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Universidade, memória e sociedade

APROPUC-SP

Yvone Dias Avelino

Esta pesquisa faz parte de um dos projetos que caracterizam uma das vertentes de análise do Núcleo de História Social da Cidade. Lidamos com a História da Universidade Católica de São Paulo. É o cruzamento da Memória com a História.1
Este projeto se organizou muitos anos antes do primeiro e do novo rumo do Departamento dentro da política de formação de núcleos. Surgiu quando o então vice-reitor acadêmico, professor João Edênio dos Reis Valle, solicitou ao Departamento de História que fosse escrita a História da PUC-SP. Dado ao fato de somente dois professores2 daquele Departamento se interessarem pelo tema, a responsabilidade de sua coordenação passou ao Programa de Pós-Graduação em História. No início, formou-se um grupo especial de pesquisa incluindo alunos e professores, estabelecendo-se um plano de trabalho que remontaria ao ano de 1945. Muitas dificuldades fizeram com que esta idéia inicial sofresse alterações. Entre elas, podemos mencionar o péssimo estado da documentação sobre o assunto, a qual empoeirada e desorganizada-mente repousava, não em “berço esplêndido”, mas no rés do chão de uma sala do Prédio Velho da PUC. Esta documentação era imprescindível ao estudo dos primeiros tempos da universidade e não dispúnhamos, na ocasião, de condições nem tempo para catalogá-la.
Uma das razões é a de que o grupo reduziu-se em virtude dos alunos terem prazo para a entrega de suas dissertações de mes-trado. Na prática, continuaram atuando só os dois professores do Programa de Pós-Graduação em História, responsáveis pelo tema.3 Assim sendo, a falta de pessoal exigiu que fosse feita uma rees-truturação do plano de pesquisa. De comum acordo, optamos por inverter a abordagem prevista. Ou seja, partimos da realidade do “aqui e agora”, levando em consideração os que pensavam e faziam a PUC naquele momento histórico. Estávamos na década de 80. Isto tudo, naturalmente, dentro de uma compreensão mais complexa do conceito de Universidade, do que era a universidade brasileira e especificamente desta universidade “democrata e plu-ralista”.4 Esta terminologia era voz corrente, encontrada nos depoimentos extraídos da Documentação Oral (DO)5, entre os que detinham cargos de direção acadêmica e/ou administrativa na PUC-SP. Optamos pela DO por ser, no caso, a técnica de pesquisa mais adequada ao nosso trabalho. Pelo seu próprio caráter, ela complementa e muito auxilia a pesquisa contemporânea.
Propriamente em termos históricos, o recurso dos testemunhos orais é antigo. Já em sua História da Revolução Francesa, Michelet põe na palavra do povo o próprio fundamento da tradição nacional. Modernamen-te, em 1948, Allan Newins, da Universidade de Columbia, acrescentou as fontes orais captadas junto a testemunhos da História, dos documentos que já constavam de arquivos impressos e escritos.
De qualquer forma, o valor da incorporação destes testemunhos nada representaria não fora a proposta de, por meio dessa técnica, atingir-se pela prática a etnológica retrospecção de um revisionismo, que tem como propósito fazer construir uma História com nova base, dando palavra aos representantes das minorias culturais. Paul Thompson6 vai mais longe. Pretende que a técnica atue como ins-trumento de uma contra-História.
Com o aumento do interesse pelo assunto, estas reflexões podem repousar sobre a concordância com o antropólogo, no fato de que o homem percebe, pensa e se exprime nos termos de sua cultura específica.
Dentro da própria História é preciso admitir que não há, com o tipo de coleta de material oral, uma História que se possa chamar de totalmente espontânea.
Tal qual outros tipos de fontes para o historiador, o resultado da entrevista, ou seja, o texto transcrito deve ser submetido ao mesmo trabalho crítico de outros documentos e às mesmas leituras múltiplas e acuradas. A atração de tornar possível a apreensão da História em processo do fazer-se é, portanto, um risco a ser minimizado.
Os caminhos ampliam-se e distanciam-se só de fazer falar a documentação, porém, trata-se de tornar-se responsável também por elaborá-la, preservando-a para o futuro.7
Assim, muitas leituras sobre Universidade e os trabalhos daqueles que foram entrevistados foram submetidos a um processo de análise. Familiarizados com o seu pensamento, ficou mais fácil a confecção do documento oral. Desta forma, idealizamos a possibilidade da criação do Laboratório Interdisciplinar de Documentação Oral, cuja proposta, já com os estatutos, foi submetida à apreciação da Comissão Geral de Pós-Graduação.8
Aprovado, iniciamos um trabalho conjunto, com os cursos de Ciências Sociais e Serviço Social. Era uma ousadia, e foi um trabalho árduo, posto que era a História Oral, como se convencio-nou chamá-la nos Estados Unidos e na Inglaterra, muito pouco usada no Brasil sofria muita discriminação por parte dos histo-riadores. Fosse hoje, talvez o Laboratório tivesse vingado. A proposta era formar um acervo com a documentação utilizada pelos alunos de outros centros universitários, a grande maioria do Nordeste, vindos com bolsas do Programa Institucional de Capacita-ção de Docentes (PICD). Além da falta total de um apoio insti-tucional, do descrédito da técnica utilizada, a professora que co-nosco colaborava, por razões pessoais, prestou concurso na Universidade Federal de Brasília. Deixou a PUC e ambas as propostas, a da História da Universidade e a do Laboratório Inter-disciplinar de Documentação Oral, que hoje seria, talvez, pioneiro depois do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), da FGV, dada a importância da Documentação Oral na preservação da memória, feneceram.
A DO, modernamente, vem galgando uma posição relevante no rol das técnicas metodológicas das diversas áreas científicas. Portanto, está a exigir atenções mais constantes quanto à definição de seu corpo teórico, bem co-mo de uma legislação específica. Estes seriam temas a serem enfo-cados e que não podiam ser desprezados, se continuássemos com essa pesquisa.
DO é, basicamente, a conservação do conhecimento e da expe-riência dos homens por meio de fitas de gravação. Corresponde, portanto, à preocupação maior da História que se interessa, num sentido amplo, pelo homem, suas idéias e palavras, elementos essenciais nas tentativas de compreender o curso de suas ações ao longo do tempo. Ela não é, porém, privativa do historiador (é um sistema extrator de memória e de histórias de vida e pode ter seu campo estendido para subsidiar outras áreas).
Depois de uma década, com o plano da candidatura do professor Joel Martins, e a criação do PUC 2000, novamente fomos convidados para reativar o projeto da História da Universidade. O PUC 2000 era também uma proposta arrojada que não encontrou ressonância. Restou-nos associar a nossa já avançada pesquisa ao Núcleo de História Social da Cidade, e nesta vertente de pesquisa encontramos alguns colaboradores que integram o referido núcleo: professor Adilson José Gonçalves, professora Rosa Kulcsar, do Departamento de História, Roberto Coelho Barreiro Fi-lho, doutorando do Programa de Pós-Graduação de História, professora Ane Shyrlei Araújo da Faculdade de Comunicação e Filosofia, alguns alunos e, por mim, que coordeno este projeto. Dado que faltam incentivo e estímulo institucional, o projeto tende a fenecer.
Para proceder ao levantamento de dados referentes à estrutura da PUC-SP, nada mais natural que ouvir os seus agentes. Criar de modo científico, re-presentificando o passado para entender esta universidade hoje. Como ela se projeta na sociedade, especificamente no bairro de Perdizes, onde se espraia o seu espaço físico.
Pela sua própria etmologia, entendemos por Universidade o local em que o universo dos conhecimentos até então desenvolvidos é trabalhado de forma a ga-rantir sua conservação e seu progresso nos diversos ramos em que se distribui, seja pelo ensino seja pela pequisa.
Se consideramos que na nossa civilização o conhecimento pa-ra fins de aprofundamento e especialização está dividido por áreas, podemos considerar como pressuposto básico que uma Universidade deve trabalhar para o desenvolvimento do universo dos conhecimentos até então desenvolvidos, de forma a garantir a sua contribuição neste processo.
Este princípio de Universidade nem sempre se consegue garantir; seja por condições impostas pelas conjunturas políticas, seja por condições impostas por razões econômicas e até mesmo pela cristalização das mentalidades que nela estão interagindo.
De qualquer forma, a questão da democracia em uma Universidade passa por essa universalidade de conhecimentos. De nada adianta garantirmos condições igualitárias em órgãos de decisão (Conselhos paritários) ou desenvolvermos formas de admi-nistração transparente se esses fatores não contribuírem para que o embate ideológico e a diversidade de métodos, técnicas, procedimentos e teorias aconteçam. Porque a Universidade é una, mas deve ser, sobretudo, diversa. O amadurecimento para o embate ideológico não se faz apenas a partir das intenções de cada um, mas se coloca também co-mo um produto das influências político-ideológicas que se manifestam na sociedade.
A Universidade é também um centro de pesquisa científica cada vez mais ligado aos problemas com que se defronta a comunidade, a começar pelos de ordem econômica e tecnológica, até aos de cunho ético e estético. É essa tarefa que a torna o fulcro propulsor do sistema cultural de um povo. Aquilo que se transforma em aplicação prática nas mãos do empresário deverá ser antes pensamento e projeto nos laboratórios universitários. Aquilo que é proposta de lei nos Parlamentos deverá ser antes doutrina nos institutos universitários. Deve estabelecer-se, assim, uma simbiose, uma união profunda entre as vidas social e universitária, com implicações relevantes no conceito e no papel do trabalho, como categoria social comum a todas as camadas da convivência humana.
Se tomarmos o trabalho como base de referência existencial, ve-remos que os diversos graus de ensino não são descontínuos, simples faixas de aprendizado isoladas umas das outras, mas antes momentos de um único processo, visando à crescente habilitação do homem para realizar-se na plenitude de seu ser pessoal, até o ponto de ir convertendo, cada vez mais, a natureza em História.
DificuldadesVê-se pois, que todas as atividades humanas polarizam-se no sentido de valores culturais cada vez mais altos e intersubjetivos, o que implica situar a Universidade em contato sempre mais intenso e permanente com a vida da Nação, numa trama incessante de in-fluência e serviços. Desse modo, a Universidade de hoje é uma escala de organização de projetos em desenvolvimento que condi-ciona a totalidade dos empreendimentos coletivos.
A PUC no seu nascedouro já apontava para as necessidades das composições políticas, sociais e ideológicas, através da problemática religiosa, que afligiam o Brasil naquele momento. A busca de entendimentos da identidade nacional, que indicava para o nacional trabalhismo, de um populis-mo decalcado na crise do pós-guerra, e na necessária criativi-dade para responder aos impasses e às demandas democráticas. Ressaltava-se o significado e o pa-pel da atuação da Igreja no sentido de gabaritar-se para colocar-se enquanto personagem e inter-locutora do novo espaço político que se instituía. Isto justificou-se com a criação e o estímulo de entidades culturais de caráter universitário, em algumas metrópoles significativas, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, a exemplo de suas congêneres na América Latina. Estes setores tornaram possível a formação de lideranças católicas para assumirem a composição de quadros na sociedade civil e nos aparelhos de Estado. Estratégia para divulgar seus princípios filosóficos e participar efetivamente, através dos leigos, da composição do poder.
A partir das instituições de ensino superior atingiram-se as camadas médias, encontrando-se uma maneira de participar da formação de quadros multiplicadores e divulgadores de sua visão particular de mundo, atingindo patamares mais elaborados de leitura e divulgação, distintos dos utilizados no sentido tradicionalista e popular no púlpito.
As particularidades da PUC encontram lastros no perfil de seu projeto filosófico-educacional, na sua organização institu-cional e na composição social dos três segmentos que englobavam professores, alunos e funcionários, destacando-se as tensões e formas específicas de inserção no cenário nacional pelo caráter confessional que a impulsionava e justificava.

Assim, salvaguardadas as disDificuldades
O objetivo desse curso básico, composto de quatro cadeiras, era propiciar uma formação crítica e humanística aos alunos, apresentando como conteúdo problemas voltados à realidade social latino-americana.
Cursos com tais objetivos destoavam dos primeiros currículos dessa instituição, representando o que se considerava um avanço dessa universidade rumo a objetivos cristãos. As mudanças ocorridas na Igreja desde o final da década de 60 confirmam tal idéia. A PUC-SP, mesmo sendo uma instituição privada, “democratizou-se”, em termos do reconhecimento de alunos economicamente carentes – alguns mantidos com bolsas de estudo – e também pelo fato de estar com seus cursos voltados para a comunidade, tentando fundamentar-se na realidade sócioeconômica nacional e tendo por finalidade principal a investigação e a pesquisa científicas. O intuito passou a ser o de manter a universidade sempre renovada diante da realidade nacional. Com a consciência política e de justificativa intrínseca de suas finalidades.
A Reforma Universitária trouxe, portanto, no seu bojo, a criação do curso básico e da Pós-Gra-duação, mas os seus benefícios não se limitaram apenas a esses setores. A extinção da cátedra simultânea com a ampliação das atribuições dos departamentos ensejou flexibilidade muito maior na elaboração e execução dos planos de trabalho, tanto dos currículos como das atividades de pesquisa e extensão, com maior participação de elementos jovens do corpo docente nos processos de decisão e com ampliação de programas multidisciplinares. A carreira do magistério se reorganizou e passou a estar intimamente vinculada aos títulos obtidos nos cursos de pós-graduação, com suas respectivas exigências no mestrado e doutorado. De modo geral, dentro da faixa de autonomia que lhe é reservada, a Ponti-fícia Universidade Católica de São Paulo instituiu regimes de concurso muito mais significativos e racionais que se diferenciavam das práticas oriundas do passado. A reforma também modificou, sob vários aspectos, os sistemas de escolha de diretores e reitores. Cabe ressaltar, a esse respeito, tintas injunções políticas e culturais dadas pela sua relação com a realidade brasileira, na sua trajetória pontuada por conjunturas tão díspares. O fato de ser católica explica em certa medida sua per-formance. Isto em função das próprias contradições que a Igreja e a Ação Católica expressavam.
Surgiu no processo de dilatação dos horizontes da Ação Católica, conformando-se timidamente pela configuração dos princípios filosóficos que a orientavam o neo-tomismo: com objetivo de compor quadros e formar profissionais competentes, sem no entanto enfatizar as atividades de pesquisa.
A real dimensão da instituição, enquanto centro de produção de conhecimento pela sua divulgação, encontrou lastro na interação ensino-pesquisa, que despontou como uma de suas características e como necessidade no decurso dos anos 60. Eram os anos da reforma educacional.
Apesar de atravessarmos um dos momentos mais dramáticos da história recente do País, decalcados num Estado ditadorial militar, o período configurou-se como de efervescência cultural. Marcado por reivindicações e pressões para a ampliação dos es-paços, de exercícios da cidadania em suas múltiplas facetas. Ressaltando-se uma presença mais marcante dos diferenciados setores da sociedade onde a Igreja apareceu como um ponto de refúgio, e como uma mão protetora, amiga, daqueles que sofreram injustiças mais gritantes por ainda não terem sido silenciados.
A longa trajetória por ter sido marcada por situações díspares no cenário nacional e na forma específica de ação da Igreja e da universidade exige um breve inventário do seu percurso.
Vamos mergulhar no tempo e recuperá-lo.
Assim remontamos ao ano de 1908, quando foi fundada, anexa ao Colégio São Bento, a Faculdade Livre de Filosofia de São Bento (FLFSB), pertencente à ordem dos Beneditinos, pelo abade alemão Miguel Kruse, iniciando-se o estudo de Filosofia. Funcionou como prolongamento da Universidade Católica de Louvain (Bélgica), tendo, a partir daí, seu segundo curso, o de História, em 1911. Como primeiro professor desse curso, Affonso d’Escrag-nolle Taunay lecionou História da Civilização Brasileira.Aula inauguralA primeira aula inaugural foi proferida pelo abade Charles Sen-troul, doutor em Filosofia pela Universidade de Louvain, cujo te-ma foi: “Q’C’est La Philosophie?”
Os vínculos com a universidade belga de Louvain eram tão intensos que os cursos da Faculdade Livre de Filosofia de São Bento foram suspensos em 1917 durante a Primeira Guerra Mundial. Até aquela data (1917) treze jovens bacharelaram-se, entre eles Alexandre Correia.
Após seis anos de interrupção, os cursos foram reiniciados em 31 de março de 1922 com o mesmo caráter anterior, abrigando o pensamento católico e conservador. O surgimento de um pensamento católico leigo no Rio de Ja-neiro, em 1924, acentuou essa tendência conservadora.
Em 1930, com a “Revolução”, a Igreja conservadora mantém a sua Faculdade distante dos debates do tempo.
Mais tarde, em 1936, a instituição passou por uma reestru-turação a fim de obter aprovação e oficialização de seus cursos e diplomas no âmbito federal. Seguindo as normas e exigências da lei universitária brasileira editada em 1931, dividiu-se em quatro seções: Faculdade de Filosofia, Faculdade de Ciências, Faculdade de Letras e Faculdade de Educação.
Em pleno Estado Novo, a Faculdade Livre de Filosofia de São Bento recebeu autorização para funcionar por meio do decreto número 1669, de 24 de maio de 1937, dando-se o seu reconhecimento em 12 de dezembro de 1940 pelo decreto número 6526.
Pela análise dos currículos de História e Geografia de 1937, observou-se que, mesmo tendo se desvinculado da Universidade Ca-tólica Belga, esses cursos mantinham-se distantes de nossa realidade, tendo mais um caráter di-letante. Não tinham um objetivo de aplicação social, não se preocupavam com a formação de professores e em seus conteúdos programáticos não havia formação crítica. Apenas em 1941 a Faculdade Livre de Filosofia de São Bento alcançou uma utilidade social maior com a introdução da 4ª série totalmente voltada para a educação. Atingiu também uma especificidade cur-ricular maior em comparação à de 1937, com matérias voltadas para a ciência histórica.
Ao terminar a Segunda Guerra Mundial, instaurou-se um clima de debate sobre os novos caminhos. O Brasil, neste clima, apressou o fim do Estado Novo. Os novos caminhos, as novas tendências para uma total redemo-cratização incentivaram o debate amplo. A Igreja percebeu o clima e o rumo que aqueles “novos caminhos” exigiam e incentivou o pensamento democrata cristão.
Dentro desta vertente, o cardeal Motta, a exemplo do cardeal do Rio de Janeiro, empenhou-se na formação da Universidade Católica de São Paulo, que divulgou à época o pensamento democrata cristão. Criou-se a Faculdade Paulista de Direito em 1946, e os primeiros estatutos da universidade foram redigidos com a cola-boração de d. Paulo Pedrosa, aba-de do Mosteiro de São Bento, André Franco Montoro e José Pedro Galvão de Souza.
Em 1950, a universidade se instalou no atual prédio-sede que pertencia às Irmãs Carmelitas, que o doaram à Universidade co-mo possibilidade para esta realizar-se. Era um patrimônio de 18 mil metros quadrados, o prédio e a capela. Ainda hoje, o prédio-sede guarda resquícios do antigo convento: alguns claustros na parte inferior têm pinturas murais. Os vitrais – belíssimos – das escadas de acesso ao patamar superior, e a porta da entrada principal – repartida – em que há uma pequena vigia que podia ser aberta. Foi o encontro da oração silenciosa de ontem com o estonteante sorrir alegre da mocidade de hoje. Contraste rico no qual assentamos a nossa história.
A Universidade Católica inaugurou no Brasil o sistema de universidade com faculdades incorporadas e faculdades agregadas, figurando a Faculdade Livre de Filosofia de São Bento como uma das que foram incorporadas. Já a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Sedes Sapientiae foi uma das agregadas, fundada em 1932 por freiras belgas. Os cursos do Sedes eram freqüentados somente pelo sexo feminino em regime de internato, gerando um elitismo bem maior.
As faculdades agregadas eram vinculadas academicamente à Universidade Católica, mas administrativamente eram autônomas. Com essa agregação, a Universidade Católica passou a contar com dois cursos similares em distintas áreas.
Os fundos para a organização da Universidade Católica foram conseguidos pelo cardeal Motta, através de doações de famílias tradicionais paulistas, poderosos industriais e das “esmolas” conse-guidas nas igrejas.
Com a formação da Fundação São Paulo, a Universidade Católica vinculada a esta recebeu posteriormente de Roma o título de Pontifícia. Como a PUC-SP passou a manter-se apenas des-sas doações, os cursos da FFCL de São Bento passaram a ter um baixo custo para os alunos, o que diminuiu seu caráter elitista. O mesmo não ocorreu com a sua agregada Sedes Sapientiae, que se manteve sem qualquer doação financeira, prosseguindo no seu atendimento a uma camada sócioeconômica de maior poder aquisitivo.
Agregaram-se à PUC-SP os mais variados cursos e diferentes faculdades: Faculdade de Engenharia Industrial (FEI), Escola de Administração e Economia
Coração de Jesus, Faculdade de Medicina de Sorocaba e Escola de Jornalismo Casper Líbero.
No final da década de 60, iniciaram-se os debates para a Reforma Universitária como um símbolo da própria educação brasileira. A Reforma trouxe maior unidade à universidade. Algumas decisões foram impostas às bases universitárias e a PUC-SP acompanhou as demais PUCs da América Latina, optando pela Reforma. Criou-se o curso básico da universidade, exceto para a FEI, Administração e Economia Coração de Jesus e Casper Líbero, que abandonaram a Fundação São Paulo. As restantes fundiram-se nessa união em 31 de março de 1971, dividindo-se em diferentes faculdades com seus respectivos departamentos.
As freiras agostinianas do Sedes Sapientiae doaram o patrimô-nio das ruas Marquês de Parana-guá e Caio Prado, além de sua biblioteca que, na ocasião, integrava mais de 80% do acervo da nossa biblioteca.

Curso básico
Neste compasso de desenvolvimento, duas linhas de estilo universitário vão se impondo. Num primeiro instante, os interesses voltavam-se para a pesquisa da realidade brasileira num ambiente de autonomia. Por isso a PUC abriu, em 1977, as portas para a 29ª reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que sofreu pressões do sistema contra essa realização. A universidade acolheu, também, professores categoriza-dos atingidos pelo Ato Institucio-nal nº 5, que passaram a integrar seu quadro de docentes. Na segunda vertente, buscou denunciar a realidade dos mais oprimidos, com seminários, experiências e projetos de pesquisa de campo acerca de cultura popular, menor abandonado, índio, participação popular, entre outros.
Com essas atitudes a PUC tornou-se uma universidade de vanguarda e passou por várias crises, mas suas ações sempre foram de enfrentamento. Algumas vezes, agentes policiais tentaram arrancar informações sobre alunos nas secretarias, porém em nenhuma ocasião a autonomia universitária foi tão ferida quanto durante a invasão das tropas policiais mentoradas pelo então secretário de Segurança, Erasmo Dias. Esse triste e lamentável episódio cobriu de indignação os diferentes setores da sociedade nacional. Há fatos que ficam marcados indelevelmente na memória das pessoas. Mesmo os tempos passados não dão para esquecê-los. As reminiscências e lembranças sempre afloram e provocam a nossa indignação. É o caso dessa afronta à nossa comunidade.
Do ponto de vista administrativo, a nossa universidade foi diri-gida no início por reitores que eram bispos da Igreja Católica. D. Gastão Liberal Pinto faleceu 14 dias após sua nomeação e foi substituído por D. Paulo de Tarso Campos (1946-58), por ser também bispo de Campinas; a tarefa executiva coube ao vice-reitor, monsenhor Emílio José Salim. D. Antônio Maria Alves de Siqueira (1958-64) também apoiou-se na colaboração de seu secretário, monsenhor Vitor Ribeiro Nicke-isburg. Os reitores seguintes foram leigos: Oswaldo Aranha Bandeira de Mello (1964-72), que administrou durante dois mandatos. “Na verdade, fui reitor da PUC por quase nove anos.”9 Na sua gestão, o primeiro reitor leigo conseguiu esclarecer duas greves suscitadas pelo desentendimento entre monsenhor Victor e a comunidade da Escola de Serviço Social, que culminou na mudança da Escola do prédio da rua Monte Alegre, e num atrito com o diretor da Faculdade de Direito, que acabou renunciando ao cargo. Conseguiu o reitor Bandeira de Mello normalizar o pagamento dos professores e quitar todos os débitos da universidade que advinham de várias razões além dos poucos recursos que vinham dos setores públicos. A dívida era de 50 mil cruzeiros mensais (moeda da época). Permitiu o novo reitor, apesar das pressões, a realização das encenações de "Morte e Vida Severina" e a retomada das obras do teatro Tuca, onde se realizou a peça. Além disso, ao sentir que a universidade crescia extraordinariamente, colocou como meta prio-ritária o alargamento do câmpus. O cardeal Rossi pensou em esco-lher outro local, mas o “Bandei-rão” – como era carinhosamente chamado pela comunidade – dizia: “Uma universidade particular, que cobra anuidade, deve estar pró-xima aos alunos, já bastam as des-pesas da anuidade e dos pequenos transportes...”10 . Iniciava-se a construção do Prédio Novo.
Nesse período, foi feito o primeiro empréstimo na Caixa Econômica Federal, no montante de 49 mil cruzeiros novos (moeda da época, 1967), destinados à conclusão do Tuca. Foi este um dos vários empréstimos feitos pela universidade para realizar diversas construções, que acabaram por gerar um déficit orçamentário mais tarde.
Na seqüência, ao término do mandato de Bandeira de Mello, alguns integrantes da comunidade esperavam a indicação de D. Pa-dim para reitor, retomando o cargo aos bispos, mas o cardeal escolheu o professor da Faculdade de Direito, Geraldo Ataliba Nogueira (1972-1976), continuando assim a atuação dos leigos no po-der. Foi nessa época que a univer-sidade viveu uma das suas grandes crises financeiras, mas, em contrapartida, estrutura-se a carreira docente e administrativa, criaram-se departamentos com autonomia forte, a Pós-Graduação ampliou o número de programas e estreitou-se a convivência com professores aposentados compulsoriamente nas universidades estaduais e federais e que para cá vieram. A dívida com o Fundo de Assistência Social (FAS) ampliou-se também com o término da construção do “Prédio Novo”. Em contrapartida, de 119 professores e 71 servidores, em 64, passamos para 915 professores e 688 servidores, em 73, sendo que, em tempo integral, já havia 178 docentes. A universidade privada se estruturou nos moldes de suas congêneres governamentais e inchou com o aumento substancial dos quadros discentes. Um alto custo, mas com grande salto qualitativo no âmbito nacional e internacional.
Essa rotina de crises e mudanças costuraram as dificuldades na implantação do processo democrático, que culminou no surgi-mento das entidades de classe, Associação dos Professores da PUC-SP e Associação dos Funcionários da PUC-SP (1978).
que a nova legislação suprimiu a exigência de que somente os professores do último grau da carreira podiam ser nomeados para os cargos de direção, ampliando consideravelmente a margem de escolha. Esta é uma prática que ano após ano vem se constituindo nesta universidade, dando-lhe um caráter democrático, e as eleições comprovam esse espírito participativo na comunidade entre os três setores que a integram.
Neste percurso, a PUC-SP tem tentado evitar a alienação nesta crise profunda de valores que a universidade brasileira atravessa, os quais estão ligados a uma dimensão da consciência política e social.
Os anos 60 vão se impondo na sociedade brasileira com uma série de questionamentos políticos, culturais e sociais e a universidade não se distanciou desse clima. O apogeu da vida comunitária e cultural foi a apresentação da peça "Morte e Vida Seve-rina", encenada num momento de crise nacional (1966). O texto de João Cabral de Melo Neto sob o olhar atento de Silnei Siqueira, com o suporte da música de Chico Buarque de Holanda e a administração de Henrique Suster, participou do Festival Internacional em Nancy onde obteve o 1º lugar. A euforia deste momento ficou indelével na memória dos seus partícipes.
A universidade, por meio de seus licenciados, nesse mesmo período, movimentou-se para conseguir o curso de Pós-Graduação, pois a legislação nessa época (1965) permitia a possibilidade de doutoramento, caso os candidatos fossem aprovados pela faculdade de origem e pelo professor orientador. Formaram-se quadros para esse surgimento; porém, o número de candidatos aumentou e pensou-se em cursos regulares, cuja instalação na PUC-SP precedeu à iniciativa do Ministério de Educação e Cultura (MEC), de implantar a Pós-Graduação. Em 1969, começaram os programas de Lingüística Aplicada ao Ensino de Línguas, Teoria Literária, Psicologia da Educação e Sociologia. A presidência, na época, foi do professor José Pas-tore, substituído, ao final de um ano, por Joel Martins que agilizou de tal forma o setor que em 1979 já havia 20 programas de mestra-do e sete de doutorado. Após essa data, a universidade passou a investir em uma política de maior fomento à pesquisa junto a agências financiadoras e hoje temos funcionando, sob a inteligente e competente batuta da professora Úrsula Margarida Simon Karsch, 22 cursos de mestrado e 12 de doutorado.
Na vanguardaMulher no poderNa segunda metade dos anos 70, o País viveu crises econômicas difíceis que abalaram a euforia de desenvolvimento característica do cha-mado “milagre brasileiro” e o sistema político foi atingido pelos reflexos oriundos dos abalos da situação econômica. Nesta conjuntura, terminou mais um mandato de reitor e foi convi-dada pelo grão-chanceler D. Paulo Evaristo a professora Nadir Gouveia Kfouri (1976-80) e (1980-84). Indicação significativa, uma mulher frente aos novos rumos da universidade. “Era o Ano Internacional da Mulher, gostaria de ver uma mulher no poder”11 . Era a nova reitora uma intelectual engajada na caminhada educacional. Considerada pioneira na área do Serviço Social, já foi inspira-dora de vários trabalhos de pesquisa na Pós-Graduação, ao lado de Helena Junqueira e outras. Foi a articuladora das no-vas mudanças e comportamentos que apontavam para a ins-talação do processo democrático, pioneiro na PUC-SP, em dissonância, naquele momento histórico, com as demais universidades brasileiras. Inúmeros foram os projetos desenvolvidos na universidade, na linha da Pastoral da Igreja no Brasil, e em São Paulo especialmente. Na linha da liberdade de pensamento democrático, foi quase pressionada para ser recondu-zida, a pedido do Colegiado da Pós-Graduação e alunos, mas recusou várias vezes, só acei-tando se fosse feita uma consulta à comunidade via eleições democráticas em todos setores. Em uma carta à Comunidade, o cardeal esclareceu quais as qualidades que apreciava para comporem o perfil de um reitor. Junto à escolha do reitor, escolheram-se também vários cargos administrativos e de comando na universidade. Fatos significativos aconteceram na sua gestão, um deles foi o processo da Constituinte e a sistematização da pesquisa e da carreira docente, com a qualificação para a melhora do padrão de ensino e da permanência maior dos professores na universidade.
O princípio da renovação é um princípio saudável, mas naquele momento não era oportuno. As eleições foram importantes, foi uma conquista.
Orquestraram-se os cargos em diversas discussões, com um processo participativo que se iniciou com a criação da Comissão Constituinte e a Revisão dos Estatutos.
Foram também incentivadas pesquisas e a estruturação definida de uma política de pesquisa, além do incentivo de projetos de “pesquisa-ação” voltados para as questões sociais da periferia, sem perder o caráter científico da academia.
Sugestivos acontecimentos, tristes momentos, como o da invasão de tropas militares, já citado, e a atuação de liderança de uma mulher na proa da universidade. “Como é que podia ter a polícia procedido com tanta violência, causado tantos prejuízos e danos à universidade?... Eu não estava pensando no prejuízo físico, eu estava pensando no prejuízo moral”12 .
Em oposição a esta “ilha de produção democrática”, a realidade da PUC-SP junto aos seus credores era de grande déficit econômico-financeiro. Em 1985, em carta enviada à Presidência da República, as Pontifícias Universidades Católicas de Minas Gerais, Pernambuco, Rio Grande do Sul e São Paulo pediam o reescalonamento de sua dívida no montante geral de 13 bilhões de cruzeiros, sendo que a parte da PUC-SP era de 8 bilhões, ou seja, 61% da dívida das Católicas no FAS.
Entre as unidades mais deficitárias encontramos, neste período, o Ciclo Básico e o Pós-Graduação, os dois mais significativos pilares de sustentação da democracia interna da universidade em contraposição aos mais supe-ravitários: Faculdade de Economia e Administração e Faculdade de Direito, que na época significavam a oposição ao modelo democrático vigente. Por um lado, horas-pesquisa tempo integral; por outro, hora-aula e um distan-ciamento das decisões davam a diferença entre as partes.
O ano de 1987 foi particular-mente dramático. O déficit atingiu a cifra de 74 milhões de cruzados (moeda da época), a despesa com folha de pagamento era de 93,28% da receita. Foi realizado um novo empréstimo no montante de 320 milhões de cruzados para cumprir as obrigações decorrentes das greves e campanhas por aumento nos anos anteriores.
Porém, a Reitoria não considerava apenas a diminuição das verbas públicas o grande vilão da história. Somados a isso, estão também a ampliação do patrimô-nio entre 67 e 68, quando foram compradas algumas casas; a construção do Prédio Novo, em 1970, que endividou ainda mais a universidade; e o próprio desenvolvimento acadêmico necessário à universidade com a criação de novos cursos e, logicamente, a crescente defasagem entre as anuidades e a inflação.
Poderíamos nos alongar até a atualidade, mas a urgência em terminar, e a interrupção da pesquisa por razões já citadas, nos impedem de fazê-lo. Gostaríamos, porém, de apontar que por diferentes caminhos de análise, esta universidade já foi objeto de traba-lhos, pesquisas e teses de douto-ramento defendidas aqui nesta instituição ou em outras, especialmente na USP. Citaremos alguns nomes de professores que se preocupam com a temática e a cujos trabalhos já tivemos acesso.
Da Consultoria Técnica e Acadêmica – Consultec, o livro já pu-blicado de José Nagamine; no Programa de Supervisão e Currículo, o livro já publicado do professor Alípio Casali; na Faculdade de Educação, a tese de doutorado das professoras Nadia Du-mara e Helenice Ciampi; no Departamento de História, a tese de doutorado da professora Rosa Kulcsar; no Departamento de An-tropologia, a tese de doutora-mento da professora Silvia Jane Zveibil e do meu orientando de doutorado Roberto Barreiro Filho, funcionário da Fundação São Paulo, entre outros. Certamente, esses trabalhos darão esclarecimentos mais profundos do caminhar desta universidade que tantas contribuições tem dado ao bairro de Perdizes, à sociedade paulistana e ao Brasil como um todo, na formação de quadros políticos, educacionais e culturais.

 

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