Teatro das ações graves - Apresentação
Este número está dedicado à literatura dramática. O teatro é uma forma de expressão milenar. Nasceu como necessidade do homem conhecer o homem. Não por acaso, foi motivo de atenção de um dos maiores gênios do pensamento: Aristóteles. Em sua Poética Clássica, estudou a literatura dramática como um gênero de primeira grandeza.
As transformações sofridas pelo teatro foram sensíveis, no percurso secular, mas essa manifestação artística superou as barreiras do tempo. Não faltaram e provavelmente não faltarão discussões sobre seu cansaço e seu fim.
Com o advento do cinema e da televisão, colocou-se a extinção dessa espécie. A indústria cultural se sobreporia ao palco artesanal - assim se pensou. Mas o teatro resistiu e resiste. Ainda pode resguardar algum traço de independência do poder econômico e do dirigismo ideológico. É claro que tem limitações nesse terreno.
Eric Bentley, crítico inglês, abre seu livro "O Teatro engajado com o seguinte título: "Será o Teatro uma Espécie Extinta"? O ensaio compilado data de 1953. Mostra que a capacidade de resistência da dramaturgia é extraordinária. Mas há aspectos frágeis. Eis um deles - "De qualquer modo, um dramaturgo radical não pode pretender as duas coisas: ganhar a vida lançando acusações contra a sociedade estabelecida e depois, quando a sociedade resolve rebater algumas das acusações, insurgir-se contra essa sociedade que o priva dos meios de ganhar a vida". Bentley expõe sinteticamente uma das contradições fundamentais do teatro, tratando-se do exercício da crítica.
Um dos primeiros fundamentos da natureza e vigor do gênero dramático, que o sustenta historicamente como uma forma de representação crítica, também foi exposto por Aristóteles. A mimese dramática, da tragédia, incide sobre a ação dos homens. Não se trata de ações quaisquer, mas daquelas que são graves.
Mais do que nunca vivemos o despedaçar das relações sociais (ações graves). O teatro tem aí a força de sua existência. A realidade trágica continua a pedir aos artistas que a representem, com criatividade, imaginação e vigor de linguagem.
Este número da Cultura Crítica objetiva abraçar a causa do teatro, com o que esta forma de expressão alcançou patamares históricos elevados. Os artigos são penetrantes? Os leitores farão seu julgamento.
É necessário dizer que injustiças são cometidas involuntariamente contra grandes dramaturgos brasileiros. Não constam artigos sobre Augusto Boal, importante por suas experiências com o Teatro do Oprimido, Oduvaldo Vianna Filho, com seu pungente texto "Rasga Coração", o polêmico Nelson Rodrigues, por seus retratos sem retoque, no dizer de Sábato Malgadi. Muitos outros poderíamos ainda citar.
Além dos ensaios dedicados a vários escritores, publicamos no final da revista dois textos: um de Erwin Piscator e outro de Bertolt Brecht. Ambos expressam um ponto alto da visão crítica.
Chegamos assim ao número três da revista Cultura Crítica. É um passo para sua consolidação. O interesse voltado para a discussão crítica dessa esfera de representação e de conhecimento da vida social tem extrapolado o espaço da PUC. Não faltaram pesquisadores dispostos a contribuir com a crítica cultural. E a revista Cultura Crítica conta com a participação de intelectuais de vários lugares, permitindo colocar a PUC em contato com o meio educacional. Sem dúvida, poderemos reforçar a contribuição interna. O próximo número será dedicado à arte cinematográfica.
Erson Martins de Oliveira
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