Os Sertões venceu o tempo

APROPUC-SP 05.10.10

Entrevista do Professor Doutor em Literatura Erson Martins de Oliveira, aposentado pela PUC-SP, concedida à Revista Cultura Crítica.

CC − O que significa o livro Os Sertões para a historiografia? Por que há tanta discussão em torno da obra?

Em 1889, terminava o Império e nascia a República. O jovem Euclides da Cunha era um de seus entusiasmados partidários. A escravidão fora definitivamente extinta em 1888. Combinavam-se mudanças econômicas com políticas – o capitalismo saía do ventre do sistema colonial-escravista.
Em fins de agosto e meados de setembro de 1897, o general Arthur Oscar, com um exército de oito mil soldados, provocaria uma das maiores chacinas da história brasileira. Caía a cidadela de Canudos, ao norte da Bahia, no ermo sertão. Estima-se que no Arraial havia entre vinte e trinta mil moradores. Os poucos homens sobreviventes foram degolados em nome da República. Aos prisioneiros, foi exigido que gritassem: “Viva a República”. Não acatando as ordens dos vencedores, suas cabeças foram separadas do corpo. As mulheres que resistiram à barbárie tiveram o mesmo fim. Não se tem conhecimento de que algum combatente de Antônio Vicente Mendes Maciel – o Antônio Conselheiro – tenha cedido à sanha dos vencedores.
Euclides da Cunha, enviado como correspondente do jornal A Província de São Paulo (O Estado de S. Paulo), adentrou Canudos em 16 de setembro, quando a destruição estava quase que completa. Testemunhou a violência reacionária do exército republicano, no qual se formara.
O novo regime que havia deixado para trás a opressão da escravatura e se livrava do Império lhe aparecia como a chegada do reino da igualdade e da justiça. O ex-militar, que assumiu desde cedo a bandeira do movimento republicano, mal acreditava no que seus olhos viam. As ilusões democráticas e humanistas esmeradamente formadas se mostraram românticas e se desmoronaram.
A República era ocupada pela burguesia oligárquica forjada pelo antigo regime escravista e latifundiário. Não tinha como realizar grandes transformações que rompessem o atraso pré-capitalista que permanecia em regiões inteiras, como as do Norte e Nordeste. Até hoje perdura a estrutura combinada do mais avançado capitalismo com o arcaico pré-capitalismo agrário.
Em fins do século XIX, florescia e se modernizava a metrópole do Rio de Janeiro. O fenômeno social e depois militar de Canudos no sertão baiano compareceu como uma revolta antirrepublicana. Assim interpretavam o governo e os meios de comunicação. Euclides da Cunha acreditou nessa versão. Escreveu para o Estado de S. Paulo nessa linha, reforçando uma versão distorcida, que iria resultar no cerco e na destruição de Canudos. Ficou famoso o artigo “A Nova Vendeia”, que reporta à reação monárquica à Revolução burguesa de 1789 na França.
O escritor-jornalista reconheceu o erro assim que chegou a Salvador; fez pesquisas sobre o que se publicara e tomou contato com os acontecimentos. O biógrafo Silvio Rabelo descreve a contradição vivida por Euclides e afirma: “Desde então Euclides fizera um protesto íntimo de vingar o extermínio de Canudos. Os Sertões seria o seu ‘livro vingador’”. Essa magnífica obra testemunha o fracasso da República, portanto da burguesia que se formava, em incorporar os sertanejos, em resolver o atraso social de regiões como as do sertão, em admitir os movimentos coletivos e as lutas em defesa da vida e das transformações.
Os Sertões documenta em forma épica a “guerra” de Canudos, desfaz a visão fraudulenta da época de que se tratava de um movimento monarquista, retrata aspectos do desenvolvimento social do sertanejo e denuncia o massacre. Não resta dúvida de que Euclides da Cunha fez um romance histórico sui generis, miscigenando vários gêneros. Conseguiu o feito de cientificar a literatura. Eis por que é uma fonte para a historiografia e motivo de polêmicas. Os Sertões venceu o tempo, permanecendo atual, resistiu a abundantes críticas, continuando como fonte de estudos.
Em 17 de agosto de 2009, fez 100 anos a morte do grande escritor. Procurou-se oficializar o trabalho de Euclides, como já foi feito em inúmeras comemorações. Mas o combativo escritor que expôs cruamente a barbárie da civilização capitalista – Euclides pagou caro por sua independência intelectual e sua rebeldia – é insubordinável. Os Sertões continua a acusar o crime histórico da classe dominante.

CC − Qual a avaliação que o senhor faz de Euclides da Cunha? Ele era um indivíduo idealista ou ambicioso?

Euclides expressou as contradições de sua época. Percorreu sem convicção um caminho curto da carreira militar, não pode se disciplinar à mentalidade fechada e mecânica, atritou-se com os militares monárquicos e foi punido com a expulsão. Estabeleceu-se a República, Euclides foi reabilitado, formou-se em engenharia civil pela Escola Politécnica do Exército, não se encaixou na vida militar republicana e desligou-se do exército em 1896. Desde cedo, mostrou-se propenso a ver a realidade trágica, a pensar, a questionar e a escrever, por isso se aproximou da imprensa, exercendo o jornalismo. Pôs de lado a carreira de engenheiro, aceitando a incumbência de cobrir a batalha de Canudos, modificou sua visão, manobrou o conservador jornal O Estado de S. Paulo, enfiou-se no sertão, coletou dados, pesquisou fontes, anotou fatos, reuniu o essencial numa caderneta e voltou de lá transformado. Passou necessidade, foi obrigado a retornar à engenharia, chefiou em São José do Rio Pardo a reconstrução de uma ponte, abrigou-se numa cabana ao lado do rio, dedicou-se a escrever Os Sertões, fez inestimáveis amizades na cidade e tentou fundar um partido socialista.
O Sr. Mesquita, dono de O Estado de S. Paulo, engavetou os escritos de Os Sertões. Euclides travou a luta corpo a corpo para publicá-lo. Em dezembro de 1902, saía a primeira edição, pela livraria Laemmert.
Euclides era um homem de ação, um espírito irrequieto, insubordinável e insubornável. Tinha a mente voltada para o homem e para a sociedade, por isso acabou deparando com um meio social distinto do seu, de classe média; reconheceu na resistência, na sagacidade e no heroísmo dos sertanejos de Canudos uma força social em luta pela existência e colocou-se do seu lado na tragédia.
Mas Euclides foi também um nacionalista, como o demonstra a missão, na Amazônia, que lhe atribuiu o Barão do Rio Branco, em 1903, de estabelecer as fronteiras do Acre com o Peru. A expedição teve de chegar à cabeceira do rio Purus, ainda inexplorada, o que obrigou Euclides permanecer por meses percorrendo caminhos fluviais da Amazônia, numa rota de aventura que lembra as entradas dos colonizadores. O autor de Os Sertões pretendeu escrever um novo livro com o nome sugestivo de Um Paraíso Perdido, que não veio a lume. Certamente, as experiências extraídas do sertão da Bahia e dos acontecimentos de Canudos deram novas dimensões ao espírito desbravador de Euclides. O republicanismo coincidia com o nacionalismo do engenheiro-escritor. A tênue aproximação de ideias socialistas não lhe permitiu uma revisão crítica de sua formação nos ideários burgueses.
Como se pode ver, o conceito de idealista pouco diz sobre o escritor de Os Sertões. O melhor é afirmar que Euclides tinha um cérebro científico e uma sensibilidade estética perante o trágico na história. Assim, entenderemos melhor seus equívocos, como o de ter assumido teorias raciais absurdas. Quanto a se era ambicioso, entendemos que não. Em que sentido? Euclides levou uma vida dedicada ao conhecimento, sobreviveu com grandes dificuldades; são notórias as passagens de dificuldades financeiras e de desapego à existência de uma vida familiar provinciana. O seu trágico fim – morto pelo amante de sua mulher − tem a ver com o desprendimento familiar, embora pareça paradoxal.

CC − E o que o senhor tem a dizer sobre suas explicações raciais sobre a formação do homem sertanejo, expostas na obra Os Sertões?

O escritor foi influenciado pelo cientificismo da segunda metade do século XIX, principalmente pelo positivismo filosófico de August Conte. Está aí por que não chegou a uma crítica das teorias raciais e as refletiu equivocadamente no livro Os Sertões, com a ideia de raça superior e raça inferior. Esse aspecto enfraqueceu sua obra, sem contudo tirar-lhe o mérito geral. Há abundante análise crítica sobre esse equívoco que pode levar à discriminação racial, embora não se encontre referência biográfica de prática racista em sua vida, pelo menos até onde conhecemos.

CC − Antes de começar a colaborar para o jornal A Província de São Paulo, Euclides da Cunha foi militar. Como jornalista, ele atacava o regime monárquico. Ele era defensor da República e da Democracia?

Essa pergunta já está respondida. Era um fervoroso republicano e, como tal, um democrata. A democracia é uma forma da República. É necessário não extrair dela o seu conteúdo e as determinações de classe. No Brasil, a proclamação da República tem a particularidade de ocorrer por meio de uma ação militar que destituiu o monarca. Os limites da democracia parlamentar estavam definidos pela estrutura econômica e pela composição oligárquica da burguesia.
Entendo que a Euclides faltou a compreensão histórica da impossibilidade da República democrática e justa que tinha em mente e a que aspirava. Pode-se dizer que Euclides padeceu de ilusão democrática, alimentada pelo meio social em que viveu, incluindo sua passagem pelo exército, constituído pela classe média emergente a partir da segunda metade do século XIX. Não por acaso, a proclamação da República esteve a cargo do Marechal Deodoro da Fonseca.
A burguesia, forjada por três séculos de acumulação primitiva de capital, carregava as heranças do colonialismo e estava acomodada à Lei da Terra de 1850, que a transformara em proprietários capitalistas de latifúndios. Uma revolução republicana implicaria modificar as relações agrárias e estabelecer a independência nacional, não mais frente ao colonialismo-imperial caduco, mas frente ao imperialismo nascente, que tinha a Inglaterra por força motriz.
O massacre de Canudos se deveu ao fato de a República semicolonial brasileira estar sob os interesses materiais e a mentalidade oligárquica. Euclides tinha no espírito uma República que não esmagaria uma revolta de pobres sertanejos, primitivos, ignorantes e místicos, os quais, na prática, realizavam uma experiência comunal-agrária.

CC − Em sua opinião, Os Sertões é uma obra ficcional ou factual-histórica?

É uma obra factual-histórica. O que não impossibilita a presença do ficcional. A projeção subjetiva do autor é evidente e Euclides não fez nada para escondê-la. Suas idealizações, suas perplexidades e suas desilusões são concretas. Euclides imaginava à distância acontecimentos que de perto não tinham a ver com a imaginação original. Como mente científica e como personalidade forte, não teve dificuldades de rever o engano de que havia uma “Vendeia” brasileira. Certamente, as mudanças no ponto de vista o colocaram em uma perspectiva subjetiva, a pintar em cores dramáticas a paisagem sertaneja, o homem sertanejo e a luta do homem heroico primitivo.
Não se pode procurar em Os Sertões a precisão factual nem precisão conceitual, porque se trata de um documentário romanceado ou um romance documentado. Talvez Euclides tenha sido o escritor que rompeu a categoria clássica e neoclássica do gênero na literatura brasileira, sem que se dispusesse a encarnar esta ou aquela tendência literária ou a inaugurar uma nova. Obteve a proeza de aproximar a ciência da literatura e a literatura da ciência, sem forçar a constituição de um novo gênero e sem artificializar uma escola literária. Certamente, a relação entre literatura e ciência foi colocada na segunda metade do século XIX na França pelo Realismo/Naturalismo.
O método de pesquisar uma determinada realidade apregoada pelo Naturalismo esteve presente na elaboração de Os Sertões, mas por razões científicas e não literárias. Euclides não estava diante de uma realidade trágica para se servir dela como ficcionista; se assim o fizesse, provavelmente não estaríamos hoje discutindo Os Sertões.

CC − Há contradições em sua obra?

Há uma contradição flagrante entre a concepção racial que é desenvolvida no capítulo “O Homem” e a descrição heroica das personagens que protagonizaram a resistência de Canudos, retratados no último capítulo, “A Luta”. A tentativa de transferir a teoria da evolução de Darwin, admitindo uma visão de darwinismo social, para categorizar o sertanejo numa visão geral de sub-raça, e o homem branco colonizador numa espécie de raça superior falseou as bases científicas e aí criou uma ficção no sentido não literário e sim no sentido anticientífico. Penso que nessa contradição encontramos o calcanhar de aquiles de Os Sertões.

CC − O livro Os Sertões está dividido em três partes: “A Terra”, “O Homem” e “A Luta”. Embora o último seja o mais conhecido, os dois primeiros são os mais importantes, devido à descrição feita pelo autor. Ele foi fidedigno na descrição dos personagens envolvidos e na descrição dos fatos ocorridos?

Euclides foi observador e pesquisador da nova realidade que se lhe apresentava aos olhos e ao pensamento de escritor. Em sua Caderneta de Campo, encontramos o rigor das anotações de fatos, acontecimentos, descrições e croquis. O livro Os Sertões foi escrito com base nas anotações e memórias da experiência. Sem dúvida, o escritor foi fidedigno na descrição das personagens e na descrição dos fatos. Mas não se pode confundir fidedigno com cópia exata. O melhor termo é “verossímil”.
Euclides da Cunha talhou Os Sertões segundo os conceitos literários de mimese e de verossimilhança da poética clássica de Aristóteles, certamente fundindo gêneros, como anteriormente explicamos. As descrições e suas movimentações no enredo trágico dos combates sofreram tratamento que ressalta qualidades, heroísmos coletivos, situações particulares de combate etc., de acordo com a visão e interpretação do escritor.
O biógrafo Olímpio de Sousa Andrade, em História e Interpretação de “Os Sertões”, faz a seguinte consideração: “Canudos, por fora como por dentro, é o ponto em que melhor surpreendemos o escritor descrevendo o que via, é certo, mas também o que não via, ou, para nos ajustarmos à sua própria confissão, o ponto em que sempre o apanhamos de improviso a registrar as impressões verdadeiras ou ilusórias que tivera desde que se dispusera a abandonar a companhia da ciência para caminhar sozinho como ‘simples copista’ diante dos homens, dos fatos e das coisas”. Tomando de empréstimo uma apreciação de José Lins do Rego, o biógrafo conclui: “Afinal, simples reprodução do real, como valorização dele, em termos de arte, impõe-se reconhecer que Os Sertões, indubitavelmente, é ‘um livro feito sem mentiras, todo construído de barro humano’”.
Quando Olímpio se refere a “abandonar a companhia da ciência”, confunde a questão. Não se pode dar a ideia de que existem dois Sertões: o da ciência e o da literatura. A crítica deve incidir sobre o que era tido por científico, mas não o era.

CC − Há quem considere o estilo literário de Os Sertões prolixo. Qual é a opinião do senhor?

Não é um texto que permite leitura corrente. As exigências de percurso são muitas. Na unidade de composição, há uma rica diversidade de expressão, que vai do vocábulo ao parágrafo, que se movimenta por formas expositivas, descritivas e narrativas interdependentes e que comporta gêneros distintos como o épico, o dramático e lírico. As mudanças de situação em cada uma das três partes do livro – “A Terra”, “O Homem”, “A Luta” – passam por um tratamento distinto de linguagem, objetivando aproximar o máximo possível dos órgãos sensoriais e do pensamento os acontecimentos e os elos dos movimentos antitéticos da realidade observada.
Não se pode desconsiderar a complexidade de conhecimento ambiental, histórico, social e psicológico que perpassa a monumental obra. O desbravador do livro vai aprendendo a ler; e ler aprendendo, em uma relação dinâmica.
O foco do escritor enfeixa observações objetivas, avaliações racionais, hipóteses, deduções e manifestações subjetivas. A variação rítmica da exposição-narração se transforma conforme a mudança da observação do escritor e da compulsão de sua memória, que dependem da mudança ocorrida no objeto da observação e da memória. O predomínio de uma das formas – exposição, narração e descrição – e a maneira como elas se entrelaçam dão a tonalidade do pensamento, a força da imagem, o teor da abstração, a dramaticidade dos elos causais, a tragicidade dos confrontos etc. São evidentes as transformações de linguagem em cada uma das partes, não por acaso, nem por capricho do escritor, mas por necessidade de apreender o objeto da observação.
Euclides não perdeu a consistência de estilo, em nosso entendimento, porque dominou a matéria comum das três partes, por sua vez organizadas em subdivisões, que é a dialética do movimento. As pesquisas históricas, as leituras científicas e as experiências advindas da observação testemunhal são elaboradas, dispostas e sequenciadas em movimentos de ação e reação, e vice-versa. Os recursos são abundantes, ressaltando as comparações, a remontagem de histórias do passado, a montagem de quadros e as elocuções frente ao extraordinário. Não temos aqui como demonstrá-los.
Houve polêmicas sobre a escrita de Os Sertões. Parece que o começo se deu com a observação do historiador, escritor e abolicionista Joaquim Nabuco, que usou a expressão “escrever com cipó”. Para uns pareceu pejorativo, para outros positivo – emaranhado ou de amarração consistente. Não faltaram contestações a Nabuco. Olímpio de Sousa Andrade procura dar uma interpretação positiva. “Euclides, um homem com a natureza, do começo ao fim da sua vida, evidenciando, no seu estilo, aprendizagem com ela, não poderia ter trazido o sertão até nós sem o cipó, sem os rodeios caprichosos do cipó (...). É também homem que escreve sem cipó, escritor capaz de, sem torcer o seu estilo, encontrar-se em beleza com as paisagens ideais do seu grande antagonista (...)”
Afrânio Peixoto também contestou a frase de Joaquim Nabuco, com o argumento de que nascia um estilo autóctone, livre das importações europeias. Os Sertões não seria um livro “composto com o estilete civilizado, mas escrito a cipó”. Via como principal característica ser Euclides “um grande pintor de ação.”
Gilberto Freyre, em Perfil de Euclides e outros perfis, desanca Euclides da Cunha. Considera Os Sertões um monumento do gongorismo. Apropria-se indevidamente dos julgamentos críticos de Afrânio Peixoto. A tentativa de desqualificar Os Sertões e de reduzir Euclides a ser recalcado é motivada por razões ideológicas. Freire faz a defesa do exército e, assim, justifica o massacre. Socorre-se, para isso, do livro A verdade sobre “Os Sertões”, de Dante de Melo, de 1958, dedicado a demonstrar que os combatentes de Canudos não passavam de criminosos diante de um exército altaneiro. O Perfil... é uma infâmia de Gilberto Freyre contra o escritor de Os Sertões.
Um aspecto particular da crítica foi dedicado à seleção vocabular. José Veríssimo fez o reparo de que Euclides exagera no uso de termos científicos, de neologismos e de arcaísmos. A apreciação negativa vem na linha do “escrever com o cipó”. Euclides respondeu à restrição com o argumento de que havia uma tendência de “consórcio da ciência com a arte”. Exortou ao respeitado crítico que dedicasse um artigo à imprensa sobre a relação ciência e arte. Sílvio Rabelo transcreve uma passagem em que Euclides faz a seguinte defesa, perante observações de amigos: “Por velho ou esquecido, não perde para mim a força de expressão que eu procuro no vocábulo. Que me importa, a mim, que o leitor estaque na leitura corrente, se a expressão que lhe dou com esse termo esquecido é a mais verdadeira, a mais nítida, e, em verdade, a única que eu lhe queria dar?”
Extraordinária consciência da relação entre a linguagem e a realidade. Euclides buscava os reflexos do real sobre a consciência, que se materializa na escrita. De certa forma, distava-se dos conceitos estético-literários oriundos do idealismo. A viagem ao campo de batalha e a necessidade de escrever sobre o massacre de uma comuna primitiva provocaram mudanças sensíveis no seu intelecto. Referindo-se às falhas de conhecimentos necessários para escrever com precisão Os Sertões, Euclides constata: “(...) nunca lamentei tanto a ausência de uma educação prática e sólida e nunca reconheci tanto a inutilidade das maravilhas teóricas com as quais nos ilidimos nos tempos acadêmicos”. A descoberta do divórcio entre a teoria e a prática, acentuada pela divisão social do trabalho no modo capitalista de produção, permitiu a Euclides percorrer um caminho de expressão literária ímpar na literatura brasileira.

CC − Qual a opinião de Euclides da Cunha sobre a seca? Em que ele se baseia para registrar que as secas do nordeste obedecem um ciclo de 9 a 12 anos?

Euclides de Cunha, na parte IV de “A Terra”, refere-se aos ciclos da seca, citando uma espécie de relatório do senador Tomás Pompeu. Critica o fato de não se ter naquele momento um estudo rigoroso e profundo de sua gênese. Euclides toma o tema da seca em função do flagelo humano e de sua tendência em explicar os condicionantes do meio sobre o homem. Assim, utiliza-se de hipótese do naturalista Barão de Capanema, que busca explicação na rotação solar. Recorreu também a Herschel, que levantou a hipótese do calor emitido para a Terra, baseando-se em dados geométricos e físicos para determinar sua incidência. Euclides aponta as falhas da teoria de Herschel, mas valoriza a tentativa de explicação.
Euclides procura demonstrar as particularidades geográficas do sertão e o regime dos ventos. Conclui que a “disposição topográfica” é decisiva para o ciclo da seca. Mas cuidadosamente não deixa de chamar a atenção para o fato de se tratar de conjeturas.
O mais significativo não são as tentativas de explicação dos fatores climáticos e geológicos que provocam as secas, mas sim o método dialético exposto. Como observador que investiga o fenômeno e descobre os elos causais, Euclides fica maravilhado com a constatação: “A natureza compraz-se em um jogo de antíteses”. Outras passagens indicam o quanto era importante para o escritor revelar a unidade dos contrários: “A terra desnuda tendo contrapostas, em permanente conflito, as capacidades emissivas e absorventes dos materiais que a formam, (...); Deste perene conflito feito um círculo vicioso indefinido, ressalta a significação mesológica do local”; “Copiando o mesmo singular desequilíbrio das forças que trabalham a terra, os ventos ali chegam, em geral, turbilhonando revoltos, em rebojos largos”.
Da mais abrasadora seca esterilizante, o sertão se transforma em criação com o “sobrevir das chuvas”. Euclides vê a natureza zombar das explicações idealizadas e intitula “Uma Categoria Geográfica Que Hegel Não Criou”.
O renascer dos rios, da flora, da fauna e do próprio homem sertanejo constitui as páginas mais exuberantes do capítulo da Terra. E é assim porque não há exaltação idealista, romântica. A passagem da seca para o florescer é traumática, assim como o retorno ao ponto inicial do ciclo. A “apoteose” da “mutação” é precedida da tormenta, do “aguaceiro diluviano”.
Euclides não deixa de identificar “um agente geológico notável – o homem”, que “assumiu, em todo o decorrer da História, o papel de um terrível fazedor de desertos”. Assim, “o homem fez-se uma componente nefasta entre as forças daquele clima demolidor”. Também nesse aspecto a atualidade da obra Os Sertões é flagrante.
Euclides aciona todo o conhecimento adquirido de naturalistas, geógrafos, climatologistas etc., mas não deixa de contestá-los naquilo que suas observações não comprovam. Reconhece que esteve tomado “pelas emoções da guerra” de Canudos e que por isso lhe tenha faltado “serenidade de pensamento”.

CC − Os Sertões, hoje, é uma obra contemporânea?

Essa é uma pergunta inevitável. Começo a respondê-la com uma consideração de Olímpio de Sousa Andrade, escrita cerca de quatro décadas atrás: “Sessenta anos depois de publicado, somando às primeiras edições dezenas delas, traduzido para várias línguas e visto lá fora como “great and grand”, lido e até copiado como se fosse um romance, o livro prossegue dando mostras da sua validade, da sua permanente atualidade, caindo sempre sob os olhos das gerações que vão passando como qualquer coisa de novo, irrevelado”.
Entendo que as obras marcantes do passado continuam a influenciar de alguma maneira o presente, por isso são denominadas de clássicas. É o caso de Os Sertões, com seu esplendor contemporâneo. Mas essa afirmação é abstrata. A obra Os Sertões permanece contemporânea porque combinou a ciência com a literatura e expôs sem temor um dos crimes hediondos do Estado contra a comuna primitiva de Canudos. Essas são particularidades que a projetam aos nossos dias. Embora o conflito de Canudos diste a mais de 100 anos e a realidade sertaneja tenha sofrido importantes alterações, o conflito no campo permanece. Lembremos dois massacres de camponeses ainda recentes: o de Corumbiara e o de Eldorado dos Carajás. A memória de Canudos emerge na vida social contemporânea. A comoção da derrocada da comuna organizada pelo anacoreta Antônio Conselheiro continua viva.

CC − O que pode ser dito sobre a aproximação de Euclides com o socialismo?

O termo socialismo é geral; abarca desde os socialistas utópicos até os científicos, ou seja, de Saint-Simon a Marx. Formado no positivismo da academia militar, Euclides não chegou a superá-lo e assimilar o socialismo científico. Como pensador livre e de uma honestidade ímpar – e por isso pagou com duras privações econômicas −, aproximou-se dos escritos de Marx.
Não pode assimilar a concepção materialista da história, que inclui a noção essencial de luta de classe. Caso Euclides houvesse submetido o positivismo à crítica, principalmente reconhecido seu materialismo mecânico, teria colocado Os Sertões em um patamar ainda mais elevado.
O misticismo de Conselheiro, a existência do jagunço, a reação da Igreja católica, o movimento social de Canudos, a perseguição policial, a intervenção militar e a autodefesa da comuna não foram vistos como manifestações das relações de propriedade e de classe. A resistência épica, a bravura e a sagacidade guerrilheira dos sertanejos fizeram os olhos de Euclides brilhar. De onde os miseráveis de Canudos extraíam tamanha força para derrotar três expedições, ainda mais a terceira, muito bem armada e comandada pelo lendário coronel Moreira César? Por que a quarta expedição vencedora tinha de decapitar os vencidos? Euclides procurou as respostas nos condicionamentos mútuos entre o meio e o homem, na miscigenação e no misticismo. E, por fim, na vingança, no abandono das leis e na impunidade garantida.
Com descrições precisas, cortantes e carregadas de tragédia, o jornalista-escritor rompeu o silêncio sobre o morticínio e repôs a verdade histórica. Foi o “matadouro” e o perigo de a “História” não chegar até ali (“A História não iria até ali”) que mais obrigaram Euclides a transformar suas anotações na caderneta de campo e o que foi conservado pela memória no livro “vingador”. Mas Euclides não teve como compreender as limitações de suas explicações para o acontecimento histórico, uma vez que suas leituras de Marx não o transformaram em socialista.
Canudos não tinha como ser visto como uma expressão primitiva do conflito de classe. A República não podia ser observada como a representação da ditadura de classe da burguesia brasileira, que comandava as transformações econômicas e sociais do país. O exército não tinha como ser concebido como criatura de uma classe social, capaz de ir até à barbárie da degola de homens esfarrapados. Essas formas e conteúdos pareciam novos ao espírito rebelde de Euclides diante do longo passado colonial e escravista.
Há que se ter em consideração que as premissas sociais para as ideias socialistas no Brasil eram pouco desenvolvidas. A mente científica e o pendor para a crítica de Euclides o levariam a se acercar, em São José do Rio Pardo, em 1901, dos socialistas, via de regra, imigrantes italianos, que fundaram círculos e chegariam a editar o jornal O Proletário – Periódico Socialista. Mas, pelo visto, a aproximação se deu mais pela amizade com Francisco Escobar, que demonstrava vasta cultura em uma cidade tão provinciana e que muito apoio deu a Euclides para redigir Os Sertões.
Modesto de Abreu, em seu livro Estilo e Personalidade em Euclides da Cunha, faz a seguinte consideração: “Com efeito, ideias socializantes, de um socialismo que hoje diríamos bem de esquerda, se rastreiam em mais de um passo da obra euclidiana, não só n’Os Sertões, como ainda e principalmente nos Contrastes e Confrontos. Na bem elaborada obra biográfica, Sílvio Rabelo relata o avanço de Euclides da Cunha em direção ao materialismo dialético de Karl Marx. Refere como importantes os apontamentos no artigo “Um velho problema”, que se encontra na coletânea Contrastes e Confrontos, em defesa do socialismo científico. Eis uma das afirmações do biógrafo: “Como se tivesse chegado subitamente ao x de uma equação, Euclides não tinha hesitação em admitir que a fonte única da produção é o trabalho e que o capital, ou a terra, ou a máquina, de nada vale sem o braço do homem. E em afirmar, com a ênfase de um silogista, que ‘a riqueza produzida deve pertencer toda aos que trabalham’ e que ‘o capital é uma espoliação’”. Olímpio de Sousa Andrade é partidário da hipótese de que Euclides não se interessou por questões práticas do socialismo, mantendo-se afastado das atividades dos círculos de São José do Rio Pardo. Mas admite a tendência de Euclides de se aproximar do socialismo: “É tão certo que ele, pelo menos nos dez anos que medeiam o exílio da Campanha e a publicação de “Um velho problema”, em 1904, cultivava ideias socialistas, como certo é que, contraditório como sempre, quase tudo o que escreveu é tecido com ideias de grande liberal (...).
Não se trata de inventar um Euclides socialista. Mas não há como não reconhecer que a observação rigorosa da realidade social empurrou o escritor a reconhecer o socialismo científico.

 

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