A construção de "Os Sertões"

APROPUC-SP 30.09.10

Quem volta de região assustadora

De onde eu venho, revendo inda na mente,

Muitas cenas do drama comovente

De guerra despiedada e aterradora,


Certo não pode ter uma sonora

Estrofe ou canto ou ditirambo ardente,

Que possa figurar dignamente

Em vosso álbum gentil, minha senhora.


E quando com fidalga gentileza

Cedeste-me esta página, a nobreza

De vossa alma iludiu-vos, não previstes


Quem mais tarde esta folha lesse

Perguntaria: “que autor é esse

De uns versos tão mal feitos e tristes?”.

(Euclides da Cunha apud RABELLO, 1966, p.138-139). 1


Este texto é um capítulo extraído de meu TCC e objetiva esclarecer a construção da obra Os Sertões, de Euclides da Cunha, expondo a forma de introdução de teorias sociológicas na obra, bem como a sua intencionalidade. O poema que inicia esta parte chama-se “Uma Página Vaziae foi escrito pelo jornalista, ainda na Bahia, no álbum de Francisca Praguer, uma baiana de Salvador.

Ele revela muito sobre a obra máxima do jornalista, podendo ser considerado como uma explicação de que o livro seria construído a partir do zero; justificando ser uma obra não relacionada ao material que ele enviara para São Paulo em forma de telegrama ou carta, da mesma forma que não conteria a ideia errada que o engenheiro tinha, antes de ir à Bahia, de que os conselheiristas eram monarquistas. E Euclides, realmente, muda o discurso em Os Sertões. Uma análise em seus livros Caderneta de campo e Canudos, diário de uma expedição deixa claro que a intenção do autor é uma antes, quando escrevia artigos n’O Estado de S. Paulo, e outra, totalmente oposta, nas páginas de seu Livro Vingador.

A compreensão de como Euclides arquitetou seu “livro vingador” necessita do entendimento das teorias correntes no pensamento científico europeu do século XIX. É a partir delas que o autor busca amparo para seu livro. A biografia do autor explica muito sobre o caminho seguido pelo jornalista nas páginas d’Os Sertões. Educado em instituições que aplicavam exaustivamente a ciência positiva de Comte, Euclides esquematiza seu livro sobre uma base positivista; e em cima desta desenvolve suas ideias, fazendo uso de várias teorias de sua época.


Euclides toma emprestado de Comte uma espécie de esquema conceitual e metodológico, o qual, perpassado pela associação entre os espíritos progressistas da ciência e moralizante da tradição, se caracteriza pela utilização da natureza como paradigma, pela noção de unidade da humanidade e pela equivalência no texto entre narrador, sociólogo e reformador da humanidade. (LEMOS, 2000, p. 80)


Logo na Nota Preliminar d’Os Sertões, alguns intelectuais europeus, que desenvolveram teorias científicas, as quais ele utilizou, como Gumplowicz, são citados:


A civilização avançará nos sertões impelida por essa implacável “força motriz da História” que Gumplowicz, maior do que Hobbes, lobrigou, num lance genial, no esmagamento inevitável das raças fracas pelas raças fortes. (CUNHA, 2002, p. 66)

Hippolyte Taine também é citado na parte final da Nota Preliminar do livro:


E tanto quanto o permitir a firmeza do nosso espírito, façamos jus ao admirável conceito de Taine sobre o narrador sincero que encara a história como ela merece: ... Il s’irrite contre les demi-vérités que sont des demi-faussetés, contre les auteurs qui n’altèrent ni une date, ni une généalogie, mais dénaturent les sentiments et les moeurs, qui gradent le dessin des événements et en changent la couleur, qui copient les faits et défigurent l’âme: il veut sentir em barbare, parmi les barbares, et, parmi les anciens, em ancien. (CUNHA, 2002, p. 67) 2

Essa citação diz muito do que pretende Euclides com sua obra. É praticamente um aviso de que não é uma obra de ficção.


...sempre vendo e vivendo o seu assunto, é que Euclides conseguia dominá-lo, recriando-o artisticamente, a ponto de nô-lo transmitir com aparências de desfiguração. Poeta autêntico, capaz de ver o que os outros não viam, não foi à toa que ele colocou no final da introdução de seu livro aquele trecho de Taine, trazendo à baila uma questão que poucos lograram enxergar no fundo da intenção, mas que ele próprio, visivelmente, sobrepôs a tudo, à preocupação com a ciência inclusive, como vimos mais de uma vez. (ANDRADE, 1960, p. 295)


E Euclides, utilizando a tríade de Taine (raça, meio e momento), divide sua obra em três partes: “A Terra”, “O Homem” e “A Luta”. Desta forma, o autor consegue unir discurso literário e científico, obtendo um viés para o determinismo ambiental das teorias utilizadas no livro. Lemos (2000, p. 52) afirma que “Euclides elege os conceitos conflitantes tanto dos defensores como dos detratores da América como forma de expressão. É sobre estes aportes que começa a tomar corpo a geografia particular do sertão”.

Estilo e ideias

O estilo de Euclides, junto às teorias científicas utilizadas por ele, tem uma função primordial para que Os Sertões tenha a dimensão alcançada. O vocabulário rebuscado do escritor, rejeitado por alguns críticos da época e elogiado por outros, tem a intenção de unir ciência e arte, seguindo assim a proposta de Taine (Lemos, 2000). Euclides utiliza muitos recursos, como onomatopeia, polissíndeto, metáfora, metonímia, hipérbole, antítese, além do uso de muitas expressões estrangeiras, principalmente palavras em latim, e termos técnicos e científicos. Isso fez com que Joaquim Nabuco, como descreve Andrade (1960, p. 301), dissesse que Euclides “escreve com cipó...”. Esse estilo, descrito por Nabuco, mostra a complexidade com que o autor preparou Os Sertões.


Juntando adjetivos a substantivos já de si imensos, para torná-los ainda maiores; substantivando verbos para melhor submetê-los ao seu querer; justapondo palavras contrastantes que ia buscar no passado distante ou na boca do vaqueiro que ouvia; pluralizando termos como o do próprio título do livro; praticando uma série de atos temerários para seus amigos que bem conheciam os clássicos da língua, como vimos, Euclides apenas procurava exprimir-se como desejava, levando às últimas consequências o aprofundamento temático, embora sem se dispor a contrariar o “viés tradicional da língua”... (ANDRADE, 1960, p. 297)

Não obstante a essa busca por uma arquitetura perfeita das palavras, o escritor alterou muitas palavras n’Os Sertões quando a obra já estava impressa e pronta para ser vendida. Euclides buscava no “casamento certo das palavras” dar ritmo à obra; por isso, segundo Citelli (1998), o autor utilizou aliterações e assonâncias. Isso, junto a formas de trabalhar o tempo cronológico, faz com que o livro passe a sensação de que no sertão o tempo passe mais devagar que em outras regiões. Esta passagem do livro evidencia bem essa intenção:


E avançando célere, sobretudo nos trechos em que se sucedem pequenas ondulações, todas da mesma forma e do mesmo modo dispostas, o viajante mais rápido tem a sensação da imobilidade. Patenteiam-se-lhe, uniformes, os mesmos quadros, num horizonte invariável que se afasta à medida que ele avança. (CUNHA, 2002, p. 86)


Em outra passagem o escritor mostra o isolamento físico, que acarreta um isolamento temporal, do povo sertanejo através de seu ambiente:


Porque ali ficaram, inteiramente divorciados do resto do Brasil e do mundo, murados a leste pela Serra Geral, tolhidos no ocidente pelos amplos campos gerais, que se desatam para o Piauí e que ainda hoje o sertanejo acredita sem fins. (CUNHA, 2002, p. 189)


O escritor também mostra, na primeira parte do livro, que a terra, assim como o sertanejo, sofre a influência dos fatores mesológicos.

As condições estruturais da terra lá se vincularam à violência máxima dos agentes exteriores... (...)... é de algum modo o martírio da terra, brutalmente golpeada pelos elementos variáveis, distribuídos por todas as modalidades climáticas. (CUNHA, 2002, p. 87-88)


Outro recurso muito usado por Euclides em Os Sertões é a antítese, como nesta parte (Cunha, p. 766): “Os sertanejos invertiam toda a psicologia da guerra: enrijavam-nos os reveses, robustecia-os a fome, empedernia-os a derrota.” O uso desse recurso caracterizou o escritor como um utilizador do barroco, como cita Citelli:


O fato de Os Sertões fazer intenso uso das formas opositivas tem levado alguns analistas do texto euclidiano a afirmar que nele existe um “barroco científico”. Termo, ele próprio paradoxal, serviria, porém, para afirmar o caráter assumidamente conflitivo de quem deseja apresentar na aparência da imagem antitética o problema íntimo de um tempo e uma época marcados pela impossibilidade da conciliação. (CITELLI, 1998, p. 110)


O uso das antíteses, ou barroco, de modo a criar uma diferenciação de tempo no mesmo espaço tem, segundo Citelli (1998), a intenção de destacar as diferenças entre povo sertanejo e povo do litoral. Uma passagem de Os Sertões evidencia isso:


O elemento africano de algum modo estacou nos vastos canaviais da costa, agrilhoado à terra e determinando cruzamento de todo diverso do que se fazia no recesso das capitanias. Aí campeava, livre, o indígena inapto ao trabalho e rebelde sempre, ou mal tolhido nos aldeamentos pela tenacidade dos missionários. A escravidão negra, constituindo-se derivativo ao egoísmo dos colonos, deixava aqueles mais desembaraçados que no Sul, nos esforços da catequese. Os próprios sertanistas ao chegarem, ultimando as rotas atrevidas, àquelas paragens, tinham extinta a combatividade. (...) Deste modo se estabeleceu distinção perfeita entre os cruzamentos realizados no sertão e no litoral. (CUNHA, 2002, p. 181)


Esta distinção é fundamental para que as teorias científicas usadas por Euclides sejam plausíveis.


O cerne vigoroso da nossa

nacionalidade”


A visão positivista de Euclides da Cunha faz com que escreva uma obra que não tem o interesse apenas de contar a história de uma guerra, no caso, a de Canudos, mas sim explicar o que deveria ser executado pela República após a guerra. É aí que o escritor vai dizer: “Eram, realmente, fragílimos aqueles pobres rebelados... Requeriam outra reação. Obrigavam-nos a outra luta. Entretanto, enviamos-lhes o legislador Comblain3; e esse argumento único, incisivo, supremo e moralizador – a bala” (CUNHA, 2002, p. 320)4.

O escritor entende que o povo sertanejo deve ser agregado à nação, que este ainda não consegue conceber pelo isolamento físico e temporal. Segundo Murari (2007), o fanatismo religioso que o sertanejo demonstra nas páginas de Os Sertões é fruto de seu atraso; assim como a República se mostra em um estágio atrasado por utilizar o aparato militar para resolver uma questão cujo único problema é a exclusão social.


Enquanto a representação de Antônio Conselheiro construída por Euclides da Cunha caminha no sentido de dissolver a ideia da loucura individual e atribuir a ela significado, coerência e relevância na comunidade em que surgiu, a personificação de Moreira César trabalha a noção de loucura de forma oposta: o desequilíbrio individual é agravado quando colocado em contato com uma forma coletiva de insanidade. (...) a gravidade dos fatos ocorridos na guerra de Canudos deveu-se à instabilidade política pela qual passava a república nascente... (MURARI, 2007, p. 185)


O conflito de Canudos se configura, segundo Lemos (2000, p. 81), “uma guerra inútil entre representantes de duas formas evanescentes, atrasadas, retrógradas, de organização social”. Cunha (2002, p. 67) descreve o quão atrasada estava a forma aplicada pelo governo republicano ao se referir ao combate no sertão: “E foi, na significação da palavra, um crime. Denunciemo-lo”. Também mostra que essa forma de resolver a situação de impasse enquadrava o Estado no primeiro estado positivista.


É nesta ideia que Euclides parece se apoiar para criar a imagem de uma nacionalidade fadada a desaparecer para fundir-se no grande futuro da humanidade. Canudos – ordem teológica – e a República – ordem militar – representam a ordem prestes a desaparecer. (LEMOS, 2000, p. 83).


No campo psicológico, segundo Lemos (2000), envolvido pelas teorias da Escola Italiana e estudos do brasileiro Nina Rodrigues, Euclides faz o fanatismo religioso de Antônio Conselheiro equivaler-se à demência do radicalismo militar do coronel Antonio Moreira César. Esse é um estudo posterior, pois a psicologia, para Murari (2007), é resultado da caracterização da raça.

As discussões sobre o que caracterizava uma raça foram intensas no país na segunda metade do século XIX, principalmente durante a fase naturalista, e encontra-se na obra Os Sertões uma busca de definição das raças presentes no Brasil.

Segundo Lemos (2000), o mestiço é sempre visto como um degenerado nas teorias racialistas do século XIX; enquanto a raça europeia é tratada como a raça “superior”.


A degeneração não tem causa social ou cultural; sua única causa é a mestiçagem. O homem degenerado é produto de misturas sucessivas que fazem com que a raça original perca seus valores heróicos originais. (LEMOS, 2000, p. 113)


No Brasil, o aproveitamento das teorias racialistas europeias é muito grande, mas encontra problemas ocasionados por suas generalizações. Segundo Murari (2007), os intelectuais brasileiros não as aceitavam, pois elas impactavam sobre toda a população do país, inclusive eles mesmos.

Os autores europeus dessas teorias, para adquirirem autenticidade, vão estudar Geografia e História, criando assim as teorias das raças históricas e a antropogeografia. Essa tendência encontra amparo no evolucionismo, primeiro de Lamarck, depois de Darwin.


Jean-Baptiste Lamark, autor da primeira teoria biológica evolucionista, é central para que se compreendam os conceitos que, na esteira das discussões em torno da obra de Darwin, circulavam na segunda metade do século XIX sobre o evolucionismo, como aqueles relacionados à origem e variação das espécies vivas. (LEMOS, 2000, p. 148-149)


Atualizado com o pensamento europeu, Euclides segue as ideias científicas do “velho mundo”; mas, para quebrar os determinismos, mescla teorias. Com isso, o determinismo ambiental ganha um viés proveniente das teses evolucionistas.

De acordo com Murari (2007), no capítulo “A Terra” o escritor descreve, de início, o Brasil, valendo-se dos estudos feitos por estrangeiros e brasileiros que escreveram vários relatos de viagem. Porém, ainda nesta parte do livro, Euclides começa a fazer associações entre o ambiente e seus habitantes.

... este outro ponto de vista, também correspondente ao fator “meio” na obra de Taine, foi inserido no início da parte II de Os Sertões, “O Homem”. De fato, na crítica taineana o meio é visto como modificador dos homens, como força que os pressiona e os envolve, modelando as nações da mesma forma que a cultura modela o indivíduo. (MURARI, 2007, p. 65-66)


O condicionamento do homem ao meio em que vive nas páginas de Os Sertões tem, segundo Murari (2007), muito da teoria de Buckle. Não à toa Euclides cita o historiador inglês mais de uma vez em seu livro. Cunha (2002, p. 168) diz: “A nossa história traduz notavelmente estas modalidades mesológicas”. E o condicionamento aos fatores mesológicos aparece em várias passagens, como na em que o escritor mostra a interação entre o sertanejo e o umbuzeiro.


É a árvore sagrada do sertão. Sócia fiel das rápidas horas felizes e longos dias amargos dos vaqueiros. Representa o mais frisante exemplo de adaptação da flora sertaneja. Foi, talvez, de talhe mais vigoroso e alto – e veio descaindo, pouco a pouco, numa intercadência de estios flamívomos e invernos torrenciais, modificando-se à feição do meio, desinvoluindo, até se preparar para a resistência e reagindo, por fim, desafiando as secas duradouras, sustentando-se nas quadras miseráveis mercê da energia vital que economiza nas estações benéficas, das reservas guardadas em grande cópia nas raízes.

E reparte-as com o homem. Se não existisse o umbuzeiro, aquele trato de sertão, tão estéril que nele escasseiam os carnaubais tão providencialmente dispersos nos que o convizinham até ao Ceará, estaria despovoado. O umbu é para o infeliz matuto que ali vive o mesmo que a maurita, para os garaúnos dos llanos.

Alimenta-o e mitiga-lhe a sede. Abre-lhe o seio acariciador e amigo, onde os ramos recurvos e entrelaçados parecem de propósito feitos para a armação das redes bamboantes. E ao chegarem os tempos felizes dá-lhe os frutos de sabor esquisito para o preparo da umbuzada tradicional. (CUNHA, 2002, p. 128-129)


E esses fatores mesológicos mudam a natureza de forma a alterar a raça:


Neste caso – é evidente − a justaposição dos caracteres coincide com íntima transfusão de tendências e a longa fase de transformação correspondente erige-se como período de fraqueza, nas capacidades das raças que se cruzam, alteando o valor relativo da influência do meio. Este como que estampa, então, melhor, no corpo em fusão, os seus traços característicos. Sem nos arriscarmos demais a paralelo ousado, podemos dizer que, para essas reações biológicas complexas, ele tem agentes mais enérgicos que para as reações químicas da matéria.” (CUNHA, 2002, p. 175)


Essa parte determinista do livro, segundo Murari (2007), vai sofrendo uma alteração acarretada pela ideia que Euclides tinha de levar o progresso a todas as partes do Brasil, criando assim uma civilização que abrangesse todo o país, inclusive o retrógrado sertão. Isso faz com que Euclides discorde de Buckle, já que o escritor inglês acreditava que um povo que habita uma região quente não é capaz de mudar sua condição. Por isso o contraste entre litoral e sertão agora passa a ser entre sul e norte do país.


Duas sociedades em formação, alheadas por destinos rivais – uma de todo indiferente ao modo de ser da outra, ambas, entretanto, envolvendo sob os influxos de uma administração única. Ao passo que no Sul se debuxavam novas tendências, uma subdivisão maior na atividade, maior vigor no povo mais heterogêneo, mais vivaz, mais prático e aventureiro, um largo movimento progressista em suma – tudo isso contrastava com as agitações, às vezes mais brilhantes, mas sempre menos fecundas, do Norte – capitanias esparsas e incoerentes, jungidas à mesma rotina, amorfas e imóveis, em função estreita dos alvarás da corte remota. (CUNHA, 2002, p. 168-169)


Segundo Murari (2007), a polarização que o escritor cria entre sul e norte, que era entre litoral e sertão, tem a intenção de dividir o país em duas partes, uma civilizada, nos moldes europeus, e outra bárbara, essa sim condicionada ao meio. Porém, ao contrário do determinismo da teoria do inglês, Euclides entendia que a “sub-raça” sertaneja poderia sim ser melhorada. O que ela precisava era do apoio da elite do sul.


A (...) missão (...) era (...) expandir o território efetivamente nacional, vencendo o deserto e as distâncias, para que toda a base física do país fosse integrada ao tempo da nacionalidade moderna. (MURARI, 2007, p. 76-77)


O escritor, de acordo com Lemos (2000), via loucura na atitude do governo republicano e entendia que a guerra de Canudos destruía, na verdade, a nossa origem. E isso fica claro na passagem em que Cunha (2002, p. 766) diz “entalhava-se o cerne de uma nacionalidade. Atacava-se a fundo a rocha viva da nossa raça”. Assim o autor retoma o assunto que é tema do segundo capítulo d’Os Sertões, a raça; ou, como está escrito no livro, “O Homem”.

E, segundo Murari (2007), é nesse capítulo do livro que Euclides vai buscar a origem do povo brasileiro, sempre citando partes do primeiro capítulo, “A Terra”. A segunda parte do livro utiliza muitas teorias, ora mesológicas, ora biológicas, além dos mais recentes estudos feitos no campo da psiquiatria.


Os Sertões, como também já foi apontado, guarda apenas uma relação indireta com a craniometria e a herança da frenologia. A caracterização do jagunço e da nacionalidade nesta obra se apoia fundamentalmente sobre o amplo espectro de relações entre visível e invisível que atravessa a Psicologia do fim do século, na qual as patologias mentais são associadas ao conceito de patologias sociais. (LEMOS, 2000, p. 187)


A parte em que Cunha (2002, p. 175) diz: “Não há um tipo antropológico brasileiro” inicia a busca pela raiz racial do país. E Euclides começa a explicar como se formou a parte norte do Brasil.


Procuremos, porém, neste intrincado caldeamento a miragem fugitiva de uma sub-raça, efêmera talvez. Inaptos para discriminar as nossas raças nascentes, acolhamo-nos ao nosso assunto. Definamos rapidamente os antecedentes históricos do jagunço.

Ante o que vimos a formação brasileira do Norte é mui diversa da do Sul. As circunstâncias físicas, originaram diferenças iniciais no enlace das raças, prolongando-as até ao nosso tempo. (CUNHA, 2002, p. 175-176)


Murari (2007) afirma que o anseio em ter uma raça autóctone era de toda elite, que desde o romantismo procurara um tipo genuinamente nacional. E o autor de Os Sertões, pertencente à elite intelectual do Brasil, só veio a corresponder a esse desejo nas páginas de seu livro.


As teorias sobre as raças visavam, muitas vezes, incluir a nacionalidade pela via de sua diversidade étnica no discurso da ciência, alocando-a num lugar “mais favorável” na hierarquia das raças ou das nações. (LEMOS, 2000, p. 125)


O surgimento de tantas teses brasileiras sobre raças mostra o quão importante era o tema para a elite. Desde os estudos propostos por Nina Rodrigues, até a tese de um de seus seguidores, Oscar Freyre, sempre questionavam a hierarquia das raças. Isso ocorria porque a escravidão, criticada duramente por muitos intelectuais brasileiros, era, segundo Nabuco (2007),5 prejudicial por depreciar, através da mestiçagem, as “raças superiores”. E Joaquim Nabuco vai, ao lado de Sílvio Romero, defender um “branqueamento” da nação brasileira.

De acordo com Iokoi (1989), a visão da inferioridade do negro no Brasil acontece por causa da produção cafeeira no Oeste paulista, que utilizava mão de obra imigrante.


O trabalhador imigrante não representava necessariamente a introdução do moderno nas relações de produção. Nos acordos que os chefes de família assinavam, (...) persistiam resquícios pré-capitalistas. Muitas vezes, o que eles recebiam como pagamento eram produtos ou bilhetes, o que os forçava a uma relação de dependência que acabava por envolver toda a família no trabalho para cumprir o contrato. Efetivamente, eles tinham que garantir uma produtividade muito elevada. O resultado do seu trabalho não era suficiente para a sua sobrevivência e da família. Iniciava-se então uma intensa luta dos imigrantes (...) no sentido de conseguir o espaço do corredor dos cafezais para a produção de gêneros de subsistência (...). A introdução do sobre trabalho (...) para garantir alimentação e sobrevivência, possibilitava um processo de melhoria do solo, aumentando a produtividade do cafeeiro (...).

O cafeeiro do Oeste paulista, com maior produtividade e com grãos de melhor qualidade, gerou o mito de que o imigrante tinha melhor competência que o escravo, que tecnicamente estaria mais bem preparado, determinando a preferência do produtor pelo trabalhador branco. (IOKOI, 1989, p. 59)


Vivendo essa atmosfera que relegava ao negro a característica de uma raça inferior; e que quando esse se misturava ao branco depreciava a raça deste último, Euclides vê, segundo Leite (1983), nas missões bandeirantes uma mistura que ocorreu entre o branco, paulista que rumava ao norte, e o índio, residente do sertão. Cunha (2002, p. 188) diz: “jagunços: colaterais prováveis dos paulistas”. Isso, segundo Murari (2007), é o mote que Euclides aproveita para iniciar sua etnologia do brasileiro. O sertanejo continua a ser um mestiço, mas diferente do mestiço do litoral, que é fruto do relacionamento entre o branco e o negro, o jagunço provém da mistura do índio com o branco.

O isolamento do sertanejo é descrito por Cunha (2002, p. 66):


Além disso, mal unidos àqueles extraordinários patrícios pelo solo em parte desconhecido, deles de todo nos separa uma coordenada histórica – o tempo”.


Segundo Lemos (2000) essa é uma forma de mostrar que o povo do sertão somente estava em um estágio atrasado. Encontrava-se no primeiro estado positivista, o teológico, mas sendo agregado à nação, conseguiria avançar.


É (...) do racialismo europeu que Euclides da Cunha retira todas as noções utilizadas para produzir sua análise da sociedade sertaneja. Próximo à embriogenia do espírito humano de Renan, o escritor transfere o homem do interior para um estádio social inferior, uma fase primária na escala de aprimoramento das funções intelectuais humanas, mas considerada por Euclides da Cunha perfeitamente acessível e adequada ao que seria o nível de desenvolvimento mental das “raças inferiores”. (MURARI, 2007, p. 130)


Em uma parte do livro Euclides mostra a consequência do isolamento no qual vive o homem do sertão.


Insulado deste modo no país que o não conhece, em luta aberta com o meio, que lhe parece haver estampado na organização e no temperamento a sua rudeza extraordinária, nômade ou mal fixo à terra, o sertanejo não tem, por bem dizer, ainda capacidade orgânica para se afeiçoar à situação mais alta.

O círculo estreito da atividade remorou-lhe o aperfeiçoamento psíquico. Está na fase religiosa de um monoteísmo incompreendido, eivado de misticismo extravagante, em que se rebate o fetichismo do índio e do africano. É o homem primitivo, audacioso e forte, mas ao mesmo tempo crédulo, deixando-se facilmente arrebatar pelas superstições mais absurdas. Uma análise destas revelaria a fusão de estádios emocionais distintos. (CUNHA, 2002, p. 237-238)


Provar a originalidade de uma raça brasileira significava mostrar que no país existia uma “raça histórica”, que seria, assim como a europeia, não uma raça pura, mas estável. Segundo Murari (2007), é na teoria de Gumplowicz sobre “luta de raças” que Euclides encontra uma forma de provar a raça histórica brasileira.


O conceito de “raça histórica” fornece ao autor uma brecha para que o sertanejo escape à “maldição do mestiçamento”. É, neste ponto, uma síntese perfeita a proposição de que o homem sertanejo (...) estaria atrasado na linha do tempo evolutivo, mas teria tido condições de vencer a heterogeneidade de seus elementos formadores, ao contrário do eternamente instável mestiço do litoral. (MURARI, 2007, p. 131)

E seguindo essa linha é que Euclides faz uma síntese de todo seu pensamento quanto ao condicionamento de uma raça ao meio; do resultado do isolamento físico e dos tipos de raças mestiças, no caso a do sertanejo.


O abandono em que jazeram teve função benéfica. Libertou-os da adaptação penosíssima a um estádio social superior, e, simultaneamente, evitou que descambassem para as aberrações e vícios dos meios adiantados.

A fusão entre eles operou-se em circunstâncias mais compatíveis com os elementos inferiores. O fator étnico preeminente transmitindo-lhes as tendências civilizadoras não lhes impôs a civilização.

Este fato destaca fundamentalmente a mestiçagem dos sertões da do litoral. São formações distintas, senão pelos elementos, pelas condições do meio. O contraste entre ambas ressalta ao paralelo mais simples. O sertanejo tomando em larga escala, do selvagem, a intimidade com o meio físico, que ao invés de deprimir enrija o seu organismo potente, reflete, na índole e nos costumes, das outras raças formadoras apenas aqueles atributos mais ajustáveis à sua fase social incipiente.

É um retrógrado; não é um degenerado. Por isto mesmo as vicissitudes históricas o libertam, na fase delicadíssima da sua formação, das exigências desproporcionadas de uma cultura de empréstimo, preparam-no para conquistá-la um dia. (CUNHA, 2002, p. 203)

E, segundo Murari (2007), é no “relativismo temporal” que o escritor dá legitimidade à raça sertaneja, já que essa, isolada no sertão, não adquiriu os problemas atribuídos aos mestiços do litoral brasileiro.

É certo que o uso que o autor de Os Sertões faz deste conhecimento racialista é bastante heterodoxo. Os teóricos racialistas aceitam a mistura, algumas vezes até considerando-a benéfica, mas impõem restrições. Uma delas, observada por Euclides da Cunha, é que esta mistura passe por um lento processo de homogeneização. Outra é que esta mistura não inclua elementos de raças muito distintas, ou não inclua “raças inferiores”. Esta condição não é obedecida pelo autor de Os Sertões, cuja teoria demanda que se acredite na possibilidade de aperfeiçoamento das “raças inferiores” por meio de sua fusão às raças consideradas superiores, o que apenas seria possível após uma lenta estabilização ainda não concluída de todo. (MURARI, 2007, p. 131)

De acordo com Murari (2007), Euclides da Cunha acreditava que o povo sertanejo alcançaria a civilização graças à sua estabilidade racial, causada pelo seu isolamento. E que questões sobre como conseguir uma definição acerca de uma raça genuinamente brasileira incomodavam muito o escritor, pois o futuro do país dependia disso.

Uma frase escrita por Euclides da Cunha (2002, p. 157) em Os Sertões define bem seu pensamento: “Ou progredimos, ou desaparecemos”.


Rene Valencia é funcionário público, graduado em Licenciatura Plena em Letras pela FIA.


Referências bibliográficas

ABREU, Modesto de. Estilo e personalidade de Euclides da Cunha. 2. ed. Rio de Janeiro: Academia de Letras do Estado do Rio de Janeiro, 1988.

ANDRADE, Olímpio de Sousa. História e interpretação de “Os Sertões”. 2. ed. São Paulo: EdArt, 1960.

BRANDÃO, Adelino. A Sociologia de “Os Sertões”. São Paulo: Editora Panorama, 1974.

_________________ . Paraíso perdido. São Paulo: Ibrasa, 1997.

CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. São Paulo: PubliFolha, 2000.

CITELLI, Adilson. Roteiro de leituras: Os Sertões de Euclides da Cunha. 2. ed. São Paulo: Ática, 1998.

COMTE, Auguste. Os pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1996.

CUNHA, Euclides da. Caderneta de campo. 1. ed. Introdução, notas e comentário por Olímpio de Souza Andrade. São Paulo: Cultrix, 1975.

__________________ . Canudos − Diário de uma expedição. São Paulo: Martin Claret, 2006.

__________________ . Contrastes e confrontos. 1. ed. Introdução de Olímpio de Souza Andrade. São Paulo: Cultrix, 1975.

__________________ . Migalhas de Euclides da Cunha. 1. ed. Seleção e organização de Miguel Matos. São Paulo: Editora Migalhas, 2009.

__________________ . Os Sertões. Edição, prefácio, cronologia, notas e índices de Leopoldo M. Bernucci. São Paulo: Ateliê Editorial. 2002.

IOKOI, Zilda Márcia Gricoli. Lutas sociais na América Latina. Rio Grande do Sul: Mercado Aberto, 1989.

LAKATOS, Eva Maria. Sociologia geral. 5. ed. São Paulo: Atlas, 1986.

LEITE, Dante Moreira. O caráter nacional brasileiro. 4. ed. São Paulo: Pioneira, 1983.

LEMOS, Maria Alzira Brum. O doutor e o jagunço. São Paulo: Unimar, 2000.

LIMA, Luiz Costa. Terra ignota. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1997.

MACEDO, José Rivair e MAESTRI, Mário. Belo Monte, uma história da Guerra de Canudos. São Paulo: Moderna, 1997.

MOURA, Clóvis. Sociologia política da Guerra camponesa de Canudos. 1. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2000.

MURARI, Luciana. Brasil, ficção geográfica. 1. ed. São Paulo: Annablume, 2007.

NASCIMENTO, José Leonardo do. Os Sertões de Euclides da Cunha: releituras e diálogos. São Paulo: Editora UNESP, 2002.

PAIM, Antonio. A filosofia da Escola do Recife. 2. ed. São Paulo: Convívio, 1981.

RABELLO, Sylvio. Euclides da Cunha. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.

SÉGUIER, Jaime de. Dicionário prático. Porto: Lello & Irmão, 1959.

SOARES, Orlando. O Estado, as Classes Dominantes e os Excluídos. 1. ed. Rio de Janeiro: Gráfica Forense, 1999.


Consulta Internet

GALLINDO, Cyl. Canudos. Disponível em: http://www.casaeuclidiana.org.br/texto/ler.asp?Id=765&Secao=123. Acesso em 10/07/2009.

CUNHA, Euclides da. A nossa Vendeia. Disponível em http://www.euclidesdacunha.org.br/. Acesso em 15/09/2009.


Notas

1 FILHO, Francisco Venâncio. A glória de Euclides da Cunha. São Paulo, 1940, p. 129 apud RABELLO, Sylvio. Euclides da Cunha. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1966.

2 Este fragmento é parte do livro Essai sur Tite Live. A tradução é: “... ele se irrita contra meias-verdades que são as meias-falsidades, contra os autores que não alteram nem uma data, nem uma genealogia, mas desnaturam os sentimentos e os costumes, que conservam o desenho dos acontecimentos mudando-lhes a cor, que copiam os fatos desfigurando a alma: quer sentir como bárbaro entre os bárbaros e, entre os antigos, como antigo”.

3 Comblain era o nome do fuzil utilizado pelo Exército na guerra de Canudos.

4 Bernucci, em Os Sertões – Campanha de Canudos, apresenta, no rodapé, p. 320, uma versão de Afonso Arinos: “(...) para aqueles desgraçados patrícios, sobre os quais nunca se fez sentir a ação civilizadora da administração do país; para aqueles, cujo primeiro contato com o governo de sua Pátria foi a ponta da baioneta e a boca de carabina – a crueldade do vencedor é o maior atestado da bravura do vencido” (O Comércio de São Paulo, 14/10/1897).

5 NABUCO, Joaquim. O Abolicionismo. 5.ed. Petrópolis: Vozes, 1988. 1.ed. 1883, p. 37, apud MURARI, Luciana. Brasil, ficção geográfica. São Paulo: Annablume, 2007.

 

  Voltar PDF  Versão em PDF E-mail  Encaminhar Imprimir  Imprimir

Publicações

» Revista PUC Viva
loguinho_pucviva_novo
revista_puc_critica_logo
puc_viva_logor
twitter
facebook
youtube
vimeo

tv_apropuc3


Enquete

O que você acha da implementação do ensino à distância na PUC SP?