O brilho do saber

APROPUC-SP

Professor Flávio Di Giorgi

"Ad tendere, do latim, significa o movimento de dentro para fora, mas que chega ao outro para que ele se faça. Você não o molda, mas lhe dá a chave, o desejo, a inquietação de se moldar a si mesmo". É assim que o professor Flávio Vespasiano Di Giorgi vê a relação mestre-aprendiz, que há 44 anos experimenta profissionalmente. Profissionalmente porque desde muito cedo - ainda menino - aprendeu a ensinar e não parou mais. Dono de um forte ecumenismo, herdado da criação católica e dos anos de seminário em Sorocaba, e de uma espirituosidade própria das pessoas intelectualmente ricas, Di Giorgi tira de Santo Agostinho as palavras que, para ele, definem seu ecumenismo: "Ama et fac quad vis". Ou seja, ama e, a partir daí, faça o que quiser. Você estará sempre certo.

Desde muito cedo, Flávio Vespasiano Di Giorgi, o mais velho dos nove filhos de dona Rosa e "seu" Antonio, percebeu que teria que dar duro para se permitir pequenos "luxos". Nascido em 1933 e de família pobre - só o pai trabalhava para o sustento da família - o garoto Flávio tinha uma sede de conhecimento tão grande quanto a falta de dinheiro para comprar os livros tão sonhados.
Um certo dia, um dos tios, espírita, chega com um baita livro (1.400 páginas!) debaixo do braço e lhe passa um belo sermão: "Você rejeita o espiritismo, mas tem gente da sua religião - Católica Apostólica Romana - que não tem esse desprezo pela linha espírita". E lhe entregou o livro. "Leia isto. É a tua gente, são os bispos de uma província do sul da Alemanha que editaram este livro!". O futuro professor até já estava dando a mão a palmatória, quando atinou para um pequeno problema: era uma edição em alemão. Dada a surpresa do sobrinho, o tio não teve a menor piedade: "Alemão? Aprende-se!!".
"O título era Der Spiritismus in lichte der vollen wahrheit - em português, ‘O espiritismo à luz da verdade integral' - e é um livro de um ecumenismo, de um respeito, fantásticos. É um livro luminoso. Sabe quando os caras, em vez de escreverem livros que são espadas, escrevem livros que são pontes? Eles levaram muito a sério essa idéia de que somos todos realmente irmãos. Mas me vi com aquele livrão na frente e um ferrete na alma. Nunca me esqueci das palavras do meu tio."
Di Giorgi tinha então dez anos e foi aí que foi atrás de recursos para a compra do primeiro dicionário de alemão-português editado no Brasil. Obviamente, pensava no desafio do tio e isso o auxiliaria no estudo da língua alemã. Mas o que um garoto da sua idade podia fazer para obter o dinheiro necessário? Começou vendendo sua coleção de tampinhas. Vendeu, também, a coleção de figurinhas - as carimbadas é que valiam mais dinheiro. Aproveitando o belo quintal de sua casa, plantou e vendeu tomates a preço menor que o da praça.
"Quando penso nessas coisas, eu acho tão ingênuo, mas a gente precisava fazer dinheiro de alguma maneira", emociona-se. Até que um vizinho da família - um árabe - que queria que o filho entrasse no Colégio Estadual do Ipiranga, bairro onde residiam, pediu-lhe que ensinasse português ao garoto. O menino entendia apenas o francês - por parte de mãe - e o árabe, do pai. Foi então que ele iniciou o longo caminho que trilharia por toda a vida. O garoto passou em segundo lugar, numa lista de 400 nomes.
O dinheiro que economizou, até então, era um décimo do preço dos dois livros que na época cobiçava: o dicionário de alemão e o de sânscrito.

Espantosamente magro

A vida do professor Flávio Di Giorgi é permeada por inúmeras histórias emocionadas, e emocionantes, que ele narra com grande entusiasmo. A forma como ele conseguiu os dois dicionários é uma delas. Ele já era assíduo freqüentador da Livraria Internacional, que ficava na Líbero Badaró, próxima à Faculdade de Direito do Largo São Francisco, e cujo dono era um senhor judeu, tratado carinhosamente de "Barbicha". O garoto Flávio ia lá e ficava namorando os exemplares e o Barbicha começou a prestar atenção nisso. Um belo dia, apesar de saber que o que economizara não dava para comprar os livros que queria, perguntou ao Barbicha qual era o preço dos dois dicionários. O Barbicha, vendo aquela cena, lembrou-se então da sua infância pobre e de que também já passara por situação semelhante.
Foi assim que, ao conquistar a amizade do dono da livraria que freqüentava, ganhou os dois exemplares que o interessavam e mais outros tantos, pois o Barbicha acabou adotando culturalmente o garoto de dez anos por um bom tempo. Então, aprendeu alemão.
Aos 14, já no seminário São Carlos Borromeu, em Sorocaba, cursou Grego Bíblico, ministrado por frei Aloisius Kiughus, beneditino, astrônomo, campeão de natação do sul da Alemanha e uma personalidade bastante admirada por Flávio. "Ele tinha mil qualidades. Era um homem fora do normal."
Uma das coisas marcantes do seminário foi uma aula sobre Martinho Lutero. "Todo mundo pichava Lutero e esse professor - frei Stephan Hoffmann - nos disse que o cara era um gênio, que grande parte das teses de Lutero foram aceitas pela Igreja e que Lutero faz parte de toda a evolução do pensamento católico. Imagina a revolução que ele fez na cabeça de jovens que, como eu, foram criados naquela doutrina católica ultraconservadora. Se não fosse Lutero, nós estaríamos ainda atrasados numa série de coisas."
Di Giorgi ingressou na faculdade aos 17 anos e precisou ser emancipado pelo pai para poder cursar a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. O curso era Letras Clássicas e o jovem tinha uma rotina bastante atribulada. Ainda não concluíra o serviço militar, onde era membro da artilharia do CPOR. Para se manter, dava aulas à noite, quatro vezes por semana e, como se não bastasse, arranjou um emprego, no Jóquei, aos sábados e domingos, para engordar seu orçamento. Como era bom de cálculo - fazia todas as contas de cabeça - foi promovido para a seção de cálculos do Jóquei, o que lhe tomou também o único dia de folga que restara, as sextas-feiras. Mas, em compensação, seu salário foi quase triplicado.
"Nesse tempo, como era evidente, eu era espantosamente magro. E meu pai - que era daquelas famílias italianas que acham que gordura é sinônimo de saúde - me disse: ‘Você está simplesmente desaparecendo!' E, realmente, eu, para economizar, em vez de tomar um táxi da Maria Antonia até o ponto do meu ônibus, ia a pé. E na hora do almoço, comia um mata-fome que era barato pra burro, até que a minha mãe me obrigou a incluir, em minhas refeições, um copo de leite e uma vitamina", diz ele.
Estudou Hegel - curso de Filosofia - com um ex-aluno de Heideggr. Cursou quatro anos da Faculdade de Direito, embora não chegasse a concluir os estudos nessa área, pois a paixão pelas Línguas falou mais alto. Seria infindável a lista de autores e poetas que ele poderia citar como seus preferidos. "Gilbert Chesterton - homem notabilíssimo -, Graham Greene, Drummond, François Coupet, John Bruah." Mas é da psicóloga e teóloga alemã Sonia Schaumann que fala com particular admiração: "Ela é uma artista absoluta, merecedora do Nobel de Literatura, e o livro dela chama-se O rosto materno de Deus. Eu nunca vi ninguém falar com tamanha simplicidade e tamanha profundidade sobre o amor de Deus. Vale a pena ler."

O brilho do saber

Em 58, prestou concurso para professor de Latim e foi para Rio Preto, dar aulas num dos Institutos que futuramente seriam a atual Unesp. Até que, em 64, foi demitido e preso pela ditadura militar, acusado, junto com outros colegas, de subversão.
Em 65, já voltando de Rio Preto, começou a dar aulas no extinto colégio Paes Leme e no Colégio Santa Cruz, onde está até hoje. Em 66, foi bater às portas da PUC a procura de abrigo intelectual e emprego, pois respondia a um processo político e estava proibido de lecionar em qualquer instituição.
assessor, que prontamente se dirigiu a então vice-reitora, professora Nadir Gouvêa Kfouri - considerada por Di Giorgi uma das melhores pessoas do mundo.
Era o início de tempos bem difíceis e os riscos que se corria ao acolher pessoas consideradas non gratas pelo governo, na época, eram muito graves. A professora Nadir virou-se então para um boquiaberto professor e disse: "Quando é que o sr. pode começar?" E ele, achando que não tinha se feito entender claramente, repetiu toda a sua história. "Eu sei", disse ela, "nós já estamos no index do governo por vários motivos e já temos outros quatro lecionando aqui, nas mesmas condições, porque essa proibição absurda fere a Declaração dos Direitos Humanos". Em vista do currículo que possuía, cuja qualidade era excepcional, foi admitido como Catedrático Contratado, o que equivalia ao grau de titular. Foi esse gesto que o fez refletir, mais tarde, a respeito de sua passagem pela USP. "A PUC me marcou, e me marca, pela solidariedade e a USP pelo isolamento. Não se trata de uma crítica negativa, mas apenas de uma constatação." E, citando versos de Drummond:

"Meus amigos foram às ilhas,
Ilhas perdem o homem.
Mas alguns se foram ao mar
E vieram com a notícia
de que o mundo
O Grande Mundo, cresce
todos os dias
Entre o fogo e o amor.
Então meu coração também
pode crescer
Entre o amor e o fogo,
Entre o fogo e o amor.
Meu coração cresce
dez metros e explode.
Ó vida futura, nós te criaremos."

"Não é lindo? Quando o coração cresce, subitamente, não há mais eu. Somos um todo. Nós nos consolidamos. Então, veja, o todo consistente se opõe à ilha. Por que isolamento? Solidão. Cada um por si, na enorme Cidade Universitária."
Flávio Di Giorgi passou então, inicialmente, a pertencer ao Instituto Sedes Sapientiae - que seria anexado à PUC mais tarde. Foi diretor do Sedes justamente na época mais crítica da ditadura - de 68 a 72. Não podia nem chegar até a porta do seu local de trabalho, pois os militares estavam à caça dos chamados subversivos. Ele já fazia parte da Ação Popular - grupo político ligado à Igreja. Dessa época, Flávio destaca duas figuras importantíssimas: irmã Cristina e irmã Leda
"Eu tive um grande apoio das madres. Corajosas! Que fantásticas mulheres! Principalmente a Cristina Sodré, pois ela sabia que estava entregando o pescoço ao carrasco", emociona-se. E continua: "Mas a Leda também me ajudou muito. A Leda era uma leoa! A repressão tinha um medo da Leda porque ela era considerada uma fortaleza da oposição. Leda Maria Rodrigues, lúcida, inteligente, politizada até a alma, nada ingênua e disposta a qualquer sacrifício pessoal. Isso reforçava os opositores".
Ele conta também uma passagem muito significativa, em que a repressão mandou prender a professora Nadir Kfouri, pois souberam que ela ajudou muitos jovens refugiados. O então reitor, o velho Bandeira de Mello, propôs que, em vez dela, prendessem ele. "Foram tempos muito duros, mas que provaram, também, quem era quem e quem não era o que se pensava que era. Eu o admirei por ter posto as duas mãos no fogo por aquela frágil assistente social. E ele ainda disse: ‘Ela trata a todos como mãe e merece que alguém a trate como filha'. É uma injustiça que não tenha sido publicada, de uma maneira bem destacada, a biografia da Nadir."
Flávio Di Giorgi é autodidata e esse brilhantismo intelectual é "mal" de família.
Com Samir Curi Meserani, em 71, produziu um trabalho responsável por uma mudança radical no ensino de redação: foi a série "Redação Escolar: criatividade", para o antigo primeiro e segundo graus, editada pela Discubra.
Em 74, o professor defendeu a sua tese de doutorado, com o título Estrutura do aspecto verbal em Português e recebeu pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP o título de Notório Saber, em 1976. Foi professor de Latim na USP e na extinta Faculdade Nossa Senhora dos Medianeiros. Quando o Sedes foi anexado à PUC, o professor Di Giorgi passou a pertencer ao quadro de docentes da universidade e passou a dar aulas nos cursos da PUC, embora continuasse com os outros cursos que já ministrava antes, no Sedes. Foi uma passagem lenta e gradual, atuando, ainda integrado ao Sedes, principalmente como professor da área de Lingüística.
Ele conta que, nessa época, havia uma certa carência de professores da área. A introdução do curso era muito recente - tanto no doutorado como no mestrado - e constantemente precisavam ser importados de fora do Estado ou até do País. Foi aí que Flávio começou a ministrar línguas indígenas. "Era um curso aberto a alunos que queriam justamente fazê-lo como matéria complementar e foi com grande surpresa que eu percebi que havia alunos para suaíli."
Esse idioma africano é um grupo próprio, mas muito complexo e considerado uma das línguas nodais, para se entender bem a lingüística universal. "É muito difícil você ver um bom curso de lingüística que não te ofereça o suaíli", explica Di Giorgi. A PUC foi um dos raros lugares onde se lecionou o suaíli. Havia alunos dos quatro cantos do País que vinham para cá atrás dessa disciplina. E a PUC ficou com uma certa projeção em lingüística. "Porque, além disso, o curso de Inglês daqui era considerado o melhor do Brasil. Um curso de excelência." Até que, no início da década de 80, passou para o Departamento de Comunicação, da Faculdade de Comunicação e Filosofia da PUC, a Comfil, onde permanece até hoje na cadeira de Teoria da Comunicação.
Di Giorgi pertenceu ao conselho editorial da Educ entre 86 e 90 e foi nesse período que um fato bastante desagradável pegou a todos de surpresa. Em decorrência de um cisto na cabeça, ele precisou se afastar para uma delicada cirurgia de extração. Foram dez horas de operação e um mês para recuperação. Havia o sério risco da perda de memória. Contudo, a operação e o tratamento foram um sucesso, causando admiração em toda a equipe médica que acompanhava o caso. A única seqüela foi uma pequena perda da memória recente. No dia de sua alta, saiu do hospital como se nada tivesse acontecido e foi ao Jóquei tentar a sorte. Ganhou uma pequena fortuna que fez questão de entregar à enfermeira que o tratou em sua estada no hospital.
É a esposa, a professora Maria Edith, com quem é casado a 43 anos e tem cinco filhos e seis netos, quem fala dele com muita emoção: "É o marido, o amigo, o pai e o irmão de sempre. Generoso e carinhoso com todos".

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