Sem meias palavras
Professora Odette Pinheiro
Uma das figuras mais atuantes do cenário puquiano, Odette Pinheiro, ao longo dos seus 44 anos de casa, conseguiu organizar e produzir algumas revoluções. Revoluções importantes. “Você não pode se livrar de utopias, porque a utopia se faz a partir da realidade. Eu tenho a minha utopia a respeito do que pode ser uma universidade como a PUC que é o que me mantém aqui, ensinando.”
Inquieta, quem já teve o prazer de sua companhia, seja no ambiente de trabalho, seja em órgãos colegiados no qual foi representante, sabe que, com ela, o “escreveu, não leu...” é um fato. “Eu sou daquelas pessoas que são importantes neste País pelo trabalho cotidiano – cotidianamente bem-feito e comprometido – que fazem. Isso me dá o direito de falar sobre coisas, ou alertar pessoas, ou participar quando estou sendo solicitada, ou criar instâncias para que isso ocorra. Esse é o meu pequeno poder.”
Nos 65 anos – ela fez ques-tão de revelar a idade –, a
professora Maria Odette de Go-doy Pinheiro se sente realizada. Sempre obteve êxito naquilo que é um dos motivos de seu sen-timento de realização e de grande satisfação pessoal: ensinar.
Odette Pinheiro iniciou sua atividade profissional como edu-cadora de pré-escola, nos parques infantis da Prefeitura, ao mesmo tempo em que cursava Pedagogia na PUC-SP. “Era uma proposta muito interessante da época, porque lidava com a noção de recreação e abria a possibilidade para os pais que trabalhavam o dia inteiro, e não possuíam recur-sos, de deixarem suas crianças, sem maiores preocupações”, explica Odette.
Ainda durante o curso de Pedagogia, Odette conheceu Enzo Azzi, professor e diretor do Instituto de Psicologia da PUC. Foi essa aproximação a respon-sável por seu interesse pela Psico-logia. “O dr. Azzi era uma pessoa com uma formação muito interes-sante, estimulante, e trazia muitos conferencistas de fora. Isso me dava a certeza de estar numa universidade.” A então bacharel em Pedagogia foi fazer o curso de especialização em Psicologia Clínica, oferecido pelo Instituto. Nessa época, a profissão de psi-cólogo ainda não era regulamen-tada, mas já havia um movimento em prol dessa regulamentação, do qual Odette fez parte.
Foi, então, trabalhar novamen-te num departamento da Prefei-tura, junto com pessoas de diver-sas formações e com especiali-zação em Psicologia Clínica. Com a regulamentação da profissão, foi aberta a possibilidade, a quem ti-nha cursos de Psicologia, de tra-balhar na clínica da Prefeitura, mediante a apresentação do cur-rículo e, com isso, Odette passou a atender pessoas de poucos recursos.
O contato com essa população carente tornou-se ponto de re-ferência pra tudo o que Odette Pinheiro foi desenvolvendo dentro da atividade docente e de psicó-loga. “Isso me fez criar uma visão bastante crítica de que Psicologia é esta; a serviço de quem está, dentro da nossa realidade, e que psicólogos formamos”, enfatiza.
Em 1965, foi convidada para trabalhar na PUC como psicó-loga, na Clínica de Psicologia. No semestre seguinte, Odette foi indicada para substituir uma professora que dava aula para o terceiro ano do curso regular de Psicologia, que começava a tomar fôlego. “Era tudo nessa base, tá certo? Era por indicação, por convite, não tinha concurso, não tinha nada”, diverte-se. “Eram poucas as pessoas e geralmente essa coisa acontecia em função das relações que a gente estabe-lecia aqui.”
Em 66, assumiu a sua primeira classe. Nesse tempo, ela ainda conciliava as aulas com o trabalho na Prefeitura, acumulando as duas funções, mas logo se demitiu, passando a dedicar-se integral-mente à PUC-SP.
Desvio para a PUC
Odette ingressou na PUC como aluna do curso de Pedago-gia em 1955, vinda do Colégio Nossa Senhora do Sion – um dos mais tradicionais e requintados colégios católicos paulistanos. Destinado à alta burguesia, as mocinhas que o freqüentavam não tinham muitas opções após a formatura. Eram tempos em que a mulher – principalmente a de família abastada – era educada para ser uma boa mãe de família e dona-de-casa. E só. Poucas eram as que iam para a Univer-sidade. Odette foi uma dessas poucas, se desviando do destino das moças burguesas do Sion.
Odette Pinheiro veio para a PUC atrás do curso de Filosofia, ministrado pela Faculdade de Ciências e Letras de São Bento, que, na época, era uma das fa-culdades integradas à instituição. Entretanto, cursara a escola nor-mal – que equivalia ao magistério – e isso a impossibilitou de cursar Filosofia. “Eu tinha muito inte-resse em cursar Filosofia e aqui era um centro de excelência. Exis-tia um conjunto de professores que eram conhecidos, que tinham publicações”, recorda Odette.
Resolveu, então, cursar Peda-gogia. “Eu fiz alguns contatos, mas não era a mesma coisa. Um curso de Filosofia, na PUC, tinha outro nome se comparado ao de Pedagogia. Isso me levou a es-colher a PUC como um lugar de estudo.” E a recíproca é verda-deira. Odette sente que também foi escolhida pela PUC. A PUC ocupou – e continua ocupando – um grande espaço em sua vida. Foi aqui, também, que conheceu seu marido – falecido em 1982. Foi aqui, na capela da PUC, que se casou. Um de seus dois filhos também estudou aqui. E muitos, muitos etecéteras.
Odette foi brigar pelo seu es-paço, mas as relações que ia esta-belecendo a levaram, muitas ve-zes, a ser convidada para desem-penhar tarefas. Assumiu, então, a chefia do Departamento de Psi-cologia da Faculdade de Ciências e Letras. Algum tempo depois, Odette participou da comissão de professores que criou a Faculdade de Psicologia e o curso, na época da Reforma Universitária. No co-meço da década de 80, se envol-veu com um movimento de psicó-logos, que se reuniam para dis-cutir suas entidades e fez parte do movimento de oposição ao Sindicato dos Psicólogos. Foi elei-ta presidente do sindicato e ocupou o cargo por três anos.
Odette Pinheiro foi diretora da Clínica de Psicologia da PUC e diretora da Faculdade de Psico-logia durante oito anos – o que equivale a dois mandatos –, além de algumas representações nos órgãos colegiados, como o Con-sun, por exemplo. “Esse foi o últi-mo cargo que ocupei. Aí, resolvi descansar um pouco”, explica. Hoje, Odette continua dando aulas na Psicologia, e dividindo-as entre as atividades na Fundação Aniella e Tadeuz Ginsberg e como inte-grante do Conselho Regional de Psicologia.
Mas essa ausência é bem sentida pela comunidade. “Atual-mente, as pessoas – funcionários, professores, alunos – me dizem que eu faço falta no Consun. Eu acho legal isso, porque eu real-mente criava polêmica, eu não deixava passar, eu levava as coisas em frente, questionava muito. O Consun tende a ser uma coisa um pouco parada. Não tem muito de-bate. E não é para ser assim.”
A professora e psicóloga tam-bém é reconhecida pela impor-tância na luta da reformulação do currículo de Psicologia. “Era uma coisa muito difícil. Os diretores se sucediam e não conseguiam fa-zer nada. Era um horror. Quando eu assumi a diretoria da Facul-dade, na minha proposta tinha isso como plataforma e, em fun-ção disso, acabei ficando mais de uma gestão, porque eu queria resolver esse problema. Acho que consegui.”
Clínica e doutorado
Quando o segundo mandato chegou ao final, Odette pensou que era o momento de dar uma sossegada. Cuidar um pouco da própria vida, reduzir o contrato, ficar mais “quietinha”. Passou, en-tão, a atender em consultório. Foi preciso quatro anos fora da PUC para que ela tivesse certeza de que não era isso que procurava. “Não era assim tão interessante”, expli-ca. E voltou pra PUC.
Voltou e foi fazer o seu dou-torado, que até então não havia feito por absoluta falta de espaço em sua vida. Uma questão de es-tabelecimento de prioridades. “Quando eu terminei essa fase de cargos, eu disse que ia me apo-sentar e estudar, porque – aí sim – eu podia fazer essa opção. En-tão, fui me reciclar. Até então, eu não estava na carreira. Muito lou-co, não é?”, diverte-se Odette.
Burocracias puquianas à parte, o fato é que Odette defendeu sua tese de doutorado em 1998 – re-cebeu nota máxima –, passando a integrar a carreira docente da instituição. Seu ingresso na car-reira foi aprovado no Consun rea-lizado em 31 de março de 1999.
“Por ser antiga de casa e não ter títulos, eu estava encostada numa categoria chamada ‘cargo em extinção’. Eu ficava lá e não progredia. Apesar de já ter me aposentado, eu tenho uma vida intensa como docente. Aí, eu fui fazer a minha tese de doutorado. Agora entrei na carreira.”
Sua tese de doutorado foi em Psicologia Social, no núcleo ligado à Saúde, que é uma de suas mai-ores preocupações. “O adoeci-mento das pessoas, ou a saúde das pessoas, ou as necessidades das pessoas com certeza nascem dentro de um contexto social. Para mim, a importância dessa visão é se pensar na relação que existe entre a vida das pessoas e o seu cotidiano, seus pedidos de ajuda e as respostas que se dão pra esses pedidos. É torná-las sujeito dessa história e, também, dessa história relacionada à própria saúde”, explica Odette. E continua: “Eu acho que essa perspectiva teórica abre a pos-sibilidade de você ver e construir sentidos. Às vezes, ela é chamada de relativista. A meu ver, não é relativista, mas dá ênfase na bus-ca de verdades, no debate de idéias”, conclui.
Nesses 44 anos de PUC, Odette teve a oportunidade de pre-senciar, e testemunhar, muitos dos eventos que marcaram a vida desta complexa comunidade. Assistiu, no Tuca, ao espetáculo Morte e Vida Severina para o qual só tem um adjetivo: “Lindís-simo!”, lembra emocionada. A invasão da universidade em 1977, as assembléias estatuintes e a passagem de Vicente Benzinelli pela administração, também deixaram marcas indeléveis em sua trajetória na PUC.
A maioria de suas memórias com relação à universidade, está sempre ligada a questões políticas. “A PUC, para mim, enquanto instituição é isso aí. Eu participei dos eventos de comemoração dos 50 anos, como uma das homena-geadas. Teve festa, uma mul-tidão, uma coisa super-social e... foi muito bonito, bem organizado e tal. Mas aquela PUC não tem nada a ver comigo. Não era a minha PUC.”
Hoje, a universidade atravessa mais um período crítico, finan-ceira, administrativa e politica-mente. Esta situação está preocu-pando alguns setores e algumas discussões a respeito de como e o que será a universidade do próximo milênio começam a pipocar.
Esse futuro não está longe. Odette, nesses anos todos, pre-senciou muitos desses momen-tos. Na verdade, a PUC nunca deixou de discutir a si mesma – nas assembléias das associações, em grupos de debates, pela co-munidade afora –, devido à natu-reza da personalidade puquiana. Porém, talvez como um reflexo da sociedade, sofre, hoje, de um certo abatimento. Uma falta de ânimo geral.
“Eu acho que falta uma política integradora. Quer dizer, as resis-tências que nós pudéssemos ter em relação a isso viriam dessa in-tegração necessária, que se tornasse imprescindível para qualquer coisa acontecer aqui dentro. E isso é uma utopia. Eu acho que utopias têm de existir sempre e eu tenho a minha utopia a respeito do que pode ser uma universidade como a PUC. Por-que, se eu fosse apenas pragmá-tica, talvez eu não estivesse dando aula aqui até hoje. A PUC é uma instituição democrática e, por isso, eu acho que – se ela se mantiver assim – ela se renova o tempo inteiro.”
Como profissional e como cidadã, Odette não se diz uma ativista política. O que é uma contradição, pois suas opiniões são contunden-tes. Há muito fe-chou com a es-querda – vota no PT – e tem como uma grande e permanente preocupação as políticas sociais e públicas, a jus-tiça social e uma melhor distri-buição de renda. E os serviços em geral, principal-mente no que se relaciona à sua área. “Eu tenho – e terei sempre – esse compro-misso com um Estado demo-crático, de liber-dade de expres-são, de debates e de condução dos destinos das instituições e do próprio País”, diz.
A falta de vontade política é, para Odette Pinheiro, a pior des-graça aqui, no Brasil, em todos os níveis. “Sabe, as políticas es-tão aí. Elas podem ser denun-ciadas, combatidas. Você pode fazer revoluções, tá certo? Eu sou daquelas pessoas que são impor-tantes nesse País, pelo trabalho cotidianamente bem-feito e com-prometido que fazem. Isso me dá o direito de falar sobre coisas, ou alertar pessoas, ou participar quando estou sendo solicitada – ou criar instâncias para que isso ocorra. Então, esse é o meu pe-queno poder.”
Uma crítica com relação à universidade é que ela está se perdendo como espaço de cultura. Mas há uma justifi-cativa, que, segundo ela, se encontra no fato de que, antes, as coisas eram mais concen-tradas. Havia menos gente, menos solicitações e as idéias acabavam circulando de forma mais visível.
Sozinha em Paris
Odette queixa-se de uma certa falta de estímulo cultural, devido à quantidade de eventos – bons eventos – oferecidos por aí a todo o momento, mas que acabam passando despercebidos, tamanha é a quantidade de coisas acon-tecendo ao mesmo tempo. “Você olha o mural e diz: ‘Puxa! Que mundo interessante! Mas eu estou fora dele.’ Está tudo muito frag-mentado. As pessoas acabam vi-vendo movidas pelos seus contro-les-remotos, zapeando por aí, e isso faz que você perca de vista a possibilidade de relação entre os vários campos de conhecimento, de lazer, ou de fazer.”
Apesar dessas atribulações da vida moderna, às vezes tão im-pertinentes, Odette não deixa de fazer as coisas que aprecia. Gosta de ler um bom livro, embora –por essas atribulações – ultima-mente, venha se contentando em ler apenas algumas resenhas sobre eles. Aproveita as férias para co-locar a leitura em dia. Gosta de cinema e se encantou com Cen-tral do Brasil, “por tudo”, como ela mesma enfatiza.
“Eu gostaria de ter bastante dinheiro para viajar muito mais do que eu viajo”, comenta. A viagem mais recente foi em função de um congresso, mas acabou dando uma esticada até a França, e essa foi, em especial, uma viagem inesquecível. “Eu passei quatro dias absolutamente sozinha em Paris e, ficar sozinha em Paris, não é ficar sozinha em qualquer lugar, né? Foi uma maravilha! Eu já tinha ido uma outra vez, mas não foi a mesma coisa”, ressalta. No Brasil, uma viagem para Alagoas, foi, também, bastante marcante. “A gente ia de barco para uns recifes no meio do mar e aquela água transparente, aquele marzão... Puxa, que maravilhoso!”
Das metas a que se propôs conquistar ao longo da vida, Odette Pinheiro já conquistou todas, exceto uma: envelhecer. “Envelhecer mais e cada vez melhor. Sem nunca perder o meu bom humor. Sem perder as minhas relações afetivas com a família, com os amigos. Eu gostaria de ir me aposentando, mas sem perder as coisas essenciais que o meu trabalho me dá e, sobretudo, sem perder essa relação com o mundo, essa possibilidade de me apaixonar por questões, ou ações. Sem me estressar.”
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