Crônica - Espelho docente
Jorge Cláudio
Lado A - O fauno míope
Veja bem. Ela era linda. Na verdade, uma deusa. Lindíssima. Entre nós pintou um lance que não posso aquilatar direito mas agora lhe conto. Pelo amor de Deus, não passe adiante porque essas coisas dão processo administrativo.
Uma recepção de arromba. Não, não era uma boda qualquer, não. O bufê era tão chique, tanto, tanto que fiquei envergonhado e deixei meu Voyage numa ruíca paralela. A casa era linda, estilo colonial americano, tipo E o vento levou, dessas que aparecem todo ano nos livros didáticos, quando ensino Guerra de Secessão no colégio. Pelos salões, cheios de flores, uns mordomos de libré, como na chegada da Família Real no Rio, a 28 de janeiro de 1808. A música ambiente era clássica, tipo Corelli, Salieri, Paganini e aqueles italianos.
Deu pra sentir o ambiente? Nada na casa, nos mordomos ou na música tinha semelhança com os verdadeiros galpões onde ensinamos, com os bedéis batendo papo entre si enquanto a casa cai, ou com o rock da meninada, que invade nossos ouvidos e a sala sem bater na porta.
E os odores, então? Coisa de louco. Acostumado àquela mistura cotidiana de chiclé, borracha, hambúrguer + condimentos, tudo regado a desodorante vencido, fechava os olhos e sentia-me num oásis almiscarado no longínquo Oriente.
Era tão bem tratado que até estranhei. "Messiê" pra lá, "messiê" pra cá, "está satisfeito?", "posso servi-lo com mais champanha ou caviar?" Tudo na mais correta concordância gramatical. Às vezes eu nem atendia aos garçons, achando que não era comigo. Nos dias comuns, o que mais ouço é "e aí, Luizão vai dar aula hoje? Não? Que bom!" (Aula boa é aquela que não tem...)
Meu êxtase foi crescendo na medida em que as mulheres chegavam. Damas finíssimas, jóias idem, roupas e penteados idem ibidem. "Eu estava mesmo carente de companhia estimulante", esfregava as mãos, lembrando minha solidão.
Está me acompanhando? De repente, meu êxtase foi subindo, subindo até que chegou ao nível de delírio. Tum, tum, tum, tum, tum, faran! Dentro da minha cabeça tocou aquela musiquinha do 2001, uma Odisséia no Espaço. Um sorriso invitante trombou com meu olhar. Acompanhava um par de pernas esculturais (panturrilha definida!), um colo ebúrneo (ué, cadê o sutiã?), uns olhinhos de jabuticaba (grandes, luminosos!), uma... e uns... Mais que uma pessoa singular, aquilo tudo formava um cortejo, uma orquestra sinfônica. Parei, exultei, boquiabri-me. Cheguei, acolheu-me.
Logo criamos intimidade. O que fiz para merecer aquela enxurrada de beleza que encharcou meu coração, antes esturricado como o sertão de Canudos ou como o reduto de Lampião e ultimamente só freqüentado por tiriricas e calangas? Ali havia coisa.
Dançamos um tempão à moda antiga, tiquetutique. Jogamos palavras à nossa frente, construindo uma ponte, uma pinguela que fosse, sobre o hiato de nossas gerações. Quando recém-formado pela Faculdade de Ciências Sociais, e ainda não cursando a pós (strictu ou latu senso, não importa, é tudo a mesma coisa), eu não autorizava nenhum aluno a me chamar de "você". Passados alguns (poucos) anos, já subo a serra quando ousam me tratar por "senhor". Felizmente aquela jovenzinha se comportou: "Agora que você me contou suas façanhas, que tal adivinhar quem sou?"
Para citar uma de minhas raras leituras, e recente, deixei meu coração de águia transcender os hábitos de galinha. "Seria você o Eterno Feminino de Teilhard de Chardin? Ou a reencarnação de Lillith, aquela que ia por cima? Quem sabe, a amazona rebelde que quebrou o arco antes de dar a primeira flechada e permaneceu inteira? Talvez uma Bethsabé que sobreviveu ao parto?" Cada vez mais eufórico, hormônios alertas, gesticulava meu samba de historiador doido. Recostada numa estátua de Diana caçadora, ela sorria abanando a cabeça, embevecida. O fauno em mim se preparava para seu ritual. Mas havia alguma coisa que eu não via direito... Ofegava.
"Tolinho... ainda não adivinhou quem eu sou? A Alice! Lembra? Professor, você me deu aula de Mitologia I e II, ano passado, na faculdade!", disse, escarninha.
Putz! Por trás daquela síntese de Vênus de Milo com Vitória de Samotrácia, havia uma aluna, dessas que vivem de camiseta básica, jeans e tênis. Aquela estrangeira revelava-se minha aluna! Como não a reconheci?!
Meio que brochei. Não lembrei de Alice. Mas jamais a esquecerei.
Lado B - Aprendiz de feiticeira
Tédio, tédio, tédio! Só vim mesmo porque mamãe me obrigou: "A Nonô é prima de seu pai. Casamos na mesma época, há 25 anos, e eles nos ajudaram bastante no início. Essa juventude não respeita mais os valores familiares!". Se eu não fosse, o tempo ia fechar. Capitulei por comodismo. Fiz uma maquiagem e um penteadinho mais caprichado, botei (só...) um vestidinho por cima, joguei um perfuminho, respirei fundo e fui à luta. "Você está irreconhecível, filhinha!", disse papai. Será? Elogio de pai não vale.
Chegamos. Essas festas de família são um porre! Logo me chegam com essas comidas sem sal, essas músicas idem e, pior, esses homens idem ibidem. Tudo meia-idade, ou mais. De que adianta eu sofrer na academia e na faculdade, cultivar meu corpo e alma? Quando aparece alguém interessante, já passou do ponto. Vamos ver se hoje os deuses me ajudam.
Putz, e os assuntos? Esse pessoal só fala em bolsa. De todo tipo: é bolsa de Nova York, é bolsa comprada em Paris, bolsa vazia, bolsa feita com couro de gazela de Thompson (ecologicamente incorreta). Opa, opa. Espera, com licença. Meu destino vai mudar?
Acaba de chegar um espécime em bom estado. Não é um surfista, está mais pra tiozinho, mas tem um ar simpático, um quê de desamparo. Parece um tanto excluído do ambiente. Desamparados e excluídos, aí vamos nós fazer justiça.
Jogo minha isca, meu sorriso 45, o mais eficiente. Ô cara, olha eu aqui. Também, esses garçons puxa-sacos só querem mostrar serviço e não o deixam em paz... Ah, até que enfim me notou. Cheeeese. A diversão vai começar, com certeza.
Esse salão é grande mas ele não precisava demorar tanto para chegar. Lá vem ele. Xiii, pintou sujeira. Com tanto homem no mundo e logo me aparece o meu ex-professor de Mitologia? Como é mesmo o nome dele? Fauno é o apelido secreto que as meninas da classe lhe deram. As aulas são bem legais, ele se entusiasma e nos olha de um jeito peculiar. Ei, sem aliança?! Como é mesmo o nome do fauno?
Faço um sorriso mais convencional, vou apresentar meu professor pra mamãe e pras tias. Espera, parece que não me reconheceu (ou será que está fingindo?). Lá vem ele com aquele olhar... Se é assim, vamos jogar. Façam suas apostas, senhores.
"Luís, muito prazer". "Alice, o prazer é todo meu". Finjo que não conheço o professor, mas não sei se ele também está fingindo. Começamos aquela conversa meio manjada e tenho de me controlar para não cair na risada. Para disfarçar, proponho dançarmos. Ele topa rapidinho, parece aliviado. Pois não é que Fauno dança bem pra caramba? Juntinho, rostinho colado, dá uma sensação gostosa de proximidade. Ainda bem que na academia me ensinaram alguns ritmos.
Vamos para a varanda. Não sei por que caras mais velhos (mas não muito mais velhos) têm o hábito de me fazer confidências... Olha só, esse sujeito tem uma vida interessante... Mil atividades, viagens exóticas, amores. E eu pensando que professores são todos uns chatos, sem sentimentos ou dúvidas, só vivendo para suas aulas, rodeados de livros e fantasmas do passado! Dou corda e ele mostra seu, digamos, "eu profundo por trás do espelho das aparências". Legal, ele.
De repente se cala. Ficamos em silêncio. Antes que Luís me venha com um "só eu falei, agora me conta de você", jogo a bola de volta pro seu campo. Desafio a que adivinhe quem sou. Ele pigarreia, parece que vai voltar a ser professor e fazer o que eles sabem bem, que é enrolar, encher lingüiça. Que nada (aquele olhar de novo)! Ele começa a falar (de mim!) de um jeito tão exaltado, tão poético! Muita coisa não entendo, deve ser um estágio mais avançado das mitologias lá dele. Mas não ligo. É o tom que importa.
Claro que não me reconheceu. Ótimo. Está ofegante. Aproveito sua pausa para tomar ar e me revelo, com certa intimidade. "Tolinho... ainda não adivinhou quem sou? A Alice! Lembra? Luís, você me deu aula de Mitologia I e II, ano passado, na faculdade!".
Está assustado. Dentro dele, o Fauno e o professor parecem brigar. Entre um e outro, fico com o Luís, mesmo. Quebramos nossos espelhos.
Mas isso não é da conta de ninguém.
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