O homem que plagiava
Valdir Mengardo
Conheci o Luiz no antigo Bar Brasil, devia ser 1986. Até hoje não sei seu nome mas, por motivos que mais tarde ficarão claros, gostei de ter-lhe inventado este nome, combinava com sua cor morena. Era um verão escaldante e, enquanto eu e minha namorada afogávamos a sede em várias rodadas de chope, um mulato tocava no violão músicas que eu não ouvia há anos. Seus poucos cabelos brancos conseguiam disfarçar aquele quase sexagenário, que cantava como ninguém músicas que eu não ouvia desde meu tempo de menino.
Comecei a tamborilar na mesa os versos de Noel que ele dedilhava no violão e, quando ficou sozinho, o mulato pediu per-missão para sentar na nossa mesa. Naquele momento comecei a imaginar seu nome como Luiz, Luiz de Melodia, ou talvez Luiz, de Vieira. Começamos a cantar mais uma do Ary, outra do Lupicínio, até que percebi que precisaríamos de muito chope para encarar aquela madrugada.
Mas o verbo ficou no futuro do preté-rito porque o garçom pediu para a gente parar com a cantoria, porque já havia pas-sado da meia-noite, os vizinhos reclama-vam muito, nós acabávamos de sair de uma ditadura etc, etc.
Conformados, só restou-nos cantar a meia voz canções que, no mínimo, exigiam toda uma eternidade para serem sentidas. Entre uma música e outra procurei entender a fonte da erudição musical do Luiz. Para minha surpresa o mulato havia tocado em décadas passadas no regional que acompanhou Orlando Silva, o cantor das multidões, pelo Brasil afora. Conhecera figuras como Mário Reis, Sílvio Caldas, Dalva de Oliveira, mas hoje era mais um aposentado do samba, que dedilhava com os dedos calejados o mesmo violão que acompanhou Orlando Silva em Lábios que Beijei.
Meu segundo encontro com o Luiz foi muito mais intrigante, talvez porque o verão de 96 fosse mais quente ainda ou porque a vida desse tantas voltas.
Estava casualmente num bar do Bom Retiro, onde alguns amigos mostraram o caminho de uma das picanhas mais gosto-sas da cidade, quando meu olhar bate, lá no fundo do boteco, com o mulato, de ca-belos cada vez mais brancos, com um violão do lado. Abraçamo-nos efusivamente, trocamos algumas notas e acabei ligando para casa, avisando que não tinha hora para chegar.
Depois de muitas músicas e cerveja, Luiz contou-me que também era compositor, poeta daqueles que têm as gavetas cheias de letras e não têm coragem de mostrar para ninguém porque entendia que, perto de um Noel, seus versos não passariam de um pagode sem tempero. Ainda assim cantou-me alguns deliciosos versos que até hoje tenho na memória (como ele mesmo afirmava, cada esquina da memória tem sempre um samba guardado). Lembro-me de vou descolorir as palavras de amor/ não vou mais fingir/ dei azar e fui um sofredor, que ele fez com o Carlão, um estudante de Letras, letras de samba, de preferência. Ou ainda esquecimento é uma forma de oração/ quando lembro de você/ rezo a Deus, peço perdão, que ele compôs para quando tivesse de esquecer alguém.
E no meio de composições várias, Luiz sai com uma letra que me era muito familiar, ou quase familiar: De bar em bar minha viola desconsola/ tira um verso da cartola/ tira um toque de ternura/ Tira o sol da vida dura/ gira a luz que o samba guarda/ Faz amor com mais doçura/ faz da dor a batucada.
E eu emendei, com cara de espanto, no mesmo tom: E o botequim tira de mim uma saudade/ Fecha os olhos da cidade/ Mas a vida continua./ Quando o dia sai à rua/ E a verdade se retrata / Se desfaz a serenata/ Morre um sonho e nada mais.
Foi indescritível a cara que o Luiz fez naquele momento, uma feição que dificil-mente irei esquecer, pela mistura de espanto, alegria, e um quê de “não é bem o que você está pensando”. É claro que eu conhecia o autor daqueles versos. Sidney Miller despontou no final década de 60, com uma obra que chegou a ser comparada com a de Chico Buarque, pela variedade de estilos e beleza das letras que a compunham; teve algumas composições suas gravadas por Nara Leão, Gal Costa (que naquele tempo se chamava Maria da Graça), Paulinho da Viola e Jards Macalé, todos, naquele momento, pouco conhecidos. Morreu em 1980, aos 34 anos, deixando um vazio tremendo na MPB, que a máquina de consumir besteira que conhecemos por mídia não hesitou em esconder.
Pouca gente, além de pesquisadores e curiosos da MPB, se lembra de Sidney. Não se ouve suas músicas no rádio ou na televisão, quem procura seus discos em lojas vai ouvir um sonoro desconhecimento da voz do vendedor. Somente alguns donos de sebo lembram-se dos discos da antiga Elenco, de capa branca, que raramente aparecem, e quando chegam lá são vendidos a preço de ouro.
Felizmente me incluo nesse universo restrito de cultuadores da memória de Sidney Miller. Eu e o Luiz, que agora me olhava com aquela cara assombrada, depois de ter cantado o Botequim nº 1 com uma letra tão bonita quanto a original, mas sem dúvida alterada.
A história que o Luiz contou-me na seqüência era tão insólita quanto a morte de um poeta aos 34 anos. O mulato possuía uma das mais bem nutridas discotecas da música brasileira, vinil e fitas cassetes se atulhavam num quartinho de sua casa na periferia da cidade, até que, lá por volta do final de1988, um incêndio destruiu boa parte de seu cantinho. De lá para cá Luiz tem tentado reconstruir sua memória. Sem filhos, tudo o que lhe restava eram aquelas “bolachas pretas”, testemunhas de tantos momentos de glória ou de tantas eternidades poéticas.
“Passo minha vida nos sebos da cidade. Um Orlando aqui, um Lupicínio ali e lá se vai a maior parte do dinheiro da minha aposentadoria. Mas tem muita coisa que já não existe mais, nem mesmo em discotecas públicas. Sinto saudade da Aracy Cortes, das suas primeiras gravações no teatro de revista, de uns tantos sambas do Ismael Silva, de uns versos marotos do Germano Matias ou do Gordurinha. Mas a maior perda foram os três discos do Sidney Miller. Outro dia encontrei numa galeria da São João o seu segundo LP, do Guarani ao Gua-raná, mas estava tão caro que... então co-mecei a reinventar Sidney Miller. Um pouco de memória, um pouco de criação e foi isso que você acabou de ouvir. É difícil mostrar essas criaturas para alguém, você foi uma dessas raras pessoas.”
Choramos juntos, pela lembrança de tantos Sidneys, Noéis, Lupicínios e tantos outros Melodias, que certamente ficarão esquecidos logo depois que morrerem. Mas então reanimei o Luiz:
“Olha, eu tenho todos os discos do Sidney e, se você quiser, posso gravá-los para você!”
Uma estranha luz acendeu seus olhos, uma incômoda sensação de alegria e medo, que me recordou o felicídio de suicidade de Assis Valente ou de Torquato Neto.
Marcamos um novo encontro, no mesmo lugar, dali a uma semana, quando eu traria as fitas.
Chovia muito e só a certeza de trazer alegria para um velho boêmio moviame por aquelas ruas enlameadas do Bom Retiro. Luiz ainda não havia chegado, tirei do bolso as três fitas e coloquei sobre a mesa. Não costumo ser caprichoso, mas a solenidade do momento pedia: embalei as fitas com a capa de cada um dos LPs do Sidney, copiei as letras e os intérpretes no verso.
Chamei a primeira cerveja e fiquei esperando por algum tempo. Comecei impacientar-me quando colocaram a terceira garrafa sobre a mesa, mas o garçom da madrugada, todo molhado e com cara de algumas horas de atraso, acabava de chegar.
“Desculpe a demora, mas esta chuva... Tenho um recado para o senhor. Ele não vai poder vir. Teve uns compromissos urgentes no Rio de Janeiro. Sabe como é, vida de artista... Mas ele deixou um bilhete e pediu para lhe entregar.”
Numa letra bonita Luiz procurava justificar-se.
“Desculpe amigo, mas alguma coisa que ainda não identifico muito bem (mas que comecei a vislumbrar em nosso último encontro) impediu-me de encontrar com você e com o Sidney. Você tem a sua verdade, eu prefiro ficar com meus sonhos.
Acredito que você cante para seus filhos as músicas do Sidney. Eu não tenho filhos, mas meus sobrinhos estão cansados de escutar meu violão com as canções que agora não são só dele, mas que têm uma pontinha deste mulato que vos escreve. Vamos cantando ‘tentando justificar as nossas vidas’, ou quem sabe esperando que quem nos ouve também cante para mais alguém, que cantará para outro futuro sambista, perpetuando a memória daqueles que essa indústria de mediocridades faz questão de fazer esquecer. Vamos cantando, até que alguém, um jornalista como você, por exemplo, descubra que ‘esse cara que escreveu essas letras é um gênio’, e redescobre Sidney e uma gravadora cisma de gravar suas velhas músicas reinterpretadas por novos talentos e um crítico descobre que a música dele serviu de inspiração para, veja você!, o pagode e, pronto, Sidney Miller cai no mais total e profundo esquecimento, porque não há forma mais eficaz de esquecimento do que essa memória de platina, vinil, celulóide, que só perpetua o prazer de comprar e nunca o sentimento escondido atrás de cada acorde de um violão.
Não. Prefiro ficar com o meu Sidney, modificado, curtido, mas que jamais será apoderado por essa máquina, da qual um dia eu também fiz parte.”
Nunca mais me encontrei com o Luiz, mas ainda hoje as palavras de sua carta estão na minha memória. Era como se ele quisesse inventar uma nova memória coletiva de todos os sambistas do mundo, com todos os versos escondidos no fundo de um copo de cerveja. A letra redondinha, caprichosa, terminava com uma citação que era do Sidney Miller, mas que já havia sido, marotamente, modificada pelo mulato:
Amigo, ouça bem o que eu lhe digo, vá cantar um samba antigo pra entender o que há de novo.
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