Poema: O super-herói e a moça nua
O super-herói e a moça nua
Do livro Saudade da Tribo, edição do autor.
Subi montanhas,
Saltei de pára-quedas,
Atravessei rios a nado,
Domei leões:
Prá te impressionar.
Fiz discursos em que choraram as velhinhas,
Escrevi textos que irritaram o bispo,
Gritei palavras de ordem nas passeatas,
Bati o pé, esperneei:
Prá te impressionar.
Pintei praias solitárias em aquarelas,
Esculpi madonas em cedro,
Cantei cantigas antigas,
Projetei catedrais:
Prá te impressionar.
Fiz tutu com torresmo,
Fiz filé com fritas,
Fiz iguarias com todas as ervas finas,
Fiz romeu e julieta, fiz café:
Prá te impressionar.
Nomeei árvores,
Descrevi pássaros,
Aprendi os hábitos das borboletas,
Desvendei os mistérios nucleares:
Prá te impressionar.
Beijei tua nuca e tuas orelhas,
Acariciei tuas coxas e teus seios,
Fui garoto de 18 - 50 anos,
Te amei duro e macio:
Prá te impressionar.
Bebi baldes de chope,
Comi jiló com pimenta,
Fumei charutos cubanos,
Três semanas sem dormir:
Prá te impressionar.
Pus camisa de linho,
Calças realçando minhas coxas,
Fiz a barba com denodo,
Passei loção no peito sem pêlos:
Prá te impressionar.
Prá te impressionar nasci,
Cresci até ter 2 metros,
Meu Q.I. chegou a 2000,
Minhas mãos tudo podem,
Meu coração pulsa em todos os poros.
E, depois de tão hercúlea tarefa,
Tu me chegas nua,
Vestida apenas desse sorriso nu,
E me rouba de vez a alma
que ao nascer já era tua.
Chico Ceola, poeta, é o pseudônimo de Maurício Ceolim, professor de Física da PUC-Campinas.
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