A história que entrou para a História
APROPUC-SP
30.09.10
Ao transcorrerem cem anos da morte do escritor Euclides da Cunha muitas indagações e especulações surgem a seu respeito.
Infelizmente pouca atenção é dispensada ao autor de trabalhos considerados por muitos como inaugural da Sociologia Brasileira. Reflexão e novos estudos sobre o legado deixado à cultura brasileira quase não aparecem, com poucas exceções de algumas iniciativas institucionais, ou de estudiosos e entusiastas.
O mercado editorial não dispensou a atenção esperada, com a justificativa da complexidade dos textos, do desinteresse dos leitores, ou apoiando-se no fato de Euclides defender algumas teses científicas ultrapassadas, principalmente as que tratam das questões raciais.
Deixando de lado essas observações, outra tem causado grande incômodo ao longo desses anos: o trágico desaparecimento do escritor.
Euclides da Cunha, autor de Os Sertões, foi morto naquilo que teria sido supostamente um duelo com um cadete do exército, Dilermando Cândido de Assis, amante de sua esposa.
As condições em que ocorreu tal crime, passados 100 anos, ainda são alvos de discussões, aumentada sua importância com o desaparecimento dos autos do processo judicial, que se encontrava sob a guarda do Arquivo Nacional, sobre a morte de Euclides da Cunha Filho, que anos depois ao tentar vingar a morte de seu pai encontra o mesmo destino, dado também por Dilermando de Assis.
Euclides da Cunha casou-se com Ana Ribeiro quando ambos ainda eram jovens, ele às vésperas de completar 24 anos e ela com 17 anos. O chefe da família dividia seu tempo tentando ganhar o sustento da família e com estudos dedicados principalmente a conhecer o Brasil.
Ana da Cunha apresentou-se desde cedo uma mulher dedicada à casa, aos filhos e ao marido, porém sempre desejando mais atenção de Euclides, que tinha grande preocupação com os problemas nacionais e com a consolidação do projeto de construção da nação republicana.
Em 1905, Euclides, incumbido pelo Itamarati, viajou para a região amazônica, como chefe da comissão de reconhecimento do Alto Purus, lá permanecendo por aproximadamente dois anos.
Nesse período, Ana da Cunha, com 34 anos, conheceu Dilermando de Assis, cadete do exército, com 17 anos, sobrinho de uma conhecida sua e que se tornou amigo de seus filhos, que tinham quase a mesma idade.
O estreitamento dos laços de amizade entre a família Cunha e Dilermando e a forte atração que Ana e Dilermando sentiam levou-os a se tornaram amantes. Com o propósito de terem mais liberdade e a justificativa de fazer companhia a Ana e seus filhos, e com a amizade que crescia entre os jovens, Dilermando mudou-se para a casa de Ana, permanecendo lá como hóspede, até mesmo após o retorno de Euclides da missão diplomática.
Com a volta de Euclides ao Rio de Janeiro, pouco tempo depois Dilermando mudou-se para uma casa junto de seu irmão Dinorah de Assis, no bairro da Piedade. Em seguida, Euclides descobriu que sua esposa Ana estava grávida de aproximadamente três meses.
O casamento arrastou-se por algum tempo, até que Ana resolveu deixar a casa do marido e, junto com os filhos, buscou abrigo na casa de sua mãe.
Tratando–se de uma família católica, cujo patriarca tinha sido um respeitado oficial do exército, o General Sólon, a mãe de Ana não permitiu que a filha ficasse lá com os netos e, sem ter para onde ir, ela foi passar a noite na casa dos irmãos Dilermando e Dinorah.
O marido, ao saber disso e com a influência das tias de Dilermando, que já não gozavam do mesmo prestígio e atenção de Ana, foi à casa de Dilermando, armado com um revólver, buscar a esposa e os filhos, apresentando-se com a frase: “Vim para matar ou morrer”.
Ao tentar disparar contra o cadete, foi acertado mortalmente com um tiro, disparado pelo jovem amante de sua esposa, que era campeão dessa modalidade no exército.
O crime chocou a sociedade, dadas as circunstâncias em que toda a história se desenrolou e por ser a vítima um escritor consagrado e um intelectual que prestou inúmeros e valiosos serviços à nação.
O envio de cartas anônimas denunciando o adultério, a declaração do endereço dos irmãos Assis a Euclides feita pelas tias de Dilermando, o empréstimo de um revólver feito por um vizinho... com tudo isso: “Pode–se considerar que a sociedade da época colaborou intencionalmente com a tragédia” (ELUF, 2009, p. 17).
Dilermando foi preso, julgado e absolvido, sendo o crime caracterizado de legítima defesa; porém a sociedade não aceitou com tranquilidade essa decisão.
Ana casou-se com Dilermando, com quem teve vários filhos, separando-se anos mais tarde para que ele ficasse com outra mulher.
A análise pretendida neste texto diz respeito ao comportamento e à forma enfurecida com que a sociedade brasileira do início do século XX tem frente a uma morte envolvendo o chamado crime de adultério e como essa sociedade se aproveita disso para exercer o controle sobre os comportamentos, principalmente das mulheres. Tais observações não se embasam em dados científicos; trata-se apenas de uma sugestão para pesquisa.
Intelectuais e estudiosos da obra de Euclides apontam, anos a fio, durante as Semanas Euclidianas, a importância de estudar e conhecer a obra euclidiana, principalmente Os Sertões, tendo como finalidade “evitar que outras Canudos se repitam”.
O mesmo enfoque é dado aos estudos sobre o nazismo: fazer com que o mundo conheça e não se esqueça do que aconteceu nos campos de concentração, para que tais eventos não voltem a acontecer.
O acesso à trágica história desse triângulo amoroso e seus desdobramentos deve ter por finalidade não as fofocas de alcova, mas sim entender a sociedade da época e seus artifícios para manter o controle sobre seus membros.
Euclides era um intelectual tão respeitado e amado a ponto de a ira da sociedade contra Ana e Dilermando atravessar o século XX ?
Por que as promoções de Dilermando, na carreira militar, demoravam tanto a sair?
E os filhos desse casal por que eram tão discriminados?
Dessas perguntas, a primeira talvez tenha uma resposta mais acessível e através dela se encontrem as respostas para as outras.
Euclides da Cunha, ao morrer, já era um autor de sucesso, seu livro Os Sertões já tinha quase sete anos de publicação e inúmeras edições, mas nem por isso sua vida era tranquila, no que diz respeito à segurança de um trabalho. Desde 1892, já aparece, em carta ao advogado paulista Reinaldo Porchat, uma preocupação nesse sentido.
Soube aqui que se acha em plena organização a Escola de Engenharia daí. Imediatamente lembrei-me de uma aspiração antiga: abandonar uma farda demasiadamente pesada para os meus ombros e passar a vida numa função mais tranquila e mais fecunda e nobilitadora. Oferece-se-me este ensejo agora. Lembrei-me que forçosamente haverá nessa Escola a cadeira de Astronomia, ciência à qual me tenho aplicado muitíssimo ultimamente, frequentando o Observatório Astronômico (CUNHA, 1997, p. 31).
O engenheiro Euclides pediu ainda, ao amigo, maiores informações sobre as bases essenciais da Escola e falava ainda das consultas a outros amigos de São Paulo. Note-se que as vagas para essa escola, a Escola Politécnica, eram preenchidas por nomeação do governador do Estado sob indicação do conselho da escola. Porém ele nunca conseguiu ser nomeado, apesar das inúmeras vezes que seu nome apareceu para ser indicado, mas as críticas que fez à Instituição por ocasião da sua organização o teriam afastado de vez do sonho de lá ser professor.
Durante muitos anos Euclides teve problemas financeiros e mudou de trabalho várias vezes, porém ao morrer tinha acabado de tomar posse da cadeira de Lógica no Colégio Pedro II. Estudioso e dedicado que era, havia passado num concurso em 2º lugar, porém a posse foi dada a ele e não a Farias de Brito, o 1º colocado.
Esse episódio serve para ilustrar o quanto sua vida teria sido cheia de dificuldades financeiras, porém as ajudas chegavam de forma esporádica e paliativa como justificativa de seu caráter reto e honesto, que não aceitava auxílios de amigos influentes, muito embora ao ler sua correspondência, várias vezes apareça seu pedido para indicação a uma cadeira na Escola Politécnica de São Paulo.
Em 1912, três anos após a morte de Euclides, um grupo de amigos inicia uma homenagem, reunindo-se anualmente, até os dias de hoje, diante da cabana onde ele escreveu parte de Os Sertões, em São José do Rio Pardo, no Estado de São Paulo. Um gesto que foi iniciado por um grupo inconformado com a absolvição de Dilermando de Assis e que dizia ser “Por protesto e adoração” chegou aos dias atuais conhecido como Romaria Cívica, embora hoje o caráter desse movimento seja intelectual e cultural.
Observando fotos desse movimento vários anos seguidos é possível perceber que nelas aparecem apenas homens, desde crianças até velhos, e nunca mulheres. Elas só aparecerão muitos anos depois, acompanhando suas famílias, naquela que passou a ser uma atividade lúdica e social, no dia 15 de agosto.
Todo esse comportamento da sociedade, homenageando Euclides, tornando-o um ícone, embora seja incontestável o seu legado à cultura brasileira, o esforço em mostrar as dificuldades pelas quais passava e que mesmo assim não aceitava aquilo que não fosse de direito seu e que é desmentido pelo concurso de Lógica do Colégio Pedro II, somado às perseguições que Ana e Dilermando sofreram durante quase a vida toda nos leva a questionar: não teria sido tudo enfatizado por essa sociedade para explicar o comportamento de Ana de Assis, pois sendo ela uma moça de família respeitada, educada e católica, jamais poderia ter cometido esses desatinos? Caso fosse ela uma mulher pertencente às camadas mais baixas da sociedade, ou uma mestiça, a ciência da época trataria de explicar seu comportamento como sendo o de uma degenerada, “vítima da mestiçagem”, ou de uma “sub-raça”, nas palavras do próprio Euclides da Cunha. Fosse Ana negra, a justificativa estaria no fato de pertencer a uma raça inferior, de quem não se poderia esperar outra coisa; ela estava determinada a isso.
Roberto Ventura, no texto Gilberto Freyre: sexo na senzala, faz importante esclarecimento quanto a esse comportamento da sociedade quando se refere a Freyre e suas predileções por mulheres afrodescendentes:
Sua predileção pelas mulatas se ancoraria no gosto imemorial dos colonizadores portugueses pela “mulher de cor”, desde os tempos do cativeiro árabe na Península Ibérica até o latifúndio escravocrata nas plantações brasileiras, segundo o velho ditado: “Branca para casar, mulata para foder, negra para trabalhar”. (VENTURA, 2009)
No entanto, Ana era filha da melhor sociedade e ousou ir contra todas as convenções sociais de sua época, teve atitudes inconcebíveis para uma mulher branca, da sua posição, mulher “para casar”, teve coragem de romper com conceitos preestabelecidos, teve coragem de viver, ousou amar e, pagou um preço muito alto por isso.
A justificativa dada pela sociedade para tão pesada condenação a Ana não repousa apenas no crime de adultério praticado com Dilermando, mas ganhou maior força com a morte de Euclides da Cunha Filho, pelo mesmo homem.
Agora não se trata apenas de uma mulher adúltera, mas de uma mãe que consegue viver com o homem que tirou a vida de seu filho.
Lembrando que as mulheres, no início do século XX, eram consideradas incapazes, não eram reconhecidas como cidadãs e, segundo a legislação civil vigente, eram equiparadas às crianças, não votavam e não podiam ser votadas, precisavam de autorização dos maridos para sair de casa. (ELUF, 2009, p. 138)
A única saída encontrada foi a de mostrar e reafirmar o tempo todo o quão íntegro e dedicado era Euclides da Cunha, e Ana, como mulher, não conseguia ter a mesma integridade, pensar com a mesma seriedade de um homem, era fraca, vulnerável, sem vontade própria, seduzível, teria sido também uma vítima de Dilermando de Assis.
Como a sociedade patriarcal manteria o controle sobre seus membros? Como evitar que outras mulheres da sociedade tivessem atitudes semelhantes?
Às demais mulheres da sociedade caberia se comportar, pois poderiam ter um fim tão trágico quanto o de Ana: atravessar o século XX sendo julgada e arrastada pela história por querer viver uma paixão.
Euclides, Ana e Dilermando: todos foram vítimas da paixão, porém mais arrasadora do que ela foi a sociedade para com eles.
Infelizmente pouca atenção é dispensada ao autor de trabalhos considerados por muitos como inaugural da Sociologia Brasileira. Reflexão e novos estudos sobre o legado deixado à cultura brasileira quase não aparecem, com poucas exceções de algumas iniciativas institucionais, ou de estudiosos e entusiastas.
O mercado editorial não dispensou a atenção esperada, com a justificativa da complexidade dos textos, do desinteresse dos leitores, ou apoiando-se no fato de Euclides defender algumas teses científicas ultrapassadas, principalmente as que tratam das questões raciais.
Deixando de lado essas observações, outra tem causado grande incômodo ao longo desses anos: o trágico desaparecimento do escritor.
Euclides da Cunha, autor de Os Sertões, foi morto naquilo que teria sido supostamente um duelo com um cadete do exército, Dilermando Cândido de Assis, amante de sua esposa.
As condições em que ocorreu tal crime, passados 100 anos, ainda são alvos de discussões, aumentada sua importância com o desaparecimento dos autos do processo judicial, que se encontrava sob a guarda do Arquivo Nacional, sobre a morte de Euclides da Cunha Filho, que anos depois ao tentar vingar a morte de seu pai encontra o mesmo destino, dado também por Dilermando de Assis.
Euclides da Cunha casou-se com Ana Ribeiro quando ambos ainda eram jovens, ele às vésperas de completar 24 anos e ela com 17 anos. O chefe da família dividia seu tempo tentando ganhar o sustento da família e com estudos dedicados principalmente a conhecer o Brasil.
Ana da Cunha apresentou-se desde cedo uma mulher dedicada à casa, aos filhos e ao marido, porém sempre desejando mais atenção de Euclides, que tinha grande preocupação com os problemas nacionais e com a consolidação do projeto de construção da nação republicana.
Em 1905, Euclides, incumbido pelo Itamarati, viajou para a região amazônica, como chefe da comissão de reconhecimento do Alto Purus, lá permanecendo por aproximadamente dois anos.
Nesse período, Ana da Cunha, com 34 anos, conheceu Dilermando de Assis, cadete do exército, com 17 anos, sobrinho de uma conhecida sua e que se tornou amigo de seus filhos, que tinham quase a mesma idade.
O estreitamento dos laços de amizade entre a família Cunha e Dilermando e a forte atração que Ana e Dilermando sentiam levou-os a se tornaram amantes. Com o propósito de terem mais liberdade e a justificativa de fazer companhia a Ana e seus filhos, e com a amizade que crescia entre os jovens, Dilermando mudou-se para a casa de Ana, permanecendo lá como hóspede, até mesmo após o retorno de Euclides da missão diplomática.
Com a volta de Euclides ao Rio de Janeiro, pouco tempo depois Dilermando mudou-se para uma casa junto de seu irmão Dinorah de Assis, no bairro da Piedade. Em seguida, Euclides descobriu que sua esposa Ana estava grávida de aproximadamente três meses.
O casamento arrastou-se por algum tempo, até que Ana resolveu deixar a casa do marido e, junto com os filhos, buscou abrigo na casa de sua mãe.
Tratando–se de uma família católica, cujo patriarca tinha sido um respeitado oficial do exército, o General Sólon, a mãe de Ana não permitiu que a filha ficasse lá com os netos e, sem ter para onde ir, ela foi passar a noite na casa dos irmãos Dilermando e Dinorah.
O marido, ao saber disso e com a influência das tias de Dilermando, que já não gozavam do mesmo prestígio e atenção de Ana, foi à casa de Dilermando, armado com um revólver, buscar a esposa e os filhos, apresentando-se com a frase: “Vim para matar ou morrer”.
Ao tentar disparar contra o cadete, foi acertado mortalmente com um tiro, disparado pelo jovem amante de sua esposa, que era campeão dessa modalidade no exército.
O crime chocou a sociedade, dadas as circunstâncias em que toda a história se desenrolou e por ser a vítima um escritor consagrado e um intelectual que prestou inúmeros e valiosos serviços à nação.
O envio de cartas anônimas denunciando o adultério, a declaração do endereço dos irmãos Assis a Euclides feita pelas tias de Dilermando, o empréstimo de um revólver feito por um vizinho... com tudo isso: “Pode–se considerar que a sociedade da época colaborou intencionalmente com a tragédia” (ELUF, 2009, p. 17).
Dilermando foi preso, julgado e absolvido, sendo o crime caracterizado de legítima defesa; porém a sociedade não aceitou com tranquilidade essa decisão.
Ana casou-se com Dilermando, com quem teve vários filhos, separando-se anos mais tarde para que ele ficasse com outra mulher.
A análise pretendida neste texto diz respeito ao comportamento e à forma enfurecida com que a sociedade brasileira do início do século XX tem frente a uma morte envolvendo o chamado crime de adultério e como essa sociedade se aproveita disso para exercer o controle sobre os comportamentos, principalmente das mulheres. Tais observações não se embasam em dados científicos; trata-se apenas de uma sugestão para pesquisa.
Intelectuais e estudiosos da obra de Euclides apontam, anos a fio, durante as Semanas Euclidianas, a importância de estudar e conhecer a obra euclidiana, principalmente Os Sertões, tendo como finalidade “evitar que outras Canudos se repitam”.
O mesmo enfoque é dado aos estudos sobre o nazismo: fazer com que o mundo conheça e não se esqueça do que aconteceu nos campos de concentração, para que tais eventos não voltem a acontecer.
O acesso à trágica história desse triângulo amoroso e seus desdobramentos deve ter por finalidade não as fofocas de alcova, mas sim entender a sociedade da época e seus artifícios para manter o controle sobre seus membros.
Euclides era um intelectual tão respeitado e amado a ponto de a ira da sociedade contra Ana e Dilermando atravessar o século XX ?
Por que as promoções de Dilermando, na carreira militar, demoravam tanto a sair?
E os filhos desse casal por que eram tão discriminados?
Dessas perguntas, a primeira talvez tenha uma resposta mais acessível e através dela se encontrem as respostas para as outras.
Euclides da Cunha, ao morrer, já era um autor de sucesso, seu livro Os Sertões já tinha quase sete anos de publicação e inúmeras edições, mas nem por isso sua vida era tranquila, no que diz respeito à segurança de um trabalho. Desde 1892, já aparece, em carta ao advogado paulista Reinaldo Porchat, uma preocupação nesse sentido.
Soube aqui que se acha em plena organização a Escola de Engenharia daí. Imediatamente lembrei-me de uma aspiração antiga: abandonar uma farda demasiadamente pesada para os meus ombros e passar a vida numa função mais tranquila e mais fecunda e nobilitadora. Oferece-se-me este ensejo agora. Lembrei-me que forçosamente haverá nessa Escola a cadeira de Astronomia, ciência à qual me tenho aplicado muitíssimo ultimamente, frequentando o Observatório Astronômico (CUNHA, 1997, p. 31).
O engenheiro Euclides pediu ainda, ao amigo, maiores informações sobre as bases essenciais da Escola e falava ainda das consultas a outros amigos de São Paulo. Note-se que as vagas para essa escola, a Escola Politécnica, eram preenchidas por nomeação do governador do Estado sob indicação do conselho da escola. Porém ele nunca conseguiu ser nomeado, apesar das inúmeras vezes que seu nome apareceu para ser indicado, mas as críticas que fez à Instituição por ocasião da sua organização o teriam afastado de vez do sonho de lá ser professor.
Durante muitos anos Euclides teve problemas financeiros e mudou de trabalho várias vezes, porém ao morrer tinha acabado de tomar posse da cadeira de Lógica no Colégio Pedro II. Estudioso e dedicado que era, havia passado num concurso em 2º lugar, porém a posse foi dada a ele e não a Farias de Brito, o 1º colocado.
Esse episódio serve para ilustrar o quanto sua vida teria sido cheia de dificuldades financeiras, porém as ajudas chegavam de forma esporádica e paliativa como justificativa de seu caráter reto e honesto, que não aceitava auxílios de amigos influentes, muito embora ao ler sua correspondência, várias vezes apareça seu pedido para indicação a uma cadeira na Escola Politécnica de São Paulo.
Em 1912, três anos após a morte de Euclides, um grupo de amigos inicia uma homenagem, reunindo-se anualmente, até os dias de hoje, diante da cabana onde ele escreveu parte de Os Sertões, em São José do Rio Pardo, no Estado de São Paulo. Um gesto que foi iniciado por um grupo inconformado com a absolvição de Dilermando de Assis e que dizia ser “Por protesto e adoração” chegou aos dias atuais conhecido como Romaria Cívica, embora hoje o caráter desse movimento seja intelectual e cultural.
Observando fotos desse movimento vários anos seguidos é possível perceber que nelas aparecem apenas homens, desde crianças até velhos, e nunca mulheres. Elas só aparecerão muitos anos depois, acompanhando suas famílias, naquela que passou a ser uma atividade lúdica e social, no dia 15 de agosto.
Todo esse comportamento da sociedade, homenageando Euclides, tornando-o um ícone, embora seja incontestável o seu legado à cultura brasileira, o esforço em mostrar as dificuldades pelas quais passava e que mesmo assim não aceitava aquilo que não fosse de direito seu e que é desmentido pelo concurso de Lógica do Colégio Pedro II, somado às perseguições que Ana e Dilermando sofreram durante quase a vida toda nos leva a questionar: não teria sido tudo enfatizado por essa sociedade para explicar o comportamento de Ana de Assis, pois sendo ela uma moça de família respeitada, educada e católica, jamais poderia ter cometido esses desatinos? Caso fosse ela uma mulher pertencente às camadas mais baixas da sociedade, ou uma mestiça, a ciência da época trataria de explicar seu comportamento como sendo o de uma degenerada, “vítima da mestiçagem”, ou de uma “sub-raça”, nas palavras do próprio Euclides da Cunha. Fosse Ana negra, a justificativa estaria no fato de pertencer a uma raça inferior, de quem não se poderia esperar outra coisa; ela estava determinada a isso.
Roberto Ventura, no texto Gilberto Freyre: sexo na senzala, faz importante esclarecimento quanto a esse comportamento da sociedade quando se refere a Freyre e suas predileções por mulheres afrodescendentes:
Sua predileção pelas mulatas se ancoraria no gosto imemorial dos colonizadores portugueses pela “mulher de cor”, desde os tempos do cativeiro árabe na Península Ibérica até o latifúndio escravocrata nas plantações brasileiras, segundo o velho ditado: “Branca para casar, mulata para foder, negra para trabalhar”. (VENTURA, 2009)
No entanto, Ana era filha da melhor sociedade e ousou ir contra todas as convenções sociais de sua época, teve atitudes inconcebíveis para uma mulher branca, da sua posição, mulher “para casar”, teve coragem de romper com conceitos preestabelecidos, teve coragem de viver, ousou amar e, pagou um preço muito alto por isso.
A justificativa dada pela sociedade para tão pesada condenação a Ana não repousa apenas no crime de adultério praticado com Dilermando, mas ganhou maior força com a morte de Euclides da Cunha Filho, pelo mesmo homem.
Agora não se trata apenas de uma mulher adúltera, mas de uma mãe que consegue viver com o homem que tirou a vida de seu filho.
Lembrando que as mulheres, no início do século XX, eram consideradas incapazes, não eram reconhecidas como cidadãs e, segundo a legislação civil vigente, eram equiparadas às crianças, não votavam e não podiam ser votadas, precisavam de autorização dos maridos para sair de casa. (ELUF, 2009, p. 138)
A única saída encontrada foi a de mostrar e reafirmar o tempo todo o quão íntegro e dedicado era Euclides da Cunha, e Ana, como mulher, não conseguia ter a mesma integridade, pensar com a mesma seriedade de um homem, era fraca, vulnerável, sem vontade própria, seduzível, teria sido também uma vítima de Dilermando de Assis.
Como a sociedade patriarcal manteria o controle sobre seus membros? Como evitar que outras mulheres da sociedade tivessem atitudes semelhantes?
Às demais mulheres da sociedade caberia se comportar, pois poderiam ter um fim tão trágico quanto o de Ana: atravessar o século XX sendo julgada e arrastada pela história por querer viver uma paixão.
Euclides, Ana e Dilermando: todos foram vítimas da paixão, porém mais arrasadora do que ela foi a sociedade para com eles.
Campinas, outubro de 2009.
Rachel Aparecida Bueno da Silva é professora do Ciclo de Estudos Euclidianos.
NOTA:
1 - Este texto foi apresentado no Ciclo de Estudos Euclidianos, durante a 97ª Semana Euclidiana, na cidade de São José do Rio Pardo (SP). Foi elaborado especialmente para marcar o centenário da morte de Euclides da Cunha.
REFERÊNCIA BIBLIGRÁFICA:
ASSIS, Judith Ribeiro de (em depoimento a Jeferson de Andrade). Anna de Assis - história de um trágico amor. 7.ed. Rio de Janeiro: AM produções literárias, 1987.
CAVALCANTI, Dirce de Assis. O pai. 5.ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 1998.
CUNHA, Euclides da. Correspondência (1890-1909). In: Galvão, W. N.; GALOTTI, O. Correspon-
dência de Euclides da Cunha. São Paulo: Edusp, 1997.
ELUF, Luiza Nagib. A paixão no banco dos réus. 3.ed. São Paulo: Saraiva, 2007.
_________________. Matar ou morrer: o caso Euclides da Cunha. São Paulo: Saraiva, 2009.
SANTANA, José Carlos Barreto de. Ciência e arte: Euclides da Cunha e as ciências naturais. São Paulo: Hucitec / Feira de Santana: Universidade Estadual de Feira de Santana, 2001.
VENTURA, Roberto. Retrato interrompido da vida de Euclides da Cunha. CARVALHO, M. C.; SANTANA, J. C. B. de (Org.). São Paulo: Cia. das Letras, 2003.
______________. Gilberto Freyre: Sexo na senzala. Casa de Cultura Euclides da Cunha. Artigos. Euclides da Cunha - a história como tragédia. Disponível em http://casaeuclidiana.org.br/artigos/Euclides/euclidesdacunhaahistoriacomotragedia.php. Acesso em 01 jun. 2009.
ASSIS, Judith Ribeiro de (em depoimento a Jeferson de Andrade). Anna de Assis - história de um trágico amor. 7.ed. Rio de Janeiro: AM produções literárias, 1987.
CAVALCANTI, Dirce de Assis. O pai. 5.ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 1998.
CUNHA, Euclides da. Correspondência (1890-1909). In: Galvão, W. N.; GALOTTI, O. Correspon-
dência de Euclides da Cunha. São Paulo: Edusp, 1997.
ELUF, Luiza Nagib. A paixão no banco dos réus. 3.ed. São Paulo: Saraiva, 2007.
_________________. Matar ou morrer: o caso Euclides da Cunha. São Paulo: Saraiva, 2009.
SANTANA, José Carlos Barreto de. Ciência e arte: Euclides da Cunha e as ciências naturais. São Paulo: Hucitec / Feira de Santana: Universidade Estadual de Feira de Santana, 2001.
VENTURA, Roberto. Retrato interrompido da vida de Euclides da Cunha. CARVALHO, M. C.; SANTANA, J. C. B. de (Org.). São Paulo: Cia. das Letras, 2003.
______________. Gilberto Freyre: Sexo na senzala. Casa de Cultura Euclides da Cunha. Artigos. Euclides da Cunha - a história como tragédia. Disponível em http://casaeuclidiana.org.br/artigos/Euclides/euclidesdacunhaahistoriacomotragedia.php. Acesso em 01 jun. 2009.
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