Entre o jornalismo e a ficção,o relato de um trauma coletivo
A batalha campal ocorrida em Casas Viejas entre as forças militares do governo republicano e os camponeses andaluzes sublevados foi amplamente divulga da naqueles anos da Segunda República Espanhola. Cabe ressaltar, no entanto, que os motivos que levaram socialistas, comunistas e anarquistas a traduzirem em palavras esse massacre devem-se menos à intenção de noticiar os fatos propriamente ditos do que à de pôr em relevo o enfretamento ideológico que se operava nos primeiros anos da Segunda República, antes do início da Guerra Civil Espanhola. É sabido que as urnas que deram vitória aos socialistas e,consequentemente, garantiram a promulgação da República em 1931, receberam também votos de muitos anarquistas que, a despeito de sua recorrente postura de boicote às eleições, acorreram àquele pleito com o objetivo de ampliar seu espaço de atuação política, sob um regime que fosse menos autoritário do que a ditadura de Primo de Rivera que mantinha encarcerados milhares de militantes anarquistas.
No entanto, após a vitória dos socialistas e a instauração da República, rapidamente vieram à tona as diferenças ideológicas entre os que efetivamente estavam no governo e os anarquistas que clamavam por mudanças mais rápidas e efetivas na estrutura daquele conservador sistema político.
Dos muitos embates ocorridos entre os anarquistas e o governo republicano, destaca-se justamente o episódio de Casas Viejas, em que um grupo de camponeses anarquistas enfrenta os latifundiários e as forças de repressão do Estado e decide pela coletivização das terras. Imediatamente, o governo da República desloca para a região seus contingentes militares para sufocar a rebelião.
Se, por um lado, a profusão de relatos sobre o enfrentamento está fortemente marcada pela descrição das estratégias adotadas pelos militares republicanos e pelos sublevados e também pela divulgação dos números de mortos, por outro, percebe-se neles uma clara intenção de se defender e divulgar a perspectiva ideológica das forças políticas que estiveram em combate.
Exemplo disso é o referido relato
Han pasado los bárbaros, em que Ballester mescla recursos do jornalismo investigativo (para escrever seu texto o autor visita o local do conflito e entrevista as testemunhas dos fatos) e da narrativa de ficção para produzir uma bem acabada peça de propaganda ideológica, cujos objetivos são claramente enunciados no Prólogo assinado pelo Comité Regional da CNT:
Dividido em doze capítulos, o texto do militante anarquista é construído a partir de diferentes procedimentos narrativos e o resultado da manipulação de dois gêneros, o jornalístico e o literário, possibilita a realização de um gênero híbrido, capaz de denunciar o massacre operado pela República e, ao mesmo tempo, propagar a utopia libertária.
Observemos como esses procedimentos narrativos adotados pelo autor permitem tal realização. Comecemos, pois, pelo tratamento dado ao gênero jornalístico. Ainda no Prólogo, o Comitê Regional anuncia que as informações contidas no texto haviam sido colhidas in loco por um delegado enviado pela CNT ao lugar da tragédia que contou “apenas com a cooperação das famílias das vítimas, de todo o povo de Casas Viejas e dos companheiros de Cádiz” (GUTIÉRREZ MOLINA, 1997, p. 277). De fato, se pensamos nas informações objetivas que constituem o objeto da narrativa de Ballester (o levantamento
anarquista, a rendição do prefeito, a ação da Guardia Civil, a chegada dos destacamentos da Guardia de Asalto que havia sido criada em 1931 para defender a República, a perseguição aos insurrectos, a resistência de Seisdedos e sua família e a ação militar levada a cabo pelas forças de repressão da República), verificamos que elas, grosso modo, coincidem com as divulgadas em outros textos sobre o ocorrido. A título de exemplo, vale citar o texto literário de Ramón J. Sender – Viaje a la aldea del crimen – publicado em 1934; o editorial jornalístico “Los motivos del sufragio”, publicado no diário ABC, no dia 10 de novembro de 1933, em que se relaciona a vitória das forças de direita nas eleições como consequência da ação do governo republicano em Casas Viejas; e as referências ao episódio que faz o historiador inglês Hugh Thomas, em The Spanish Civil War. Se nesses três textos, pertencentes respectivamente aos gêneros literário, jornalístico e historiográfico, os elementos do objeto narrado assemelham-se àqueles arrolados pelo militante anarquista, por outro lado, no entanto, o que singulariza o relato de Ballester é a intencionalidade de seu discurso, que aponta para a formação de uma ideologia ácrata. Para isso, o autor articula as informações coletadas em sua investigação jornalística num texto cuja estrutura remete ao modelo literário criado pelos anarquistas para a divulgação de suas ideias. Refiro-me, aqui, aos quase seiscentos romances curtos publicados sob o selo da série Novela Ideal, entre 1925 e 1938, coleção da qual Ballester foi um destacado autor.
Ao alocar na estrutura de um discurso literário específico a derrota dos anarquistas, Ballester transforma a ruína sofrida pelos camponeses rebelados em vitória dos oprimidos sobre as forças de opressão e, dessa forma, seu discurso, que a princípio teria a função de noticiar o fato, transforma-se num eficiente texto de propaganda ideológica. Para isso, o autor mobiliza, principalmente, três recursos literários bastante correntes na ficção anarquista. O primeiro deles diz respeito à construção maniqueísta das personagens que protagonizam o relato. No plano dos atributos descritivos são apresentados, de um lado, os bravos ‘escopeteros’ do povo, os valentes ‘escopeteros’, os guerrilheiros da revolta, o bom pai e carinhoso avô, o venerável ancião, os valorosos guias da liberdade, a honrada família dos Seisdedos, enfim, o camponês andaluz, rebelde por natureza, anarquista por temperamento. De outro, os latifundiários e grandes proprietários de terras, os herdeiros e suas amantes, a legião de vândalos, a guarda bisonha da República, orgulho dos socialistas, as pessoas de classe baixa, os delinquentes de uniforme, os seres do pior nível moral, os vândalos, o energúmeno, as hienas sedentas de sangue, os êmulos de Átila, a imprensa mercenária – a grande rameira, enfim, os bárbaros.
Todos esses predicativos, além dos muitos sintagmas verbais que, ao longo da narrativa, os reafirmam, situam as personagens do relato em dois planos diametralmente opostos: o do bem e o do mal. Esse procedimento que reitera insistentemente o mesmo conjunto de valores, ao gosto da estética anarquista, transforma o sujeito individual em sujeito coletivo. Assim, se nas outras narrativas sobre o massacre de Casas Viejas que citamos anteriormente são postos em relevo os atributos pessoais de conhecidos nomes da militância anarquista que deflagraram o processo revolucionário e de personalidades do governo republicano que, à custa do sangue dos camponeses, restabelecem a ordem social, no texto de Ballester o uso do clichê literário – o maniqueísmo –, ao contrário do que se poderia supor, favorece uma profícua aproximação entre os procedimentos narrativos e o objeto narrado. Ao adotar esse recurso próprio da literatura popular, o autor corrobora a perspectiva libertária, reafirmando que não se trata de um combate entre indivíduos, mas de uma luta em aberto, eminentemente ideológica, entre duas forças políticas: a do Estado controlado pelos socialistas e a da militância anarquista andaluza, organizada pela CNT.
O segundo recurso utilizado por Ballester para que seu relato transcenda a mera função jornalística de noticiar a derrota dos camponeses anarquistas e cumpra a função de manter viva a utopia libertária é a inserção de alguns preceitos da filosofia ácrata ao longo da narrativa. Isso se dá basicamente de dois modos. O primeiro diz respeito à apresentação indireta de alguns elementos da filosofia anarquista, apreensíveis pelos que já os conhecem. Refiro-me à idealização da natureza em detrimento da suposta civilização e à associação intrínseca entre o capital econômico e o vício. O outro modo é a inserção ipsis literis de fragmentos discursivos em que se expõe abertamente o chamamento das classes trabalhadoras à Revolução. Vejamos, num fragmento do texto, como o narrador, após descrever a miséria em que viviam as pessoas do povoado andaluz, reproduz textualmente a legitimidade da rebelião, segundo a perspectiva anarquista:
(...) los campesinos de Casas Viejas mataban el hambre, mientras en sus mentes se forjaba el gran sueño, la hermosa quimera de la Revolución. Porque a un pueblo que así vive, que así vegeta, nadie puede discutirle el derecho a la rebelión, es sagrado; el cautivo ha de buscar su libertad,como el hambriento el alimento preciso para subsistir, y el que padece sed busca el remanso apacible donde aplacarla; y el pueblo de Casas Viejas, el campesino de Banalup, no menos esclavo que el resto del proletariado y como él con hambre y sed de justicia, esperaba anhelante (…) el hecho definitivo que lo librara (…); la Revolución salvadora que declarara libre la tierra (…) (280-1) *
Por fim, o terceiro e último recurso de que trataremos – a ironia – talvez seja o mais significativo. Primeiramente porque, de alguma forma, também está presente nos anteriores e depois porque está fundamentalmente inserido na estrutura do texto. Através da adoção da ironia como procedimento narrativo, o autor logra transformar a objetiva derrota dos militantes anarquistas em vitória da ideologia libertária, criando, assim, um exemplar manifesto da utopia ácrata. Verificam-se no texto de Ballester pelo menos duas atitudes eminentemente irônicas que apontam para isso. A primeira delas advém da voz do narrador quando faz referências à República e às suas instituições supostamente democráticas. O questionamento, por exemplo, da falta de interesse dos representantes da República em apurar a responsabilidade pelo massacre se dá através da chave da ironia:
Difícil nos hubiera sido adquirir ciertos detalles, de no haber tenido la suerte de hablar con el último superviviente, misterioso personaje a quien ni ha interrogado ni interrogará ninguna comisión por muy parlamentaria que sea. (p. 289) **
E é nessa mesma chave irônica que o narrador denuncia a ação extremamente violenta de um governo democraticamente eleito, como pode ser observado quando se refere ao poder de fogo do inimigo: (...) enquanto a casa de Seisdedos era hostilizada pelo fogo das metralhadoras e dos fuzis viciados no regime da democracia (...) (p. 291), ou neste outro fragmento em que os defensores do Estado republicano comemoram sua vitória sobre os camponeses:
– ¡Viva la República! ¡Vivan los guardias de asalto! El eco repetía lúgubre el graznido repulsivo de los cuervos… (p.302) *
Se pensarmos nas características gerais de um texto épico, vemos que a narrativa de Ballester comporta muitos elementos desse gênero literário já que ela evidencia as ações e os feitos memoráveis de um herói histórico, o valoroso Seisdedos, que representa uma coletividade, os camponeses anarquistas de Casas Viejas, e que tal exaltação se realiza a partir da descrição de ações gloriosas, retumbantes, capazes de provocar a admiração. Porém, vale ressaltar que à diferença do texto épico em que a figura do herói está intimamente associada à daquele que triunfa sobre o caos, para utilizar uma expressão de Chevalier, neste caso é o inimigo quem triunfa.
O recurso à ironia, no entanto, faz que aqueles que venceram belicamente a batalha sejam situados no campo dos derrotados moralmente, enquanto os anarquistas mortos pelas forças de repressão do governo são alçados à condição de heróis. Esse procedimento adotado por Ballester é consoante com a noção de cena da ironia, descrita por Linda Hutcheon, em Teoria e Política da Ironia. Segundo a pesquisadora canadense, trata-se de um tópico político, no sentido mais amplo da palavra (...) e envolve relações de poder baseada em relações de comunicação.
Inevitavelmente, ela envolve tópicos sensíveis tais como exclusão e inclusão, intervenção e evasão. (HUTCHEON, 2000, p. 17) De fato, podemos observar no texto de Ballester a utilização desses dois movimentos dialéticos de que fala Linda Hutcheon. O binômio intervenção e evadersão ocorre no tratamento dado pelo autor à matéria narrada, através da voz de seu narrador que intervém literariamente no relato jornalístico, evadindo-se da derrota concreta sofrida pelos anarquistas. E é através da inclusão da voz popular, garimpada pelas entrevistas do Ballester jornalista e elaborada pela pena do Ballester ficcionista, que o escritor consegue aproximar sua narrativa anárquica da tentativa revolucionária dos camponeses andaluzes, confirmando, assim, a avaliação que faz da obra o Comité Regional da CNT:
Referências bibliográficas
BALLESTER, V. “Han pasado los bárbaros (La verdad sobre Casas Viejas)”. In: GUTIÉRREZ MOLINA, J.L. Se nace hombre libre. La obra literaria de Vicente Ballester. Cádiz: Diputación de Cádiz, 1997.
HUTCHEON, L. Teoria e política da ironia. Trad. Julio Jeha. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2000. THOMAS, Hugh. La Guerra Civil Española. Trad. Neri Daurella. Barcelona: Grijalbo Mondadori, 1995.
Notas
1. Utilizamos como referência o livro Se nace hombre libre. La obra literária de Vicente Ballester, em que o professor José Luis Gutiérrez Molina, da Universidade de Cádiz, recompila toda a obra do autor gaditano, além de historicizar e comentar sua produção.
2. Este artigo é uma adaptação do texto “Han pasado los bárbaros: a violência de Estado sob a perspectiva irônica dos anarquistas”, apresentado no IV Congresso da Associação
Brasileira de Hispanistas, publicado em versão eletrônica no ano de 2008.
* “(...) realçar com a descrição de seus próprios atos as figuras de seus heróis; gravar com caracteres indeléveis o monstruoso crime e cooperar
economicamente para a subscrição aberta para as vítimas da repressão, tal é o objetivo proposto ao editar esta pequena obra (…)”
* “(...) os camponeses de Casas Viejas matavam a fome, enquanto nas suas mentes se forjava o grande sonho, a linda quimera da Revolução.
Porque para um povo que assim vive, que assim vegeta, ninguém pode discutir seu direito à rebelião, é sagrado; o prisioneiro há de buscar sua liberdade, como o faminto o alimento necessário para sobreviver, e o que sente sede busca o remanso tranquilo onde aplacá-la; e o povo de Casas Viejas, o camponês de Banalup, não menos escravo que o resto do proletariado, e como ele com fome e sede de justiça, esperava ansioso (...) o fato definitivo que o livrasse (...); a Revolução salvadora que declarasse livre a terra (...)”
** “Difícil nos teria sido adquirir certos detalhes, de não haver tido a sorte de falar com o último sobrevivente, misterioso personagem que não foi interrogado nem será por nenhuma comissão por mais parlamentária que seja.”
* “Este ato patriótico foi acolhido com clamores de entusiasmo pela homogênea audiência de herdeiros, que irrompeu em vivas e aplausos ao flamejar triunfante o estandarte da reação.
− Viva a República! Vivam os guardas de assalto!
O eco repetia lúgubre o grasnido repulsivo dos corvos…”
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