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Home >> Revista Cultura Crítica >> 08, Romance Regionalista, 2º semestre de 2008 >> O Movimento Armorial de Ariano Suassuna

O Movimento Armorial de Ariano Suassuna

APROPUC-SP 11.05.09

Willis Santiago Guerra Filho

Em memória de Átila Brilhante (e muito) de Almeida,
glória da intelectualidade paraibana contemporânea,
e também para o Erson, pelos sessenta.

 

Ariano Suassuna é em geral conhecido como dramaturgo, autor de (ao menos) um clássico de nossa literatura, O auto da compadecida, muito competentemente transposto para as telas de cinema, que adiante comentaremos. Também é de se lembrar sua obra maior, como ele mesmo a considera, o Romance d´A Pedra do Reino. Menos conhecida, do público em geral, é sua longa carreira docente, desde o ensino (então denominado) primário, até aquele superior, na cadeira de Estética, da Universidade Federal de Pernambuco, que resultou em um também menos conhecido livro primoroso sobre o assunto, ofício que ainda exerce esporadicamente, em suas impagáveis aulas-show. Seu nome é associado ao Estado de Pernambuco, onde vive há muitos anos e onde é o atual secretário de cultura, e já desde os tempos do segundo Governo Arrais, mas seu estado de origem é a Paraíba, de onde teve de se ausentar, ainda criança, por força do assassinato político de seu pai, quando governador do Estado, representante de forças conservadoras agrárias, contra as quais se insurgia a juventude urbana, tendo entre suas filas aquele que, para Ariano, foi o "pai" do regionalismo literário brasileiro, com seu romance A Bagaceira: José Américo de Almeida. O episódio, ocorrido em 1930, no contexto revolucionário do período, quando contava três anos de idade, segundo o próprio Ariano, o teria marcado definitivamente, tanto que constantemente a ele se refere. "Zéamérico", por escrito, condenou o atentado, e manteve boas relações com Ariano, enquanto vivo. Sem pretender fazer nenhuma espécie de "psicanálise em extensão", aplicada à interpretação de nosso tema e nosso A., salta à vista o quanto há de tentativa de um resgate do que há de mais tradicional e sertanejo, logo, agrário, na proposta armorial suassuaniana, facilmente associável à figura do pai, morto, naquele momento em que o "minino" poderia estar desejando isso, inconscientemente, erguendo assim o adulto traumatizado uma bandeira, um totem rememorativo, em defesa da mitologia local, também universal, contra a modernidade alienadamente universalizante, mortífera. Depois, como o próprio Ariano relatou, em entrevista particular adiante referida, houve a influência também ambígua dos tios que o criaram: um, anti-clerical e admirador de Euclides da Cunha; o outro, monarquista, católico, sebastianista, como Antônio Conselheiro, imortalizado por Euclides n'Os Sertões.
Mas aqui, antes de mais nada, cabe fazer um alerta ao desavisado leitor, o mesmo que fez o próprio Ariano, ao iniciar seus comentários sobre a obra poética de um seu amigo, César Leal, no Diário de Pernambuco, em meados de 1962: "A vantagem de quem não é crítico e escreve, por acaso, alguma coisa sobre arte é a de não ser obrigado a manter aquela soberana e castrada compreensão que o crítico tem como situação própria..." Eis-me em idêntica situação, agora frente a Ariano e o (seu) Movimento Armorial.
Comecemos por esta palavra, "armorial", que na tela o computador teima em não reconhecer, grifando-a de vermelho, sinal de que não consta em seus registros, com o que Ariano se deleitaria. Armus, significando simplesmente "braço" (como arms, em inglês), ou mais restritamente, "ombro", é o étimo latino donde advém "armorial". Os bons dicionários, porém, a registram, como derivada de "armadura", que, por sua vez, tem como raiz aquela do latim clássico arma, donde decorreria, claro, a homônima de nossa última flor do lácio, assim como simplesmente ferramentas, utensílios em geral, e também armarium, que era não só um armário qualquer, mas também outros mais específicos, como os cofres e as bibliotecas, palavra que já não tem entre nós o sentido que teve antes, no latim vulgar, de local onde se guardam as armas, o "arsenal" ou armamentarium, como diriam, com sua proverbial precisão lingüística, os latinos clássicos. Ao mesmo tempo, enquanto se guardaram- ou se guardem ainda, a sete chaves - armas em casa, elas decerto ali ficariam em um armário. Mas voltando à nossa "armadura", a armatura, fazemos bem em lembrar com ela dos cavaleiros medievais, que as usavam, assim como consigo portavam suas armas, tendo isso tudo a ver com a proposta armorial, como veremos. E também tudo a ver tem o sentido, heráldico, adquirido como que por metonímia ou, mais precisamente, por metalepse (outra palavra não reconhecida pelo computador, mas que consta de um bom dicionário, claro, e vale a pena ir lá ver o que é), de "conjunto de emblemas simbólicos que distinguem uma família nobre de uma coletividade", como consta do Petit Robert, dicionário da língua francesa, do que podemos aproveitar, agora por metonomásia. Nosso Houaiss registra o substantivo como sendo um livro de registro de brasões da nobreza, sendo o adjetivo o que for a esses e à heráldica relativo. Inexplicavelmente, porém, não registrar (ainda) o sentido em que o empregou Ariano, quando definiu o (seu) Movimento Armorial, na Revista Pernambucana de Desenvolvimento, em 1977: "Em nosso idioma, ‘armorial' é sempre substantivo. Passei a empregá-lo também como adjetivo. Primeiro, porque é um belo nome. Depois, porque é ligado aos esmaltes da Heráldica, limpos, nítidos, pintados sobre metal ou, por outro lado, esculpidos em pedra, com animais fabulosos, cercados por folhagens, sóis, luas e estrelas. Foi aí que, meio sério meio brincando", como é bem do seu feitio, vale já dizer, remetendo à descrição feita da figura de Ariano ao final, para aqueles que não tiveram o supremo prazer de conhecê-lo, "comecei a dizer que tal poema ou tal estandarte da Cavalhada era ‘armorial', isto é, brilhava em esmaltes puros, festivos, nítidos, metálicos e coloridos, como uma bandeira, um brasão ou um toque de clarim. Lembrei-me, aí, também das pedras armoriais, dos portões e frontadas do Barroco brasileiro, e passei a estender o nome à Escultura com a qual sonhava para o Nordeste. Descobri ainda para qualificar os ‘cantares' do Romanceiro, os toques de viola e rabeca dos cantadores - toques ásperos, arcaicos, acerados como gumes de faca-de-ponta, lembrando o clavicórdio e a viola de arco de nossa Música barroca de século XVIII". Pronto, eis aí os elementos fundamentais postos à mesa: superação da dicotomia entre cultura erudita e cultura popular, evocação das origens medievais de nossa cultura, preservada nessa saudosa nostalgia contra-reformista que foi - e é - o nosso barroquismo, cultura da armadura transformada em couro, da espada transformada em peixeira, do cavaleiro, solitário, transformado em cangaceiro, em "bandido", excluído; a atonalidade da música medieval, mantida em nosso sertão imemorial, assim como os trovadores e o cancioneiro, com esses mesmos nomes, inclusive, sem esquecer do romanço (outra para ver no dicionário - êta programa ignorante da gota serena), preservado na literatura de cordel, nosso romanceiro popular nordestino, que até em seu suporte material remete à origem medieval, com as xilogravuras que ilustram suas capas.
Em entrevista concedida a nossa amiga e conterrânea Cláudia Leitão, quando da preparação da tese que defendeu sobre a ética armorial como manifestação da pós-modernidade, na Sorbonne, sob a orientação de Michel Maffesoli (no sentido de quem se deve entender compreensão de ética na pós-modernidade), Ariano acrescenta, sobre sua concepção, já mais recentemente, nos seguintes termos: "(...) a arte armorial é uma recriação, é busca de suas origens de sua pureza original embora transcenda essas mesmas origens. Seja na tapeçaria, na escultura, na pintura, no teatro, na literatura, na música, em quaisquer de suas manifestações a arte armorial está embebida de um espírito dionisíaco, do gosto da festa, de comunhão..."
Então, pode ser vista como armorial uma festa popular, como aquela estudada por Cláudia em sua tese, a dos Caretas, na cidade de Jardim, no Vale do Cariri, encravado entre o Ceará, onde se situam geopoliticamente, a Paraíba e Pernambuco, para onde se volta, espiritualmente, capitania originária de todos esses estados, surgidos de seu esquartejamento para arrefecer- lhe, debalde, a inata rebeldia, mantida em cada uma de suas partes, às vezes com até maior bravura, bastando lembrar aqui o mais notório, mas longe de ser único, exemplo de Canudos. Cláudia quer também aproximar etimologicamente armis de alma, por ser o inerme, sem armas, também inanimado, sem alma, para reforçar o modo comunitário de se relacionar com o mundo pelo caráter imagético das criações artísticas e, em geral, culturais de proveniência sertaneja, tal como ressalta o movimento armorial, e vai, para isso, associar a forma, armis, com um conteúdo, que é sua alma, reaproximando o que foi cindindo na modernidade. Aqui nos ocorre Maffeo Vegio (1407-1458), em sua célebre tentativa de continuar a Eneida de Virgílio, ao compor o Suplementum, que seria o Livro XIII, em cujo 274º hexâmetro - a sextilha que também é usada nos cordéis - refere-se a quem "nasceu onde brilha a forma" (Nate, ubi forma nitens), a Grécia ensolarada como o nosso Nordeste, onde é comum nos referirmos à forma, nesse sentido, como formosura, e no 279º verso "eis que morre inutilmente pelo braço armado da vingança" (Heu mortem inuisam, quae sola ultricibus armis). Já os entalhes de madeira com que em 1502 Sebastian Brantare ilustrou a obra de Maffeo são claramente o que em nosso País, então recentemente "descoberto", vai se tornar a xilogravura, sendo ambas reminiscências das iluminuras, os desenhos que adornavam os livros na Idade Média.
A obra em cerâmica de Francisco Brennand é armorial, assim como a do gravurista Gilvan Samico, aquém se refere Ariano no texto anteriormente citado, pois "(...) desse mundo estranho e belo do Romanceiro e das capas dos ‘folhetos' nordestinos é que brota a gravura de Gilvan Samico. É nesse mundo que ele mergulha, procurando um reencontro com as raízes do seu sangue, e de onde regressa com seus ‘pássaros de fogo', seus ‘dragões'(...)", essa fauna fantástica do imaginário sertanejo, em sua riqueza anárquica e, espontaneamente, surreal, mágico-realista, mais próxima do que Ariano dionisiacamente chama de "fecundo caos original".
Em 1970, no plano da música, Ariano formou o Quinteto Armorial, com um violino, uma viola, duas flautas e percussão, esperando que músicos de formação erudita e com os instrumentos eruditos pudessem captar o que ele, talvez por lhe faltar formação musical, pudera perceber de riqueza no sincretismo indígena e mourisco-ibérico com o canto gregoriano jesuítico, num barroco nosso, mais próximo da Idade Média e da Renascença que o europeu, ecoando na rabeca, nos pífanos e na zabumba dos rincões sertanejos. O Quinteto chegou a virar Orquestra, mas aí desagradou o criador, pelo excesso de sofisticação, e ele partiu para a criação da Orquestra Romançal, para preservar o espírito sertanejo, pela utilização de instrumentos e repertório populares. Ariano, em aulas na então Faculdade de Filosofia do Recife, em relação à arquitetura, já advertia seus alunos do quanto havia de nefasto em um modernismo importado, de formas frias e iguais, tanto para o prédio público, como para aqueles residenciais, quando temos um manancial popular de formas pujantes, tais como aquelas que se destacam em nossas festas populares, que melhor cairiam às fachadas dos prédios ao povo destinados, assim como temos também, tradicionalmente, um modo de construção acolhedor e tranqüilo para as moradas particulares. Elomar, abandonando a arquitetura para viver lá para os lados de onde nasceu Glauber Rocha, em Vitória da Conquista (Bahia), nas barrancas do Rio São Francisco, criando suas cabras, um armentarius com o seu armentum, como se diria em latim, capta como ninguém, com sua viola, no tom e no linguajar de seu cancioneiro, os ecos armoriais, imemoriais.
Aliás, a obra cinematográfica de reconhecimento mundial de Glauber Rocha, sobretudo Deus e o Diabo na Terra do Sol (1963-1964) e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969), pode ser vista como marcada pela filosofia armorial, mesmo que não tenha havido contato direto entre o baiano-carioca e o paraibano-pernambucano.
A estética armorial andou se espalhando de novo, recentemente pelas telas de cinema e mesmo da TV, vindo já de experiências cenográficas teatrais antecedentes, tendo como pivô o filho de Miguel Arraes, Guel Arraes, Miguel Arraes Filho. No cinema, além do já referido Auto da Compadecida de 2000, pode-se mencionar, de sua filmografia, pela forte presença armorial, Lisbela e o Prisioneiro, de 2003, que conta ainda com a trilha sonora de uma jovem banda armorial, como já indica seu próprio nome, formada em 1997, no ambiente teatral: o Cordel do Pássaro de Fogo. Na TV, a minissérie Capitu teria recorrido à exuberância de cores e ao brilho armorial, embora não me pareça que ficou bem esse enxerto no por demais urbano e intimista universo machadiano.
Entre as experiências artísticas recentes mais bem-sucedidas, a demonstrar a vitalidade do armorialismo, em uma perfeita interpretação da imagem armorial do cavaleiro medieval em sua transfiguração no sertão, está uma obra em quadrinhos, Lampião & Lancelot, de Fernando Vilela (publicada em 2006 pela editora Cosac Naify), que teve tanto o seu texto como as ilustrações premiadas, nacional e internacionalmente. Como ressalta, em sua apresentação da obra, Bráulio Tavares, sua inspiração fundamental vem da xilogravura, onde duas matrizes de madeira produzem cores diferentes sobre a mesma imagem, cores em tons de cobre e de prata destacam os detalhes a riqueza da indumentária do cangaceiro e do cavaleiro medieval, respectivamente, com suas vestes que são também armas, armaduras, armoriais.
Para descrever o modo de ser de Ariano, por fim, em quem se encontra encarnada a armorialidade, tomo de empréstimo as palavras de seu amigo dos primeiros tempos do Recife, o também dramaturgo Hermírio Borba Filho:
"Magro e alto, de uma coerência extremada, radical em suas opiniões, é preciso vê-lo numa discussão com seus amigos (porque, com seus inimigos, basta ler seus artigos): zombeteiro, argumentador, desnorteante, irreverente. Vive, com a maior convicção, o preceito de Unamuno de que o artista espalha contradições. É capaz de destruir o argumento mais sério com uma piada ou sair-se de um problema metafísico dos mais angustiantes numa conversa ligeira. Tem horror aos aparelhos modernos enceradeira, vitrola, televisão, rádio, telefones, considerando-os coisas do demônio. Gostaria de crer em Deus como as crianças crêem, mas crê com angústia, fervor e perguntas. Não vai a reuniões oficiais, coquetéis, espetáculos, mas amanhece o dia num bate-papo ou ouvindo repentistas. Tem pavor de avião e se martiriza com uma alergia que lhe dá comichões no nariz. Seu caráter é ouro de lei, e, embora o negue, esforça-se para amar os inimigos, como manda o evangelho... A arte e religião são por ele encaradas de maneira fundamental".


Bibliografia

SUASSUNA, Ariano. Almanaque Armorial. Seleção, organização e prefácio Carlos Newton Júnior, Rio de Janeiro: José Olympio, 2008.
LEITÃO, Cláudia Sousa. Por uma Ética da Estética: Uma Reflexão acerca da "Ética Armorial" Nordestina, Fortaleza: Universidade Estadual do Ceará, 1997.


Willis Santiago Guerra Filho Professor de Filosofia do Direito da PUC-SP e diretor da APROPUC

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