Sertões de infinitas travessias: uma leitura do espaço sertanejo em Euclides da Cunha
APROPUC-SP
30.09.10
“A pobre humanidade é frágil, e para os seus juízos despropositados e injustos resta-nos a instância superior da consciência, que realmente absolve ou condena”.
(Euclides da Cunha, carta ao cunhado Otaviano – Rio, 12/08/1909)
(Euclides da Cunha, carta ao cunhado Otaviano – Rio, 12/08/1909)
Sempre se fez urgente atravessar o sertão. Não se pode parar em meio a ele. É preciso cruzá-lo, enfrentá-lo de todas as formas. Vencer o sertão propicia perceber, através da força da Literatura, unida às ciências humanas, a capacidade, inerente a cada ser humano, de lutar contra obstáculos de toda ordem: individuais ou sociais. Euclides da Cunha e Guimarães Rosa convidam o leitor ao enfrentamento de uma linguagem que tem por marca registrada o uso sígnico inusitado nas tramas de Os Sertões e Grande Sertão: Veredas. O objetivo deste ensaio é mostrar como o sertão converte-se no elemento aglutinante das espacialidades em ambas as narrativas, permitindo o confronto das obras, sem se perder de vista o hibridismo discursivo da primeira e o alto teor poético da segunda.
No sertão da linguagem
Euclides da Cunha levou quase cinco anos para traçar, do começo ao fim, as linhas de Os Sertões. Publicou-os em 1902. Guimarães Rosa partiu do “Nonada” da escrita e concluiu que o que existe é a “Travessia” no signo do infinito. Levou quatro anos para cruzar o caminho e, finalmente, veio à luz Grande Sertão: Veredas, em 1956. Alcançaram o feito: legaram-nos as obras-primas.
Algo que intriga, em Os Sertões, é o fato de uma das maiores obras-primas da Literatura brasileira e, como se sabe, universal, causar desistências em sua leitura. Se por um lado, alega-se complexidade no vocabulário, formalismos excessivos na linguagem, por outro, há uma legião de leitores apaixonados pela obra. Esses perdoam os excessos dessa linguagem que torna o livro mais instigante.
É preciso envolver-se com o sertão. Ao fim da primeira parte do livro (“A Terra”), o vocabulário, ou mais apropriadamente, o estilo euclidiano se faz patente no uso das palavras, numa sintaxe recheada de vírgulas e, sobretudo, na predileção do autor por determinados vocábulos, repetindo-os ao longo da obra e mesmo em outros textos por ele escritos. Essa linguagem incorpora-se ao leitor e torna-o cúmplice do narrador, ao observar e analisar a Guerra de Canudos de perto.
A predileção pelo uso de adjetivos, como “desnudas”, “flexuosos” e suas variantes, a intensidade com que se vale de adjetivos pospostos aos substantivos, como em “planuras desnudas”, “rebentos esparsos”, “vegetação vigorosa”, quando não isola adjetivos como “raras” ou utiliza-os aos pares precedidos pelo substantivo, como em “camadas cretáceas decompostas”, faz com que se assista à atenuação da linguagem científica e o fortalecimento da expressividade poética.
Adaptado ao vocabulário e às construções sintáticas, resta um desafio ao leitor: estabelecer um ritmo de leitura. Para ler Os Sertões é preciso entrar na cadência que a combinação das palavras nas frases lhe oferece, assim como na música, estabelece-se um ritmo. Na leitura de Os Sertões parece que o narrador fala aos ouvidos do leitor, imprimindo o tom de quem observa muito bem o lugar em que se prepara a luta e, depois, acompanha de perto o confronto, o que o leva a não sair ileso no fim da leitura. É como se o desastre a que são submetidos os sertanejos lhe impregnasse a alma e a consciência da injustiça cometida numa das maiores chacinas já registradas na história do Brasil ecoasse, como extensão da dor sentida pelo repórter, engenheiro, escritor, ser humano Euclides da Cunha ao presenciar parte da luta e recriar a outra a que não assistiu.
O ritmo primeiro, em “A Terra”, é o de quem percorre com o olhar a paisagem do Rio de Janeiro ao norte baiano, aprofundando-se no cenário da luta. Depois, em “O Homem”, prepara-nos, enquanto analisa, entre outras conjecturas, a origem racial brasileira e imprime, finalmente, o tom retumbante da guerra, na terceira parte, “A Luta”.
Conforme adentrou o campo literário, eximiu-se da crítica de não ser exclusivamente fiel às ciências humanas ao narrar os fatos e libertou-se para criar os efeitos artísticos que, ao final, contribuíram para ressaltar a insanidade do conflito, numa espécie de drama e texto épico.
O campo sempre fértil para novas leituras continua promissor, mesmo com a já vastíssima bibliografia sobre a obra. Basta começar, familiarizar-se ao inconfundível estilo euclidiano, sobretudo ao vocabulário e ritmo, para viajar para o sertão baiano, num tempo fixado pela história e pela ciência e, simultaneamente, pertencente a todos os tempos, na atemporalidade literária.
É preciso enfrentar outro sertão. Grande Sertão: Veredas é a saga que traz como surpresa, nas primeiras páginas, o contador de casos, o narrador-personagem Riobaldo que, embora seja criação literária, também presenciou os fatos, ao modo do narrador de “Os Sertões”, o que confere credibilidade ao narrado ficcionalmente. O leitor de primeira viagem depara com o enfrentamento de adaptação ao vocabulário: tem de se acostumar aos arcaísmos, aos inúmeros neologismos que se transformam na palavra ideal para exprimir o até então inenarrável.
As primeiras páginas tornam-se fundamentais, ainda, para o estabelecimento rítmico da leitura. Aqui, a cadência flui em construções singulares que se casam com a polifonia de quem Riobaldo se faz porta-voz. Não é por acaso que o romance se abre com um travessão, a indicar o início da prosa.
Assim, em Euclides e Rosa uma das primeiras aproximações é a da necessidade de o Leitor enfrentar a linguagem, de adaptar-se, não só ao vocabulário, mas à constante utilização de recursos linguísticos estabelecedores de um ritmo de leitura construídos minuciosamente pelos autores de ambas as obras. Vencidos os tropeços iniciais, a leitura flui, revelando poeticidade e encanto.
Willi Bolle: Rosa leitor de Euclides
Willi Bolle afirma que é possível considerar Grande Sertão: Veredas uma releitura de Os Sertões porque, mais do que o retrato individual de Riobaldo, retrata a sociedade brasileira, é o “romance de formação do Brasil”. Reconhece, com Antonio Candido, que as analogias excessivas devem ser vistas com reservas, pois Rosa pode explorar a liberdade criadora de modo que Euclides não a pode exercer.
Bolle reconhece que, ao lidar com a cartografia, a autonomia de Euclides é bem menor que a de Rosa. Além disso, Bolle (2004: 29) afirma que o discurso euclidiano:
eclipsa os que “respiram” no sertão. A estirpe dos sertanejos continua viva, mas quem iria dali em diante resgatar “seu código e currículo, sua humanidade?” É precisamente isso que Guimarães Rosa se propôs como projeto e, nesse sentido, podemos considerar sua obra uma reescrita crítica de Os Sertões.
Em Os Sertões, a vida do sertanejo apresenta-se cheia de cor em episódios como “A Vaquejada”, em que o vaqueiro abandona a pacatez e a apatia e transforma-se num valente, no encalço do gado, e dele cuida até o final do dia, quando “pelos ermos ecoam melancolicamente as notas do aboiado...” (p. 223), todavia, com a chegada da seca, a sua vida fica ofuscada. O pesadelo dura cerca de três meses ou estende-se por um tempo que parece eterno. A morte maciça ronda o espaço. A guerra vem antecipá-la até sucumbir...: Canudos “caiu no dia 5 [de outubro] ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados.” (p. 778)
Em Grande Sertão: Veredas, na luta do bem contra o mal, a morte deixa marcas profundas. O grande líder jagunço, Joca Ramiro morre; outros jagunços, também. Por fim, Hermógenes, a representação do mal, o matador de Joca Ramiro, luta contra Deadorina (filha do grande líder, disfarçada no curso da narrativa como o jagunço Diadorim). Hermógenes morre, porém mata Diadorim. Há uma fala: “‘− Mortos muitos?’ ‘− Demais...’” (p. 529). Riobaldo, o menino Guirigó, o cego e outros sobreviveram. Mesmo Zé Bebelo, Otacília, o compadre Quelemém continuam vivos no final do romance, seguem suas sinas...
Nas duas narrativas, as lideranças sertanejas não se firmam dentro das normas reguladoras do poder político instituído. Antônio Conselheiro lidera o povo que crê em suas prédicas, em suas promessas de uma vida digna na Terra e, sobretudo, no céu. Joca Ramiro, Medeiro Vaz, Zé Bebelo e o próprio Riobaldo Tatarana ou Urutu Branco se firmam como líderes jagunços que tentam manter a ordem e a justiça no sertão mineiro.
“O certão virará Praia e a Praia virará certão”
Antônio Conselheiro profetizou o fenômeno: “... Em 1894 há de vir rebanhos mil correndo do centro da Praia para o certão; então o certão virará Praia e a Praia virará certão” (p. 277). A profecia não se realizou, porém Euclides sabia das pesquisas de Liais e Hartt, que sustentavam haver o sertão baiano se formado no fundo de um mar extinto, conforme nos lembra o saudoso biógrafo euclidiano Roberto Ventura (2002: 94). Um dos sinônimos possíveis para o sertão é “quase um deserto”.
Embora o sertão não tivesse se transformado em mar, construiu-se, no lugar onde ficava a antiga Canudos, o açude de Cocorobó, em 1968, 15 anos depois da promessa feita por Getúlio Vargas, quando visitou Canudos em 1945. O açude trouxe vida à região e encobriu o cenário histórico da dizimação popular, entretanto quando as águas abaixam, como ocorreu em 1999, as ruínas emergem, como a lembrar que tal vergonha histórica jamais ficará esquecida. Sobre o açude, há um artigo da revista Educação (2002) editada quando da comemoração do centenário de Os Sertões, que vale ser lido.
Qual a origem do termo sertão? Walnice Nogueira Galvão (2002: 16) apoiada, por sua vez nas pesquisas de Gustavo Barroso, lembra-nos que “o vocábulo se escrevia mais frequentemente com c (certam e certão)”. Segundo ela, a etimologia correta é muceltão e sua corruptela certão, encontra-se “no Dicionário da língua bunda de Angola, de frei Bernardo Maria de Carnetim (1804)... um lugar que fica no centro ou no meio das terras”, “mato” e, mais tarde, “mato longe da costa”.
Embora o sentido original haja se modificado, ainda permanece a lembrança de ser uma terra longe da costa. Euclides utiliza com frequência o adjetivo ignoto, como em “terra ignota” em que se queixa de que àquela época a região sertaneja ainda não fora estudada em detalhes. Em pleno sertão havia os vilarejos, como Maçacará, Cumbe (atual Euclides da Cunha) e Bom Conselho (atual município Cícero Dantas), e a cidade de Monte Santo.
O sertão implica juízo valorativo, muitas vezes negativo. Aparece como lugar distante do progresso e que precisa ser modificado. Segundo Antonio Carlos Robert Moraes (2002: 368), “o sertão é uma figura do imaginário da conquista territorial”, ou seja, há sempre um projeto para transformá-lo. O sertão “é uma condição atribuída a variados e diferenciados lugares” (p. 361). Dessa forma, o sertão se torna aquilo que denomina de “realidade simbólica” ou “ideologia geográfica”. Por não representar a materialidade, Moraes admite que cabe aqui a polêmica definição rosiana (p. 1): “o sertão está em toda a parte”. Em Os Sertões, o sertanejo canudense é tratado, erroneamente, como sinal do atraso.
Há em Grande Sertão: Veredas o constante elogio do narrador-personagem Riobaldo à cidade, àquela que, geralmente, não fica em terra longínqua da costa, uma vez que seu interlocutor provinha da cidade e era, portanto, dono da “suma doutoração”. Se, por um lado, encontramos nela um lugar privilegiado para a transmissão de conhecimentos, como afirma Mílton Santos (1988: 53), por outro, o discurso de Riobaldo pode indicar certa ironia em relação ao espaço citadino, conforme Wille Bolle. Isso serve para a cidade grande e não para as que se assemelham a vilarejos, como era o caso de Curvelo e Curralinho, por exemplo.
No sertão encontram-se as veredas. Com o significado de “trilha ou caminho”, apresentam similitude nas duas obras. Aparecem diversas vezes, porém com o sentido apontado por Nilce Sant’Anna Martins (2001: 520-521), como “vales de chão argiloso ou turfo-argiloso, onde aflora a água absorvida”, semelhantes aos oásis em meio ao deserto, aparecem apenas em Grande Sertão: Veredas.
Se no romance rosiano as veredas indicam oásis, em Os Sertões os referidos oásis são representados pelas ipueiras, assim definidas pelo narrador: “Estas lagoas mortas, segundo a bela etimologia indígena, demarcam obrigatória escala ao caminhante” (p. 85).
O rio São Francisco e outros rios
A água é uma questão crucial quando se trata do espaço sertanejo. O rio São Francisco cruza as duas narrativas de ponta a ponta, assim como cruza a vida do homem do sertão. No dia a dia, é conhecido por vários nomes, entre os quais rio dos Currais e Velho Chico. Euclides, com sua postura séria, cientificista, chama-o formalmente de “S. Francisco”. Guimarães nomeia o rio com a intimidade peculiar do sertanejo pela natureza à qual se integra: chama-o o “do Chico”.
“O grande rio”, expressão citada por Euclides, nasce em Minas Gerais, corta a Bahia e passa por Pernambuco, Sergipe e Alagoas. Na Bahia, em pleno sertão, seus afluentes são, em geral, rios temporários. Por ser um rio de planalto, não é apropriado à navegação em todos os seus trechos. Entre as cidades de Pirapora, em Minas Gerais e Juazeiro, na Bahia encontra-se o maior trecho navegável.
Na escritura de Os Sertões, o São Francisco aparece com os dados que a geografia da época oferece. Trata-se do rio conhecido, popularmente, como da integração ou da unidade nacional. Rio significa vida.
Entre os rios efêmeros, como o Mucuim (na fala do povo, Micuim), o Umburanas (ou Imburanas), o Cariacá, o Itapicuru, o da “Providência”, o Sargento e o Vaza-Barris, destaca-se o último, porque compõe diretamente o cenário da guerra.
Às margens do rio São Francisco, em Grande Sertão: Veredas, Riobaldo encontra Diadorim pela primeira vez. Os adolescentes cruzam o rio: Diadorim convence Riobaldo a fazê-lo e o enfrentamento do medo constitui, como nas tribos primitivas, o rito iniciático na vida do rapaz. O do Chico não é aqui o rio unificador. É quem divide, assusta por sua grandeza; a travessia se faz difícil não só por ser rio de planalto, mas pela imposição do desafio de se enfrentar o novo, de romper a inquietação causada pelo temor.
Os rios menores aparecem também na narrativa. Segundo Alan Viggiano (1974: 43), os rios que compõem a geografia local são também constantes. São eles: “o Urucuia, Preto, Pardo, Cocha, Paracatu, de Janeiro, Acari, São Domingos, Borá, Araçuaí, Verde Grande, Verde Pequeno, Canabrava, do Sono, Soninho, Água Branca, Pacu, das Velhas, Jequitaí, Cansanção, São José Preto, Cariranha, São Marcos e Abaeté”. A importância deles, ainda segundo Viggiano, é servirem de rota para os jagunços, cujas andanças pelas cidades eram evitadas, por serem perigosas.
Os rios influenciam Riobaldo, sobretudo o Urucuia: “Meu rio de amor é o Urucuia” (p. 59), diz ele. O rio Urucuia opõe-se ao sertão existencial, porque é sempre o lugar onde encontra a paz. A personagem carrega em seu próprio nome o enredamento do rio: rio + baldo [curso d’água + represado], conforme o dicionário de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira.
Logo, outro ponto de aproximação entre as duas narrativas é o rio São Francisco e a importância dada aos rios menores, entre os quais os mais importantes na composição do cenário são o Vaza-Barris, em Os Sertões, e o Urucuia, em Grande Sertão: Veredas.
As águas barrentas indicam, em ambas as narrativas, mais do que a estiagem. São sinônimo de tempos difíceis, simbolizam os percalços que as personagens terão de enfrentar.
“O grande rio”, expressão citada por Euclides, nasce em Minas Gerais, corta a Bahia e passa por Pernambuco, Sergipe e Alagoas. Na Bahia, em pleno sertão, seus afluentes são, em geral, rios temporários. Por ser um rio de planalto, não é apropriado à navegação em todos os seus trechos. Entre as cidades de Pirapora, em Minas Gerais e Juazeiro, na Bahia encontra-se o maior trecho navegável.
Na escritura de Os Sertões, o São Francisco aparece com os dados que a geografia da época oferece. Trata-se do rio conhecido, popularmente, como da integração ou da unidade nacional. Rio significa vida.
Entre os rios efêmeros, como o Mucuim (na fala do povo, Micuim), o Umburanas (ou Imburanas), o Cariacá, o Itapicuru, o da “Providência”, o Sargento e o Vaza-Barris, destaca-se o último, porque compõe diretamente o cenário da guerra.
Às margens do rio São Francisco, em Grande Sertão: Veredas, Riobaldo encontra Diadorim pela primeira vez. Os adolescentes cruzam o rio: Diadorim convence Riobaldo a fazê-lo e o enfrentamento do medo constitui, como nas tribos primitivas, o rito iniciático na vida do rapaz. O do Chico não é aqui o rio unificador. É quem divide, assusta por sua grandeza; a travessia se faz difícil não só por ser rio de planalto, mas pela imposição do desafio de se enfrentar o novo, de romper a inquietação causada pelo temor.
Os rios menores aparecem também na narrativa. Segundo Alan Viggiano (1974: 43), os rios que compõem a geografia local são também constantes. São eles: “o Urucuia, Preto, Pardo, Cocha, Paracatu, de Janeiro, Acari, São Domingos, Borá, Araçuaí, Verde Grande, Verde Pequeno, Canabrava, do Sono, Soninho, Água Branca, Pacu, das Velhas, Jequitaí, Cansanção, São José Preto, Cariranha, São Marcos e Abaeté”. A importância deles, ainda segundo Viggiano, é servirem de rota para os jagunços, cujas andanças pelas cidades eram evitadas, por serem perigosas.
Os rios influenciam Riobaldo, sobretudo o Urucuia: “Meu rio de amor é o Urucuia” (p. 59), diz ele. O rio Urucuia opõe-se ao sertão existencial, porque é sempre o lugar onde encontra a paz. A personagem carrega em seu próprio nome o enredamento do rio: rio + baldo [curso d’água + represado], conforme o dicionário de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira.
Logo, outro ponto de aproximação entre as duas narrativas é o rio São Francisco e a importância dada aos rios menores, entre os quais os mais importantes na composição do cenário são o Vaza-Barris, em Os Sertões, e o Urucuia, em Grande Sertão: Veredas.
As águas barrentas indicam, em ambas as narrativas, mais do que a estiagem. São sinônimo de tempos difíceis, simbolizam os percalços que as personagens terão de enfrentar.
Espaços sertanejos:
do natural ao construído
do natural ao construído
Quando se tomam os dados espaciais observa-se que, para o sertanejo, conforme se avança para o norte do Estado intensificam-se as dificuldades. Dessa forma, em Grande Sertão: Veredas era necessário atravessar, alegoricamente, as regiões inóspitas, vencer o Liso do Suçuarão, para se chegar à casa do inimigo, de Hermógenes, no sul da Bahia. Em Os Sertões, o sul não oferece dificuldades ao homem; o problema se localiza mais ao norte, na região de Monte Santo e adjacências. Nos dois textos, existe a necessidade imperiosa da travessia, que ultrapassa o campo da denotação e atinge o simbólico.
O narrador de Os Sertões chama os campos gerais de “paragem formosíssima”, “um desdobramento ou antes um prolongamento” de Minas Gerais (p. 78), entretanto não se atém a eles. Interessa-lhe a vegetação do semi-árido, as caatingas.
Na narrativa de Grande Sertão: Veredas, os campos gerais, chamados “Os Gerais” aparecem sempre com letras maiúsculas, a indicar seu valor maior, simbólico.
No sertão, a vegetação é ímpar; nele habitam as árvores sagradas. A presença delas também é destaque em ambas as narrativas. Na Bahia encontra-se o umbuzeiro; em Minas Gerais, o buriti. Substituem o maná bíblico que garante a continuidade da vida no deserto, no caminho para Canaã.
Em Os Sertões, personificada, a caatinga aparece como “Sócia fiel das rápidas horas felizes e longos dias amargos dos vaqueiros. Representa o mais frisante exemplo de adaptação da flora sertaneja” (p. 128). Toda a vegetação sertaneja, na qual se inclui o umbuzeiro, adquire, sob a pena euclidiana, um colorido que, segundo Bernucci (1995: 107), “assinala a supremacia do processo sobre o objeto, é de vital importância para a compreensão de seu metatexto”. Essa é a forma como são descritos o ouricuzeiro, o mandacaru, o gravatá, o caroá, a quixabeira e tantos outros.
Em terra brasilis, no cerrado, surge o buriti de que o médico Guimarães Rosa certamente reconhecia as propriedades nutritivas, fundamentais para a alimentação do povo, e o poeta Guimarães Rosa faz ressurgir, na voz do narrador, como elemento sagrado. Valorizado, alcança a dimensão que nos dá Bachelard (1993: 191) ao lembrar que da imensidão interior se extrai o “verdadeiro significado a certas expressões referentes ao mundo que vemos”.
A imagem do buriti sempre acompanhou Rosa. Falando dos buritis, termina o seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras (Rosa, 1999: 513), em 16 de novembro de 1967. Sem saber, despede-se dos buritis e dos gerais, pois falece no dia 19 seguinte: “Mais eu murmure e diga, ante macios morros e fortes gerais estrelas, verde e mugibundo buriti, buriti, e a sempre-viva-dos-gerais que miúdo viça e enfeita: O mundo é mágico. [...]”.
O descritivismo euclidiano para cada espécie vegetal não se repete em Rosa. O umbuzeiro, o ouricurizeiro, o pequizeiro entram como parte dos gerais. Já os componentes da caatinga são pormenorizados.
Há nomes de lugares que se repetem em ambas as narrativas. Cansanção, por exemplo, é um vilarejo real em Os Sertões: “um parêntese feliz naquele desolamento” (p. 684); em Grande Sertão: Veredas é um lugar ficcional: “Cansanção-Velho” simboliza, segundo Davi Arrigucci Jr. (1994: 8), o “cansaço e incômodo” de Riobaldo ao passar por aquele trecho, após a luta contra os bebelos. O crítico observa que esse termo se refere também a uma espécie de urtiga e várias outras plantas. Designa, ainda, um riacho.
Nos caminhos do sertão, destaca-se o gado. Muitas personagens envolvidas na trama de Os Sertões são parte de um coletivo tipicamente naturalista e os animais sofrem tratamento similar. Ao gado que aparece em episódios como o da Vaquejada é concedido um dos mais belos tratamentos poéticos de toda a narrativa. Augusto de Campos (1997: 17) estudou tal excerto e dele afirma tratar-se de “uma das melhores criações do verso alexandrino”. O gado também é tratado indistintamente em Grande Sertão: Veredas. No código ético dos jagunços que acompanhavam Riobaldo, era possível matar somente o necessário para a sobrevivência.
O hábito de anotar em caderneta de viagem aquilo que o povo lhe dizia era uma marca de Euclides da Cunha, evidente necessidade do repórter. Seu contemporâneo, Guimarães Rosa soube, como ninguém, ouvir as expressões dos sertanejos, cuja sabedoria lhe inspiraram personificações, metáforas ou simples comparações entre seres humanos e animais ou seres da mesma espécie. Anotou tudo em sua caderneta, necessidade do viajante; usou e recriou em Grande Sertão: Veredas expressões que vão de cobras a borboletas, contribuindo para fazer o leitor imergir no mundo sertanejo ficcional.
As fazendas e taperas, duas construções típicas do interior, repetem-se nos sertões mineiro e baiano e, assim, não poderiam faltar às duas narrativas.
As fazendas, enquanto lugar de trabalho, aparecem nas duas obras. Em Os Sertões encontram-se desde a fazenda histórica do Sobrado à do Caldeirão. O que surge mais na narrativa são as fazendas abandonadas, contrastando com o progresso de outras. As influências do meio são apontadas como causa do abandono, no entanto a crise político-econômica não é explorada na narração.
Já em Grande Sertão: Veredas, as duas fazendas transmissoras de maior segurança e bem-estar a Riobaldo são a São Gregório e Santa Catarina. Na primeira habitava o padrinho-pai do narrador, enquanto na segunda habitava a noiva Otacília. A importância, portanto, mistura-se à alteridade ali presente. O outro que transmite segurança faz disso um reflexo na habitação. Há fazendas em que a tensão cresce de acordo com os conflitos, tal como na Fazenda dos Tucanos.
Osman Lins (1979: 76) afirma que há casos em que “o espaço justifica-se exatamente pela atmosfera que provoca”. Assim, o espaço arruinado, gerador da atmosfera de desolação, encontra-se nas duas narrativas.
As taperas de Canudos estendiam-se como se formassem uma construção única. Segundo Euclides, tratavam-se de 5.200 casebres, todos destruídos na guerra.
No sertão mineiro, por sua vez, encontram-se as taperas esparsas, perdidas no grande espaço campestre. No entanto, no povoado imaginário de Sucriuiú repete-se a representação simbólica das choupanas agrupadas onde campeia a febre, a peste. A miséria irmana Canudos e Sucriuiú.
Uma rua merece destaque em Os Sertões: a de Monte Alegre, onde havia as casas de telhados vermelhos, habitadas pelos “assessores” do Conselheiro, os líderes canudenses; era a única que realmente tinha condições de receber o nome de rua. Em Grande Sertão: Veredas, a rua localizada no Paredão, lugar da luta de Diadorim com Hermógenes, é inominada. Ambas simbolizam o local onde age o destino.
Sertão: do vazio à rede espacial
Por vezes o sertão significa o vazio espacial, a não-espacialidade e a inexistência de personagens. O vazio espacial é notado em Os Sertões, em expressões como “... Era o vácuo” (p. 735) e em Grande Sertão: Veredas: “Não tem onde se acostumar os olhos, toda firmeza se dissolve” (p. 275). A inexistência de personagens, de seres humanos, é encontrada, na primeira narrativa, em “Os binóculos, entretanto, percorriam inutilmente as encostas desertas” (p. 391) e, na segunda, em relação ao Valado: “Por onde andaria o dono?” (p. 349), com referência à casa abandonada, situação comum no meio ao sertanejo.
O sertão é a grande rede que une todos os espaços, que atua sobre personagens e absorve o enredo. Na trama da vida, o sertão influencia no resultado das lutas exteriores e interiores.
A Guerra de Canudos se inicia em novembro de 1896 e estende-se até outubro de 1897. O sertão baiano, espaço da luta, na narrativa euclidiana, passa a atuar como personagem. Em geral, coloca-se ao lado de seus “conterrâneos”. Os sertanejos, afeitos às agruras do clima e habituados a viver em meio à caatinga, tinham-no como aliado. Só em último caso, na estiagem mais cruenta, o sertão expulsa seus filhos, como forma única de sobreviverem. Nas três primeiras expedições, os sertanejos resistiram. Recordemos: a luta começa devagar, quando a madeira comprada pelos conselheiristas, em Juazeiro, não lhes é entregue, e avança conforme as expedições do exército crescem em número de soldados e tentativas de por termo à contenda, desde que a vitória seja do exército. Na primeira expedição são cerca de 120 soldados, comandados pelo tenente Pires Ferreira; na segunda, cerca de 200, liderados pelo major Febrônio de Brito; na terceira, cerca de 1.300, além de seis canhões Krupp e, finalmente, a quarta e arrasadora expedição conta com uma média de 10 a 12 mil combatentes, procedentes de todo o Brasil. Tudo isso vem narrado, pormenorizadamente, na terceira parte de Os Sertões, “A Luta”. A narrativa mostra como o sertão atua sobre as personagens física e emocionalmente. Confrontem-se as citações: “[...] os forasteiros, ao atingirem o âmago daquele sertão, raro voltavam” (p. 187); “[...] E quando o sertão estua nos bochorros dos estios longos não é difícil prever a quem cabe a vitória (p. 361); Ali estava – defronte – o sertão...” (p. 378); “O sertão é o homizio” (p. 735). O sertão também é poesia: “Por cima – toldada a manhã luminosa dos sertões – uma rede vibrante de parábolas...” (p. 759).
Também, em Grande Sertão: Veredas, tudo e todos são envolvidos pelo sertão. Na luta do bem contra o mal, de Riobaldo e seus jagunços contra os hermógenes, o sertão rosiano se apresenta com múltiplos significados. José Carlos Garbuglio (1972: 94) afirma que “a ideia de sertão se converte numa imagem interiorizada e ganha em subjetividade dimensões ilimitadas”. As “Veredas Tortas” ou “Veredas Mortas” representam o lugar onde forças antagônicas se debatem; representam o interior do ser humano. Riobaldo, mais tarde, descobre que o nome do lugar é, na verdade, “Veredas Altas”. Lá, tentou fazer o pacto com o diabo. Ficou a dúvida de haver ou não conseguido.
Sertão é sinônimo de deserto. Somente na segunda tentativa Riobaldo consegue atravessar o Liso do Suçuarão. Para tanto, acreditava no pacto que, talvez, fizera com o maligno, julgava que tudo podia. Conseguiu atravessar o lugar inabitável, o deserto. Por fim, crê que o mal existe dentro do homem. O sertão não é mais regional; passa a ser universal, plurissignificativo.
O discurso, em Grande Sertão: Veredas flui como as águas de um rio, num fluxo contínuo, como nos lembra Davi Arrigucci Júnior. Num processo artesanal, mistura-se à oralidade e a outros discursos que se entremeiam. Em Os Sertões mescla-se o discurso científico, jornalístico, geológico, científico, histórico, sociológico. Em ambos, vem à tona o discurso poético.
Com a seca, o espaço sertanejo desmaia. É relevante a importância espacial na construção da Guerra de Canudos. Constrói-se o arraial sob a liderança de Antônio Conselheiro; ergue-se a igreja nova. A luta avança. Morrem os canudenses, morre o próprio conselheiro, morre o arraial e a própria natureza transmuta-se. O Vaza-Barris e as cacimbas secam.
Da luta contra o inimigo, Riobaldo, por sua vez, em Grande Sertão: Veredas, sai “chamuscado”. Perdera Diadorim, o companheiro de andanças pelo sertão. No fundo, perdera o grande amor que o atormentou durante toda a narrativa. Se soubesse que Diadorim era, na verdade, mulher, não teria sofrido tanto. Ela era “coisa e máscara” (p. 530). Afinal, como podia um jagunço, fruto de uma sociedade patriarcal, machista encantar-se por outro homem? Por fim, reconstrói sua vida ao lado de Otacília. Abandona a jagunçagem, recebe como herança do pai as fazendas e acomoda-se de suas andanças à moda dos cavaleiros dos romances medievais. Está ciente de que os “sertanejos são tão sofridos. Jagunço é homem meio desistido por si...” (p. 40). O interlocutor tem de tirar suas próprias conclusões. A Vida prossegue.
Euclides, como sempre, fiel e radical em sua crença na prática da justiça, obedeceu à sua consciência e contou, na voz de um narrador que com ele próprio se confunde, uma versão da guerra diferente da divulgada nos jornais da época. Rosa construiu o sertão, o mundo de Riobaldo e, ao mesmo tempo, a alegoria de um mundo em que opressores e oprimidos se enfrentam e a história do Brasil é recontada de um modo distinto.
Finda a leitura e a análise das obras, a sensação de que saímos empoeirados da terra sertaneja nos domina. Tornamo-nos meio jagunços, meio sertanejos; somos parte do povo brasileiro. Se, por um lado, vencemos desertos, por outro, precisamos que o sertão, em sua sacralidade, seja respeitado pela imensa riqueza de quem habita tais plagas. O sertão tem de ser valorizado. Como nos lembra Rosa: “Sertão foi feito é para ser sempre assim: alegrias!” (p. 443).Enfim, na palavra, no ritmo, na polifonia clamada ou sussurrante e na multiplicidade de espaços, tempos e personagens tão humanizadas, prevalece a infinitude do sertão. Os estudos sobre ele se desdobram e se multiplicam. Sempre há mais a dizer, porém o inigualável é SER TÃO SOMENTE EUCLIDES E ROSA...
O sertão é a grande rede que une todos os espaços, que atua sobre personagens e absorve o enredo. Na trama da vida, o sertão influencia no resultado das lutas exteriores e interiores.
A Guerra de Canudos se inicia em novembro de 1896 e estende-se até outubro de 1897. O sertão baiano, espaço da luta, na narrativa euclidiana, passa a atuar como personagem. Em geral, coloca-se ao lado de seus “conterrâneos”. Os sertanejos, afeitos às agruras do clima e habituados a viver em meio à caatinga, tinham-no como aliado. Só em último caso, na estiagem mais cruenta, o sertão expulsa seus filhos, como forma única de sobreviverem. Nas três primeiras expedições, os sertanejos resistiram. Recordemos: a luta começa devagar, quando a madeira comprada pelos conselheiristas, em Juazeiro, não lhes é entregue, e avança conforme as expedições do exército crescem em número de soldados e tentativas de por termo à contenda, desde que a vitória seja do exército. Na primeira expedição são cerca de 120 soldados, comandados pelo tenente Pires Ferreira; na segunda, cerca de 200, liderados pelo major Febrônio de Brito; na terceira, cerca de 1.300, além de seis canhões Krupp e, finalmente, a quarta e arrasadora expedição conta com uma média de 10 a 12 mil combatentes, procedentes de todo o Brasil. Tudo isso vem narrado, pormenorizadamente, na terceira parte de Os Sertões, “A Luta”. A narrativa mostra como o sertão atua sobre as personagens física e emocionalmente. Confrontem-se as citações: “[...] os forasteiros, ao atingirem o âmago daquele sertão, raro voltavam” (p. 187); “[...] E quando o sertão estua nos bochorros dos estios longos não é difícil prever a quem cabe a vitória (p. 361); Ali estava – defronte – o sertão...” (p. 378); “O sertão é o homizio” (p. 735). O sertão também é poesia: “Por cima – toldada a manhã luminosa dos sertões – uma rede vibrante de parábolas...” (p. 759).
Também, em Grande Sertão: Veredas, tudo e todos são envolvidos pelo sertão. Na luta do bem contra o mal, de Riobaldo e seus jagunços contra os hermógenes, o sertão rosiano se apresenta com múltiplos significados. José Carlos Garbuglio (1972: 94) afirma que “a ideia de sertão se converte numa imagem interiorizada e ganha em subjetividade dimensões ilimitadas”. As “Veredas Tortas” ou “Veredas Mortas” representam o lugar onde forças antagônicas se debatem; representam o interior do ser humano. Riobaldo, mais tarde, descobre que o nome do lugar é, na verdade, “Veredas Altas”. Lá, tentou fazer o pacto com o diabo. Ficou a dúvida de haver ou não conseguido.
Sertão é sinônimo de deserto. Somente na segunda tentativa Riobaldo consegue atravessar o Liso do Suçuarão. Para tanto, acreditava no pacto que, talvez, fizera com o maligno, julgava que tudo podia. Conseguiu atravessar o lugar inabitável, o deserto. Por fim, crê que o mal existe dentro do homem. O sertão não é mais regional; passa a ser universal, plurissignificativo.
O discurso, em Grande Sertão: Veredas flui como as águas de um rio, num fluxo contínuo, como nos lembra Davi Arrigucci Júnior. Num processo artesanal, mistura-se à oralidade e a outros discursos que se entremeiam. Em Os Sertões mescla-se o discurso científico, jornalístico, geológico, científico, histórico, sociológico. Em ambos, vem à tona o discurso poético.
Com a seca, o espaço sertanejo desmaia. É relevante a importância espacial na construção da Guerra de Canudos. Constrói-se o arraial sob a liderança de Antônio Conselheiro; ergue-se a igreja nova. A luta avança. Morrem os canudenses, morre o próprio conselheiro, morre o arraial e a própria natureza transmuta-se. O Vaza-Barris e as cacimbas secam.
Da luta contra o inimigo, Riobaldo, por sua vez, em Grande Sertão: Veredas, sai “chamuscado”. Perdera Diadorim, o companheiro de andanças pelo sertão. No fundo, perdera o grande amor que o atormentou durante toda a narrativa. Se soubesse que Diadorim era, na verdade, mulher, não teria sofrido tanto. Ela era “coisa e máscara” (p. 530). Afinal, como podia um jagunço, fruto de uma sociedade patriarcal, machista encantar-se por outro homem? Por fim, reconstrói sua vida ao lado de Otacília. Abandona a jagunçagem, recebe como herança do pai as fazendas e acomoda-se de suas andanças à moda dos cavaleiros dos romances medievais. Está ciente de que os “sertanejos são tão sofridos. Jagunço é homem meio desistido por si...” (p. 40). O interlocutor tem de tirar suas próprias conclusões. A Vida prossegue.
Euclides, como sempre, fiel e radical em sua crença na prática da justiça, obedeceu à sua consciência e contou, na voz de um narrador que com ele próprio se confunde, uma versão da guerra diferente da divulgada nos jornais da época. Rosa construiu o sertão, o mundo de Riobaldo e, ao mesmo tempo, a alegoria de um mundo em que opressores e oprimidos se enfrentam e a história do Brasil é recontada de um modo distinto.
Finda a leitura e a análise das obras, a sensação de que saímos empoeirados da terra sertaneja nos domina. Tornamo-nos meio jagunços, meio sertanejos; somos parte do povo brasileiro. Se, por um lado, vencemos desertos, por outro, precisamos que o sertão, em sua sacralidade, seja respeitado pela imensa riqueza de quem habita tais plagas. O sertão tem de ser valorizado. Como nos lembra Rosa: “Sertão foi feito é para ser sempre assim: alegrias!” (p. 443).Enfim, na palavra, no ritmo, na polifonia clamada ou sussurrante e na multiplicidade de espaços, tempos e personagens tão humanizadas, prevalece a infinitude do sertão. Os estudos sobre ele se desdobram e se multiplicam. Sempre há mais a dizer, porém o inigualável é SER TÃO SOMENTE EUCLIDES E ROSA...
Celina Leal dos Santos é Mestra em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP.
REFERÊNCIAS BIBLIGRÁFICAS
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