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Diversidade e adversidades em Os Sertões: a luta da terra e do homem

APROPUC-SP 05.10.10
João Hilton Sayeg-Siqueira

A natureza compraz-se em um jogo de antíteses. (p. 46) 2

Em Canudos se misturam história/crendice, realidade/misticismo, heroísmo/vilania, liderança/messianismo, reivindicação social/fragilidade política. Nessa ondulação de contrariedades complementares é que se desenrola o relato de Euclides da Cunha sobre a Campanha de Canudos, em Os Sertões.
O levante ocorreu no sertão da Bahia, de novembro de 1896 a 5 de outubro de 1987. Em um ano, foram quatro investidas do governo estadual com o apoio do governo federal republicano, recente e inseguro, contra uma população carente, faminta e oprimida que vivia numa situação precária do Nordeste brasileiro, no final do século XIX. Eram muitas as revoltas em decorrência da seca, da miséria, da fome, da violência e, principalmente, do abandono político, o que afetava gravemente os nordestinos do sertão. Toda essa situação, em conjunto com o fanatismo religioso, desencadeou um grave problema político-social, envolvendo fanáticos, jagunços e sertanejos sem emprego.

Porque o cangaceiro da Paraíba e Pernambuco é um produto idêntico, com diverso nome. Distingue-o do jagunço talvez a nulíssima variante da arma predileta: a parnaíba (...) o clavinote [...] As duas sociedades irmãs tiveram, entretanto, longo afastamento que as isolou uma da outra. Os cangaceiros nas incursões para o sul, e os jagunços nas incursões para o norte, defrontavam-se, sem se unirem, separados pelo valado em declive de Paulo Afonso.
A insurreição da comarca de Monte Santo ia ligá-las.
A campanha de Canudos despontou da convergência espontânea de todas essas forças desvairadas, perdidas no sertão. (p. 142)


A expansão demográfica do povoado de Canudos se deu por um movimento de convergências contrastivas, aqui, duas sociedades irmãs, no entanto separadas, uma rumando para o sul e a outra para o norte, cangaceiros e jagunços com nomes diversos mas propósitos semelhantes, diferentes, talvez, pelo tipo de armas que utilizavam, no entanto, unidos na heroica resistência a quatro investidas militares contra uma população fraca e desvalida.
No centro desse movimento estava a psicose mística de Antônio Vicente Mendes Maciel (o Conselheiro). A sua insânia estava, ali, exteriorizada. Espalhavam-lha a admiração intensa e o respeito absoluto que o tornaram em pouco tempo árbitro incondicional de todas as divergências ou brigas, conselheiro predileto em todas as decisões. Cearense de Quixeramobim, enveredou-se pelos sertões nordestinos, fugindo, por vergonha, da decepção de um casamento adúltero com uma mulher desequilibrada por tara hereditária. Surgiu na Bahia, esquálido e macerado, deixando absortos os matutos supersticiosos. Dominava-os, sem querer. Rodeou-o o prestígio de milagreiro, agravando-lhe, talvez, o temperamento delirante. (p. 107)

Ia-lhe crescendo o prestígio. Já não seguia só. Encalçavam-no na rota desnorteada os primeiros fiéis. Não os chamara. Chegavam-lhe espontâneos, felizes por atravessarem com ele os mesmos dias de provações e misérias. Eram, no geral, gente ínfima e suspeita, avessa ao trabalho, farândula de vencidos da vida, vezada à mandria e à rapina. (p. 107)

Antônio Conselheiro é o retrato da terra e do homem, envolventes pelo misticismo, pela incógnita, pelo mistério e repulsivos pela aparência, pelo comportamento e pelo procedimento. É o ícone tortuoso, oblíquo, da terra e do homem do Nordeste. O chão é enterroado, desmantelado, quase desnudo, no contorcido dos leitos secos dos ribeirões efêmeros, no constrito das gargantas e o quase convulsivo de uma flora decídua embaralhada em esgalhos – é de algum modo o martírio da terra. (p. 26) O homem forte, desequilibrado e cambaleante, chegou sem ser chamado e seguiu rotas desnorteadas, feliz com as provações e as misérias que levam à salvação.

... seu misticismo feroz e extravagante. Ele foi, simultaneamente, o elemento ativo e passivo da agitação de que surgiu. (...) espírito torturado de reveses (...) falso apóstolo (...) um caso notável de degenerescência intelectual, mas não o isolou – incompreendido, desequilibrado, retrógrado, rebelde, − no meio em que agiu. (...) Ao contrário, este fortaleceu-o. Era o profeta, o emissário das alturas, transfigurado por ilapso estupendo, mas adstrito a todas as contingências humanas, passível do sofrimento e da morte, e tendo uma função exclusiva: apontar aos pecadores o caminho da salvação. (pp. 99-101)
... o viajante... a caatinga o afoga; abrevia-lhe o olhar; agride-o e estonteia-o; enlaça-o na trama espinescente e não o atrai; repulsa-o com as folhas urticantes, com o espinho, com os gravetos estalados em lanças; e desdobra-se-lhe na frente léguas e léguas, imutáveis no aspecto desolado: árvores sem folhas, de galhos estorcidos e secos, revoltos, entrecruzados, apontando rijamente no espaço ou estirando-se flexuosos pelo solo, lembrando um bracejar imenso, de tortura, da flora agonizante... (p. 39)
O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral. A sua aparência, entretanto, ao primeiro lance de vista, revela o contrário. Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas. É desgracioso, desengonçado, torto. (...) reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gigante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente. (...) Caminhando, mesmo a passo rápido, não traça trajetória retilínea e firme. Avança celeremente, num bambolear característico, de que parecem ser o traço geométrico os meandros das trilhas sertanejas. (p. 80)


O Conselheiro é presença de misticismo feroz e extravagante, figura controversa de um falso profeta, ativo e passivo, decorrência de sua degenerescência intelectual, que o fazia acreditar ser emissário das alturas, transfigurado por ilapso estupendo, mas adstrito a todas as contingências humanas, passível do sofrimento e da morte (p. 101); enlaça e repulsa o sertanejo, espécimen forte com a fealdade dos fracos, andar sem firmeza, sem aprumo numa trajetória retilínea e firme.
Pela crença e pelo provento, pode-se comparar Antônio Conselheiro ao ubunzeiro, a árvore sagrada do sertão. Sócia fiel das rápidas horas felizes e longos dias amargos dos vaqueiros. Representa o mais frisante exemplo de adaptação da flora sertaneja. (...) E ao chegarem os tempos felizes dá-lhe os frutos de sabor esquisito para o preparo da umbuzada tradicional (p. 44). Traz, em si, a sombra que abriga e o fruto que alimenta. Não só dá o amparo, mas tambem é solidária. Como o sertanejo, está enraizada ao sertão.
E por essas diversidades vai-se desenhando o sertão, configurado por uma atmosfera que junto ao chão vibra num ondular vivíssimo de bocas de fornalha em que se pressente visível, no expandir das colunas aquecidas, a efervescência dos ares. Já no alto do morro da Favela encontravam-se os mesmos acidentes e o mesmo chão que embaixo, revolto, áspero dos pedregais e coberto de caatingas. Mas a reunião de tantos traços incorretos e duros – arregoados divagantes de algares, sulcos de despenhadeiros, socavas de bocainas, criava-lhe perspectiva inteiramente nova. E quase compreendia que os matutos crendeiros, de imaginativa ingênua, acreditassem que “ali era o céu...” (pp. 33-34)
A diversidade não é privilégio só do solo, ou das crenças, está presente também no clima, o que pode ser constatado pela oscilação da temperatura que vai dos 35º à sombra, durante o dia, para madrugadas frias, dias queimosos e madrugadas enregeladas (...) insola-se e enregela-se, em 24 horas (p. 34). A isso, somam-se os contrastes das estações, do estio torrencial às tormentas avassaladoras. Aquela escarnece o solo e lhe tira o viço da vida, o empedramento do solo; a nudez da flora; o espasmo assombrador da seca (p. 46); estas substituem as insolações inclementes pelas águas selvagens que degradam o solo.(p. 29)
A natureza se configura por um cenário ora desolador, dado pela seca, barbaramente estéril, ora por uma vegetação maravilhosamente exuberante, transfigurada pelos deslumbramentos da primavera. Passa-se do chão empedrado, gretado, recrestado, da flora rudimentar com a vegetação agonizando, doente, informe, exausta, num espasmo doloroso, para um paraíso, quando o sertão aflora e ressurge a fauna resistente das caatingas.

... pela intuição do próprio sertanejo para quem a persistência do nordeste – o vento da seca, como o batiza expressivamente – equivale à permanência de uma situação irremediável e crudelíssima. (...) desfazendo-se logo depois em aguaceiros fortes sobre os desertos recrestados (...) os primeiros fios de água derivando pelas pedras, as primeiras torrentes em despenhos pelas encostas, afluindo em regatos já avolumados entre as quebradas, concentrando-se tumultuariamente em ribeirões correntosos; adensando-se, estes, em rios barrentos traçados ao acaso, à feição dos declives, em cujas correntezas passam velozmente os esgalhos das árvores arrancadas, rolando todos e arrebentando na mesma onda, no mesmo caos de águas revoltas e escuras (...) Embruscado em minutos, o firmamento golpeia-se de relâmpagos precípetes, sucessivos, sarjando fundamente a imprimadura negra da tormenta. Reboam ruidosamente as trovoadas fortes. As bátegas de chuva tombam grossas, espaçadamente, sobre o chão, adunando-se logo em aguaceiro diluviano (...) transmudam-se os sertões, revivecendo. (pp. 38-43)

Engenhosamente, vai sendo arquitetado o teatro em que ocorrerão as lutas, pela sobrevivência, da terra e do homem, protagonistas de uma narrativa antitética, escrita em estilo contrastivo pela natureza. É uma construção em desmoronamento, cujo encanto está na destruição de suas dimensões, tão magníficas e tão frageladas, pela própria constituição do solo ou pela ação predatória do homem. A terra e o homem se congregam e se desagregam. Ela maltrata e ele destrata. A terra é árida e inóspita; o homem é duro e rude; a luta é árdua e fatal. A terra não resiste à seca; o homem não suplanta o descaso; e a luta não vence a adversidade e a repressão.

Surgem primeiro as possantes massas gnaisse graníticas, que a partir do extremo sul se encurvam em desmedido anfiteatro, alteando as paisagens admiráveis que tanto encantam e iludem as vistas inexpertas dos forasteiros. (...) que fazem deste país região privilegiada, onde a natureza armou a sua mais portentosa oficina. (...) desbarrancado, em desintegração contínua, por todo o curso das idades; adiante, mais caprichosos, se escalonam em alinhamentos incorretos de menhirs colossais, ou em círculos enormes, recordando na disposição dos grandes blocos superpostos, em rimas, muramentos desmantelados de ciclópicos coliseus em ruínas; ou então, pelos visos das escarpas, oblíquos e sobranceando as planuras que, interpostos, ladeiam, lembram aduelas desconformes, restos da monstruosa abóboda da antiga cordilheira, desabada... (pp. 19-22)

Esquecemo-nos, todavia, de um agente geológico notável – o homem. Este, de fato, não raro reage brutalmente sobre a terra e entre nós, nomeadamente, assumiu, em todo o decorrer da história, o papel de um terrível fazedor de desertos. Começou isto por um desastroso legado indígena. Na agricultura primitiva dos silvícolas era instrumento fundamental – o fogo. (...) Atacou a fundo a terra, escarificando-a nas explorações a céu aberto; esterilizou-a (...) o homem fez-se uma componente nefasta entre as forças daquele clima demolidor. Se o não criou, transmudou-o, agravando-o. Deu um auxiliar à degradação das tormentas, o machado do catingueiro; um supletivo à insolação, a queimada. (pp. 48-49)
O homem luta contra a condição adversa que a natureza lhe impõe e a terra descortina o cenário da batalha. A localização de Canudos, ponto nevrálgico da luta, faz-se importante para se divisar as condições de constituição do solo e de sobrevivência do homem. Canudos de pito, que, pelo caule oco, eram utilizados para fazer haste de cachimbo, e foram destinados a emprestar o nome ao mais lendário dos vilarejos que ficava localizado na velha fazenda de gado à beira do rio Vaza-Barris, e que era, em 1890, uma tapera de cerca de cinquenta capuabas de pau a pique, predestinado a ser o dilatado teatro de tropelias às gentes indisciplinadas do sertão. (pp. 41-117-139)
Como Antônio Conselheiro e os sertanejos que o seguiam, o rio Vaza-Barris tem curso tortuoso, rio sem nascente, rio sem afluentes, a sua função como agente geológico é revolucionária (p. 25). Estudos realizados sobre esse rio localizam sua nascente no sopé da Serra dos Macacos, sertão da Bahia, próximo ao município de Uauá, mas, por ter o leito normalmente seco, que só aparece quando chove, geograficamente, divisam o ponto exato onde ele começa como sendo uma várzea denominada Alagadiço Grande. Mesmo assim, há controvérsias, pois em seu curso natural, mais à frente, forma a Lagoa dos Pinhões, que passa, então, a ser o referencial exato de sua nascente, já que é mais estável na época da seca. Por isso, é visto como um rio perene ou temporário, com cerca de 450 quilômetros de comprimento, que atravessa a Bahia, passa por Sergipe e deságua no litoral sergipano, local denominado Mosqueiro.
O Vaza-Barris percorre o sertão sem procedência e sem percurso muito bem definidos, como Antônio Conselheiro, como os cangaceiros e os jagunços, que vagavam pelo sul e pelo norte, como os sertanejos errantes que chegavam sem ser chamados e seguiam um ideal em busca da liberdade da situação de extrema pobreza na qual se encontravam. O rio, o profeta, o banditismo e a beatice convergem para um solo que, de tão árido, produz miragens insólitas de oásis em depressões de aspecto lúgubre, entre colinas nuas, envoltas em mandacarus despidos e tristes, como espectros de árvores; ou num colo de chapada, recortando-se com destaque no chão poente e pardo, graças à placa verde-negra das algas unicelulares que as revestem. (p. 25)
A terra ignota, em que se aventura o rabisco de um rio problemático ou a idealização de uma corda de serras. A impressão que domina é dolorosa ao se atravessar aquele ignoto trecho de sertão – quase um deserto – quer se aperte entre as dobras de serranias nuas ou se estire, monotonamente, em descampados grandes, em largas planuras ondeantes onde, em uma delas, se erigia o arraial de Canudos que Conselheiro chamou de Belo Monte, um paradoxo, pois o arraial se situa em um vale, entre colinas. Este é o cenário em que é travada a luta, não dos militares contra os conselheiristas, mas da terra e do homem pela sobrevivência. (pp. 23-29)
A luta é tão feroz e voraz que para relatá-la só por meio de uma recriação dramática livre do texto de Euclides da Cunha, reconstruindo, a partir de um novo percurso, as adversidades presentes nas diversidades de um Nordeste que ruge nos ermos, armado com as características rudimentares constitutivas do solo em que as erosões crivam-se escarificadas em quinas de rebordos cortantes, em pontas e em duríssimas estrepes que procuram impossibilitar a marcha das forças que atacam a terra na contextura e na superfície, sem intervalos na ação demolidora, substituindo-se, com intercadência invariável, nas duas estações únicas da região, a extrema seca e as chuvas breves e tempestuosas.
A terra se arma por ser brutalmente golpeada pelos elementos variáveis, distribuídos por todas as modalidades climáticas e naturais. As forças que trabalham a terra atacam-na. A caatinga estende sobre a terra as ramagens de espinhos, como um cilício dilacerador que se estiva, em vida latente, e que se alimenta das reservas que foram armazenadas nas quadras remansadas. A flora luta tenazmente contra o flagelar do clima, com uma resistência rara entretece a trama das raízes, obstando, em parte, que as torrentes arrebatem todos os princípios dissolvidos, acumulando-os pouco a pouco na conquista da paragem desolada cujos contornos suaviza, sem impedir, contudo, nos estios longos, as insolações inclementes e as águas selvagens, degradando o solo.
A natureza torturada impõe-se, tenaz e inflexível, a luta pela vida, principalmente, contra o sol, inimigo que é forçoso evitar, iludir ou combater. E evitando-o pressente-se de algum modo a inumação da flora moribunda, enterrando os caules pelo solo, que, como este, é áspero e duro, ressecado pelas drenagens dos pendores ou esterilizado pela sucção dos estratos, completando as insolações, entre dois meios desfavoráveis, espaços candentes e terrenos agros. As plantas mais robustas trazem no aspecto anormalíssimo, impressos, todos os estigmas desta batalha surda. As árvores emparelham-se para reagir contra o regime bruto.
As condições estruturais da terra lá se vincularam à violência máxima, os quartzitos ásperos, e as filades e calcáreos, revezando-se ou entrelaçando-se, repontando duramente a cada passo, mal cobertos por uma flora tolhiça, dispondo-se em cenários em que ressalta, predominantemente, o aspecto atormentado das paisagens O regime torrencial dos climas excessivos, sobrevindo, de súbito, depois das insolações demoradas, e embatendo naqueles pendores, expôs há muito, arrebatando-lhes para longe todos os elementos degradados, as séries mais antigas daqueles últimos rebentos das montanhas.
Afora isso, o homem também, ao longo dos tempos, tornou-se um inimigo feroz, atacou a terra a fundo, escarificando-a nas explorações a céu aberto; esterilizou-a com os lastros das grupiaras: feriu-a a pontaços de alvião; degradou-a corroendo-a com as águas selvagens das torrentes; e deixou, aqui, ali, em toda parte, para sempre estéreis, avermelhando nos ermos com o intenso colorido das argilas revolvidas, onde não medra a planta mais exígua, as grandes catas, vazias e tristonhas, com sua feição sugestiva de imensas cidades mortas, derruídas.
Mesmo assim, a terra não revidou a violência. A incomparável terra que, mesmo abrangida pelas secas, desnuda e empobrecida, ainda deu ao homem sustento para seus rebanhos nas baixadas salinas dos barreiros, amparando-o de idêntico modo ante as exigências da vida combatente, dando-lhe grátis o salitre para a composição da pólvora, fundamental na fabricação das balas, luxuosos projétis feitos de chumbo e prata, que, por sua vez, estão lá no ventre generoso do solo.
E o homem trava sua luta, contra as adversidades do clima, do solo e da opressão. Mas não se pode desconsiderar que o martírio do homem nasce do martírio secular da terra, e, portanto, compartilham o reflexo da tortura maior, mais ampla que abrange a economia geral da vida. Por isso, o sertanejo faz exceção à regra, pois, se está com a terra, a seca não o apavora; ao contrário, é um complemento à sua vida tormentosa, emoldurando-a em cenários tremendos. Enfrenta-a estoico. Apesar das dolorosas tradições que conhece por meio de um sem-número de terríveis episódios, alimenta, a todo o transe, esperanças de uma resistência impossível. Aparelha-se com singular serenidade para a luta.
A terra do Nordeste é árida e rica e é a pátria original dos homens mais bravos e mais inúteis, a começar pelo destemido jagunço que surgiu da envergadura atlética do vaqueiro e que, na nossa história, tão malsinada de indisciplinados heróis, converteu-se em um de seus mais sombrios atores. Fez-se a metamorfose da situação anterior, uma vez que, de par com a sociedade robusta e tranquila dos campeiros, surgiu uma outra caracterizada pelo nomadismo desenvolto, pela combatitividade irrequieta, e por uma ociosidade singular sulcada de tropelias.
Imaginemos se de dentro do arcabouço titânico do vaqueiro estalasse, de súbito, a vibratilidade incomparável do bandeirante, esse é o jagunço. Teatralmente é menos heroico, mas é mais tenaz, mais resistente, mais perigoso, mais forte e mais duro. Raro assume esta feição romanesca e gloriosa. Procura o adversário com o propósito firme de o destruir, seja como for. A sua vida é uma conquista arduamente feita, em faina diuturna. Calcula friamente o pugilato. Ao riscar da faca não dá um golpe em falso.
E os jagunços em agrupamentos foram à luta contra a violência oficial, usada em exagero, na tentativa de calar aqueles que lutavam por direitos sociais e melhores condições de vida. E, pela última vez, surge o jogo de antíteses que revela o caráter do clima, da terra, do homem e da história. Despertando os adversários para a luta, os sertanejos chegavam com o dia e anunciavam-se de longe, parecia uma procissão de penitência. Não tinham, ao primeiro lance de vistas, aparências guerreiras. Guiava-os um símbolo de paz: a bandeira do Divino. Seguiam para a batalha rezando, cantando, como se procurassem decisiva prova às suas almas religiosas.
A batalha foi perdida, mas Canudos não se rendeu, resistiu até o esgotamento completo. Os conselheiristas tombaram no solo e com isso fizeram uma simbiose e se decompuseram, deixando, para a história, os rostos tumefactos e esquálidos, mas, na solidariedade da luta pela adversa sobrevivência, com os olhos fundos cheios de terra.

João Hilton Sayeg-Siqueira é doutor em linguística é professor da PUC-SP.

NOTAS:
1 - Colaborou na elaboração deste artigo o Prof. Dr. Emanuel Cardoso-Silva.

2 - Todos os trechos citados neste artigo referem-se à terceira edição da obra Os Sertões, publicada pela Ediouro.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
CUNHA, Euclides da. Os Sertões (Campanha de Canudos). 3.ed. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d.



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