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Home >> Revista Cultura Crítica >> 03, teatro, 1º semestre de 2006 >> A arte da observação e da construção estética em Morte e vida severina

A arte da observação e da construção estética em Morte e vida severina

APROPUC-SP 31.03.09

Erson Martins de Oliveira


Comentaremos, neste texto, uma das obras mais belas da literatura brasileira, Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto,não só quanto à estética, mas também quanto ao vigor do sentido. Os comentários seguirão a ordem do Auto. As duas primeiras cenas serão analisadas integralmente; as demais, estudadas em apenas alguns aspectos.[1]

Morte e vida severina tem uma história paradoxal. Não foi planejada por João Cabral de Melo Neto, o que difere do costume do autor. O poeta faz questão de se autodefinir "construtivista". Os seus poemas são extremamente esmerados. O rigor de composição coloca para o escritor o desafio de fazer a palavra ganhar expressão concreta. Não se trata da forma pela forma, mas da forma como materializadora e potencializadora do sentido.
João Cabral comparece, na história da literatura, como um poeta definido contrariamente à poesia verborrágica, à poesia que dá sonolência, à poesia que é sedante. Ele mesmo diz que procura uma poesia que acorde, uma poesia que mexa, uma poesia que estremeça. Entende que a poesia deve ser como um carro que não desliza no asfalto, mas que trepida nos paralelepípedos.
O texto que ora abordamos está de acordo com esse princípio literário, mas se diferencia do restante de sua obra porque foi construído como uma peça teatral, portanto para ser representado, declamado. João Cabral achava sua poesia limitada quanto ao aspecto musical, tão presente nesse gênero literário. Dizia-se "antimusical por excelência". Evitava, por isso, "fazer uma poesia cantante". Orientava suas composições para o rigor da escrita; e quanto mais se distanciava da oratória, mais satisfeito o poeta se sentia. Os poemas deveriam ser lidos no abrigo silencioso do indivíduo. Morte e vida severina fez-se uma exceção, ao lado de alguns outros poemas.
Entre 1954 e 1955, Morte e vida severina veio à luz sob o cérebro e a mão do poeta pernambucano. Como dissemos, esse texto tem uma história paradoxal. A conhecida teatróloga mineira Maria Clara Machado pediu a João Cabral que compusesse um auto de natal. O pedido coincidiu com o entusiasmo despertado pela leitura do Folclore pernambucano, de Pereira da Costa. Ocorreu que Maria Clara Machado avaliou que Morte e Vida Severina não era propriamente um auto de natal. Resolveu não montá-la, alegando também que o Teatro Tablado não tinha condições técnicas para a encenação. Eis um episódio interessante da peça Morte e vida severina. Nasceu sendo rejeitada. Parece que nem mesmo João Cabral lhe deu o devido reconhecimento. Pouco mais de dez anos depois, o TUCA (Teatro da PUC-SP) serviu-lhe de palco, abrindo caminho para o jovem Chico Buarque de Holanda compor o musical Funeral de um lavrador.
A encenação, sob a direção de Roberto Freire, com a contribuição musical de Chico Buarque, permitiu que Morte e vida severina mostrasse sua extraordinária dimensão artística e social. João Cabral não escreveria, de fato, um Auto tipicamente para o Natal. Aproveitou o pedido de Maria Clara para redigir um texto que não tinha o sentido solicitado: a aura religiosa de um auto de Natal. Considerava-se filosoficamente materialista e declarava-se marxista.
Compôs um auto sobre a vida e a morte, morte e vida Severina. Sua obra inteira reflete a observação da realidade; e as temáticas daí extraídas se transformam em linguagem literária.
Retomemos a sua história paradoxal: a encenação no TUCA projetou Morte e vida severina, assimilada inicialmente por intelectuais e estudantes, e mais tarde  por camadas populares. Até hoje, Morte e vida severina é representada em escolas públicas, por grupos amadores. É uma obra que continua presente e se tornou expressão maior de João Cabral, embora não fosse este o seu objetivo; nem ele, nem os críticos reconhecem isso. Morte e vida severina popularizou o poeta construtivista, o que não pôde ser feito por Cão sem plumas (1949/1950), obra rigorosamente perfeita.
Há, não obstante, um parentesco de primeiro grau entre Morte e vida severina e o poema Cão sem plumas. Ambos os textos expressam uma visão social da morte e da vida. Toda a obra de João Cabral expõe literariamente uma concepção e uma defesa da vida, o que implica necessariamente a revelação das raízes sociais da opressão.
Os críticos enfatizam o processo de construção poética sem dar importância à temática vida e morte, como se fosse apenas um lugar comum da literatura trágica. Contudo, em Cabral, é necessário reconhecer que a elaboração da forma percorre os caminhos da experiência pernambucana e do contexto geral nordestino. Mesmo as vivências em outras latitudes, como as da Espanha, que lhe serviram de motivos literários, estão marcadas por vida e morte severina.
Não faltaram tentativas de reduzir o amplo trabalho poético de João Cabral ao esteticismo, ao fogo-fátuo. Ao contrário, o vigor das composições de João Cabral advém justamente da visão social e das raízes temáticas que carregam de sentido o construtivismo literário. O rigor da forma, sem dúvida, faz de João Cabral um artista do texto. No entanto, o rico trabalho formal foi desempenhado em função da observação da realidade trágica.
Assim como citamos o mais famoso poema Cão sem plumas como referência comparativa a Morte e vida severina, devemos citar um outro texto de que pouco se fala,  Dois parlamentos (1958/1960), composto de duas partes (Congresso no Polígono das Secas e Festa na Casa-Grande). Entendemos que foi concebido para se ler em voz alta. Vejamos uma passagem do Congresso no Polígono das Secas (ritmo senador; sotaque sulista):

- Cemitérios gerais
onde não se guardam os mortos
ao alcance da mão, ao pé,
à beira de seu dono.
- Neles não há gavetas
em que, ao alcance do corpo,
se capitalizam os resíduos
possíveis de um morto.
- A todos os defuntos
logo o Sertão desapropria,
pois não quer defuntos privados
o Sertão coletivista.
- E assim não reconhece
o direito a túmulos estanques,
mas socializa seus defuntos
numa só tumba grande.

A associação metafórica do sertão com o cemitério não é feita arbitrariamente, pois reflete a observação dramática desta região nordestina. Contraditoriamente, não é a vida que se socializa, mas a morte dos sertanejos. Os versos entrelaçados formam não só a imagem do sertão como cemitérios gerais, mas também como raciocínio poético que traz implicitamente o seu contrário, o seu oposto. Eis os versos do Festa na Casa-Grande:

- O cassaco de engenho
quando é criança:
- Parece cruzamento
de caniço com cana.
- O cassaco de engenho
criança é mais caniço:
- Puxa mais bem ao pai
porque não é maciço.
- O cassaco de engenho
quando é criança:
- Não só puxa ao caniço,
puxa também à cana.
- Mas à cana de soca,
repetida e sem força;
- A cana fim de raça,
de quarta ou quinta folha.

O cassaco de engenho é o cortador de cana. A imagem da criança é construída pela composição de dois objetos da realidade econômica: cana e caniço. João Cabral faz uma associação que cria a forma física da criança pela forma como o olhar crítico do poeta vê essa criança. O oposto de maciço é a criança de engenho. Imagem visual e raciocínio poético expressam o construtivismo. O método de abstrair as imagens da realidade, reconstituindo-as concretamente por associações e conservando-as como memória, aparece exaustivamente em Morte e vida severina.
Um outro aspecto muito importante, em termos de relação e visão de vida, é a concepção estética, no que diz respeito ao raciocínio poético e à rigorosa logicidade na construção temática. A temática é composta por imagens conectadas por um raciocínio lógico, muitas vezes como silogismos.
João Cabral se intitula poeta racional, um poeta da racionalidade. Racionalidade analítica da experiência, que se transforma em concepção positiva da vida. Citemos um último exemplo (A Pedra do Reino, poema em homenagem à obra homônima de Ariano Suassuna), antes de iniciarmos os comentários sobre Morte e vida severina.

 Sertanejo, nos explicaste
 como gente à beira do quase,
 que habita caatingas sem mel
cria os romances de cordel:
 o espaço mágico e feérico,
 sem o imediato e o famélico,
 fantástico espaço suassuna
 que ensina que o deserto funda.

 Os extremos da realidade - vida e morte - não eliminam a imaginação, mas a criam. Esse ensinamento do sertão e do homem sertanejo serve aos escritos de João Cabral.
 A referência a outras obras tem por objetivo mostrar brevemente que Morte e Vida Severina, apesar de não ter sido planejada, não se desviou dos fundamentos estéticos defendidos por João Cabral. Antes de passarmos à demonstração dos procedimentos estruturais utilizados pelo escritor, transcreveremos um comentário de Marly de Oliveira, que se encontra no prefácio à Obra completa do autor (volume único, edição Nova Aguilar).

 Morte e vida severina é uma homenagem às várias literaturas ibéricas: os monólogos do Retirante têm em comum com o romanceiro ibérico o uso do heptassílabo e a assonância; a cena do Irmão das Almas homenageia o romance catalão do conde Arnaud; a cena do velório é pernambucana; a da mulher na janela é um poema narrativo em português arcaico incorporado ao folclore pernambucano. A cena dos coveiros é, curiosamente, escrita em verso livre, quem sabe com a intenção de continuar, de levar adiante uma conquista modernista. O diálogo do Retirante com Mestre Carpina segue o processo da tenção galega; o resto é "romance" castelhano. O nascimento de Cristo se tornou um fato realista; a cena dos presentes, como outras, tem relação com os autos pernambucanos do século passado. As ciganas estão nos autos antigos, prevendo o futuro nascimento da criança. Estão em Pereira da Costa, na obra sobre o folclore pernambucano.

O plano geral do Auto de Natal Pernambucano pode ser resumido nos segmentos: 1) abertura - explicação do retirante ao leitor sobre quem é e a que vai; 2) movimento inicial do retirante seguindo o curso do rio Capibaribe; 3) chegada de Severino à Zona da Mata; 4) chegada a Recife; 5) desfecho - anúncio do nascimento do filho de José, mestre carpina. Entre esses segmentos, vários acontecimentos envolvem o retirante, compostos em cenas.
 Analisemos a abertura.
- O meu nome é Severino, 
não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria, 
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco: 
há muitos na freguesia, 
por causa de um coronel 
que se chamou Zacarias 
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
A identidade do retirante começa pela história de seu nome; de tão comum, foi se tornando composto para diferenciá-lo:: Severino, Severino de Maria, Severino da Maria do finado Zacarias. O nome Maria é tão comum quanto Severino, por isso foi acrescentado o nome do finado Zacarias. Não há nome de família para Maria, nem para Zacarias, e nem para Severino. Severino é único nome de batismo. O sobrenome de Severino refere a Maria do Zacarias. Zacarias, porém, pode ser confundido com um senhor da sesmaria, que se chamava Zacarias. Então, o nome cresceu ainda mais: lá da serra da Costela, limites da Paraíba.

Como então dizer quem fala
Ora a Vossa Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.

A fala do retirante chama a atenção para a insuficiência de sua explicação. Por mais que procure, não lhe é possível se individualizar com o nome Severino, porque esse nome é coletivo, espelha a história de muitos.

Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com o nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.

Essa passagem inclui mais um elemento da identificação. Apresenta-se a personagem coletiva: E se somos Severinos / iguais em tudo na vida. Em seguida, ocorre a descrição física da personagem coletiva. Inicialmente, o retirante se identifica primeiro com o nome Severino, que é ampliado para Severino, o da Maria do finado Zacarias; depois, com a topografia da Costela, limites da Paraíba; finalmente, no trecho acima, transforma o Severino em muitos Severinos.
O retirante que iniciará a caminhada representa uma personagem coletiva. A descrição física concretiza a imagem geral dos Severinos: cabeça grande, ventre crescido, pernas finas e sangue de pouca tinta. Pinta a figura severina com traços sintéticos. O nome Severino é pluralizado, e é representação da imagem física descrita por cabeça, ventre, pernas e sangue. O nome Severino coletiviza a igualdade social negativa. O próximo passo da composição será a adjetivação do nome Severino (morte severina).
E se somos Severinos 
iguais em tudo na vida, 
morremos de morte igual, 
mesma morte severina: 
que é a morte de que se morre 
de velhice antes dos trinta, 
de emboscada antes dos vinte, 
de fome um pouco por dia 
(de fraqueza e de doença 
é que a morte severina 
ataca em qualquer idade, 
e até gente não nascida).
A coletivização, nessa passagem, não diz respeito ao modo de vida, mas à identidade na morte. Tal vida, tal morte. A identidade na vida corresponde à forma de existência social e física desses homens; e a morte corresponde ao modo desta vida. Fundem-se vida e morte no adjetivo severina, derivado do nome Severino. Severino preenche-se de conteúdo espacial, físico e social.
Somos muitos Severinos 
iguais em tudo e na sina: 
a de abrandar estas pedras 
suando-se muito em cima, 
a de tentar despertar 
terra sempre mais extinta, 
a de querer arrancar 
algum roçado da cinza. 
Mas, para que me conheçam 
melhor Vossas Senhorias 
e melhor possam seguir 
a história de minha vida, 
passo a ser o Severino 
que em vossa presença emigra. 
Retoma a imagem da vida por meio do que esses homens fazem, o trabalho na terra adversa à vida. O esgotamento físico antecipa o fim da existência. A vida abreviada traz intrinsecamente a morte prematura. O texto relata e descreve que se morre por velhice antes dos trinta e se morre de emboscada antes dos vinte, ou então todos os dias se morre um pouco de fome.
A técnica da dramaticidade poética consiste em entrelaçar os extremos da vida e da morte. A composição encadeia os conceitos extremados e os marca pelas semelhanças sonoras, usando as assonâncias (severina/trinta/vinte/dia/sina/cima/ extinta/cinza). A carga dramática vai se adensando com o raciocínio lógico, que expõe a identidade e seus contrários, sem que a linguagem poética perca a condensação. Verificamos esse procedimento em toda a obra de João Cabral, mas em Morte e Vida Severina ele se ressalta, devido à natureza teatral do texto.
Nos últimos versos da apresentação de Severino, é mantida a forma de interlocução com o possível leitor ou espectador ("Mas, para que me conheçam / melhor Vossa Senhorias"), indicando que, a partir de então, a história de uma vida será demonstrada com a emigração. João Cabral compõe o auto de uma forma que não permite o sentimentalismo, potenciando a emoção trágica.
Na primeira seqüência da ação, o emigrante depara-se com dois homens carregando um defunto na rede. Estabelece-se um diálogo parecido com uma ladainha, na forma de pergunta e resposta. A cena indica que a emigração de Severino da Maria do Zacarias da Costela dos limites da Paraíba irá expor, em cada espaço e momento do trajeto, a sina dos Severinos, que é morte e vida (da morte ao nascimento).
- A quem estais carregando, 
irmãos das almas, 
embrulhado nessa rede? 
dizei que eu saiba. 
- A um defunto de nada, 
irmão das almas, 
que há muitas horas viaja 
à sua morada. 
- E sabeis quem era ele, 
irmãos das almas, 
sabeis como ele se chama 
ou se chamava? 
- Severino Lavrador, 
irmão das almas, 
Severino Lavrador, 
mas já não lavra. 
As perguntas e respostas, compostas de quatro versos cada uma, com um refrão interno (irmãos das almas), que marcam o ritmo, configuram a situação em que Severino assiste ao seu próprio enterro. O nome Severino ganha o sobrenome Lavrador. Permanece apenas a identidade, porque já não lavra.
Nas quadras seguintes, os carregadores do defunto revelam a forma da morte, morte não morrida, mas morte matada, em emboscada. Antes dessa fala, os carregadores respondem ao Severino emigrante que o Severino Lavrador vinha da Caatinga mais seca, que já não mais lavra, onde não dá nem planta brava. Evidencia-se a preocupação rítmica e o uso de recursos poéticos da ligação entre som e sentido, neste caso para representar a adversidade da vida que leva à morte (lavra/brava/matada/emboscada).
- E de onde que o estais trazendo, 
irmãos das almas, 
onde foi que começou 
vossa jornada? 
- Onde a caatinga é mais seca, 
irmão das almas, 
onde uma terra que não dá 
nem planta brava. 
- E foi morrida essa morte, 
irmãos das almas, 
essa foi morte morrida 
ou foi matada? 
- Até que não foi morrida, 
irmão das almas, 
esta foi morte matada, 
numa emboscada. 
Lembremos que na apresentação há um momento em que Severino descreve como se morre. Morre-se por velhice antes dos trinta, antes dos vinte por uma emboscada, ou  diariamente de fome. A vida severina está cercada por todos os lados pela morte. Nesse segmento, enfoca a morte matada, aquela que se morre antes dos vinte, em virtude da expansão do latifúndio.
No trecho seguinte, o retirante quer saber com que arma foi feita a emboscada. O poeta utiliza o projétil bala para fazer uma composição sonoro-visual. Transforma a bala em ave. Personifica-a como pássara. Do processo de progredir o raciocínio por meio de imagens, cria-se a figura da ave-bala, que mata diferentemente da faca. A bala é um instrumento que propicia a morte da qual não aparece o executor, ele é anônimo. A tocaia é uma ação de espera da vítima que, pega de surpresa, não tem como se defender.
É interessante a maneira como o poeta concebe a imagem da bala para representar a morte severina pelo poder latifundiário, que não usaria a morte a facada. Essa forma de representação intensifica a dramaticidade do conflito social, materializado no enterro de Severino Lavrador. Entretanto, não se trata de um caso individual. Há um conflito mais geral, representado pela ave solta, que quer se expandir e que pode fazê-lo sem nenhuma responsabilidade pelos seus atos.

- E o que guardava a emboscada, 
irmãos das almas 
e com que foi que o mataram, 
com faca ou bala? 
- Este foi morto de bala, 
irmão das almas, 
mas garantido é de bala, 
mais longe vara. 
- E quem foi que o emboscou, 
irmãos das almas, 
quem contra ele soltou 
essa ave-bala? 
- Ali é difícil dizer, 
irmão das almas, 
sempre há uma bala voando 
desocupada. 

 Esconde o agente da emboscada e o presentifica na forma ave-bala, ou ainda pássara. O emigrante quer então saber o que tinha feito o Severino Lavrador para merecer tal destino. 
- E o que havia ele feito 
irmãos das almas, 
e o que havia ele feito 
contra a tal pássara? 
- Ter uns hectares de terra, 
irmão das almas, 
de pedra e areia lavada 
que cultivava. 
- Mas que roças que ele tinha, 
irmãos das almas 
que podia ele plantar 
na pedra avara? 
- Nos magros lábios de areia, 
irmão das almas, 
dos intervalos das pedras, 
plantava palha. 
- E era grande sua lavoura, 
irmãos das almas, 
lavoura de muitas covas, 
tão cobiçada? 
- Tinha somente dez quadras, 
irmão das almas, 
todas nos ombros da serra, 
nenhuma várzea. 
- Mas então por que o mataram, 
irmãos das almas, 
mas então por que o mataram 
com espingarda? 
- Queria mais espalhar-se, 
irmão das almas, 
queria voar mais livre 
essa ave-bala. 
- E agora o que passará, 
irmãos das almas, 
o que é que acontecerá 
contra a espingarda? 
- Mais campo tem para soltar, 
irmão das almas, 
tem mais onde fazer voar 
as filhas-bala. 

Nota-se que as perguntas e as respostas constituem-se em imagens e raciocínios por antagonismo. Em princípio, não há razão para se tirar a vida do lavrador, cujas terras são diminutas e hostis ao cultivo (de pedra e areia lavada/ nos magros lábios de areia/ todas nos ombros da serra). A ave-bala não apenas cobiça os magros lábios de areia, mas também pretende remover os obstáculos que lhe impedem a liberdade de voar. O raciocínio chega a uma imagem-síntese do latifúndio, metaforizado no composto ave-bala. Eis a síntese: queria mais espalhar-se,/ irmão das almas,/ queria voar mais livre/ essa ave-bala). Do composto ave-bala, deriva as filhas-bala. Multiplicam-se as terras latifundiárias, multiplicando-se as mortes de Severinos Lavradores.
 - E onde o levais a enterrar, 
irmãos das almas, 
com a semente do chumbo 
que tem guardada? 
- Ao cemitério de Torres, 
irmão das almas, 
que hoje se diz Toritama, 
de madrugada. 
- E poderei ajudar, 
irmãos das almas? 
vou passar por Toritama, 
é minha estrada. 
- Bem que poderá ajudar, 
irmão das almas, 
é irmão das almas quem ouve 
nossa chamada. 
- E um de nós pode voltar, 
irmão das almas, 
pode voltar daqui mesmo 
para sua casa. 
- Vou eu que a viagem é longa, 
irmãos das almas, 
é muito longa a viagem 
e a serra é alta. 
- Mais sorte tem o defunto 
irmãos das almas, 
pois já não fará na volta 
a caminhada. 
- Toritama não cai longe, 
irmão das almas, 
seremos no campo santo 
de madrugada. 
- Partamos enquanto é noite 
irmão das almas, 
que é o melhor lençol dos mortos 
noite fechada.
 Essa seqüência finaliza o diálogo do retirante com os carregadores de Severino Lavrador. A cena é constituída por unidades que se modificam de acordo com o novo sentido da pergunta. Vejamos: 1) a quem estais carregando? 2) de onde que o estais trazendo? 3) e foi morrida essa morte? 4) e quem foi que o emboscou?; 5) e o que havia ele feito; 6) era grande sua lavoura; 7) e agora o que passará; 8) e onde o levais a enterrar; 9) e poderei ajudar;10) partamos enquanto é noite (fecha a cena com a unidade composta de uma quadra).
A seqüência final é constituída por três unidades, cadenciadas pelas palavras finais de cada quadra, por aproximação sonora (guardada/madrugada/estrada/chamada/ caminhada/madrugada/fechada).Destoam apenas casa e alta.
A primeira quadra da seqüência projeta a imagem "semente do chumbo". O chumbo é plantado no corpo de Severino Lavrador; a semente é o meio de existência desse homem. Em vez de ele semear a semente na terra, seu corpo é semeado com semente de chumbo. São construções sensíveis, frutos da observação, do conhecimento, da imaginação e da técnica construtivista.
João Cabral, em uma de suas entrevistas, refere-se ao uso do humor negro. De fato, é aplicado de maneira sutil na fala: "mais sorte tem o defunto,/ irmãos das almas,/ pois já não fará na volta/ a caminhada" [2]
verino continua a caminhada seguindo o curso do rio Capibaribe, um guia seguro para alcançar seu destino. A personagem faz um monólogo. O caminho será percorrido como se percorresse as contas de um rosário e proferisse uma ladainha. João Cabral se vale do paralelismo sintático-semântico para dar visibilidade à penosa caminhada do retirante. Eis a construção:
Sei que há muitas vilas grandes,
 cidades que elas são ditas;
 sei que há simples arruados,
 sei que há vilas pequeninas,
 todas formando um rosário
 cujas contas fossem vilas,
 todas formando um rosário
 de que a estrada fosse a linha.
Devo rezar tal rosário
 até o mar onde termina,
 saltando de conta em conta,
 passando de vila em vila.
 O guia mais seguro não é tão seguro assim. A seca castiga o rio e interrompe seu curso. Severino retirante descobre que o rio Capibaribe não está livre do que acontece com os rios de onde ele vem. João Cabral formula em voz alta o pensamento do retirante com a forte imagem das pernas que deixam de andar. A natureza castigada pela seca - terra, plantas, animais e rio - é vista tragicamente, espelho da condição severina do sertanejo.
 Mas como seguí-lo agora
 que interrompeu a descida?
 Vejo que o Capibaribe,
 como os rios lá de cima,
 é tão pobre que nem sempre
 pode cumprir sua sina
 e no verão também corta,
 com pernas que não caminham.

 O retirante chega a uma casa onde é velado um morto. É atraído por uma novena, uma excelência para mais um finado Severino. A cantoria é para afastar os demônios que procuram saber o que o defunto leva consigo. A excelência recomenda:
 -Dize que levas somente
 coisas de não:
 fome, sede, privação
 ...........................
 -Dize que coisas de não,
 ocas, leves:
 como o caixão, que ainda deves.

 Representa pela cantoria a morte pela fome. O que carrega o defunto é o não. Resolve, mesmo assim, fazer uma parada para descansar e encontrar o que fazer. Retoma o monólogo, avaliando a caminhada. Dúvidas assaltam-lhe o espírito. Retirava-se no sentido da vida e deparava-se constantemente com a morte. Enquanto isso, todos os vivos tinham a vida severina. A dele era ainda mais severina, porque era a de um retirante. Ironicamente, via seu destino trágico em cada cena antitética à vida. Mas já não tinha como voltar, o caminho tinha de ser seguido. Precisava apenas descansar e arrumar algum trabalho. O monólogo é constituído por versos de sete sílabas e com rica rima assonante (ativa/festiva/vida/severina/defendida/severina/retira/podia/Capibaribe/linha/invernia/rotina/podia/fadiga/descida/vida/consumida/descida/viva/rica/vida/notícia). Vejamos este trecho:
-Desde que estou retirando
 só a morte vejo ativa,
só a morte deparei
 e às vezes até festiva;
 só morte tem encontrado
 quem pensava encontrar vida,
 e o pouco que não foi morte
 foi de vida severina
 (aquela vida que é menos
 vivida que defendida,
 e é ainda mais severina
 para o homem que retira).
 Decidido, o retirante pedirá trabalho a uma mulher que está na janela. O diálogo é composto por duas partes. Na primeira, a mulher pergunta várias vezes o que o retirante sabia fazer. Nenhuma resposta servia, porque todas elas eram de um lavrador. Essa parte tem fim quando a mulher pergunta se o retirante sabia rezar, cantar excelências, encomendar defuntos. Obteve uma resposta negativa.
 -Deseja mesmo saber
 o que eu fazia por lá?
 comer quando havia o quê
 e, havendo ou não, trabalhar.
 -Essa vida por aqui
 é coisa familiar;
 mas diga-me retirante,
 sabe benditos rezar?
 sabe cantar excelências,
 defuntos encomendar?
 sabe tirar ladainhas,
 sabe mortos enterrar?
 - Já velei muitos defuntos,
 na serra é coisa vulgar;
 mas nunca aprendi as rezas,
 sei somente acompanhar.
 - Pois se o compadre soubesse
 rezar ou mesmo cantar,
 trabalhávamos a meias,
 que a freguesia bem dá. 
Na segunda parte, quem faz a pergunta é o retirante. Da mesma forma que a anterior, uma pergunta se desdobra em outra, que termina com a resposta final de que viver da morte é a melhor profissão do lugar. O poeta toma os atributos do trabalho na terra e os transfere para a morte.
Só os roçados da morte
compensam aqui cultivar,
e cultivá-los é fácil:
simples questão de plantar;
não se precisa de limpa,
de adubar nem de regar;
as estiagens e as pragas
fazem-nos mais prosperar;
e dão lucro imediato;
nem é preciso esperar
pela colheita: recebe-se
na hora mesma de semear.
 Na próxima cena, o retirante se encontra na Zona da Mata - lugar fértil. Tinha no imaginário um paraíso, que conhecia por ter ouvido. O contado era comprovado pelos seus olhos. Toma-lhe a esperança de uma nova vida . Um homem provado nas terras mais daninhas não teria o que temer. O monólogo otimista dá lugar à dúvida. Seus olhos avistam a cana, o bueiro da usina e o bangüê em ruína. Não avistam os trabalhadores, que o retirante supõe estar de folga. Forma uma falsa idéia, nascida da terra feminina e de sua própria esperança.
Decerto a gente daqui
jamais envelhece aos trinta
nem sabe da morte em vida,
vida e morte, severina;
e aquele cemitério ali,
branco na verde colina,
decerto pouco funciona
e poucas covas aninha.

A ilusão logo se desfaz com a chegada do enterro de um trabalhador de eito. A cena é construída pelo diálogo dos amigos do morto, ao qual o retirante se limita a ouvir. É desse diálogo que Chico Buarque de Holanda musicou a passagem inicial.
- Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a conta menor
que tiraste em vida.
- É de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
deste latifúndio.
A Zona da Mata era verde e fértil, mas o operário agrário (trabalhador de eito) assemelha-se ao sertanejo retirante. Severino viu o outro lado do paraíso, sobre o qual não lhe haviam contado. O poeta faz a metáfora dos canaviais como sendo o mar, representação da economia canavieira e de sua forma latifundiária. Enfatiza, pela repetição, a palavra sina, agora atribuída a Severino, que passa pela dolorosa experiência do retirante. Essa palavra vem marcando o texto. O retirante procura uma saída fugindo do meio que o oprime. A existência exige-lhe que procure a saída. Porém, a cada cena, a saída se afasta do retirante, que aparece preso à sina severina.
 Dirige-se para Recife. Lá, sentado ao pé de um muro, ouve a conversa de dois coveiros. Nessa cena, o poeta descreve, por meio do mesmo processo de imagem-raciocínio, as classes sociais. Os cemitérios distinguem-se pelo enterro dos ricos e dos pobres. João Cabral atribui ao lugar para onde vão os ricos a imagem do porto de mar e do transatlântico; para os pobres, estação de trem ou parada de ônibus. É raro o enterro do rico, mas quando é feito, vem carregado de cenografia. O cemitério dos barões é como os portos onde, de vez em quando, atraca um transatlântico. O cemitério dos pobres é como uma estação de trem ou de ônibus. A representação metafórica da morte diferenciada por classe opõe a morte coletiva à morte individual.
João Cabral faz a montagem da classe social burguesa utilizando-se ostensivamente da relação paradigmática. Essa classe, em seus estamentos, é moldurada por palavras sonoramente motivadas, semantizadas. (usineiros/banqueiros/bangueseiros/industriais/patronais).
Os cemitérios de luxo constituem bairros endereçados a esses estamentos da classe burguesa. Como nas cidades, o arrabalde e o subúrbio servem a pobres vários. O indigente é o Severino que vem do sertão. Esse não tem onde se enterrar.
Chamam atenção aspectos da conversa dos dois coveiros, que João Cabral utiliza para manejar o cinismo como instrumento da crítica. Comentam sobre a inutilidade dos retirantes tentarem sair da miséria, vindo do Sertão para Recife. Só trariam para o lugar a sua desgraça. O melhor seria colocarem fim em suas vidas. . Evidencia a contradição entre a condição social do coveiro e a sua consciência social - sua fala é a fala da classe dominante:

- Na verdade, seria mais rápido
e também muito mais barato
que os sacudissem de qualquer ponte
dentro do rio e da morte.
- O rio daria mortalha
e até um macio caixão de água;
e também o acompanhamento
que levaria com passo lento
o defunto ao enterro final
a ser feito no mar de sal. 

Ao mesmo tempo que comparece o humor negro, também a ironia tem lugar. A imagem coletiva da morte e a imagem individual da morte (burguesa) são trabalhadas vigorosamente pelo poeta, crivadas pelo humor negro, pela ironia e mesmo pela paródia, referindo-se ao rico. São recursos que servem à poética crítica.
Modifica-se a cena; o retirante retoma o monólogo e faz uma avaliação de sua procura por um outro lugar para viver. Deseja a morte. Pensa em se jogar no rio Capibaribe. Lembra-se do caixão macio de lama descrito pelo coveiro. O desespero é representado na forma do humor negro.
E chegando, aprendo que
nessa viagem que eu fazia,
sem saber desde o Sertão
meu próprio enterro eu seguia.
Só que devo ter chegado
adiantado de uns dias;
o enterro espera na porta:
o morto ainda está com vida.

Pela primeira vez no Auto, o retirante não procura ou se depara com algo. Um morador dos mocambos aproxima-se dele. Quem inicia o diálogo, no entanto, é o retirante. Por meio de perguntas, expressa-lhe o desejo da morte. O morador, mestre carpina, faz o papel da vida. Representa-se nesta cena o diálogo entre a morte e a vida. A última fala da cena é de Severino retirante. Prevalece a morte. Nesse momento, esgota-se o enredo da morte e começa o da vida. Na verdade, trata-se do epílogo, do desenredo.
- Seu José, mestre carpina,
que diferença faria
se em vez de continuar
tomasse a melhor saída;
a de saltar, numa noite,
fora da ponte da vida?

No momento em que a pergunta final dizia que a morte vencia, um fato ocorre, anuncia-se o nascimento do filho de José, o mestre carpina. A construção poética é feita por meio de um paralelismo opositivo.
Saltou para dentro da vida
ao dar seu primeiro grito;
e estais aí conversando;
pois sabei que ele é nascido.

Duas ciganas fazem louvor ao nascimento. A nova vida traz esperança. Chegam visitantes levando presentes. São presentes humildes, para o humilde recém- nascido. As duas ciganas fazem a previsão da vida do menino. Irá aprender com a natureza. Aprenderá a obter o necessário para a vida. A segunda cigana completa a previsão: tornar-se-á um operário de fábrica. É a vez dos vizinhos. Falam sobre a formosura. A descrição negativa da criança magra e pálida não lhe tira a marca humana. A formosura e a beleza estão na vida que respira e inspira. João Cabral elabora cuidadosamente a antítese favorável à vida.

- E belo porque com o novo
todo o velho contagia.
-Belo porque corrompe
com sangue novo a anemia.
- Infecciona a miséria
com vida nova e sadia.
-Com oásis, o deserto,
com ventos, a calmaria.

Na cena final, mestre carpina toma a palavra e se dirige ao retirante. Mostra-lhe que não pôde dissuadi-lo com palavras de seu desejo de pôr fim à vida. Foi a própria vida que, com um exemplo prático, mostrou-lhe o melhor caminho. João Cabral encerra o Auto de Natal Pernambucano com uma seqüência de versos belíssimos. E dispõe seqüencialmente os verbos desfiar/fabricar/brotar/explodir compondo o movimento da nova vida severina.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é explosão
de uma vida severina.
O comentário de Marly de Oliveira, transcrito logo no início deste trabalho, apesar de sintético, mostra a riqueza de fontes que inspiraram e guiaram o cérebro e a mão de João Cabral de Melo Neto a compor uma obra cara à poética crítica.


Notas

1Nota sobre o texto: O presente estudo sobre Morte e vida severina resultou de uma palestra proferida no Teatro da Universidade Católica (TUCA), em comemoração aos quarenta anos de estréia de sua montagem nesse mesmo teatro.

2João Cabral diz, em uma entrevista, que procurou usar o humor negro (humor trágico) nesta composição. Explica que ouviu a seguinte história na guerra espanhola: os franquistas levavam um prisioneiro para ser executado em uma região montanhosa muito fria. O prisioneiro fala para um dos soldados: "Aqui está muito frio!" Então, o soldado responde: - "Ainda bem que você não vai ter de voltar". Essa história o influenciou quando, em certas passagens de Morte e vida severina, podia usar o humor negro.


Erson Martins de Oliveira

é professor do derpatamento de Arte da PUC SP
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