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APRESENTAÇÃO: Violência urbana

APROPUC-SP

A Revista PUCviva, neste número, trata da Violência Urbana, que se manifesta de forma diferenciada nos vários âmbitos da vida social, por nós retratados por intermédio das múltiplas violências: de classe, de gênero, de etnia, geracional, que ocorrem no trabalho, nas ruas, nos bairros, na família, nas escolas, no esporte, nas instituições e que se originam das formas de exploração econômica, dominação política e opressão social. As violências que se (re)produzem na vida cotidiana são ancoradas nos aparatos repressivos, coercitivos e ideológicos para manter a violência do capital. Inegavelmente, há um solo sócio-histórico comum da Violência Urbana contido nas expressões da Questão Social, apreendidas como o conjunto das desigualdades, resultantes da contradição entre capital e trabalho, a qual é agravada pelo aprofundamento destrutivo do capitalismo contemporâneo, no século XXI, de internacionalização e financeirização da economia na ordem burguesa consolidada.

A violência do capital, a partir de 1973, no plano internacional, estabelece uma nova ofensiva da violência sobre a classe-que-vive-do-seu-trabalho: o desemprego estrutural, a redução de postos de trabalho, a terceirização, o trabalho polivalente, temporário, sem carteira assinada, informal, subcontratado, por tempo determinado, trabalho infantil e ampliação do trabalho feminino com menor remuneração. Esse processo de precarização das condições de existência da classe trabalhadora é estabalecido por uma nova gestão da força de trabalho denominada “acumulação flexível”.

A lógica destrutiva do capital que recai sobre os trabalhadores e seus filhos é agravada pela cultura da chamada pós-modernidade, que imprime o irracionalismo, o presentismo, o efêmero, o fugaz, o preconceito, o racismo, a xenofobia, a intolerância e o individualismo, que violentam e degeneram substancialmente as relações de sociabilidade humana.  O ciclo da violência constitui-se um dos elementos intrínsecos da degradação humana e social dos nossos dias: a alienação se espraia, e a ausência de um projeto classista é saudada pelos apologetas da ordem. O tecido social encontra-se esgarçado em um processo de degeneração das instituições burguesas, num período de decadência ideológica e de regressão histórica face à ofensiva do grande capital sobre a classe trabalhadora.

A Revista é, portanto, um veículo de debate e combate teórico e político a esse estado destrutivo da Violência Urbana. A direção teórica a que me referencio é a da totalidade do ser social, na compreensão do processo histórico de produção e de reprodução das relações sociais no capitalismo contemporâneo, em que se (re)produz o ciclo de violências. Vivemos um momento de lutas sociais de resistências no enfrentamento da barbárie social, e setores significativos da Universidade brasileira se somam  a estas lutas.  O legado histórico de lutas dos setores da Universidade, estudantes, professores e funcionários, contra a ditadura, pela democratização do país e na defesa de direitos sociais remete ao papel histórico da Universidade com direção social, o que requer, neste momento, que a resistência ao capitalismo se some às lutas antiimperialistas e anticapitalistas no horizonte do projeto de emancipação humana. Para tanto, a luta pela autonomia e independência de classe na construção do socialismo expressa-se como uma necessidade e possibilidade de atualidade histórica da classe trabalhadora  na luta pela igualdade e pela liberdade em uma sociedade de indivíduos sociais produtores livremente associados.

Nesse sentido, foi extremamente importante: contar professores, estudantes e pesquisadores de núcleos de pesquisa da graduação e da pós-graduação da PUC-SP, como os núcleos de: Violência e Justiça, Pobreza e Desigualdade, Família e Sociedade, e Relações de Trabalho, na graduação da Faculdade de Serviço Social, e Criança e Adolescente, na pós-graduação; o Nu-Sol, da pós-graduação em Ciências Sociais, bem como participantes do projeto de extensão “Refazendo vínculos, valores e atitudes”, professores das faculdades de psicologia, Ciências Sociais, Direito e Educação Física - da PUC-SP, da USP e da FAMA -, juristas, militantes de movimentos sociais, profissionais de campo, assistentes sociais, psicólogas e jornalistas que atuam cotidianamente com as expressões da questão social no âmbito das políticas e dos movimentos sociais, com produção teórica, acadêmica, política, militante e de atuação profissional nos diversos espaços sócio-ocupacionais. Poder ler os diversos artigos e reconhecer a finalidade social de cada um deles fortalece ainda mais a perspectiva dos projetos coletivos articulados à construção de um projeto societário emancipatório.

A Violência Urbana é tratada nesta revista em situações diversificadas. Todas elas, porém, têm traços de continuidade na análise e na denúncia da perversidade dos ciclos da violência e da desigualdade, explicitados por intermédio de dezesseis artigos que tratam respectivamente de: violência racial, violência e drogadição, violência no esporte, violência de controle sócio-penal, violência doméstica e familiar, mães vítimas de homicídios, situação carcerária, confinamento urbano, violência policial, violência na segurança pública, violência nos padrões de sociabilidade, juventude e ciclo da violência, violência com a população em situação de rua, anarco-abolicionismo penal, direito e violência, crianças e adolescentes - um ciclo de violências: redução da idade penal.

A realidade social, aqui trazida pelas mãos de muitas autoras(es), nos remete a muitas e diversificadas indagações, dúvidas, inquietações, reflexões políticas, acadêmicas, teóricas, metodológicas, éticas, investigativas e organizativas. Todas elas, porém, em uma mesma direção: no sentido de um posicionamento firme para o enfrentamento coletivo da barbárie social em que estamos mergulhados.  O trabalho, a política, a cultura, a arte, a educação, as profissões e os partidos classistas podem se espraiar como práxis em uma possibilidade e necessidade históricas permanentemente presentes na direção da conquista de padrões civilizatórios fundantes para a conquista da história humana.

Dra. Maria Beatriz Costa Abramides

Coordenadora do Núcleo de Relações de Trabalho da Graduação - Professora da Faculdade de Serviço Social da PUC-SP. Secretária da ALAEITS - Associação Latino-Americana de Ensino e Pesquisa em Serviço Social. Diretora da APROPUC-SP

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