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Home >> Revista Cultura Crítica >> 01, Ensaios, poemas. 1º semestre de 2005 >> De poetas para poetas: Homenagem de Murilo Mendes a René Char

De poetas para poetas: Homenagem de Murilo Mendes a René Char

APROPUC-SP 28.01.10

De poetas para poetas

Homenagem de Murilo Mendes a René Char

René Char na sua casa parisiense da Rue de Chanaleilles onde Ale-xis de Tocqueville mostra-me desenhos e quadro de Braque, Giacometti, Brauner e Nicolas de Staël.

Desenrola o diploma de louvor ao Capitaine Alexandre (seu nome de guerra) herói da descida em pára-quedas na áfrica do Norte, durante a
Segunda Guerra Mundial, após dois anos de maquis; diploma ilustrado nas margens por Miro, mais tarde.

Tira da gaveta outro documento, uma carta assinada por vinte se seus antigos comandados: “Capitaine Alexandr, vous avez fait de nous des hommes”.
Assim tornados à época de Fureur et mystère que contém um dos textos capitais da poesia francesa contemporânea: “Les Feuillets d'Hypnos”.

Quando a Resistência era o fulcro da vida de muitos. Quando poesia e ação
direta andavam de mãos dadas. Quando o nome liberdade era feérico.
Quando se punha em marcha a inteligência “sans le secours des cartes d'état-major”.
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Este homem que inventou o sol das águas não descobriu ainda o sol da sombra. Detesta, por exemplo, Michaux.

Solar, solerte, soletra o sol de Heráclito.

Apesar dos tangentes Mozart, Braque, Van Eyck, Georges de La Tour,
Beaujolais, às vezes parece-me terrivelmente distante de mim. Mas não se-
rei distante de mim próprio?
Ä
A neve cai sobre o solar de René Char desde que retalharam o solar de Névons
em L'Isle-sur-Sorgue onde ele nasceu provençal onde aprendeu o sol onde
aprendeu o sal onde o prendeu o sal. Em Névons on jouait dès nouveau-nés
on aimait on névonnait le soleil y neigeait.

A neve cai sobre o carro-de-apolo de René Char que joga pólo com Artine
no ar de René char nascido para o ar para amar para armar para desamar
para desarmar para poetar para putear para libertar para Mozart para
terrevoar para o mar para o sol para o ar.

(Murilo Mendes; poesia completa e prosa Nova Aguilar - 1994 - pp. 1.240-1)

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