Europarasitismo e crise global

APROPUC-SP

José Martins

O problema dos capitalistas e seus economistas é que não é só nos "tigres asiáticos", na Rússia ou na América Latina, que a crise de superprodução do capital se manifesta. Se fosse assim, eles poderiam dormir tranqüilos. Bastaria aplicar o conhecido receituário de ajuste do FMI aqui e ali e produzir mais algumas dezenas de milhões de mexicanos, brasileiros, argentinos, russos e chineses a serem cremados no inferno dos "extremamente pobres" da população.
Aplicado este ajuste, a crise global seria mais uma vez evitada. E o capital, no mundo das maravilhas, poderia caminhar de novo com sua costumeira tranqüilidade. Mais uma crise estaria automaticamente superada. Afinal, foi com essa "capacidade de adaptação" que todas as crises cíclicas dos últimos cinqüenta anos foram superadas.
Todo capitalista ou economista imagina que as crises periódicas são sempre superadas, que esse sistema sempre teve e sempre terá meios de adaptação e superação do que eles chamam de "desequilíbrios passageiros". Mas acontece que a crise atual não nasceu na Tailândia, na China, na Rússia, no México ou no Brasil. Trata-se de uma grande bobagem ideológica se falar de "contágio da crise asiática", "crises dos países emergentes", etc. A crise apenas se manifestou antecipadamente nessas áreas dominadas. Só depois, em caso de crise geral, ela poderá se manifestar no coração do sistema, no núcleo imperialista formado pelo G-7, o grupo das sete maiores economias do mundo, localizado geograficamente na América do Norte, na União Européia e no Japão.
São os movimentos que ocorrem naquele núcleo imperialista que determinam a superprodução e os ciclos periódicos globais. São os movimentos de valorização que ocorrem na produção, no comércio e no sistema financeiro daquelas economias imperialistas que determinam a subseqüente desvalorização periódica do capital global, a magnitude da deflação dos preços e a profundidade da queda da taxa de lucro em todas áreas da economia mundial.
Depois dos avanços do ciclo atual no mês de agosto de 1998, aumentaram bastante as possibilidades de uma derrocada econômica das áreas européias e norte-americana (como já se iniciou no Japão, desde o começo do ano). A eclosão da crise nestas duas áreas e sua relação com uma depressão global ainda não tinham aparecido tão intimamente no presente ciclo.

Uma reação ideológica
Os capitalistas e seus economistas têm que jogar todas suas fichas na economia americana e União Européia, transformadas nos últimos meses em "fatores de segurança" contra uma crise geral: "A economia dos Estados Unidos continua saudável e vigorosa, depois de crescer por mais de sete anos com inflação baixa. Enquanto assim permanecer - e nada parece indicar mudança importante, a curto prazo - será um fator de segurança contra impactos da crise no Oriente (...) As causas básicas do vigor norte-americano - forte investimento privado, rápida inovação tecnológica, mercados flexíveis e uma considerável melhora nas contas públicas - permanecem atuantes. Parece reduzido, portanto, o risco de uma recessão no mercado norte-americano, como conseqüência da persistente crise na Ásia. Essa crise (...) dificilmente causará maiores danos a uma economia com fundamentos tão sólidos: equilíbrio fiscal e monetário, competitividade, mercado de trabalho altamente dinâmico e potencial de consumo só comparável ao da União Européia". (O Estado de S. Paulo, 6 agosto/98).
O economista José Roberto Mendonça de Barros, secretário de Comércio Exterior do governo brasileiro, e eleito "Economista do Ano" pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo, é taxativo: "Há uma discussão sobre a possibilidade de o mundo estar caminhando para um processo de deflação à la anos 30 (...) A resposta do governo é não (...) A força da economia norte-americana e o sucesso do Euro são indicadores de que a situação mundial hoje é muito diferente da do início do século". (in O Estado de S. Paulo, 22 agosto/98)
Para negar a possibilidade de uma crise geral, o "Economista do Ano" decreta que não haverá deflação mundial, negando assim que possa acontecer uma queda da taxa geral de lucro seguida de uma depressão econômica global. Além do mais - ainda de acordo com sua sapiência burocrática - ele garante que a crise atual não deve se manifestar, "como no início do século", nas duas pontas mais importantes do núcleo imperialista, Estados Unidos e União Européia.
Vale a pena verificar mais de perto essas galimatias econômicas do nosso pretensioso "Economista do Ano". A análise da reluzente União Européia e seu sucesso monetário chamado Euro é um bom começo.

Um importante fenômeno
Se os capitalistas europeus olharem para trás, eles vão sentir muita saudade. Basta olhar para as suas produções nacionais no período 1985 a 1990. Naquele período - que corresponde grosso modo ao penúltimo ciclo de expansão e crise na economia mundial - a produção industrial alemã, puxando o resto da União Européia, cresceu a uma taxa de 2,6% ao ano. No mesmo período, a produção dos Estados Unidos cresceu ao ritmo de 1,4%.
De acordo ainda com dados da Organização para o Comércio e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) os investimentos das empresas privadas em capital fixo cresceram naquele período a uma taxa de 6,1% ao ano na Alemanha e de apenas 0,7% nos Estados Unidos. Em 1991, a taxa de desemprego era de 4,2% na Alemanha e de quase 7% nos Estados Unidos.
A acumulação de capital industrial foi tão intensa, na Europa, que aquele ciclo se prolongou até o ano de 1993 para Alemanha, França, Itália, etc. Nesse meio tempo, a economia americana já tinha entrado em queda desde 1990. Uma queda que foi logo foi revertida, exatamente quando as principais economias européias entravam em um período depressivo que só foi revertido para a Itália em 1994, para a França em 1995, e para a Alemanha em 1996.
Aconteceu então o fenômeno mais importante do ciclo atual - 1990 a 1997: os papéis se inverteram no comando da produção no centro imperialista. Já verificamos em trabalho anterior ("O Vulcão Japonês" - Análise Semanal da Conjuntura Econômica, 1ª semana de março/ 98) a rápida perda de posição da produção industrial japonesa na economia mundial. Isso ocorreu também com a produção européia: em dezembro de 1997, a produção industrial americana estava 30% acima do nível de 1990, enquanto a da Alemanha tinha se expandido apenas 2%, a da França 8% e a da Itália e Inglaterra 10%. Em 1997, a taxa de desemprego tinha subido para 11,5% na Alemanha e caído para 4,9% nos Estados Unidos.
Neste último ciclo, a produção industrial da União Européia foi mais acentuada apenas na sua periferia, em países como Espanha, Irlanda, Dinamarca, Finlândia, Noruega, Turquia, etc. Mas a soma de todas essas economias menores não chega aos 30% da produção total daquele bloco. As quatro grandes - Alemanha, França, Inglaterra e Itália - representam mais de 70% da produção.

Dois importantes fundamentos
Como resultado da superioridade produtiva americana nos anos 90, ocorreu uma pesada perda da posição de concorrência dos produtos europeus e japoneses frente aos americanos. Com dados da mesma OCDE, pode-se verificar que o custo relativo de mão-de-obra industrial teve a seguinte evolução entre 1990 e 1996:

Estados Unidos: -15%
Japão: +57%
Alemanha: +13%.

Quanto aos preços relativos de exportação, aconteceu no mesmo período a seguinte evolução:
Os dados acima refletem a situação da produtividade da força de trabalho nas três principais economias mundiais. Tanto para o custo relativo da mão-de-obra quanto para os preços relativos de exportação, uma queda significa aumento da produtividade, com conseqüente diminuição dos preços unitários das mercadorias produzidas. Um aumento significa, ao contrário, queda da produtividade e aumento dos preços unitários.
Pode-se entender assim por que o Japão perdeu completamente sua condição de competidor real frente aos Estados Unidos. Essa é a razão mais profunda da sua crise atual. Com a Alemanha aconteceu o mesmo processo, embora com uma velocidade menor que a do Japão.

As moedas sentem o peso
Até o primeiro semestre de 1995, tanto Japão quanto Alemanha se encontravam com taxas de câmbio relativamente elevadas. No mês de abril de 1995, o dólar americano valia 83,7 ienes e 1,38 marco alemão. Foram as taxas cambiais mais elevadas dessas duas moedas na década de 90. Pode-se dizer que essas taxas ainda refletiam as condições produtivas e de concorrência do ciclo econômico anterior.
Coincidência ou não, o fato é que a partir de abril de 1995, tanto o iene quanto o marco sofreram grandes desvalorizações frente ao dólar. Vale a pena registrar essa evolução (tabela 1).
Em abril de 1995, um dólar americano comprava 83,7 ienes ou 1,38 marco. Três anos depois, podia comprar 131,7 ienes ou 1,81 marco. O iene tinha se desvalorizado 36,5% e o marco 23,7% no decorrer daqueles três últimos anos.
Não há nada pior para uma economia nacional do que uma desvalorização cambial, a popular desvalorização da sua moeda. Ela quer dizer que a força do capital instalado dentro das suas fronteiras está caindo na concorrência internacional, se desvalorizando.

 

Embora possa garantir por um certo tempo o aumento das vendas externas, uma desvalorização da moeda revela, ao mesmo tempo, um elevado custo de produção nacional e, conseqüentemente, uma baixa valorização (ou queda da taxa de lucro) do capital instalado naquela determinada economia nacional.

Conseqüências nacionais
E sse enfraquecimento produtivo tem duas conseqüências. A primeira, é que a economia fica sujeita a uma queima de capital e falências generalizadas, pressionando o sistema bancário e a capacidade de consumo interno (investimentos, emprego, gastos públicos, etc). A segunda conseqüência é que o preço do capital nacional (das terras, das empresas, etc.) fica relativamente barato para os capitalistas de outras economias que estão em uma posição produtiva superior. Essa queda do preço do capital nacional se manifesta, mais cedo ou mais tarde, na queda do preço das ações negociadas nas bolsas de valores.
Se a economia for aberta, sem regulamentações estatais, protecionismos, etc., os capitalistas de outras nações podem se tornar os novos proprietários da economia, através de fusões, incorporações e outras formas de controle das propriedades nacionais. É essa abertura que os americanos querem impor ao Japão neste momento, exigindo deste país reformas do sistema bancário, do mercado de capitais, etc. A única dificuldade, evidentemente, é que o Japão não é um Paraguai ou um Brasil qualquer. Nas economias dominadas, aquelas duas conseqüências estão sempre se concretizando, com maior ou menor intensidade. Mas no caso do Japão e União Européia, economias dominantes, elas são coisas absolutamente inaceitáveis para a sua existência nacional.

Misterioso comércio
Aquelas desvalorizações japonesas e alemãs, iniciadas no começo de 1995, tiveram um efeito imediato. Já no decorrer daquele ano, as exportações globais alemãs aumentaram 22,5% sobre o ano anterior, e as japonesas 11,9%. Mas no ano seguinte, as exportações alemãs e japonesas voltaram a cair: -0,5% e -7,2%, respectivamente. E as exportações americanas continuaram subindo: +6,9%.
O volume de comércio global cresceu 9,5% em 1995, mais 6,6% em 1996 e mais 9,4% em 1997. O mais importante é que, no mesmo período, os preços das mercadorias tiveram um comportamento diferente: em 1995, os preços dos produtos manufaturados subiram 10,3% no mercado internacional. Mas em 1996 começaram a cair: -3,2%. Em 1997, desabaram ainda mais: -9,2%.

Isso quer dizer, em termos gerais, que quanto mais se produz mais se aumenta o volume do comércio. Mas em um ciclo econômico não existe apenas produção e consumo de mercadorias. Existe também produção e consumo de capital. A crise periódica se manifesta quando, em um determinado ponto do desenvolvimento do ciclo, a produção de capital se transforma em superprodução. E mesmo que o consumo de mercadorias continue aumentando, como ocorreu ininterruptamente e em volumes recordes, nos últimos três anos, os preços unitários dessas mesmas mercadorias começam a cair.
Esta queda dos preços unitários das mercadorias começou a se manifestar a partir de 1996 e se aprofundou em 1997. Neste ano de 1998 aumentou a concorrência entre as principais economias no comércio internacional. Esse aumento da concorrência é determinado pela queda da taxa de lucro e deflação global, e não o contrário, como poderia imaginar um observador mais apressado.
A deflação dos preços é uma expressão não apenas da superprodução global do capital mas, fundamentalmente, da queda da taxa de lucro global. Esses fenômenos são verdadeiros mistérios para os capitalistas e seus notáveis economistas. A sua única reação - como faz o nosso "Economista do Ano" - é negar com palavras, apenas com palavras, que esses fenômenos não existem! Antes de escancarar o caráter catastrófico do atual regime de exploração - e portanto a necessidade da sua eliminação - uma crise de superprodução do capital revela o caráter vulgar, ideológico e puramente especulativo dos seus economistas.

A euroburocracia se movimenta
A chamada União Européia (UE) é um projeto burocrático envolvendo quinze economias da Europa ocidental: Alemanha, França, Inglaterra, Itália, Bélgica, Espanha, Holanda, Dinamarca, Irlanda, Grécia, Portugal, Áustria, Finlândia, Suécia e Luxemburgo.
O objetivo da UE seria a convergência dessas economias em uma unificação econômica e monetária, um espaço econômico que funcionaria como um "Estados Unidos da Europa": haveria uma mesma moeda, uma mesma taxa de juros, uma mesma taxa de câmbio, etc. O grande teste desse projeto será a moeda única para seus participantes. A entrada em vigor dessa nova moeda, batizada de Euro, está marcada para o dia 1º de janeiro de 1999. Assim, dentro de pouco mais de quatro meses, moedas nacionais como marco alemão, franco francês, lira italiana, peseta espanhola, etc., começariam a desaparecer e dar lugar à moeda única, ao Euro.
Se dependesse apenas das condições econômicas mais superficiais dos últimos anos, seria possível que a ilusão de uma moeda única européia poderia se tornar em uma grande vitória das burguesias da UE. O problema é que o desenrolar das condições econômicas mais determinantes não depende de bem-sucedidos projetos burocráticos ou mesmo de bem implantadas políticas econômicas dos governos. Portanto, para se falar das possibilidades do Euro, é importante que verifique alguns importantes elementos mais especificamente europeus da crise que se abre agora sobre a economia mundial.
Até agora, a única coisa efetivamente cumprida pela burocracia de Bruxelas (sede da UE) foi a imposição de uma série de medidas macroeconômicas e administrativas, comandadas e impostas pelo governo alemão às economias da UE. Mesmo assim de maneira desigual, dependendo do peso político da economia a ser atingida. A Inglaterra, por exemplo, não aceitou participar da festa de lançamento do Euro. Continuará com sua velha e segura moeda nacional, a libra. A City de Londres - o mais importante centro financeiro da Europa, o segundo do mundo - continuará com suas próprias taxas de câmbio, de juro, etc. A burocracia de Bruxelas e seus patrões alemães aceitaram passivamente esta recusa de Londres, fingindo que isto não representa a própria confissão de que o Euro não passa de uma fantasia.
De qualquer modo, as metas macroeconômicas estabelecidas pelo famigerado Tratado de Masterricht, no começo dos anos 90, produziriam seus resultados. Masterricht passou a ser o símbolo de uma enorme lista de medidas de ajuste das contas públicas e de rígidas metas de déficit público, geralmente receitadas pelo FMI às economias dominadas.

Europarasitismo
A política econômica unificada foi apenas a expressão de uma estratégia mais ampla das diferentes burguesias européias reunidas em torno da burguesia alemã: de um lado, reforçar o poder do sistema bancário e financeiro privado do continente no interior do sistema global de empréstimos e de movimentos de capitais. De outro, reduzir o ritmo da acumulação industrial e do emprego nas três principais economias do continente - Alemanha, França e Itália - e executar um pesado deslocamento das suas indústrias para as economias menores da Europa ocidental, Europa do leste, Ásia, América Latina, etc.
Com essa estratégia, a burguesia européia procurou se adaptar às novas condições de mercado e de concorrência no centro imperialista. Assim, com muito mais intensidade do que os seus colegas japoneses, os europeus conseguiram expandir a presença dos seus bancos e das suas empresas em todo o mundo. Na base do Euro, encontra-se o assalto das finanças públicas por um punhado de velhos e novos parasitas do sistema bancário europeu. Veja-se, por exemplo, a evolução das dívidas públicas (tabela 2) nas principais economias européias, frente aos Estados Unidos e ao Japão. Pode-se presenciar assim uma das mais perfeitas realizações do tratado de Masterricht e suas metas de redução do déficit público.
A dívida pública é, em geral, a correia de transmissão dos recursos públicos - gerados com a arrecadação de impostos, taxas, etc. - para os cofres do sistema financeiro privado
Os dados da tabela 2 mostram que nas grandes economias européias essa correia de transmissão girou a uma velocidade impressionante nos últimos anos. As taxas de juro no continente europeu foram também desproporcionalmente elevadas no último ciclo (tabela 3). O resultado foi um aumento correspondente das despesas com juros pagos pelos governos aos capitalistas privados.
Considerando-se os respectivos PIBs nacionais das economias listadas abaixo, pode-se calcular aproximadamente o quanto os capitalistas embolsaram apenas no ano de 1995:
USA US$ 147 bilhões Japão US$ 30 bilhões Alemanha US$ 84 bilhões França US$ 53 bilhões Itália US$ 120 bilhões Inglaterra US$ 29 bilhões Espanha US$ 29 bilhões
Em apenas um ano, é bom repetir, a acumulação monetária dos capitalistas da Alemanha, França, Itália, Inglaterra e Espanha foi acrescida de aproximadamente US$ 315 bilhões. Duas vezes o que foi acrescido aos cofres dos capitalistas financeiros americanos e mais de 10 vezes aos dos japoneses.
Essa é a base da capitalização dos bancos europeus e do seu proeminente papel na superprodução de capital em todo o mundo. É essa massa assombrosa de dinheiro, bombeada anualmente para o circuito financeiro privado da UE, Estados Unidos e Japão, que vai se transformar em empréstimos e investimentos produtivos de capital em todos os cantos do mundo.

Superproduzindo pelo mundo
O projeto do Euro transformou os capitalistas europeus nas mais recentes estrelas do chamado capital globalizado, substituindo os japoneses, as estrelas dos anos 80. A força do novo capital financeiro europeu aparece com destaque no balanço que se pode fazer dos fluxos de investimentos diretos em nível mundial. Entre 1990-96, segundo dados da OCDE (Survey of OECD Work on International Investment, janeiro de 1988), só a Alemanha, França e Itália acumularam um estoque de aproximadamente US$ 400 bilhões de investimentos diretos no exterior.
Esses investimentos se materializaram em fábricas, bancos e empresas comerciais, instaladas ou adquiridas recentemente pelos capitalistas daquelas três economias nas diversas áreas da economia mundial. No mesmo período, os Estados Unidos acumularam US$ 423 bilhões e o Japão US$ 173 bilhões no exterior.
Nos anos 90, entraram nos Estados Unidos US$ 328 bilhões de investimentos diretos e apenas US$ 171 bilhões nas três maiores economias européias. O balanço entre saídas e entradas de investimentos nessas economias mostra o elevado nível de deslocamento da produção européia para o exterior, comparado aos Estados Unidos.
O deslocamento da produção industrial européia para o exterior, repetimos, foi a forma daquela burguesia imperialista se adaptar às novas condições de supremacia produtiva da sua parceira americana no núcleo dominante da economia mundial. Embora com menor intensidade que as três maiores economias européias, o Japão também seguiu essa mesma estratégia de globalização.
O grande risco, tanto para o Japão quanto para a UE, é que essa estratégia aumentou a vulnerabilidade das suas economias aos choques cíclicos globais, na medida em que suas empresas dependem cada vez mais dos lucros gerados nas suas atividades fora de suas fronteiras. São lucros produzidos em áreas dominadas como Ásia, América Latina, etc. O problema é que são justamente estas áreas que pagam a maior parte da conta nos momentos de crise global. O Japão foi o primeiro a sofrer os efeitos desta arriscada estratégia porque a sua presença exterior se concentrou demasiadamente na área asiática, a primeira grande área dominada a afundar no atual ciclo econômico.

Sinistra contabilidade
As economias do núcleo imperialista, que no último ciclo globalizaram mais do que nunca a superprodução de capital, agora devem se preparar para as conseqüências dessa lucrativa aventura. Principalmente a burguesia da UE que, além do seu reluzente e fantasioso Euro, criou de fato e sem nenhuma festa a maior massa de trabalhadores desempregados no período pós-guerra naquele centro imperialista. Isso é apenas uma das conseqüências da sua voluntariosa estratégia de deslocamento da produção industrial por todo o globo. Agora está chegando a hora de prestação de contas: pela primeira vez, no pós-guerra, também, os efeitos da crise periódica podem se manifestar com toda força no próprio centro que irradiou a atual superprodução global do capital.
A intensificação da presença imperialista da União Européia não se limitou à "exportação de capitais", à desproporcional corrida de investimentos diretos no resto do mundo. Ela também se apresenta de forma ainda mais clara nas suas operações de empréstimos bancários, de "exportação de moedas e créditos". Comparemos com esses mesmos tipos de operações dos seus parceiros americanos e japoneses.
O que se observava, em dezembro passado, é que os bancos europeus tinham emprestado para o exterior um montante de US$ 671 bilhões. Pelo menos 90% desses totais se encontravam nas economias dominadas da Ásia, América Latina, Leste Europeu, África, etc.
Observa-se também que os bancos europeus foram os mais "agressivos" emprestadores nos últimos dois anos (tabela 5), e estão muito mais expostos que os bancos americanos e japoneses a uma moratória geral dos países dominados, seguindo os passos do que aconteceu na Rússia.
Essa exposição maior da UE a uma moratória geral fica mais clara com os dados das dívidas (a maioria de curto-prazo) das principais economias dominadas e os respectivos bancos credores (tabela 5).

Eurocatástrofe
Os empréstimos dos bancos europeus representam quase 70% do total emprestado nos "pontos quentes" das economias dominadas, onde deverão ocorrer a maior parte das moratórias nos próximos meses. E esses créditos cada vez mais podres dos bancos europeus são "bem distribuídos" por todas as áreas dominadas. Os do Japão se concentram quase que totalmente na área asiática e os dos americanos na América Latina. Ou seja, o choque já sofrido pelos bancos japoneses agora vai se repetir com muito mais intensidade para os bancos europeus e, em menor medida, para os americanos. A derrocada da Rússia já deu uma pequena mostra dessa trajetória mais recente da crise.
De agora em diante, as manifestações concretas da crise global vão aparecer com maior clareza nas principais economias européias. A desvalorização de imensas massas de capitais que a burguesia européia espalhou pelo mundo, na forma de investimento direto e empréstimos bancários, agora começa a se manifestar com força no valor das ações negociadas nas Bolsas de Londres, Frankfurt, Paris, Milão, Madri, etc. Como em 21 de agosto/98, quando ocorreram as maiores quedas de 98:

Frankfurt -5,42 %
Londres -3,36 %
Paris -3,52 %
Madri -5,00 %

Em um primeiro momento, as ações dos bancos são as que vão se desvalorizar com mais rapidez. Em seguida, serão as ações de empresas européias que se apropriaram recentemente de grandes empresas estatais no Leste Europeu e América latina, principalmente. Finalmente, serão desvalorizadas as ações das grandes multinacionais como Volkswagen, Mercedes, Fiat, Peugeot, Volvo, etc., anunciando a chegada da crise global na produção.
Começa a ruir todo o edifício que sustenta o projeto do Euro, esta ficção de uma moeda única européia. De qualquer modo, a estratégia da burguesia européia, comandada pelo Estado alemão, cumpriu um importante papel no decorrer do último ciclo econômico: organizar e espalhar pelo mundo as bases da mais gigantesca superprodução de capital do pós-guerra. A conseqüência é a atual deflação de preços, a desvalorização do capital, a queda da taxa de lucro e uma possível depressão global que poderá se iniciar nos próximos doze meses.
Se a burguesia alemã adaptou o velho imperialismo europeu às novas condições de concorrência no núcleo imperialista, registrando essa campanha com o nome fantasia de Euro, de agosto de 98 em diante ela terá que se preparar para justificar o seu fracasso e para enfrentar a revolta da mais tradicional classe operária do mundo, justamente aquela delimitada por um quadrilátero que começa em Berlim, passa por Londres, Paris, Milão e ... termina em Berlim.

  Voltar PDF  Versão em PDF E-mail  Encaminhar Imprimir  Imprimir

Publicações

» Revista PUC Viva
loguinho_pucviva_novo
revista_puc_critica_logo
puc_viva_logor
twitter
facebook
youtube
vimeo

tv_apropuc3


Enquete

O que você acha da implementação do ensino à distância na PUC SP?