APRESENTAÇÃO
APRESENTAÇÃO
Marcas da humanidade na desumanidade
esde que o homem representou pela primeira vez um animal na parede de uma caverna, algo que aconteceu por volta de 40 mil anos atrás, abriu-se um horizonte de perspectivas. O nome "humano" inscreveu-se nessas representações; assim como nas representações sonoras e gráficas das palavras. Palavras e arte talvez sejam o nosso maior feito; a nossa melhor forma de interpretar o mundo. Mais do que máquinas, objetos ou utensílios, as palavras e as obras de arte são o testemunho da nossa trajetória. Com elas, registramos alegrias, tristezas, conquistas, decepções, derrotas, interpretações e todos os sentidos que estabelecemos para as vicissitudes da vida.
Este número da revista Cultura Crítica é dedicado a um tipo especial de registro literário. Uma literatura que se ergue a partir da reflexão sobre fatos, situações ou acontecimentos trágicos, na sua maioria ocasionados pela violência de Estado; e que tem, na sua tessitura, vozes e personagens que denunciam, registram ou revelam essa tragicidade. No artigo "Estética e política, memória e esquecimento: novos desafios na era do Mal de Arquivo", que abre esta edição, Márcio Seligmann-Silva trata da interpenetração do estético e do político presente na constituição da memória; e apresenta ideias sobre esse assunto a partir da realidade do desenvolvimento tecnológico e do universo da web.
Em "La escritura o la vida: a impossibilidade de ver", Valeria De Marco analisa o romance de Semprún, que tem como tema o homem frente à barbárie dos campos de concentração nazistas, a partir da própria experiência do autor e de seu modo de representá-la.
Luiza Martins da Silva, no escrito "Catástrofe e onisciência em Max Aub", trata treze contos do autor francês que também estão ambientados em campos de concentração.
Em "Estetização da morte? Notas sobre ‘Carta a Vicki' e ‘Carta a meus amigos', de Rodolfo Walsh", Graciela Foglia analisa essas duas cartas que tratam da morte da filha desse autor e da de milhares de militantes, no âmbito da última ditadura militar argentina.
Willis Santiago Guerra Filho, em seu artigo "Sobrevivendo aos sobreviventes", desenvolve uma série de reflexões sobre o papel e a importância da literatura testemunhal como instrumento, ou grito de alerta, a favor da humanidade.
Eduino José Orione, no escrito "Testemunho e memória da escravidão em Pedro Nava", destaca a recriação pela arte dos eventos históricos na literatura de testemunho; em especial o relato de Pedro Nava em Memórias, como obra ao mesmo tempo histórica e poética.
"Entre o jornalismo e a ficção, o relato de um trauma coletivo" é o título do artigo de Ivan Rodrigues Martin, que encerra esta edição. Trata-se de escrito que analisa o relato jornalístico-literário Han pasado los bárbaros, do militante e ficcionista anarquista Vicente Ballester, sobre o fato histórico da chacina ocorrida no povoado espanhol de Casas Viejas, em 1933.
Desejamos boa leitura e esperamos que a revista propicie duplo testemunho: dos escritos dos autores e da crítica dos leitores.
Os editores
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