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Home >> Revista Cultura Crítica >> 08, Romance Regionalista, 2º semestre de 2008 >> As metáforas do seco – Regionalismo e gênero na obra de Rachel de Queiroz

As metáforas do seco – Regionalismo e gênero na obra de Rachel de Queiroz

APROPUC-SP 11.05.09

Roberta Hernandes Alves

As obras da literatura dita regionalista produzidas na década de 1930 renovaram as letras brasileiras com os autores nordestinos que puseram em pauta os dramas e as questões de sua região ao restante do país. Se o esforço empreendido pelos românticos do século XIX havia sido o de mapear os vários brasis que compunham um país e uma identidade nacional em construção, os regionalistas dos anos 1930 querem ampliar a discussão temática que os modernistas de 1922 inauguraram, elevando ao primeiro plano os temas sociais.
Mas, afinal, o que faz um autor ou uma obra merecerem o adjetivo "regional"? O uso de um vocabulário identificado com uma região? O foco nos problemas que atingem seu povo? O tom de denúncia? A escolha de um cenário não-urbano para a ação romanesca? Trata-se de uma classificação complexa, mas, de modo geral, é possível afirmar que nenhuma dessas marcas em particular é suficiente para tornar uma obra regionalista, mas sim a articulação entre elas e o estilo particular de cada autor. No caso de Rachel de Queiroz, o caráter regional de sua obra se deve à relação que a autora estabelece entre seus escritos e a terra nordestina. Seja pela presença maciça de personagens que, como ela, têm raízes sertanejas, seja na escrita que se quer nordestina, mas sem estereótipos. Embora essa marca regional de seus textos encontre-se diluída na maior parte de seus romances, isso não impediu que a autora fosse classificada como regionalista, especialmente por seu romance de estréia, O quinze.
Em sua maioria, os demais romances da autora - João Miguel (1932), Caminho de pedras (1937), As três Marias (1939), Dora, Doralina (1975), Galo de ouro (1986) e Memorial de Maria Moura (1992) - desenvolvem-se a partir de enredos urbanos ou que envolvem temas mais universais, menos identificados com o que se costuma classificar como "regional". Os escritos de Rachel apenas sutilmente lembram os seus leitores que estão diante de uma autora nordestina que mantém intenso e recorrente diálogo com a sua terra. Além disso, trata-se de um regionalismo diferenciado, que se dedica à investigação do feminino num olhar enviesado que investiga e multiplica as relações metafóricas entre a mulher e a terra.
Tendo em vista esse panorama, o único romance regionalista strictu sensu de Rachel de Queiroz é O quinze, publicado em 1930. Como o próprio título indica, numa referência explícita à estiagem que atingiu o Ceará nesse ano, uma das personagens centrais do romance é a seca. A terra árida, colorida pelo sol forte, o horizonte que não alcança nem o verde nem a presença da água desumanizam as personagens, especialmente aquelas que dependem mais diretamente da terra. O quinze é um romance sobre a seca, mas é também um romance sobre o seco e suas metáforas.
Em O quinze, o intenso cromatismo, em que sobressaem o amarelo e o vermelho, transportam o leitor para o cenário da seca - há pouca comida, pouca água, poucos diálogos. Nesse panorama singelo, despojado, e ao mesmo tempo abrangente, o romance se constrói acompanhando dois grupos de personagens: o do retirante Chico Bento e sua família, que trilham o sertão rumo ao litoral, e o de Conceição e Vicente, que se mantêm relativamente a salvo da tragédia. Enquanto Conceição permanece em Fortaleza e é atingida pela seca apenas de modo indireto, Vicente permanece na fazenda de sua família, lutando pelo gado que restou. Cada grupo, é certo, sofre a seca de modo distinto.
Chico Bento e sua família, representantes no romance daqueles que migram de forma dolorosa para o litoral, enfrentam perdas, fome, abrem mão de filhos, vivem em campos de concentração que, se ainda não têm o significado que irão adquirir na Segunda Guerra Mundial, já são lugares arquitetados para o sofrimento coletivo. Além disso, acompanhamos também a secura interna das personagens, a perda de seus sonhos, do que teriam a dizer. São personagens que vivem com pouco e aspiram a pouco - uma vida de trabalho perene.
Vicente, por sua vez, sofre diversamente com a seca - é dono de terras e isso faz toda a diferença. Ele não é dispensado do trabalho quando a chuva falha, não precisa deixar o sertão caminhando, conta com recursos, ainda que escasseados, para seu sustento. Diferentemente do que o tom narrativo que o romance apresenta, nem todos padecessem a mesma tragédia, uma leitura atenta revela que a seca não iguala a todos - o sofrimento de cada um depende de sua condição material. Viver a seca como proprietário não é viver a seca como trabalhador contratado.
Por fim, Conceição padece com a seca sem ser atingida materialmente por ela, já que vive em Fortaleza. Através dessa personagem, Rachel de Queiroz amplia a problemática de seu romance. Mulher independente que vive em Fortaleza sozinha, professora, leitora de livros feministas, apaixonada pelo primo Vicente, mas convencida de que esse amor tem poucas chances de vingar, Conceição se incomoda com o sofrimento dos migrantes, vai ao campo de concentração ajudar a quem pode, passa a cuidar de seu afilhado como mãe, depois que a família deste entrega-lhe a criança a seu pedido e segue viagem para São Paulo, a fim de reconstruir a vida e quebrar o ciclo interminável da seca. Mas quando a chuva vem, o temor da repetição não parece abandonar Conceição, que recebe a chuva de modo muito mais contido que Vicente. Enquanto o rapaz recebe a chuva com avidez, num misto de celebração e sensualidade, Conceição a recebe como quem permanece de sobreaviso - o perigo da seca sempre ronda a vida do sertanejo. Vicente se predispõe à reconstrução da fazenda, do gado, da natureza; Conceição se resguarda da próxima perda, do perigo cíclico que não é possível prever.
O espelhamento entre litoral e sertão, construído no romance por esse alinhave narrativo que traz quadros que se justapõem e mesmo se intercalam, é responsável por interligar os dramas vividos pelos diferentes grupos de personagens, dando maior alcance e profundidade para os dramas individuais que repercutem na sociedade como um todo. Mais do que isso, o espelhamento articula dois campos que antes eram vistos como estanques - os dramas do sertão também dizem respeito e atingem, ainda que de forma diferenciada, o litoral. Não é possível isolar uma região, um problema social, e viver em paralelo. A repercussão do drama da seca alcança a todos, mesmo os que se encontram relativamente a salvo, em Fortaleza.
Se no período romântico o foco da abordagem regionalista estava no fato de mostrar ao leitor que todos os brasis eram interessantes, cada um na sua particularidade, como quadros justapostos que formam um bonito painel, na década de 1930 a abordagem será de brasis que se interligam, como num quebra-cabeças - cada peça depende da outra e a ela se conecta. Assim como Euclides da Cunha já o fizera, em seu Os sertões, os escritores regionalistas dos anos 1930 vão mostrar que o que atinge o sertão repercute no litoral: só há um Brasil e a repercussão da tragédia, no caso de O quinze, a seca, alcança mesmo quem se encontra fora do seu espaço de atuação.
Se o drama da seca não abandona Conceição, ela é atingida também, quase que de maneira complementar, pelos dramas/armadilhas do feminino, igualmente cíclicos. E aí está uma das maestrias de Rachel: sobrepor metaforicamente o drama e as metáforas da seca ao drama e às metáforas do feminino. Vejamos a cena que encerra O quinze:

"- Ora o amor!... Essa história de amor, absoluto e incoerente, é muito difícil de achar... eu, pelo menos, nunca o vi... o que vejo, por aí, é um instinto de aproximação muito obscuro e tímido, a que a gente obedece conforme as conveniências... Aliás, não falo por mim... que eu, nem esse instinto... Tenho a certeza de que nasci para viver só...
(...)
Afinal, o verdadeiro destino de toda mulher é acalentar uma criança no peito...
E sentia no seu coração o vácuo da maternidade impreenchida... "Vae solis." Bolas!
Seria sempre estéril, inutil, só... Seu coração não alimentaria outra vida, sua alma não se prolongaria noutra pequenina alma... Mulher sem filhos, elo partido na cadeia da imortalidade...
Ai dos sós..." [1]

A visão melancólica que se percebe no trecho prevê uma continuidade onde Conceição instaura a mudança. É difícil para ela encontrar outro modo de ser mulher. O número de reticências que aparece no trecho indicia a dúvida, a hesitação e a tristeza pela opção escolhida: seguir só. A secura do romance, nessa altura já superada, parece se consubstanciar no ventre seco de Conceição: o corpo feminino, que a cada mês relembra a mulher de que seu destino é, em parte, biológico, materializa em si a falta, a ausência do destino maternal.
Embora sua trajetória seja de questionamento do chamado "destino de mulher", ela sofre com o seu alheamento do que era considerado o caminho natural e biológico de uma mulher. Ainda que tome as decisões sobre sua vida e se negue a um casamento que ela sente seria destinado ao fracasso, Conceição segue com uma ponta de frustração.
Não podemos nos esquecer de um elemento que contribui para o sentimento de falta que se apodera de Conceição: a infertilidade, historicamente, foi vista como uma maldição, especialmente nas sociedades em que havia contrato de casamento - religioso ou civil - e direito de herança. Ainda que os tempos sejam outros, a herança psíquica transgeracional[2], passada de mãe para filha ou, no caso de Conceição, de avó para neta, reafirma o discurso conservador. A avó se incomoda com as leituras da neta, com o fato de ela tratar o afilhado como filho. De algum modo, fica implícito no romance que as leituras de Conceição permitem sua formação diferenciada, mas até certo ponto, pois impedem que ela reproduza seu "destino de mulher". Mãe Nácia quer vê-la realizada como mulher e, para isso, seria necessário repetir o que era esperado das mulheres da família: casar-se, ter filhos, deixar a leitura de lado, preocupar-se mais com os afazeres domésticos como o crochê que ocupa a avó ao longo do romance.
Essa visão de uma feminilidade única, centrada no destino biológico da mulher, relaciona-se ao mito do "eterno feminino", de que tratou Simone de Beauvoir[3]. A partir desse mito, as existências individuais e complexas de cada mulher são contrapostas à idéia de que há um feminino modelar, misterioso, que resume a mulher à busca por se tornar esposa e mãe, relacionada à idéia romântica de que o destino de uma mulher se inicia quando encontra o amor de um homem e se casa com ele, passando a viver então "feliz para sempre".
Nesse sentido, o amor romântico que eclode a partir do século XVIII na literatura é fundamental para construir a visão amorosa que se solidifica no século XIX: é preciso amar e é preciso casar por amor. Casamento e amor, que haviam sido mantidos dissociados, passam a ser preconizados, na sociedade burguesa e na literatura que a representa, cabendo à mulher um lugar de destaque nos romances sentimentais:

"As heroínas dos romances (...) funcionaram como paradigmas de feminilidade. Desse modo, a virtude, a moderação, a inocência, o decoro, o bom senso que se exigiam das mulheres eram também as qualidades essenciais de heroínas (...) cuja educação era baseada na defesa intransigente da virtude, entendida menos como uma questão de princípio do que como um conjunto de regras que visavam exclusivamente à preservação da castidade. tanto na vida real quanto na ficção, elas deviam ser pacientes, modestas, humildes e delicadas; não deviam almejar o conhecimento ou aspirar à vida intelectual e nem amar antes de serem amadas; uma vez casadas, deviam a seus maridos obediência e submissão."[4]

Os romances românticos propagam assim, a ideologia que caracterizará a família burguesa, a de uma mulher tratada e valorizada como uma jóia do lar, voltada para uma feminilidade passiva em que o homem era o centro das atenções e a família com filhos o ideal máximo a ser alcançado. Esses romances não estavam tão distantes da realidade vivida pela protagonista Conceição se lembrarmos que a seca focada no romance é a de 1915. Assim, essas idéias permaneciam no imaginário das mulheres e marcavam a ideologia da época, ainda que Conceição se esforçasse por construir para si um destino que a aproximasse da "nova mulher" que começa a ser engendrada socialmente.
Ainda nas décadas de 1950 e 1960, o ideal do "eterno feminino" persiste com força, mesmo tendo que conviver, por vezes de modo conflituoso, com a "nova mulher". É o que demonstra a obra de Clarice Lispector, especialmente suas colunas femininas escritas sob pseudônimo para jornais cariocas. Se Rachel de Queiroz, na década de 1930, surge como figura relevante do regionalismo, Clarice surge, na década de 1940, como autora intimista capaz de dar forma aos dramas femininos. Mas se na escrita ficcional os textos de Clarice Lispector quebram estereótipos com sua ousadia - temática e estrutural -, suas colunas são bem mais conservadoras. Cuidar do lar, criar os filhos com zelo de educadora, além de não se descuidar da graciosidade e da aparência, eram temas recorrentes em suas colunas:

"(...) A mulher continua mulher, motivo de encantamento e inspiração para o homem, ideal de pureza e doçura para o filho, e deve proceder sempre como tal. Os homens adoram a mulher bem feminina. É só não confundir futilidade, denguice e falta de personalidade com feminilidade. Cabe a ela refrear o exagero, cuidar da harmonia e da delicadeza nos gestos, nas palavras, nas atitudes."[5]

A idealização do feminino obriga a mulher a dar conta de múltiplos papéis: deve marcar sua presença sem estardalhaço, com refinamento e feminilidade. Mas não deve ser fútil. Deve adequar-se às exigências da nova época, mas sem perder de vista que o homem não se interessa por mulheres "masculinizadas", o que também não combina com o papel de mãe devotada que a mulher deve exercer. A idealização da maternidade é, inclusive, outro tema presente nas colunas de Clarice:

"[Ser mãe] Não é apenas dar à luz uma criança. Não é sofrer as dores do parto e depois esquecer o fruto de suas entranhas, deixando-a entregue a si mesma. Uma verdadeira mulher e mãe sabe que seus deveres vão além de alimentar, enfeitar e agasalhar o seu filho. Antes de tudo, deve dar-lhe amor. Amor que é devoção, cuidado, orientação e, sobretudo, participação em seus problemas e dificuldades. Toda mãe deve conhecer o filho que trouxe ao mundo, e isso consegue chegando-se a ele, ouvindo-lhe as primeiras queixas e os primeiros desejos.(...)
Minha amiga, a primeira qualidade para uma mulher ser Mulher é saber ser Mãe. Não se descuide desse dever. Não seja o monstro responsável pelas futuras falhas de seu filho, deixando-o levianamente crescer longe dos seus olhos e de seus carinhos. "[6]

As mulheres devem ser interessantes, leitoras, devem desempenhar seu dever de mãe de modo abnegado, extremo. Não basta prover o sustento básico aos seus filhos. É preciso, mais do que tudo, ser devotada a eles, conhecê-los a fundo, sob pena de que eles se tornem maus cidadãos e mesmo se afastem da mãe pela ausência de vínculos amorosos. Interessante notar que a figura paterna passa ao largo de toda a discussão. Enquanto ser mulher e mãe são atributos que vêm grafados em letras maiúsculas, como ideais absolutos a serem perseguidos, não há questionamento sobre o papel do homem na educação dos filhos e mesmo nas atribuições do casal. Ao homem, ao que parece, basta que seja o provedor. Enquanto isso, a mulher gravita ao seu redor, promovendo uma casa que funcione de modo econômico, mantendo-se linda, sedutora e sendo uma educadora carinhosa e persistente dos filhos do casal[7].

A verdade é que, ainda hoje, o mito do "eterno feminino" convive entre nós, agora de modo mais apascentado, ao lado de discussões várias sobre o papel da mulher contemporânea. Em revistas destinadas às mulheres, é comum que matérias que se dedicam a discutir a educação dos filhos apareçam ao lado de testes que buscam mensurar o quanto a mulher se sente capaz de seduzir o homem, apesar de ser uma mulher forte e segura de si. Do mesmo modo, heroínas de filmes açucarados e de novelas de televisão aparecem repaginadas, com visual moderno, mas ainda persiste o ideal de uma mulher que se renda ao amor e faça dele o principal objetivo de sua vida.
É claro que as colunas de Clarice, como nos lembra Aparecida Nunes, na introdução do Correio feminino, "valendo-se dos ‘pequenos textos inofensivos' sobre o comer, o vestir, o enfeitar-se, instiga sua leitora a refletir sobre as duas realidades em que se estrutura a sociedade: o mundo das simulações e o da verdadeira natureza das coisas."[8] Por outro lado, esses textos expõem muito da etiqueta de comportamento da época e dos ideais de feminilidade com que Clarice compactuou em seus textos. Aliás, o que Clarice fez melhor em suas colunas foi captar a essência do que se esperava do feminino ou do que era idealizado para as mulheres urbanas da classe média brasileira nas décadas de 1950 e 1960 que podiam dispor de recursos e tempo para pôr em prática as dicas claricianas. Diferentemente da literatura de Clarice Lispector, em que a Joana, protagonista de Perto do coração selvagem, derruba mitos, questiona o casamento e finaliza o romance "a caminho", suas colunas femininas indicam um caminho conservador.
Essa tensão existente e persistente entre as visões mais conservadoras e mais inovadoras das representações do feminino, cuja visibilidade é alcançada definitivamente na década de 1940 nas letras brasileiras, foi retratada como subtexto no romance inicial de Rachel de Queiroz. O árduo caminho do questionamento dessa ideologia que destinava a mulher ao espaço da casa diferencia o regionalismo de Rachel, que aproxima as metáforas da terra e do seco às metáforas do feminino, da perda e da falta vividas por suas personagens mulheres. Assim como o flagelo da seca é cíclico, é cíclica no corpo da mulher a lembrança de seu corpo biológico, de sua disposição física para a maternidade. Nos romances de Rachel e, mais especialmente em O quinze, a não-maternidade assume a função de desvincular a mulher de seu estatuto biológico, traçar para ela um caminho individual. Fracasso e desilusão denunciam no romance as frustrações do feminino, mas não podem ser vistos como fracassos da construção do romance.
O tempo das mulheres vivido por Conceição é um tempo distendido em dois momentos - o das heranças transgeracionais com que ela tem que se haver e o tempo das libertações, que trazem consigo perdas e frustrações. Pierre Bourdieu[9] já apontou que as diferenças entre os sexos são criações culturais. A mulher é condicionada socialmente a conformar-se, enquanto o homem deve ousar, expandir fronteiras. Às meninas, na maioria das vezes, cabe ter modos, enquanto aos meninos cabe lançar moda. No sertão nordestino da década de 1930, o horizonte da mulher deveria ser o que se alcança da varanda; seus afazeres os trabalhos manuais. Conceição, no entanto, é professora, anda sozinha pelas ruas de Fortaleza, o que escandaliza Vicente. O resultado é o discurso incompleto que marca o romance de ambos, deslocados dos papéis pré-traçados para o feminino e o masculino. Assim, ao lado do espelhamento sertão/litoral, há no romance um espelhamento complementar entre masculino/feminino que Rachel de Queiroz utiliza para desvelar o que se esperava socialmente de homens e mulheres e propor um novo olhar, enviesado, para as relações que se estabelecem entre eles.
A incomunicabilidade amorosa, assim como a não-maternidade de Conceição ao final de O quinze, são simbólicas da nova mulher que se anunciava, rejeitando a maternidade como único viés de realização feminina. A personagem, que se entende como uma mulher inútil, seca e sem filhos, é fundamental para revelar mudanças de valores e de perspectivas. Assim, o fracasso da personagem é o sucesso da escritora, que revê através de Conceição um paradigma destinado ideologicamente às mulheres e a ela mesma.
Esse primeiro romance de Rachel de Queiroz, regional pela abordagem do tema da seca, revela uma autora de temas mais abrangentes e é responsável por construir o paradigma das personagens que atuarão em seus romances seguintes. Num romance em que a seca é personagem marcante, a discussão do feminino se impõe e ingressa o leitor no universo dos temas da autora: o feminino, o seco, a perda e a frustração.
Rachel de Queiroz é autora de uma literatura regional cujo foco se encontra na terra e nas mulheres de sua região, nos embates com que deparam. A literatura de Rachel se constrói, assim, pelas brechas possíveis entre a luta da nova mulher que busca se impor e a ideologia que tenta encerrar a mulher ao espaço da casa e dos afazeres domésticos, cíclicos como a ameaça da seca que paira sobre seus corpos.


 


Roberta Hernandes Alves Doutora em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo

Notas
 1 QUEIROZ, Rachel de. O quinze. Rio de Janeiro: José Olympio, 1980, 26 ed. p. 110-1.
 2 O conceito de "herança transgeracional" tem sido bastante discutido em obras de psicanalistas contemporâneas como Dóris Bernstein, Joyce McDougall e H.C. Halberstadt-Freud.
 3 BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo 1. Fatos e mitos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. Trad. Sérgio Milliet, p. 299 e segs.
 4 VASCONCELOS, Sandra. A formação do romance inglês. São Paulo: Aderaldo & Rothschild: Fapesp, 2007, p; 133.
 5  LISPECTOR, Clarice. "Gestos, palavras, atitudes", in: Correio feminino. Rio de Janeiro: Rocco, 2006. Org. Aparecida Maria Nunes, p. 30.
 6  LISPECTOR, Clarice. "Ser mãe...", op. cit., p. 33.
 7 Inúmeras são as colunas dedicadas à economia doméstica, cuidados com a beleza, educação dos filhos e modos de se portar para as mulheres - sempre de modo gracioso, contido e gentil. Não há, no entanto, nada comparável quando se trata de homens, a quem, basicamente, a mulher deve buscar agradar e importunar o mínimo possível.
  8"Clarice Lispector jornalista feminina", Aparecida Maria Nunes, in: Correio feminino, op. cit., p. 8.
  9 BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. 
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