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Home >> Revista Cultura Crítica >> 08, Romance Regionalista, 2º semestre de 2008 >> Ressonâncias do regionalismo brasileiro na literatura de Cabo Verde

Ressonâncias do regionalismo brasileiro na literatura de Cabo Verde

APROPUC-SP 11.05.09


Vima Lia Martin

Narrar a necessidade é perfazer a forma do ciclo.
Alfredo Bosi

No período entre-guerras, surge, no panorama da cultura ocidental, um realismo renovado que busca responder às tensões originadas numa desorganização econômica e social que se potencializa com a crise de 1929. Esse novo impulso realista, objetivado no cinema italiano em produções como Roma, cidade aberta e Ladrões de bicicleta, por exemplo, traduz-se numa tomada de posição diante da realidade, que é vista como fruto de processos históricos passíveis de serem problematizados pela ficção.
Na década de 1930, a ficção de escritores norte-americanos como Hemingway, Falkner, Steinbeck, entre outros, de ênfase social e comprometida com aspirações populares, influencia as literaturas latino-americanas e, inclusive, as européias. No interior do macrossistema literário de língua portuguesa - campo comum de contatos entre os sistemas nacionais - o período foi de intenso diálogo cultural, com a publicação de inúmeras obras que aliaram preocupação estética e denúncia político-social. E, importa dizer, o vetor da circulação cultural orientou-se basicamente do Brasil para Portugal e para os países africanos de língua oficial portuguesa. Nossos autores regionalistas foram lidos e discutidos por autores portugueses como Alves Redol, Carlos de Oliveira e Manuel Fonseca, por exemplo, e por uma série de autores africanos empenhados na emancipação de suas literaturas.

O regionalismo brasileiro e a "consciência catastrófica do atraso"

Nos anos 1930, consolida-se o que poderíamos chamar de um "novo sistema cultural" no Brasil. Mediante uma acentuada politização de nossos intelectuais e escritores em diálogo com as ideologias que atuavam na Europa e se espraiavam para quase todo o mundo - notadamente o comunismo e o fascismo - intensificam-se os estudos históricos, sociológicos e antropológicos sobre o país e, a partir deles, surge um olhar renovado sobre a realidade nacional.
Os novos estudos sociais que, sob a inspiração de Gilberto Freyre, começam a assumir feição mais sistemática, repercutem diretamente na elaboração de uma ficção regionalista centrada no Nordeste do país, que rompe, de modo contundente, com uma certa tradição idealista na apreensão da realidade, desenvolvida desde o Romantismo.
Assim, em vez de expressar a "consciência amena do atraso", atitude típica do realismo pitoresco que compensava o atraso material e a debilidade de nossas instituições através da supervalorização dos aspectos regionais, esse novo regionalismo problemático deixa de lado o exotismo e passa a expressar a "consciência catastrófica do atraso", correspondente à noção de "país subdesenvolvido" (Candido, 1989). Nesse sentido, o homem pobre do campo não é mais apreendido literariamente como objeto, mas como sujeito histórico passível de desalienação.
O romance de estréia de José Américo de Almeida, A Bagaceira (1928), é o marco da literatura social nordestina. Em sua esteira, escritores como Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Jorge Amado foram porta-vozes dessa nova perspectiva crítica. Seus romances, que evidenciam os anseios e os limites de grupos socialmente marginalizados e expõem, em maior ou menor grau, a tensão entre os protagonistas e as pressões da natureza e do meio social, vão repercutir, como já apontamos, em todo o universo literário de língua portuguesa, especialmente nos países africanos colonizados por Portugal, que estavam a consolidar suas literaturas. Nas palavras de Rita Chaves:

"A atração pelo Brasil manifesta-se em muitos planos, e a literatura exerce um papel fundamental. Destacam-se como alvo de interesse as obras de Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Érico Veríssimo e principalmente Jorge Amado. Por caminhos complicados, para fugir ao cerco da censura, os livros desses autores atravessavam os mares e eram, no depoimento de muitos dos escritores africanos, devorados com grande ansiedade" (Chaves, 2005, p.268).


O romance caboverdiano: da consciência regional à literatura nacional

Em Cabo Verde, a existência de variadas instituições culturais, desde meados do século XIX, favoreceu a emergência de uma consciência nativista relativamente precoce entre os habitantes das ilhas. Por isso, uma literatura voltada para a discussão das especificidades culturais caboverdianas surge mais cedo em comparação com as outras ex-colônias portuguesas, sendo que o grupo que se formou em torno da revista Claridade (1936) pode ser identificado como o precursor do sistema literário caboverdiano.
De fato, a poesia e a prosa concebidas pelos escritores denominados "claridosos" revelam uma tomada de consciência nacional nítida, que antecede uma declarada posição anticolonial. Dois autores emergem como fundadores da prosa de ficção caboverdiana: Manuel Lopes e Baltazar Lopes. Também a obra ficcional de Manuel Ferreira, português identificado com a problemática caboverdiana, contribuirá para o desenvolvimento da literatura do arquipélago, de viés crítico e sintonizada com uma proposta de transformação social.
Nesse contexto, o romance social nordestino foi decisivo para o despertar da consciência regional entre os escritores caboverdianos. Nas palavras do próprio Baltazar Lopes:

"Ora aconteceu que por aquelas alturas [anos 30] nos caíram nas mãos fraternalmente juntas, em sistema de empréstimo, alguns livros que considerávamos essenciais pro domo nostra. Na ficção, o José Lins do Rego do Menino de engenho e do Banguê, o Jorge Amado do Jubiabá e do Mar morto" (Ferreira, s.d, p. 152).

Naquela altura, a literatura regionalista brasileira foi ao encontro das demandas dos autores que buscavam afirmar a chamada "caboverdianidade". E a similaridade climática existente entre o nordeste brasileiro a as ilhas de Cabo Verde - espaços marcados por longas estiagens - favoreceu ainda mais a recepção das obras brasileiras no contexto africano.

Espaço e linguagem em narrativas de ênfase social

Faremos aqui algumas observações sobre dois romances - um brasileiro e um caboverdiano - que apresentam projetos estético-ideológicos que podem ser aproximados. Trata-se de Vidas secas, de Graciliano Ramos (1938), e Os flagelados do vento leste, de Manuel Lopes (1959), escrito cerca de vinte anos depois do romance brasileiro. A leitura comparada de ambas as obras permite o estabelecimento de vários paralelos textuais, graças às similaridades contextuais que envolviam os dois escritores.
Nas duas narrativas, a força dominadora da paisagem é apresentada de modo determinante desde o início de suas páginas, num conjunto de situações que realçam as inter-relações entre as personagens e o espaço. Comparem-se, nesse sentido, os parágrafos que inauguram os dois romances:

"Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala." (Vidas secas, p. 9)

"Agosto chegou ao fim. Setembro entrou feio, seco de águas; o sol peneirando chispas num céu cor de cinza; a luminosidade tão intensa que trespassava as montanhas, descoloria-as, fundia-as na atmosfera espessa e vibrante. Os homens espiavam, de cabeça erguida, interrogavam-se em silêncio. Com ansiedade, jogavam os seus pensamentos, como pedras das fundas, para o alto. Nem um fiapo de nuvem pairava nos espaços. (...)" (Os flagelados do vento leste, p. 11)

Nos dois casos, o drama da seca é anunciado como fator que gera a grande privação das personagens miseráveis. E o imaginário da terra é esboçado, principalmente, a partir da perspectiva dos que dela dependem para sobreviver. Nos romances de Graciliano Ramos e de Manuel Lopes, a variação do clima interfere diretamente no estado de ânimo das personagens, determinando sentimentos de preocupação e esperança, conforme sua oscilação.
Mas note-se que, em Vidas secas, a perspectiva crítica do autor acaba por responsabilizar a estrutura social e não as adversidades climáticas pela miséria humana. O romance, assim, foge de uma visão simplista, positivista, que poderia levar à cristalização da idéia de que os homens estão irremediavelmente subjugados pelo espaço físico.
Essa consciência aguda dos mecanismos da exploração capitalista, tão bem trabalhada no romance brasileiro, é muito menos perceptível no romance caboverdiano. Embora a exploração humana, característica do sistema colonial, se deixe entrever, por exemplo, na completa falta de infra-estrutura em que vivem as famílias da Ilha de Santo Antão, o drama dos caboverdianos é apresentado pelo narrador quase como uma fatalidade.
Em termos de linguagem, observamos uma grande adesão dos dois escritores aos códigos sociais que lhe servem de referência. Assim, a linguagem utilizada para exprimir as tensões entre as personagens e as pressões do meio físico e social é, em certa medida, tributária das rupturas do primeiro modernismo brasileiro, já que incorpora livremente aspectos da linguagem oral e regionalismos lexicais e sintáticos. Note-se ainda que a objetividade do discurso dos narradores e a coloquialidade do discurso das personagens são estratégias para atingir um público mais amplo - o leitor médio -, dado o comprometimento social que anima as duas narrativas.
Em Vidas secas, merece destaque a linguagem utilizada por Fabiano e sua família. Monossilábica, quase gutural, a fala das personagens acaba por ser um limite para sua própria socialização. Sentindo-se ora como bichos, ora como homens, os pobres são oprimidos principalmente por quem detém a cultura letrada. Mas, como bem apontou Alfredo Bosi, "o que dá alcance revolucionário à sua visão [de Graciliano Ramos], que poderia passar por ilustrada e progressista apenas, é a desconfiança alerta que alimenta também em relação ao discurso do "civilizado". Se a voz do iletrado é pobre e partida, a do letrado é oca, se não perigosa." (Bosi, 1988, p. 14)
Nesse sentido, a concepção de sociedade que emerge da obra de Graciliano Ramos faz com que as formulações discursivas sejam apreendidas de maneira dialética, o que certamente amplia as ambigüidades do discurso letrado. Trata-se de uma estratégia que favorece o desmascaramento das injustiças que regem as relações sociais no sertão brasileiro.
Já a linguagem utilizada em Os flagelados do vento leste, bastante fluida, singulariza-se por tentar representar, da forma mais espontânea possível, a fala das personagens. Rico em diálogos, o romance se vale de muitas onomatopéias e de farta pontuação para simular uma dicção coloquial:

"- Também sinto a boca do estômago a doer - continuou a viúva num tom de lamúria - como se eu tivesse engolido uma brasa de lume, ui!
(...)
- Abrenúncio, mulher! O quê qu'ocê tá contando?!" (Os flagelados do vento leste, p. 106-7)

Vale notar que a fixação literária de uma fala caboverdianizada encontra-se melhor constituída em outros romances da época, como, por exemplo, em A hora de bai, de Manuel Ferreira (1962). O próprio título dessa narrativa faz referência direta a uma das mornas mais tradicionais de Cabo Verde, "Morna de despedida", do poeta Eugênio Tavares, cujo primeiro verso é justamente "hora de bai", que significa "hora da partida". No romance de Ferreira, o português-padrão, o português oralizado e o crioulo - a língua nacional caboverdiana - coexistem tanto no discurso do narrador como na fala das personagens. Desse modo, as raízes crioulas do povo caboverdiano ganham estatuto artístico e acabam por dinamizar, de um modo mais orgânico, o sistema literário nacional que estava em formação.
Por fim, é importante assinalar que tanto Vidas secas como Os flagelados do vento leste são romances que apresentam um caráter cíclico. Ao comentar o modo de construção do romance de Graciliano, Alfredo Bosi afirma que "narrar a necessidade é perfazer a forma do ciclo". De fato, a narração do cotidiano dos pobres enfocados em Vidas secas e, acrescentaríamos, na narrativa de Manuel Lopes, dá-se sob o signo irremediável do desencanto e da angústia. Na parte final das histórias, o que observamos, seja na fuga da família de Fabiano pra o "sul" (ainda que esta seja pontuada pelos sonhos de sinhá Vitória e do vaqueiro), seja na fuga dos caboverdianos pelas estradas estéreis da ilha, é a afirmação de uma perspectiva de cunho determinista, que sugere a continuidade do sofrimento e da penúria vivida pelas personagens.
No romance brasileiro e no romance caboverdiano, a representação enfática do espaço físico adverso e a recriação de uma linguagem de caráter referencial são estratégias narrativas que, ao conferirem uma identidade singular aos grupos humanos focalizados, alcançam problematizar a sua situação. O destino ainda hoje incerto desses homens, mulheres e crianças socialmente marginalizados ecoa nos versos engajados de outro escritor caboverdiano, Ovídio Martins (1974):

Nós somos os flagelados do vento-leste!

A nosso favor
não houve campanhas de solidariedade
não se abriram os lares para nos abrigar
e não houve braços estendidos fraternalmente
para nós
Somos os flagelados do vento-leste!

O mar transmitiu-nos a sua perseverança
Aprendemos com o vento a bailar na desgraça
As cabras ensinaram-nos a comer pedras
Para não perecermos

Somos os flagelados do vento-leste!

Morremos e ressuscitamos todos os anos
para desespero dos que nos impedem
a caminhada
Teimosamente continuamos de pé
num desafio aos deuses e aos homens
E as estiagens já não nos metem medo
porque descobrimos a origem das coisas
(quando pudermos!...)

Somos os flagelados do vento-leste!

Os homens esqueceram-se de nos chamar irmãos
E as vozes solidárias que temos sempre
escutado
São apenas
as vozes do mar
que nos salgou o sangue
as vozes do vento
que nos entranhou o ritmo do equilíbrio
e as vozes das nossas montanhas
estranha e silenciosamente musicais

Nós somos os flagelados do vento-leste!


Bibliografia
ABDALA, Jr., Benjamin. Literatura, história e política. Cotia, SP: Ateliê, 2007.
BOSI, Alfredo. Céu, inferno. São Paulo: Ática, 1988.
CANDIDO, Antonio. A educação pela noite e outros ensaios. São Paulo: Ática, 1989.
CHAVES. Rita. Angola e Moçambique. Experiência colonial e territórios literários. Cotia, SP: Ateliê, 2005.
FERREIRA, Manuel. O discurso no percurso africano. Lisboa: Plátano, s.d.
GOMES, Simone Caputo. Cabo Verde. Literatura em chão de cultura. Cotia, SP: Ateliê, 2008.
HAMILTON, Russell. Literatura africana. Literatura necessária II. Lisboa: Edições 70, 1984.
LOPES, Manuel. Os flagelados do vento leste. São Paulo: Círculo do Livro, s.d.
MEDINA, Cremilda. Sonha mamana África. São Paulo: Epopéia, 1987.
RAMOS, Graciliano. Vidas secas. Rio de Janeiro: Record, 1999.

Vima Lia Martin é Professora da USP
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