Antes e depois do ato de ensinar
Antonio Marchionni
O ato de ensinar é um ato de paternidade. Nele o professor engendra as mentes e a história.
Nisto reside a dignidade do professor: a de lidar com algo digno, isto é, aquela parte do ser humano pela qual este se distingue do resto do universo. Na mente racional e livre-pensadora, os iluministas fazem consistir a dignidade do homem, sujeita dos direitos de igualdade, liberdade e fraternidade cosmopolita. Na mente racional e transcendental, os idealistas alemães e os espiritualistas orientais identificam a grandeza do homem, capaz de interpretar a racionalidade do Espírito Absoluto e executá-la na história. Na mente racional e contemplativa, as religiões fazem consistir a divindade do homem, chamado a revestir-se dos pensamentos e dos atos divinos: "Sois todos deuses e filhos do Altíssimo" e "O fizeste pouco menor que os anjos".
Eis, portanto, o professor como artesão das mentes, no ato de moldá-las, alimentá-las, redirecioná-las, armá-las, confortá-las. Daí deriva o tremor com o qual o professor se dirige à sala de aula, ciente do poder de direcionar as mentes dos jovens para caminhos apropriados ou equivocados, com seqüelas faustas ou nefastas, rigorosamente imputáveis a ele, professor. Quando, em sala de aula de Direito, pergunto aos alunos por que o juiz recebe altos salários, e eles os creditam à carga de responsabilidade de um juiz, respondo que no ato de ensinar eu, professor, tenho uma responsabilidade ainda maior que a de um juiz, gozando do poder de fazer deles, alunos, uma classe de bons-homens ou de galeotas.
As mentes! Tudo aquilo que o homem realiza por fora, foi primeiro engendrado no silêncio de sua mente. Grandes mentes fazem grandes homens e grandes feitos. Pequenas mentes fazem seres pusilânimes e comédias.
Nem é de se excluir que boa parte dos insucessos da nação brasileira seja de responsabilidade dos professores. No começo a culpa era dos governos militares, porta-vozes das elites. Depois veio o governo civil com o Plano Cruzado e o estelionato eleitoral. Depois veio o governo dos "mauricinhos", com o confisco da poupança e o empeachment do presidente. Agora, temos o governo dos intelectuais universitários com o Plano Real, o estelionato cambial e a tomada de praças e ruas pelo assassinato que amedronta a nação. O que não está dando certo? Respondo: as mentes.
O ato de ensinar é um ato científico e um ato ético: transmite dados ordenados a um fim bom. Colocar amoravelmente idéias norteadoras no íntimo do aluno (in sinu = no seio, ensinar) significa tornar o aluno apto a recordá-las (re-cordi-dare = dar de novo ao coração) e atuá-las na vida individual e coletiva.
Atribuo a edificação das mentes, em sua dimensão científica e ética, a duas instâncias: a Universidade e a Religião. No que diz respeito às massas, acrescento os meios de comunicação. Ora, se as mentes da nossa nação sofrem eternamente em recorrentes tentativas mal-sucedidas de dar racionalidade ao País, isto deve debitar-se ao mal funcionamento da Universidade, da religião e dos meios radiotelevisivos.
Vejo a Universidade encerrada em sua fortaleza intestina, administrando penosamente sua sobrevivência biológica.
Vejo a religião mortificando a fecundidade do mistério e do culto meditativo em prol de afirmações corporal-teátricas, assumindo o discurso da sociologia antropológica ao invés da antropologia teológica, oferecendo soluções sacrais a problema sociais-financeiros, atacada e menosprezada pelos letrados das universidades.
Vejo os meios de comunicação entregues aos mercadores do templo, onde a novela diária se ergue a referencial fantástico-novelesco do agir das massas, tornando-as incapazes de operar o real, com a complacência covarde das mentes laicas e religiosas.
Devolvamos à mente evoluída e conciliadora a capacidade de produzir atos conclusivos, em vez de depositar a solução dos problemas da nação aos predicados instintuais da carne! É aqui que vejo, no que tange a função diretiva da Universidade na sociedade, a importância decisiva do ato de ensinar.
Antes do ato de ensinar: ruminação e arrumação
A imagem do boi ruminante era corrente nos professores medievais, para conotar o método da adquisição do saber.
Primeiro, o boi morde o feno sem pausa, guardando-o na bolsa estomacal. Do mesmo modo, o professor se apropria de tudo quanto lhe é preparado pela criatividade da cultura mundial. Em 1127, escrevendo o seu Da Arte de Ler, primeiro exemplar histórico de guia aos estudos para os jovens que vinham a Paris dos quatro cantos da Europa, o mestre Hugo de São Vítor lhes recomendava: "Lê tudo, nada despreze daquilo que os outros escreveram". O bom professor é devorador ávido de leitura, pesquisa, experimentação, observação, experiência existencial e escuta.
Num segundo momento, chamando em causa a memória (faculdade decisiva no saber), o professor extrai do seu manancial mental coisas velhas e novas, saboreando-as lentamente e transformando-as em alimento para si e para os alunos. Esta ruminação é um momento solitário e beatificante, semelhante à ruminação paciente do boi à sombra do salgueiro. No silêncio reflexivo, o professor faz retornar à mente as imagens-idéias depositadas anteriormente no armazém da imaginação, seleciona-as em arquivos similares às arcas nas quais os antigos catalogavam seus livros, harmoniza-as num discurso lógico, finalmente as sintoniza com o conjunto do seu palacete interior.
O que é este palacete interior ? É a essência do professor, é a cosmovisão na qual ele ordena todas as idéias advindas da leitura e da observação, dando-lhes o significado e o sentido. E aqui surge a pergunta crucial: qual é, professor, a sua cosmovisão, o seu palacete? Sem isto, as idéias do professor vagam desordenadamente à procura do seu lugar numa ordem maior, e os alunos terão dificuldade em assimilá-las e situá-las.
Em termos de cosmovisão, oferecem-se ao professor três possibilidades maiores, entrelaçadas entre si por milhares de fios: a cosmovisão materialista, a cosmovisão espiritualista, a cosmovisão religiosa.
Na cosmovisão materialista, as idéias diárias se alojam na concepção geral de que a matéria se explica a si mesma, sem necessidade de hipóteses exteriores a ela. Tudo é explicável pelo processo físico de causa-efeito, ficando para um futuro próximo ou remoto, no avanço da ciência, a compreensão daquilo que agora nos parece misterioso. O homem é a única divindade do próprio homem, e o conjunto das mentes dos homens é a única força de que dispomos, segundo Feuerbach, para agir demiurgicamente na história. A realização da história é um ato ciumento do homem, que responde apenas a si mesmo. É assim que pensavam Epicuro, Marx, Nietzsche, Freud, Sartre, Simone de Bouvoir, Foucault, Deleuze. Ensinar significa transmitir conhecimentos que impulsionem o aluno ao esforço prometéico de realizar uma história humana em estruturas humanizadoras.
Na cosmovisão espiritualista, as idéias são o revérbero do Espírito que vive e pulsa dentro da matéria. Do mesmo modo que dentro do corpo visível do homem vibra o "eu" invisível, feito de lembranças, pensamentos e desejos, assim dentro da matéria atua um Espírito vivificante, que Hegel chamava Espírito Absoluto, Razão, Deus, Idéia. As idéias filosóficas, jurídicas, econômicas, sociais, religiosas e científicas são, neste contexto, uma interpretação da Idéia, captada em seu devir dialético-racional na Natureza mineral, vegetal e animal. Por isso, no axioma hegeliano, "o real é racional e o racional é real". O lugar privilegiado, onde o Espírito-Razão-Idéia se manifesta e se auto-compreende, é a mente do homem, razão pela qual as instituições humanas, entre elas o Estado, são uma encarnação de Deus-Espírito-Razão. Esta cosmovisão belíssima entusiasmava os jovens de Berlim, pendurados nas janelas da universidade para ouvir o grande Hegel, que morreu de cólera, em 1831, dizendo aos circunstantes: "Estou voltando à Natureza, ao meu Deus". É assim que pensavam os idealistas alemães e é assim que pensam os espiritualistas orientais, em consonância com Platão, Aristóteles, Plotino, Espinoza, os Românticos, e muitos pensadores atuais. Ensinar significa despertar no aluno as idéias que o ponham em sintonia com o Espírito-Razão-Ordem-Universo.
Na cosmovisão religiosa, o Espírito não apenas vibra dentro da matéria, mas é criador e pai dela. Daí o diálogo do crente com o Pai-Criador, diálogo que se chama Fé no ato individual de crer e se transforma em Religião quando a fé se organiza comunitariamente. Fazer a história significa, para o homem religioso, ir completando a Criação, em sinergia com Deus, segundo um projeto contido nos Livros da Revelação e interpretado pela Igreja-Comunidade dos crentes. A Teologia, a Filosofia e a Ciência significam um ato de amor e um retorno para a Mente Divina, que é Razão primordial e arquetípica de todas as coisas. A "Filos Sophia" é o "amor para com a Sapiência", a qual é a Mente viva onde o universo foi pensado em formas boas, antes de ser realizado. É assim que pensavam Agostinho, os Padres da Igreja, Tomás de Aquino, Erasmo de Rotterdam, Maritain, Mounier, Congar. Ensinar significa pro-fetizar, pro-falar (do grego pro-femí) , falar em lugar de Alguém, ser para os alunos um alto-falante da Mente divina. Ensinar significa situar a mente do aluno na dinâmica cósmico-dantesca do "Amor que move o sol e as estrelas".
Muitas aulas significam nada para o aluno, porque as idéias do professor não adquiriram significado numa cosmovisão pessoal articulada e equilibrada, vivendo esparsas, como as almas vagantes que não receberam sepultura. E aí você vê professores que se afanam em inventar técnicas de ensino, quando sabemos que a idéia verdadeira se impõe por si só à atenção do aluno, pelo brilho do seu significado ontológico.
Isto dito, deduz-se quanto prejudicial é para a Universidade o professor tarefeiro, dador de aulas, que vaga afanosamente, o tempo todo da semana, de uma para outra faculdade, sem nada ler, tirando emprego a novos colegas, no intuito de acumular proventos, ora justificados por necessidade objetiva, ora simplesmente ditados pela hýbris, ganância desmedida contra a qual lutaram os sábios da Grécia Antiga.
Se a biblioteca do professor sábio é o silêncio, o professor mergulhado no barulho do dia e no cansaço da noite é um escravo da necessidade biológica, incapacitado de entrar no reino da liberdade, lá onde a mente espiritual recolhe e reordena suas forças, para depois produzir a fecundidade arcana do ato de ensinar. O atleta que se concentra na ponta do trampolim antes do mergulho é a imagem do recolhimento meditativo do bom professor antes do ato de ensinar.
Depois do ato de ensinar: sentinela do povo
De manhã cedo, ainda no escuro, enquanto a cidade dormia, os professores medievais já levavam em procissão o Livro até a capela, onde o iluminavam com velas e ouviam leituras.
O intelectual vigia sobre a sociedade que trabalha ou dorme. Ele é a sentinela atenta ao perigo. Ele é o farol de referência, ao qual se pede a última palavra agregadora, quando o corpo social vive o mal-estar do desentendimento destruidor. Ele é o promotor do senso moral dos cidadãos. Se ao político compete a redação das leis e a organização das instituições, ao intelectual cabe a invenção dos motivos últimos e das finalidades éticas, às quais as leis e as instituições servem. Professor que professa aquilo que ensina, nele confia a sociedade dos homens, mais próximo, como ele é, do saber criador e da Sapiência vivificadora.
Depois do ato de ensinar, o saber do professor se faz história nas ações dos alunos. Com efeito, o agir segue o ser. Do ser do homem procede o seu agir. Ora, o ser do homem, o modo de ser humano, diversamente do modo de ser animal, consiste na capacidade de pensar operada na mente. Como dissemos, da riqueza ou penúria da mente do homem (e de uma nação) depende a riqueza ou a miséria do agir daquele homem (e daquela nação): "Dos frutos conhecereis a árvore".
Depois do ato de ensinar, o professor vigia a história. Quando o corpo social vai se degenerando, quando os números da contravenção superam o nível de guarda e fazem saltar irremediavelmente o sistema judicial-penitenciário, quando a estima do outro cede lugar à desconfiança do outro, quando a sociedade vai perdendo a capacidade de sonhar, é neste momento que o professor-intelectual surge como herói de valores desacreditados e não mais professados, salvando a comunidade.
Após a aula, na qual alimenta e se realimenta, o professor é aquele que se dedica a escrever, a iluminar debates, a traduzir pensamentos expressos em outras línguas, a fazer evoluir o saber popular, a combater o espírito do enfrentamento entre as pessoas e promover o entendimento racional entre elas, a propor o otimismo advindo da energia das mentes evoluídas.
Quando, porém, o professor limita sua tarefa ao ato de ensinar nu e cru, trai sua capacidade e condena a nação tanto à orfandade cultural como à paralisia social. Trago como exemplo o lugar onde vivo, Campinas, cidade sem significado e sem alma. A cidade não expressa vida comunitária alguma; os impostos escorchantes não detêm o atraso dos salários e a feiura urbanística; do pôr do sol ao amanhecer as ruas e praças, território da marginalidade, transformam-se em desertos guardados por lampiões soturnos, sob toque de recolher; não se sabe se as autoridades civis e religiosas estão vivas ou morreram; a tristeza, segregada atrás de grades, empobrece as pessoas. A média de assassinatos em Campinas é de um a cada doze horas, isto é, 730 por ano (a Inglaterra, com 60 milhões de habitantes, teve, no ano passado, 600 homicídios). Diante disso, descrente da força de suas mentes, a universidade fechou suas entradas com guaritas, seus alunos se entrincheiram em projetinhos pessoais, seus professores curvam-se sobre os umbigos. A universidade dorme sobre a cidade.
Urge, e o faremos, chamar os professores a cerrar fileiras. Pela profissão dos conhecimentos, pela altivez da dignidade moral, pelo exemplo àqueles que foram seus discípulos, o professor é o edificador da cidade. Mas, "se o Senhor não edifica a cidade, em vão trabalham aqueles que querem edificá-la". O Senhor, para o professor religioso, é Deus-Providente que apascenta as mentes; para o professor espiritualista é a Razão que constitui o cosmo; para o professor materialista, é a Razão científico-estética que anima o homem bem intencionado.
Senhoreados por cosmovisões igualmente dignas, capazes de unir-se na distinção respeitosa, os profissionais da razão têm pela frente a tarefa de engendrar um projeto racional para a nação. Feito um pacto social que ampare no futuro a sobrevivência biológica de todos os cidadãos, o professor não será obrigado a defender-se do futuro mediante a acumulação no presente. Assim, lhe sobrará tempo para a ruminação. E, eliminado o impulso instintual e individual para a acumulação, serão reinstalados na nação a racionalidade e os valores.
Voltar
|
Versão em PDF
|
Encaminhar
|
Imprimir
|










