Apresentação
Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia.
(Tolstoi)
Em entrevista concedida recentemente ao jornal Folha de S. Paulo, Milton Hatoum contesta a noção de regionalismo que, para ele, se transformou em algo datado e que deve ser contestado. Independentemente dos excelentes argumentos que apresenta o escritor amazonense, dentre os quais o de que Graciliano Ramos foi um escritor universal e o de que a noção de romance regionalista pressupõe a existência de romance central, prevalece na proposta de publicação deste número da Revista Cultura Crítica a noção de romance regionalista como aquele que, nas palavras do professor Antonio Candido, foi o precursor de nossa consciência de subdesenvolvimento, de uma percepção aguda da situação de atraso político, econômico e cultural que determinava e continua determinando que grandes contingentes da população sejam submetidos à miséria, à fome e à indignidade.
Entre aquela realidade retratada em muitos dos romances regionalistas e a nossa realidade de hoje pouca coisa mudou. Dos tantos milhões que saíram dos cofres públicos para socorrer os flagelados da seca, por exemplo, pouco foi investido em ações políticas que pudessem minimizar o atraso a que historicamente estamos submetidos. O coronelismo na política assumiu formatos mais sofisticados sem, no entanto, alterar de fato a ocupação dos espaços de poder; o flagelo trasladou-se do cenário da seca para o da periferia das grandes cidades; a tão almejada e necessária reforma agrária caminha a passos de tartaruga, refém dos poderosos que só fazem defender os interesses dos latifundiários e dos agentes do agro-negócio.
Nos artigos que compõem este oitavo número da Revista Cultura Crítica, pesquisadores apresentam suas reflexões sobre o romance regionalista dos anos de 1930 e sobre os autores e as obras que universalizaram a consciência de nosso subdesenvolvimento. Discutem, ainda, a atualização temática e estética do romance regionalista em obras produzidas mais recentemente e a importância que o romance social nordestino teve para a consolidação de outros sistemas literários em língua portuguesa.
E, para fechar este número da Cultura Crítica, reproduzimos integralmente o Manifesto Regionalista, de Gilberto Freyre, apresentado no I Congresso Brasileiro de Regionalismo, realizado em Recife, em 1926. Nele, o autor de Casa Grande & Senzala desfia os saberes e os sabores de um povo que a despeito da sanha gananciosa de suas elites é capaz de construir utopias, fazer arte e lutar por um mundo mais justo.
Com esta publicação, a Associação dos Professores da PUC de São Paulo espera contribuir para o debate sobre as relações entre a literatura e o contexto histórico, social e político que pauta sua produção. Desejamos uma boa leitura a todos.
Ivan Rodrigues Martin
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