Regionalismo e romance de 30
Luís Bueno
Vamos imaginar um romance publicado em 1930 cuja ação se passa uma década e meia antes. Sua protagonista é uma moça com um pouco mais de vinte anos que vive na capital de um estado brasileiro, onde trabalha como professora. Ao mesmo tempo em que deseja casar-se e ter filhos, preocupa-se com a condição da mulher e com outros papéis que quer desempenhar além dos de mãe e esposa. Ela leva essa sua preocupação tão longe que termina por não se casar, apesar de um rapaz, por quem se sente atraída há muito tempo, propor-lhe casamento.
Imaginemos um outro romance, este publicado em 1932. Seu protagonista é um rapaz tranqüilo e trabalhador que, bêbado, num momento impensado, mata uma pessoa. É preso na hora. Quando chega à cadeia, alguém pergunta quem é o criminoso e ele, ao se ver apontado, não se reconhece: em princípio não aceita e, em seguida, lembra-se confusamente do que aconteceu, tem certeza de que matou e fica obcecado com sua própria identidade, perguntando-se se um único ato mudaria toda sua natureza. Depois a rotina da cadeia: o tédio, a sujeira, a comida ruim. E o processo, a luta para sair da cadeia. Por fim o contraste entre a paralisação da vida do preso e a dinâmica da vida lá fora, o que leva a namorada a trocá-lo por um dos soldados que o prendera.
Descritos assim, dificilmente esses romances seriam considerados regionalistas. Afinal de contas, as mudanças na condição feminina são uma das marcas mais evidentes das transformações acontecidas no início do século XX, marcas mesmo da modernização das relações sociais em todo o mundo ocidental. E o que haveria de regional numa pessoa que tem que entender sua própria identidade em face de um único e radical ato criminoso e de sua experiência na cadeia? Em termos amplos, não é isso que faz o Raskolnikoff, de Crime e castigo?
No entanto, quando ficamos sabendo que esses são os entrechos dos dois primeiros romances de Rachel de Queiroz, O quinze e João Miguel, que a capital referida no primeiro é Fortaleza, que a ação do segundo se passa no interior do Ceará; quando pensamos que uma das ações paralelas à trama principal do primeiro é a de uma família de retirantes das relações daquela professora e que, no segundo, o destino do preso depende de uma justiça marcada pelo tipo de poder específico dos coronéis, tudo muda, e a idéia de que se trata de romances regionalistas, como em geral as histórias literárias brasileiras os definem, pode parecer bem razoável. Afinal, a década de 1930 não é a do romance regionalista?
Seja qual for a posição do leitor que, desarmado de preconceitos, faça a leitura de O quinze e de João Miguel, é preciso admitir que, no mínimo, o enquadramento da produção de Rachel de Queiroz no campo estrito dos regionalistas é precário. Mas não é só ela. Outro pilar do regionalismo no romance de 30 é José Lins do Rego. Seu primeiro romance, Menino de engenho, é muitas vezes visto como uma espécie de descrição da vida num engenho de cana no tempo de decadência desse tipo de propriedade rural nordestina. Mas também é verdade que não se trata de simples descrição. É muito mais uma visão do engenho filtrada por um menino solitário que, marcado desde a primeira infância pela perda - a morte da mãe e a prisão do pai -, vai projetar sua melancolia nessa outra perda, a perda de um modo de vida mais amplo. E o que filtra o engenho que chega ao leitor é esse olhar subjetivo de alguém que vive um problemático momento histórico de transição, profundamente assumido, a ponto de deixar escapar julgamentos pouco confessáveis como algo absolutamente natural.
É verdade que há uma longa tradição de enganos a legitimar a leitura de que o elemento regionalista define essas obras. Lembre-se que, ainda em 1930, ao resenhar O quinze, Tristão de Athayde irritou-se com a importância que a professora, Conceição, tinha no romance. Pareceu ao mais influente crítico brasileiro daqueles tempos que era excessiva a presença de Conceição e arrogante o contraste que ela desenhava com a religiosidade da avó, representante de outra geração de mulheres. E, principalmente, que faltava a seca. Para ele, o centro do livro tinha que ser a retirada da família de Chico Bento. Esse julgamento, que não se acanha em determinar o que aquela obra deveria ser, só faz sentido porque o crítico, já de antemão, enquadrou o livro numa categoria, a do romance de seca, interpretando o desvio em relação ao modelo como um defeito. Mais flexível que ele foi Agripino Grieco, que viu nesse desvio uma novidade numa tradição já velha e sem vitalidade.
Para pensar a relação entre regionalismo e romance de 30, expressões muitas vezes consideradas sinônimas, é preciso agir um pouco como Grieco e procurar o peso específico, numa determinada obra, do dado local - a seca, a paisagem, o mandonismo ou o pago, a fronteira, o caudilhismo - antes de simplesmente classificá-la como regionalista em sentido estrito. Afinal de contas, toda ação de romance se passa em algum lugar, e todo lugar tem suas especificidades. Muita gente teria dificuldade em caracterizar um romance passado numa grande cidade como regionalista. Mas essa recusa não precisaria ser superada caso o interesse central ali fosse a figuração da vida de um grupo ou de um bairro específico? A leitura só tem a ganhar se for capaz de munir-se de um pensamento dinâmico e sem recalques que não a conduzam a uma outra forma de provincianismo: aquela que assume uma necessária universalidade e riqueza da vida nos países centrais ou nas regiões mais desenvolvidas de um país, e um necessário estreitamento da vida de países ou regiões periféricas, cujo interesse recairia primordialmente em seus aspectos "diferentes" ou "estranhos".
Definitivamente, não foi isso que o romance de 30 em seu conjunto fez. É claro que houve, sim, obras que se deixaram absorver pelo ambiente, de tal forma que esse ambiente acaba saltando para o primeiro plano, quase sem mediação nenhuma. Mas foram escritas por autores que, a despeito de algum reconhecimento fugaz, não conseguiram se firmar, mesmo em seu tempo. Esse é o caso, por exemplo, do escritor baiano Clóvis Amorim, que em 1934 publicou um romance muito elogiado por críticos da esquerda, chamado Alambique. Elogiado, é claro, porque no contexto daquela disputa entre dois pólos ideológicos, sempre se elogia aquele que se coloca do lado que interessa ao crítico. Mas, de forma geral, esse comportamento serviu apenas para congelar obras e autores em compartimentos-padrão, o que resulta num empobrecimento da avaliação que se faz dos autores do período e de sua contribuição para a renovação e consolidação do romance brasileiro.
Para reforçar o argumento, seria bastante interessante fazermos também o raciocínio inverso. Como se sabe, ao lado do romance regional e social, os anos 1930 foram marcados por uma outra tendência, a do chamado romance intimista, que tem como principais representantes escritores como José Geraldo Vieira, Lucio Cardoso, Cornélio Penna e Octávio de Faria. Naqueles anos, que assistiram à afirmação da União Soviética e, ao mesmo tempo, à ascensão do nazi-fascismo, tudo isso num país recentemente agitado por uma revolução liberal que resultaria numa ditadura de clara inclinação à direita, o clima era de polarização ideológica. Como é natural, a tendência era a de pensar sempre em termos de oposição. Os escritores ditos intimistas eram, então, de maneira geral, considerados alheios aos problemas locais, brasileiros, absortos que estavam por sua ânsia de espiritualidade - num movimento análogo, mas de sentido inverso, ao que se apontou aqui em relação aos ditos regionalistas.
O primeiro romance de Lucio Cardoso, Maleita, publicado em 1935, foi lido como regionalista simplesmente porque sua ação se passava numa região ainda selvagem, por assim dizer, no norte de Minas Gerais. O segundo gerou algum mal-entendido. Afinal, retratava a vida de gente pobre do morro do Salgueiro, o que era matéria dos romances sociais, mas seu protagonista, Geraldo, empreendia uma busca que não era de caráter material, mas espiritual, do Deus verdadeiro em contraposição ao Deus mau e vingativo do catolicismo tradicional que dominava o morro. Mas essa equação não se restringiu ao morro do Salgueiro.
A partir de Luz no subsolo, de 1936, Lucio Cardoso aprofundou sua visão de que o romance deve tratar do que haveria de mais universal e profundo no homem: sua consciência. Mas como ele faria esse mergulho no eu? Por meio da perscrutação obsessiva dos pensamentos e conflitos de personagens que vivam nas pequenas cidades de Minas Gerais. O ambiente sufocante até pela presença física das montanhas, contraparte, digamos, geográfica dos valores morais dominantes naquele ambiente, é o típico da província, inviável para aqueles que querem ou tentam uma vida além dos limites estritos ali aceitos. Cidades em que não é possível ao indivíduo se esconder.
É nesse ambiente que ele localizará sua obra da maturidade, Crônica da casa assassinada, um romance exemplar do uso da mentalidade de um local - uma região - na constituição de formas complexas de relacionamentos e vivência interior. Não seria o caso de, desimpedidos, percebermos que o anseio de universalidade da literatura de Lucio Cardoso parte do chão concreto da realidade brasileira? Não haveria, a contrapelo do que o próprio escritor imaginasse, algo de local em sua obra?
Mais significativa ainda é a obra de Cornélio Penna. De todos os escritores do período, talvez ele tenha sido aquele que mais fugiu do modelo realista. Desde seu primeiro livro, suas tramas trazem algo de fantasmagórico, como se as pessoas que vivessem em uma determinada casa permanecessem de alguma maneira lá mesmo depois de ausentes. O passado pesa sobre elas ainda que elas desconheçam esse passado, mesmo que ele seja tão distante que nem tenha deixado registros concretos. As gavetas dos móveis, em Fronteira, publicado em 1935, mesmo vazias, guardam mistérios que vêm do que já esteve nelas.
Apesar desse desvio em relação ao realismo em geral esperado numa obra desse tipo, nenhum outro escritor dos anos 1930 - nem mesmo o próprio José Lins do Rego - plasmou um tipo mais profundo de ligação com a terra, de telurismo, do que Cornélio Penna. Também a pequena cidade de Minas Gerais - com sua história, a tirania de suas tradições, sua religiosidade restrita - molda os modos dos homens, que mergulham numa introspecção radical. Não é à toa que seu último romance, A menina morta, escrito somente nos anos 1950, seja uma obra-prima de interpretação do Brasil, especificamente do legado da escravidão, consubstanciada numa linguagem evasiva, numa estrutura fragmentária e numa visão despreocupada de registrar o dado realista - mas em contrapartida registrando-o naquilo que é mais forte: o imaginário.
Dito isso, já é possível tratar do mais importante romancista de 30, Graciliano Ramos. Ele ficou de fora da discussão até aqui porque construiu uma obra que é o ponto de chegada daquilo que se quer demonstrar. Como ela evidentemente se nutre do local, mas não pode ser lida como manifestação de um regionalismo estreito, é comum ser evocada no início da discussão sobre o regionalismo dos anos 1930, mas muito mais no sentido de confirmar a velha opinião estandardizada, no papel da exceção genial que confirma a regra. A obra de Graciliano Ramos - e isso vale para qualquer um dos seus quatro romances, mesmo Caetés - sintetizou mais profundamente do que qualquer outra do seu tempo a aparente contradição entre o dado local e o não-local. Em Angústia, o homem que, recalcado, anda de bonde por Maceió ruminando a decadência da família e a perda da mulher para alguém mais bem colocado na sociedade é, ao mesmo tempo, o filho da decaída aristocracia rural nordestina, reduzido a uma vida mesquinha de intelectual de província, e o homem recalcado de qualquer parte, que não consegue se conformar com a posição inferior que ocupa injustamente - pelo menos para ele.
Mesmo em Vidas secas, publicado em 1938, isso ocorre. A presença de retirantes, o fantasma da seca, tudo nesse livro facilita seu enquadramento naquela tradição a que O quinze teria que pertencer. Há mesmo críticos que enxergam nele a presença de um determinismo clássico, como se o meio físico estabelecesse o destino dos homens. Ora, nada disso acontece ali. É claro que o meio físico tem relevância para aquelas pessoas que, afinal, vivem no campo e realizam tarefas diretamente dependentes da natureza. Mas sua pobreza não deriva disso como se de uma condenação se tratasse. As raízes de sua miséria têm causas históricas e econômicas específicas. Não é o sertão nordestino que molda aquelas vidas, mas a forma de exploração econômica ali vigente. Tanto que Graciliano prefere mostrar suas criaturas vivendo um bom ano, sem seca. A terra não está mais seca - depois dos acontecimentos narrados no primeiro capítulo - mas as vidas permanecem secas.
O que o bom romance de 30 produziu foi muito além do regionalismo no sentido em que ainda se insiste em usar a palavra, referindo-se a algo restrito, que apela para a curiosidade do leitor pelo que lhe é estranho, ou para sua simpatia pelo sofrimento, em relação ao qual guarda segura distância.
O regionalismo dos anos 1930 tem um espectro e um alcance muito maiores do que em geral se assinala. Se formos capazes de enxergar o quanto a relação do dado local com o não-local mobilizou de fato os autores daquela década, poderemos perceber o quanto essa produção contribuiu para o amadurecimento do romance brasileiro, inclusive no que diz respeito à linguagem. Assim, o termo regionalismo pode se libertar do peso negativo e restritivo que acabou, infelizmente, convertendo-se em sua segunda natureza. Isso contribuiria para que o brasileiro parasse de olhar para sua própria tradição literária com aquele provincianismo que se crê desimpedido, mas é bem o contrário disso.
Luís Bueno Professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Paraná
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