Após a instauração do poder revolucionário na Rússia e do fracasso dos movimentos revolucionários em todos os países, temos sido testemunhas do estabelecimento da ditadura fascista em toda a Europa meridional e oriental. Como explicar a extinção da chama que ardia nos altares da democracia? Algumas vezes, dizem que isso só ocorre em nações atrasadas ou imaturas. Até que para a Itália é uma boa explicação. Porém, mesmo quando for justa, não esclarece nada. No século XIX, se estimava como uma lei que os países atrasados subiriam os degraus da democracia. Por que, pois, o século XX os empurra para a ditadura? Nós entendemos que a explicação emana dos fatos mesmos. As instituições democráticas demonstraram que não suportam a pressão das contradições contemporâneas internacionais ou interiores, ordinariamente internacionais e interiores ao mesmo tempo. É um bem ou um mal? De qualquer maneira, é um fato.
Por analogia com a eletrônica, pôde a democracia definir-se como um sistema de interruptores e isoladores contra as correntes muito fortes da luta internacional ou social. Não há, na história humana, uma época tão saturada de antagonismos como a nossa. Cada vez mais pode-se sentir, em distintos pontos da Europa, uma hipertensão da corrente. Há uma tensão demasiadamente alta das contradições de classe e internacionais, se queimam ou explodem em cacos os interruptores da democracia. Tais são os curtos-circuitos que levam à ditadura. Evidentemente, os interruptores mais débeis se rendem primeiro. Porém não diminui, e sim aumenta a força das contradições interiores e mundiais. A duras penas, tentam tranqüilizar-se comprovando que este processo não se apoderou mais do que da periferia do mundo capitalista. A gota começa pelo dedo mindinho do pé ou pelo dedo polegar da mão; iniciando seu caminho, chega ao coração.
Não obstante, qualquer que seja a maneira como se apresente o assunto nos países de poderoso capitalismo e de antiga democracia – esta questão não pertence ao campo de nossas observações -, isso lança, em nosso julgamento, suficiente luz sobre o problema levantado no título do capítulo. Quando se opõe a democracia aos Sovietes, tem-se em vista um sistema parlamentar em particular, e se esquece outro lado – essencial, certamente – desta questão: que a Revolução de Outubro de 1917 se revelou como a maior revolução democrática da história da humanidade. O confisco da propriedade rural, a total liquidação das distinções e dos privilégios de casta, a destruição do aparato burocrático e militar czarista, a implantação de um igualitarismo nacional e do direito das nações de disporem de si mesmas, supõe um trabalho essencialmente democrático, ao qual apenas tocou a revolução de Março, deixando-o como herança quase em sua totalidade ao golpe de outubro. Somente a inconsistência da coalizão liberal-socialista tornou possível a ditadura soviética, baseada na união dos operários, dos aldeões e das nações oprimidas. As mesmas razões que impediram nossa débil e atrasada democracia de cumprir sua tarefa histórica são as que não a permitiram, nem sequer no porvir, colocar-se à frente do país, porque nos últimos tempos se tornaram maiores os problemas e as dificuldades, enquanto a democracia se apequenou.
O sistema soviético de governo não é uma simples forma de governo que se possa comparar de um modo abstrato com a forma parlamentar. Antes de tudo, é um novo sistema de relações de propriedade. Afeta na essência a propriedade, a terra, os bancos, as minas, as fábricas e as estradas de ferro. As massas trabalhadoras se recordam muito bem de quem era o senhor, o latifundiário, o agiota, o capitalista, o patrão, na Rússia czarista. Entre as massas, existe incontestavelmente o descontentamento mais legítimo contra a situação atual do Estado Soviético; porém isso não significa que querem o latifundiário, o burocrata, nem o patrão.
É importante não esquecer estas “minúcias” embriagando-se de lugares comuns sobre a democracia. Contra a volta do latifundiário, o camponês lutara até a última gota de seu sangue como há dez anos atrás. Não poderá o proprietário voltar a seu feudo senão montado em um canhão, e ademais, seria obrigado a dormir em cima dele também. A bem da verdade, o camponês toleraria muito mais facilmente a volta do capitalismo, porque até hoje a indústria do Estado fornece produtos manufaturados em condições menos vantajosas que as dos comerciantes de outro tempo. Observemos que essa é a origem das dificuldades interiores da Rússia. Porém, o camponês se lembra que o proprietário e o capitalista eram os irmãos siameses do antigo regime, que marcharam juntos, e que juntos lutaram contra os Sovietes durante os anos de guerra civil nos territórios em que os brancos venceram, restituíram ao industrial sua fábrica, e ao proprietário, sua terra. O camponês compreende que o capitalista não voltaria sozinho, mas acompanhado do proprietário. Por isso, não quer um nem outro, e essa é a poderosa razão, mesmo que negativa, da força do regime soviético.
Temos que chamar as coisas pelos seus verdadeiros nomes. Não se trata da implantação de uma democracia incorpórea, mas sim da reintegração da Rússia ao terreno do capitalismo. E qual seria a segunda edição do capitalismo russo? Durante os últimos quinze anos, isto tem se transformado de uma maneira profunda na imagem do mundo. Os fortes se tornaram infinitamente mais fortes, e os débeis, incomparavelmente mais débeis. A luta pela supremacia mundial alcançou proporções gigantescas, e as etapas desta luta moeram os ossos das nações débeis e atrasadas. Hoje em dia, a Rússia capitalista não poderia ocupar no sistema mundial nem sequer um terço do papel que havia sido predestinado à Rússia czarista no fim da guerra. Agora, o capitalismo russo implicaria em um capitalismo servil, colonizado, sem futuro. A Rússia número dois ocuparia hoje um lugar em qualquer parte entre a Rússia número um e a Índia. A despeito de todas as suas contradições e dificuldades, o sistema soviético da indústria nacionalizada e do monopólio do comércio exterior constitui-se num sistema protetor para a independência da cultura e da economia do país. Assim compreenderam até os numerosos democratas que se aliaram ao governo soviético: antes de um socialismo, um patriotismo que se assemelha às lições mais elementares da história. A esta categoria, pertencem as numerosas forças técnicas de intelectuais do interior e a nova escola de escritores que, na falta de uma denominação mais adequada, chamei em outra oportunidade de “poputtchiki” [3] .
Um punhado de doutrinadores impotentes haveriam desejado uma democracia sem capitalismo; porém, as forças sociais sérias, inimigas do regime soviético, querem um capitalismo sem democracia. Não só isso serve aos proprietários expropriados, como também aos camponeses acomodados. E quando se rebelaram contra a Revolução, esta revolta sempre se converteu em apoio ao bonapartismo. A potência soviética surgiu como resultado de grandes contradições de ordem internacional e interior. De nada serve a esperança de que os interruptores democráticos de tipo liberal ou socialista podem sustentar essas contradições, levadas nesse último quarto de século à sua mais alta tensão. Podem, sim, “regularizar” sua sede por desquite e restauração, colocando-se como parte das classes aniquiladas, arrastando-se por uma cadeia onde o industrial e o comerciante se agarram ao “kulak”, ou o latifundiário ao comerciante; onde, a reboque disso tudo, vai a monarquia, e na fila se alinham neste instante os credores estrangeiros para ocupar o primeiro posto dentro do país, em caso de vitória
Napoleão discernia bem sobre a dinâmica da época revolucionária e seus pontos mais importantes, quando dizia que a Europa seria republicana ou cossaca. Neste momento, pode-se dizer com certeza que a Rússia será soviética ou bonapartista.
O que acabo de expor prova que estou longe de poder afirmar que existam certas garantias absolutas de estabilidade no poder soviético. Se assim pensássemos, não teria sentido a luta que trava a oposição contra o bonapartismo. Mesmo assim, estou menos inclinado a afirmar que a solidez social do sistema soviético não dependeria da política concreta que faz o governo atual. A atitude de nossa luta interna mostra precisamente quão perigosa nos parece a marcha ziguezagueante de Stalin. Este mesmo é um elemento de nossa luta que prova o quão longe estamos de um falso pessimismo. Prosseguimos convencidos dos grandiosos recursos e das reservas do sovietismo. A conduta da oposição não leva à derrocada do poder soviético, mas sim a seu reforço e seu desenvolvimento.
Poderíamos formular essas deduções em teses breves:
1º. À parte de suas causas socialistas, cujo protagonista é a vanguarda do proletário industrial, o regime soviético tem profundas raízes históricas e sociais nas massas populares, porque supõe uma segurança contra a restauração e uma garantia de desenvolvimento independente, ou seja, não colonizado.
2º. Nem a luta fundamental, histórica, contra a União Soviética, nem a luta interna contra a potência comunista se entabulam pela conversão da ditadura em democracia, mas sim pela conversão do regime transitório de hoje para um regime capitalista inevitavelmente dependente e colonizado.
3º. Nestas condições, a Rússia só poderia ser desviada em direção aos rumos do capitalismo por meio de uma guerra civil, cruel e prolongada, que comportasse uma intervenção exterior confessada ou disfarçada.
4º. A forma política que assumiria semelhante golpe de Estado só poderia ser a de uma ditadura militar, uma variante do atual bonapartismo. Porém, uma ditadura contra-revolucionária daria as condições para um novo golpe de Estado, como o de Outubro.
5º. A luta da oposição se desdobra em toda sua integridade sobre o terreno soviético e aparece como a conseqüência direta e o desenvolvimento direto da linha fundamental do bolchevismo. A etapa em que se encontra a luta atualmente não é decisiva, e sim conjuntural, digamos assim.
6º O desenvolvimento futuro do sistema soviético e, portanto, o destino mesmo da oposição, não dependem somente de fatores de ordem interna, mas também, em grande medida, da evolução ulterior de todas as circunstâncias mundiais. Que rumo tomará a evolução do mundo capitalista? Como se situarão no mercado mundial dos Estados mais fortes que têm necessidade de expansão? Como estarão nos próximos anos as relações recíprocas dos Estados europeus, e o que é incontestavelmente mais importante, as relações dos EUA com a Europa e com a Grã-Bretanha, antes de tudo?
Existe um grande número de profetas que, sem refletir, resolvem a questão do futuro da República Soviética, mesmo que guardem silêncio em relação aos destinos imediatos da Europa capitalista. Não obstante, nem sequer de maneira antagônica, ambas questões estão ligadas, uma a outra, indissoluvelmente.
Constantinopla, 25 de fevereiro de 1929.
Notas
1 Aproximadamente - 36º graus celsius.
2 Carta publicada por Contre le Courant, de Paris em seu número 27-28.
3 Aqueles que seguem o mesmo trajeto, os companheiros de caminho.
Leon Trotsky. In: De octubre rojo a mi destierro. Buenos Aires, Distribuidora Baires F. R. L. Tradução: Fernando Sarti Ferreira e John Lionel O. Rodrigues.
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