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Universidade, saberes e cidadania midiática

APROPUC-SP

Edson Passetti

Crise de modelos. A Universidade suporta a crise de paradigmas? Todos eles estão em crise? De que crise ou crises estamos falando? Apresentarei aqui uma breve análise sobre o que vem sendo nomeado por crise dos paradigmas e a sua vivência na Universidade a partir de três proveniências: o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, o Maio de 1968 e a queda do Muro de Berlim, em 1989.
A explosão da bomba atômica transferiu definitivamente o terreno das nossas relações e reflexões da superfície e profundidade para o espaço. Conquistá-lo significou não só ocupá-lo com satélites de vigilância, ataque e defesa militares mas habitá-lo, explorá-lo, mapeá-lo de uma maneira menos milimétrica do que foi a Antártida. Mesmo porque os mapas siderais cartografam superfícies, subsolos e procuram descobrir o desconhecido. Nesta empreitada para uma nova navegação investiram não só os capitalistas como os socialistas, revelando inusitadas dimensões ao desenvolvimento das forças produtivas. Universidade, empresas, Estado e segurança passaram a formar um quadrado mágico.
Maio de 1968 instabilizou não só os tronos dos catedráticos nas universidades, dos partidos centralizados, dos sindicatos aristocratizados ou elitizados, mas sobretudo sublinhou uma rebeldia de jovens que se dirigiu, em diversos países, para o questionamento aos governos, sob as mais diversas formas de manifestação. O Maio de 1968 questionou autoridades centralizadoras, a substituição de um soberano por outro, autoritarismos, ilusões democrático-representativas, justiça social, direitos, enfim, relançou a pergunta: para que servem os governos? Insinuou respostas mostrando que há ordem fora da centralidade e que há possibilidades para o autogoverno.
Reformas dos mais diversos matizes se seguiram. A ditadura chinesa acomodou-se à entrada da economia de mercado através da política Reagan/Kissinger. Pinochet comandou, no Chile, uma ditadura para restauração da economia de mercado. E assim, logo no abrir da década de 70, o neoliberalismo se apresentou ao Planeta como a resposta conservadora. Anunciou-se, realizou-se e despediu-se nos meados dos anos 90, dando lugar a um liberalismo social capaz de acomodar sociais-democratas e todo o leque dos engajados no universalizante programa democrático, a expressão política da globalização.
Berlim, 1989, é o emblemático acontecimento que marca a passagem do neoliberalismo ao liberalismo social. O fim da tarefa conservadora em direção a uma nova acomodação planetária que investe em reeducar os contestadores. A democracia se transforma em meio e fim para a justiça social, a contenção de investimento estatal, o rearranjo de interesses entre empresários e burocracia estatal e o afastamento dos sindicatos da zona de tomada de decisões iniciado com o neoliberalismo. É a democracia corporativista que faz do parlamento o centro da teatralização da política.
Desde o final da guerra, as totalizações e totalitarismos foram sendo questionados, fazendo aparecer outras condições para a emergência de um novo intelectual. Desde então, foi ficando cada vez mais difícil notar a distinção entre trabalho material e trabalho intelectual e o trabalho intelectual tomou a dianteira. Quase desapercebidamente o investimento na sujeição deixou de ser a maximização da extração das energias econômicas do corpo, enfraquecendo-o politicamente, próprio da sociedade disciplinar, para se tornar um novo modelo, o da intensificação na ocupação das energias das partes vitais do corpo, alimentando-o de política democrática. É o investimento da sociedade de controle em redução da rebeldia: a produção passou a ser informatizada, computadorizada, robotizada, e a massa foi sendo tragada em partes. Não importa mais se o corpo é dócil, limpo e com saúde. Importa pedaços do corpo, e estes fragmentos devem ser saudáveis, ou sãos, enquanto puderem ser intensificados produtivamente. Nem os yuppies são criações neoliberais, nem a revolução da informática é uma novidade dos anos 90, nem as políticas de direitos são apenas produto da generosidade do governo Carter ou de seu maquiavelismo para destronar os socialistas.
A reforma dos anos 70 abriu o leque democrático e educou as populações com base nos efeitos midiáticos da televisão. A democracia foi se tornando o grande valor universal capaz de aglutinar os excluídos de sempre, os que foram desalojados dos governos, os habituais freqüentadores dos parlamentos, uma nova classe média proveniente do trabalho intelectualizado, e nos conectou em redes.
A sociedade da disciplina não desapareceu mas desterrou-se em controles siderais. O olho do panóptico a nos vigiar não está mais sozinho: a televisão e a informática nos transformam em sujeitos que aprendem e que vêem a realidade como ela nos é apresentada por esta telerrealidade. O panóptico disciplinar convive com os sinópticos quadros apresentados pela midiatização da vida que se faz passar por lugar sagrado.
A democracia também se midiatiza e a política vira parte da encenação eletrônica. Importa menos interesses, programas partidários e publicização de decisões e mais publicidade, políticos vedetes e pesquisas de opinião.

As reformas dos anos 70 informaram sobre o fim das massas, a fragmentação do indivíduo, a apologia da democracia como valor universal, traduzida por democracia representativa. Inventou e reinventou cidadanias e respondeu aos acontecimentos sintetizados na expressão Maio de 68, que foi capaz de criar fissuras nas duas principais interdições da nossa sociedade: o sexo e a política.
Desde lá, experimentamos o que de melhor havia em sexo, ainda que os imbecis vangloriem-se com efeitos devastadores criados pela Aids. Sabemos que ela não é resultado de promiscuidade, antes disso, ela sublinha quanta sexualidade continua sendo sufocada e ao mesmo tempo como ela transborda independentemente das boas vontades com relação à saúde ou à moral. Não há como conter sujeições ainda que o projeto democrático possa parecer adequado a alguns e momentaneamente a muitos. A revolução sexual mostrou como as mulheres podem educar os homens numa dupla libertação: delas pelos machos e dos homens pelas exigências machistas. Os desejos deixaram de ser guardados e ainda que sob o nome de minorias a maioria sexual apareceu e pode expressar as suas preferidas maneiras de prazer. A política acomodada aos partidos representativos tradicionais recebeu intromissões necessárias das micropolíticas, os movimentos sociais proliferaram até serem conformados aos novos tempos como organizações não-governamentais, indispuseram-se com lideranças tradicionais, fizeram aparecer outros atores e dissolveram chefetes uniformizados.
A Universidade não se afastou disso tudo. Ela reparou, se reformou e a nossa, em especial, bradou contra a intolerância e se fez histórica ao traduzir e traduzir-se em múltiplas formas de resistências.
A Universidade não vive sem pluralidade e publicização. Ela não pode se ver frente à universidade estatal como "espelho da verdade". Público e Estado são coisas diferentes e de pouca valia, a defender a idéia de que tudo o que provém do Estado é público e recomendado a todos. Se fosse assim, não haveria interesses em jogo e muito menos benefícios particulares sendo atendidos.
Aliás, quanto mais se incensou o Estado mais autoritárias se tornaram a educação e a vida. A Universidade deve incentivar, internamente, as múltiplas procedências para saber conviver com a diversidade de universidades. E assim fica mais fácil entender por que alguns paradigmas entram em crise enquanto outros procriam em determinados momentos; como fluxos e refluxos neste movimento nos mostram linhas de fuga que beneficiam a própria diversidade, sinalizando que se pode pensar, agir, criar e bradar sem estarmos subordinados a uma autoridade centralizada.
Sem crise não existe Universidade e alternância de diversidades. A crise é saudável quando os nela envolvidos se reconhecem ou quando constatam que não há mais lugar para um saber que se pretenda "melhor" ou "mais abrangente". Sabemos, também, que o clássico intelectual humanista totalizador foi tragado pela materialidade da sociedade de controle e que entre as várias formas de atuação do intelectual ele precisa falar de múltiplos lugares de maneira polivalente, abandonando sua intenção profética, para atuar lado a lado com os demais sem ter a pretensão de falar de todos, para todos, em todos os lugares.
A PUC-SP nunca sofreu de melancolia, não teve medo do passado recente e, do nosso jeito, sabemos lidar com a diversidade em nome da liberdade. Claro que de vez em quando uns se acham mais sabichões que os outros. Mas se isto não ocorresse não haveria universidade. Quem sabe, estaríamos num "jardim das delícias".
O século XXI que se aproxima está sendo recebido neste tempo de ocupação e vigilância sideral do espaço e das pessoas, de democracia midiática, de predominância do trabalho intelectual num entrecruzar de disciplina e controle, com muitas crises de saberes e modelos, anunciando novas formas de resistências por dentro da própria informática e gestando cidadãos midiáticos. São cidadãos midiáticos de dupla mão: educados pela mídia e rebeldes libertários. Frente às telerrealidades a Universidade deve se posicionar no presente, não sendo nostálgica, pois é sabido que uma vida vivida sem medos no presente nos deixa tranqüilos da nossa finitude.

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