O movimento humano consciente
Carol Kolyniak Filho
A PUC-SP atravessa um momento caracterizado pela necessidade de ampla discussão de seu projeto político-acadêmico. Dentre os fatores que contribuem para configurar a urgência de tal discussão, ressaltamos (a) a LDB (Lei 9394/96), com as suas conseqüências político-econômicas e acadêmicas, e (b) a situação econômica da Instituição, no bojo da política econômica brasileira e mundial.
Uma das implicações gerais da LDB é a maior autonomia da universidade na composição curricular de seus cursos - embora estejam sendo elaboradas diretrizes curriculares, em âmbito federal, para todas as áreas de formação, espera-se que estas sejam de caráter mais geral, possibilitando a cada instituição a organização de currículos que expressem suas concepções políticas e epistemológicas.
Dentre as implicações mais específicas da LDB, vamos destacar o tratamento dado à Educação Física, em especial no ensino superior. A Lei 9394/96 estabeleceu obrigatoriedade de inclusão da Educação Física apenas no ensino básico. No ensino superior, a manutenção ou não da Educação Física, anteriormente obrigatória, nos currículos dos cursos de graduação, depende de decisão de cada universidade. Por isso, já em 1997 iniciou-se uma discussão, em cada faculdade, a respeito da pertinência ou não da Educação Física, nos cursos de graduação da PUC.
A discussão avançou em ritmos diferentes, nas várias faculdades e cursos, durante o ano de 1997. Em 1998, o Departamento de Educação Física e Esportes (Defe) da Faculdade de Educação apresentou ao Cepe um projeto de manutenção da Educação Física em todos os cursos, na qualidade de disciplina acadêmica, tendo como objeto de estudo a motricidade humana. Nessa proposta, estabelecem-se os objetivos, o conteúdo e a metodologia da disciplina, propondo-se que a mesma permaneça com a carga horária e a organização em vigor - Educação Física I e II, com um total de 4 créditos, cursados preferencialmente no primeiro ano de cada curso. O projeto foi objeto de análise, discussão e pareceres no âmbito da Comissão de Ensino, tendo como base, também, uma consulta feita às várias faculdades. Na sessão do Cepe de outubro de 1998, decidiu-se pelo adiamento da decisão a respeito da proposta para o primeiro semestre de 1999, em face da inexistência de um consenso entre todas as faculdades, com relação à mesma. Para possibilitar uma discussão mais ampla da proposta do Defe e sua possível reformulação a partir da reflexão de professores de todas as unidades da PUC, decidiu-se desenvolver um Fórum de Educação Física, a realizar-se em março de 1999, com a coordenação da Comissão de Ensino. Desse fórum, deve resultar um posicionamento mais claro do conjunto da universidade frente à pertinência e à forma de inserção da Educação Física na PUC.
Este artigo destina-se a informar os leitores a respeito da Educação Física na PUC, oferecendo alguns subsídios para uma melhor compreensão de seu significado na universidade.
O corpo e a mente
Os alunos que cursam a disciplina Educação Física, na PUC-SP, surpreendem-se logo no primeiro dia letivo, ao receber a informação de que as aulas são teórico-práticas. "Educação Física teórica? Como isso é possível? O que a Educação Física tem a ver com o meu curso?"- são perguntas comuns diante da inesperada "bomba". Essa surpresa é justificada pelo fato de que, na grande maioria das escolas de primeiro e segundo graus, a Educação Física é um componente curricular essencialmente prático, caracterizado pelo desenvolvimento de habilidades motoras. Nesse quadro, a quase totalidade dos alunos que chegam à universidade tem uma concepção de Educação Física como prática extra-classe, momento privilegiado para trabalhar o corpo, visto que a mente é cultivada em sala de aula, com concentração e pouco movimento. Num sistema educacional que, apesar do discurso que afirma a necessidade do desenvolvimento global do aluno, privilegia o aspecto intelectual, espera-se (em geral) que a Educação Física cuide do corpo, para discipliná-lo, educá-lo, colocá-lo como instrumento dócil do espírito, oferecendo, ainda, momentos de descontração e liberação de energia.
A opção política, teórica e metodológica assumida pelo Defe da PUC aponta para outra direção. Tal opção, fundamentada numa visão de universidade como instituição potencialmente transformadora das relações sociais, pela via da produção e socialização do conhecimento, começa por uma concepção de Educação Física como área de conhecimento, e não como mera prática. O objeto de estudo dessa área é definido como o movimento humano consciente, ou seja, o movimento voluntário, intencional, pensado. Por isso, não se trata de práticas de adestramento ou de aquisição de capacidades físicas por meio de procedimentos mecânicos. O objetivo é a compreensão do modo pelo qual o movimento humano ocorre, em todas as situações de vida - nas atividades cotidianas do trabalho, do estudo, do lazer, nas manifestações esportivas e artísticas... A compreensão do movimento como expressão da totalidade humana exige o estudo integrado dos seus aspectos biológicos e psicossociais, tendo por referência o contexto cultural em que ocorre. No quadro mais amplo da cultura, o sistema político-econômico tem relevância particular na compreensão de valores, atitudes e opções relacionados ao corpo e à motricidade.
Assumida como área de conhecimento, a Educação Física centra-se em socializar o conhecimento produzido historicamente sobre o movimento humano consciente. Para isso, recorre a uma metodologia que articula vivências práticas com conceitos científicos elaborados, de modo que os alunos possam compreender os fundamentos da motricidade e obter maior autonomia nas suas decisões e opções acerca do corpo e do movimento. Essa autonomia consiste, entre outras coisas, em saber avaliar suas necessidades de movimento, assim como em ter critérios para julgar se a orientação recebida em academias, clubes ou outros locais que promovem atividades motoras sistematizadas é adequada ou não (nem sempre é, pois em muitos casos os orientadores não têm a formação necessária). Por essas razões, são realizadas diferentes atividades, tais como ler e discutir textos, assistir e comentar vídeos, discutir em grupos assuntos específicos, jogar uma partida de voleibol, fazer exercícios abdominais, correr, fazer dramatizações, observar movimentos dos colegas... Nenhuma dessas atividades é considerada como fim em si mesma, tendo sentido apenas em seu conjunto, como partes de um processo pedagógico com objetivos definidos.
Finalmente, cabe esclarecer que a disciplina busca estabelecer relações entre seu objeto de estudo - o movimento humano consciente - e as diferentes áreas de formação profissional. Por isso, principalmente no segundo semestre, o conteúdo da disciplina é diferenciado por curso - daí a necessidade de se ter turmas especiais para cada curso.
Além da disciplina Educação Física, o Defe promove, através da Cogeae (Coordenadoria Geral de Aperfeiçoamento e Extensão), atividades sistemáticas como capoeira, esgrima, ginástica respiratória e condicionamento físico. Essas atividades são desenvolvidas de forma diferenciada, possibilitando a professores, funcionários e alunos a vivência e os benefícios de cada ação (predominantemente) motora sistematizada e fundamentada em conhecimentos científicos. Orientação individualizada, respeito ao ritmo, às características e necessidades de cada aluno, informação e reflexão sobre as atividades propostas são algumas das marcas que destacam o trabalho feito na PUC daquele que predomina na "indústria da malhação". Outra vertente de atuação do Defe é a promoção de competições esportivas internas e externas. Até o ano de 1994 a PUC mantinha equipes de diferentes modalidades (basquetebol, voleibol e futebol), formadas por alunos e alunas de todos os cursos e orientadas por professores vinculados ao Defe. Essas equipes representavam a universidade em competições externas, sempre com a presença do professor responsável. A partir de 1995, devido as dificuldades financeiras, as horas contratuais dedicadas a essas atividades foram eliminadas e o Defe passou a organizar apenas competições internas, envolvendo professores, funcionários e alunos. O principal objetivo do Defe, na organização das competições internas, é promover a prática esportiva de forma mais crítica e comprometida com o bem-estar dos participantes, de modo que o esporte possa propiciar benefícios para a qualidade de vida da comunidade universitária. Para tanto, é necessário refletir sobre o modelo da prática esportiva profissional, veiculada nos meios de comunicação social, evitando-se distorções decorrentes da competição exacerbada e da busca de vitória a qualquer preço, que freqüentemente trazem prejuízos aos participantes (acidentes, lesões, violência, doping, fraudes, etc).
Portanto, tanto nas aulas de Educação Física como nas atividades sistemáticas optativas, na PUC, trata-se do movimento humano consciente.
A partir da breve descrição das atividades desenvolvidas pelo Defe, pode-se sumarizar as linhas de ação da Educação Física na PUC no quadro abaixo.
Cabe ressaltar que, no conjunto dessas ações, a área acadêmica tem um papel central, pois trata-se de sistematizar o conhecimento sobre a motricidade e colocá-lo ao alcance das pessoas, através da disciplina Educação Física e de cursos de extensão (extensão universitária e especialização) e das atividades desenvolvidas pelas duas outras áreas. Os professores que trabalham com as atividades para melhoria da qualidade de vida e com competições também ministram a disciplina Educação Física e, portanto, levam para as referidas atividades a elaboração teórica decorrente da contínua reflexão levada a cabo no Defe, nas reuniões semanais.
Histórico e projeções
O conjunto das linhas de ação do Defe, exposto anteriormente, configura um projeto político-pedagógico que está em construção há cerca de 12 anos.
Para que se possa avaliar melhor o significado do referido projeto cabe lembrar como a Educação Física foi introduzida como componente obrigatório no ensino de 3° grau.
A partir de 1969, já sob a égide da ditadura militar instaurada em 1964, a Educação Física escolar passou a assumir o esporte como referência fundamental para o planejamento curricular. Essa orientação representou, por um lado, a continuidade da valorização do esporte como conteúdo educacional, que vinha ocorrendo desde o início da década de 1950, em substituição aos movimentos ginásticos de inspirações médico-higienista e militar-nacionalista. Por outro lado, constituiu-se como parte da implementação de um projeto educacional caracterizado pelo tecnicismo, pela abolição da reflexão crítica sobre a realidade (corporificada na retirada da Filosofia dos currículos do ensino médio), pelo patrulhamento ideológico (através da inserção da Educação Moral e Cívica, da censura em livros didáticos, do afastamento de professores críticos, etc.) - tudo isso a serviço de uma política econômica alinhada com os interesses do capital internacional. Tal política educacional, ditada pelo governo norte-americano, por meio do célebre Acordo MEC-Usaid, articulou-se também com a Política Nacional de Educação Física e Esportes, definida pela Lei 6251/75. Segundo a referida lei, o trabalho na área da Educação Física, no Brasil, teria como objetivos centrais a melhoria da aptidão física da população, o aumento da participação estudantil e popular em práticas desportivas e o aprimoramento técnico dos desportistas, para melhorar o desempenho das representações nacionais em competições internacionais.
A articulação da política educacional com a política econômica expressou-se também em forte repressão ao movimento estudantil que, no período de 1964 a 1968, representou uma significativa manifestação de resistência ao autoritarismo do regime militar. Nesse contexto, o esporte aparecia também como uma possibilidade de dirigir o entusiasmo dos estudantes para competições desportivas, desviando o seu interesse das questões políticas. A implantação da obrigatoriedade da educação física no ensino de terceiro grau, em 1971, juntamente com a Educação Moral e Cívica, introduzida já em 1969, representou um mecanismo de controle ideológico do ensino superior. Isto fica evidenciado pelo fato de a Lei 69.450/71 fixar a aptidão física como referência fundamental para orientar a prática pedagógica da Educação Física no terceiro grau, além de recomendar que as atividades fossem predominantemente desportivas.
A partir de 1986, iniciou-se na antiga Coordenadoria de Educação Física e Esportes da PUC (Cefe), transformada em departamento em 1991, um processo de reflexão sobre o papel e as características da Educação Física na universidade. Tal reflexão iniciava-se com a negação do modelo imposto pela legislação, inspirado no controle ideológico sobre os estudantes e desvinculado dos objetivos do ensino universitário - inaceitável, portanto, em uma universidade como a PUC.
O intenso processo de discussão e elaboração que se seguiu, em reuniões semanais sistemáticas da equipe de professores, resultou na produção de uma nova proposta para a disciplina, cujas características foram apresentadas no II Seminário Nacional de Educação Física no Terceiro Grau, realizado no Recife, em dezembro de 1989. Em 1992, o Cepe da PUC-SP aprovou a indicação de que a Educação Física I fosse pré-requisito para a Educação Física II, reconhecendo a continuidade de conteúdo existente entre o 1° e o 2° semestres. Em 1994 já foram formadas turmas por cursos, possibilitando a implementação de conteúdos diferenciados para as várias áreas de formação. Nesse mesmo ano, iniciava-se a publicação da revista Discorpo (que já se encontra em seu número 8), divulgando a reflexão em curso e a viabilização do plano pedagógico da Educação Física na PUC, que veio a constituir-se em referência para várias instituições. Assim, a uma obrigatoriedade legal que impunha a Educação Física como prática esportiva voltada para a aptidão física, a PUC-SP, por meio do Defe, contrapôs um plano pedagógico que trata a Educação Física como área de conhecimento, com objeto definido e metodologia coerente com uma determinada visão de homem.
A continuidade das ações descritas sucintamente depende, em grande medida, das discussões no Fórum de Educação Física, e no Cepe, até junho de 1999. A permanência da Educação Física na PUC-SP, em suas três vertentes de atuação, possibilitará uma ampliação de suas ações para além dos muros da universidade. Os projetos prioritários são: a) discussão da educação física no ensino básico, por meio de seminários e cursos de especialização; b) rearticulação do movimento de organização e reflexão sobre educação física no ensino superior; c) discussão e intervenção em políticas públicas de atividades voltadas para melhoria da qualidade de vida, por meio de seminários e trabalhos de assessoria; d) implementação de núcleo de documentação e pesquisa sobre o esporte; e) ampliação dos programas de atividades para melhoria da qualidade de vida da comunidade universitária.
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