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Plano Acadêmico 1998-2000 e a atual conjuntura da PUC

APROPUC-SP

Fernando Torres-Londoño

Desde o segundo semestre de 1996, a PUC-SP, em diversas instâncias, vem trabalhando na construção de um Plano Acadêmico Trienal. No segundo semestre de 1998, este plano ficou pronto e foi apresentado para sua discussão nos colegiados superiores. Ele traz os objetivos de cada departamento, curso e unidade para os próximos três anos e explicita as diversas ações para alcançá-los.
No mesmo momento, o agravamento da crise do plano real fez com que a PUC respondesse com um elenco de medidas de emergência que agravam ainda mais as contingências em que esta instituição vive. Assim, a reunião de 20 de outubro de 1999, inicialmente pensada para apresentar o Plano Acadêmico Trienal, foi na realidade o palco para o anúncio das medidas de emergência. Nos dias seguintes, CAF, Cecom e Consun aprovaram o Plano Acadêmico Trienal condicionado à situação financeira da universidade. Nas reuniões de dezembro dos colegiados com os auditores da PUC, a Reitoria apresentou, em números, a difícil situação pela qual a universidade passa. A redefinição do perfil da dívida, e do serviço desta, foi colocada pelos auditores como absolutamente necessária para fazer da universidade uma instituição viável em termos financeiros. Finalmente, ficou claro que para responder à atual situação, mesmo com o aumento da receita por meio de convênios e prestação de serviços, a PUC depende do crescimento do número de alunos sem onerar os cursos.
Dado este quadro, tem sentido investir hoje na implementação do Plano Acadêmico Trienal? Este texto destina-se a dizer que sim, é pertinente investir no Plano Acadêmico Trienal, mesmo nas atuais circunstâncias. E mais: ele é absolutamente necessário para que a comunidade da PUC não fique presa ao espírito imediato da crise, dando unicamente respostas de emergência. Isto porque o plano, que explicita princípios, define objetivos e propõe ações, cria um marco para que em todas as instâncias se discuta o projeto PUC no contexto de ações concretas.
Ter na PUC um Plano Acadêmico Trienal (PAT), que projeta cada departamento e curso nos próximos três anos, significou alcançar um patamar de pensar-se em relação ao futuro e não unicamente ao presente. Não foi fácil para as unidades, que têm vivido anos de incertezas, examinar seu cotidiano, explicitar seus objetivos e definir os métodos para alcançá-los.
Tudo isto supõe um aprendizado. por parte do departamento, de uma série de práticas, algumas das quais aparecem como novidade para os professores. A primeira é a formulação de um diagnóstico da situação, examinando seu contexto, detectando pontos fortes e fracos, apontando estrangulamentos. Diagnóstico que só pode ser elaborado a partir da transparência no fornecimento dos dados e das informações. A segunda é a definição de prioridades para um tempo maior, superando o imediato ao semestral e anual. A terceira é a postulação de metas a ser alcançadas no cumprimento de um cronograma, através de uma série de ações a ser escolhidas, o que se traduziu em distribuição de responsabilidades entre os professores, a ser cobradas por chefias, direções e colegiados. O que, na prática, nós devemos levar à formulação de patamares de avaliação, com a conseqüente revisão de métodos e ações.
Os departamentos e as unidades olharam para si mesmos e desenharam a imagem do que querem ser daqui a três anos. Fizeram opções que colocadas na prática vão modificar formas de funcionamento e trazer novas responsabilidades a ser distribuídas desde os professores até os colegiados. Formularam, assim, traços de diversos projetos que superam o simples cotidiano de dar conta de um currículo ministrando aulas, o que, para a PUC, significa, além de afirmação de uma cultura diferente, a implementação de um novo tipo de gestão acadêmica que contempla o curto e também o médio e o longo prazo.
Num momento de alta turbulência, a comunidade acadêmica apontou o horizonte de princípios e objetivos que explicitam seu ideário como instituição de terceiro grau. O PAT constitui, assim, o referencial que permite a definição de uma agenda de discussão por parte da PUC-SP.
Este novo patamar não foi alcançado sem trazer uma série de traços que o diferenciam e que o tornam, para nós, ainda mais significativo. Como ponto de partida, ele examinou a universidade definida pela sua tríplice função de ensino-pesquisa-extensão. As unidades localizaram pontos de estrangulamento nas suas atividades e identificaram possibilidades e oportunidades até hoje não exploradas. Tudo isto se fez com ampla participação e discussão nos Departamentos, Conselhos Departamentais, Centros e na Reitoria. Isto fez com que o PAT fosse atravessado por um movimento constante, que ia dos departamentos e unidades aos colegiados e destes às unidades. Foi esta a forma que se encontrou de acordo com a tradição da PUC de responder ao perigo de um planejamento autoritário e imposto desde cima.

O PAT está sendo proposto à comunidade acadêmica da PUC, explicitando princípios que o inspiram e devem sustentá-lo. Postular princípios supõe que a comunidade da PUC enfrenta o delicado ponto de sua identidade ou, como foi nomeado, de sua marca.
Historicamente, esta marca começou a se definir na militância de um projeto que oferece formação, ancorado numa série de valores que deveriam caracterizar a atuação dos profissionais ali formados. Até os anos 60, estes valores eram explicitamente identificados com o catolicismo. Depois, nos anos 70 e 80, estes valores se diversificaram e foram explicitados, em termos políticos, numa opção irrestrita pela liberdade de pensamento, a luta contra qualquer tipo de totalitarismo, a democracia e o desfrute da cidadania plena para todos os brasileiros. Nos anos 90, o diferencial desta marca com respeito a outras instituições de ensino superior ficou menos evidente; a militância de professores e alunos num projeto de universidade ficou restrita a grupos e a identidade deixou de ser dada pela instituição PUC e passou e ser representada pelas unidades. Os traços da marca PUC já não são tão diferenciados como antes.
Os princípios do PAT representam o consenso existente entre nós, traduzido na marca de uma universidade privada de vocação pública, voltada à produção de conhecimento e definida pela sua opção de formar profissionais que atuem na sociedade como agentes de transformação social, guiados pela ética e comprometidos com a consolidação da democracia no Brasil e do exercício da cidadania por parte de todos os brasileiros. Marca que também se expressa na sua postura de autonomia perante o mercado, ciente de que, na interação com ele, a universidade como produtora de conhecimento deve aspirar também a modificá-lo, assim como à capacidade de intervenção da universidade, sustentada na adequação de seu projeto pedagógico às novas tecnologias, objetivando a modernização, segundo critérios éticos. Descansando tudo isto na marca que tem feito da formação e da qualificação acadêmica de seus professores um dos traços distintivos de seu projeto educativo. O que permite que se tenha hoje uma universidade definida pelo tripé ensino-pesquisa-extensão.
"A militância de professores e alunos num projeto de universidade ficou restrita a grupos e a identidade deixou de ser dada pela instituição PUC e passou a ser representada pelas unidades. Os traços da marca PUC já não são tão diferenciados como antes".
A explicitação desta marca e o desejo de sua preservação se expressam, no PAT, por quatro objetivos:
1. Garantir a excelência de todos os cursos oferecidos pela PUC.
2. Assegurar, nos próximos três anos, a presença definitiva da pesquisa como elemento fundamental do ensino e da extensão praticados na universidade.
3. Formular e implementar uma política a respeito da formação profissional oferecidas nos diversos cursos.
4. Gerar conhecimentos e serviços que garantam intervenções qualificadas na solução dos graves problemas da PUC-SP e da sociedade brasileira.
Estes quatro objetivos, por sua vez, se viabilizam em diversas ações.
É no leque da direção destas ações que identificamos, no PAT, grandes temas de uma agenda para o futuro da PUC, que ajude a conferir identidade a seu projeto.
Levantamos só três destes temas que, no atual momento de implementação da LDB e de discussão nacional das Diretrizes Curriculares, aparecem com maior evidência: no âmbito da formação profissional, que aluno queremos formar? Com que caraterísticas? Generalista, criativo, crítico, posicionado eticamente como ser humano e profissional, com domínio das novas mídias e tecnologias desenvolvidas pela informática, consciente de sua responsabilidade perante a sociedade, capaz de situar sua intervenção? Definido o perfil, de que forma a universidade vai formar este novo profissional?
Com respeito ao necessário vínculo no terceiro grau do ensino e da extensão em relação à pesquisa, é preciso caminhar para uma política de investigação. Nas atuais circunstâncias do País e da universidade, qual é a pesquisa que podemos fazer com maior competência? Em que somos fortes? A quem privilegiar? Perguntas estas que levantam a necessidade de retomarmos as avaliações sobre o que estamos produzindo em termos de conhecimento. Ainda sobre esta produção científica e sua relação com o ensino, será que ensinamos o que pesquisamos ou, como temos manifestado na Faculdade de Ciências Sociais, pesquisamos o que ensinamos?
Com relação à extensão, qual é sua real presença na universidade neste momento? Será que estamos fazendo, em termos de extensão, o que o País e a sociedade podem esperar de uma universidade definida como comunitária? Onde estão nossas potencialidades?

 O projeto de universidade formulado nos princípios se concretiza e formaliza assim através das políticas a ser definidas dentro desta agenda. Na definição delas se espera que os colegiados realizem sua vocação para pensar e desenhar a Universidade do futuro.
Uma última e definitiva questão exige ser colocada na nossa alegação de pertinência do PAT, nas atuais circunstâncias de crise econômica que o País atravessa. Trata-se da relação do PAT com o orçamento da universidade. A despeito de dizer o óbvio, a disponibilidade e definição de recursos são algo basilar em qualquer tipo de planejamento que pretenda dar certo e orçamento é um de seus itens fundamentais. Fizemos na PUC um plano acadêmico, em que se levou em conta os recursos com os quais temos contado nos últimos anos. As Unidades e o Reitoria considerarão também as contingências por que temos passado nos últimos anos, porém, não deixaram de incluir ações que achavam necessárias para realizar os objetivos. Isto foi fundamental para que as Unidades se pudessem projetar num futuro.
Formulamos desta forma o PAT, porque é por todos sabido que, por questões de estrutura, até hoje temos na PUC uma cisão entre o acadêmico e o administrativo. A universidade ainda não conta com indicadores administrativos e financeiros que permitam construir um diagnóstico particular para cada unidade e curso. Também a PUC, pelas contingências que tem atravessado nos últimos anos, não teve condições de formular um planejamento estratégico que servisse de referencial ao planejamento acadêmico. Partiu-se, pois, do acadêmico e dos recursos existentes, sabendo que o estabelecimento último das prioridades dependeria das disponibilidades econômicas. Aparecendo o orçamento, se acreditava que se abriria espaço para redefinição política das prioridades, trazendo provavelmente reformulação nas ações.
A crise que a economia do País enfrenta, com seus traços recessivos, e provavelmente inflacionários, seus efeitos na PUC, a concorrência cada vez mais acirrada do mercado de terceiro grau e, finalmente, as condições em que esta universidade deverá operar com a perda da filantropia, colocam a discussão das prioridades na ordem do dia. E a definição de prioridades, sem deixar de estar referida à preservação econômica e institucional da universidade, tem hoje o marco dos quatro objetivos do PAT, que podem livrar a PUC do improviso e da imprudência que nos assaltam nos momentos de crise.

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