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Home >> Revista Cultura Crítica >> 03, teatro, 1º semestre de 2006 >> Ética e política em tempos díspares

Ética e política em tempos díspares

APROPUC-SP 26.03.09

Laura de Paula Rago

Nestes tempos sombrios, temos nos deparado com muitas encenações e debates sobre a obra de William Shakespeare. Há de se perguntar: por quais razões procuramos na obra do dramaturgo inglês e em seu período histórico uma resposta ao presente cenário político, marcado pelo apequenamento das personalidades, a pouca estatura dos estadistas, a corrupção desenfreada, a imoralidade gravosa e as disputas políticas sem horizontes sociais?
No Renascimento, segundo Agnes Heller[1] , o processo social que então se iniciava engendrou indivíduos que, superando os limites da comunidade, até então dados como "existência natural", se deram conta de que, em sua relação com a sociedade, estão postas escolhas e alternativas de destino em virtude das possibilidades infinitas das novas maneiras de viver e sentir.  Há de se indagar: é possível que o resgate dessas obras promova uma reação mais profunda acerca dos estranhamentos e do estreitamento de nossas personalidades?
No atual embate político, é constrangedor ouvir do nosso presidente da República que é mais fácil governar os pobres, porque estes não reclamam, pois não têm recursos para ir a Brasília reclamar. Além disso, como "representante dos operários", dá continuidade aos projetos políticos que atendem rigorosamente aos interesses do grande capital, e alija qualquer alternativa da perspectiva do trabalho. Ora, se nosso "estadista" revela as possibilidades de destino do ser humano, do dever-ser, o faz a partir de um conformismo na sua forma mais despudorada.
Na arte humanista, de carater mimético e catártico, o dever-ser dos indivíduos perpassa os caminhos que a vida, em suas múltiplas possibilidades, pode oferecer: "To be or not to be". Partindo do princípio segundo o qual os dramas humanos representados nas obras de arte ultrapassam seu próprio tempo histórico - dizem do humano -, podemos fazer um paralelo, um contraste com nossa realidade, daquilo que o maior dramaturgo inglês, William Shakespeare, havia escrito sobre personagens políticos numa situação conflitiva que nos revela claramente o ethos das alternativas apresentadas.
Para tal, devemos voltar à época do dramaturgo bardo. Nascido em 1564, na cidade de Stratford-upon-Avon (Inglaterra), num momento em que o poder soberano e a noção de realeza, assim como o indivíduo, "que agora pertencia a uma classe em conseqüência do seu lugar produtivo e não devido ao seu nascimento"[2] , transformavam-se, sofrendo mudanças devidas às maneiras de viver e formas de produção sociais que então surgiam.
A argumentação que o artista constrói em sua dramaturgia pode ser estruturada por meio de sua formação intelectual, das circunstâncias histórico-sociais e de sua visão da sociedade. Antonio Candido fornece alguns elementos desses nexos constitutivos:

Shakespeare aparece ainda preso a uma formação mental onde prepondera a influência das famosas Homilias que os reis Tudor mandaram elaborar (a partir de Henrique VIII) para serem lidas nas igrejas e inculcarem nos súditos certos princípios necessários à segurança do Estado e da dinastia - como excelência da ordem e o cunho inviolável do soberano, que de modo algum poderia ser questionado, por pior que fosse (...). Todas essas noções eram referidas aos grandes princípios explicativos, vindos da Idade Média e ainda reinantes no século XVI, da ordem geral do universo, do encadeamento total dos seres e das coisas, desde o átomo até Deus, que o bom governo apoiava e o mau perturbava. (Candido apud Heliodora, 2005: 12-13)

Os pressupostos históricos e políticos compõem, no interior do humanismo renascentista, sua fórmula dramática, ou seja, Shakespeare é produto de seu tempo. Vale dizer que o poeta resgata o discurso aristotélico da verossimilhança, segundo o qual a arte mostra os caminhos possíveis da trama social da vida e as conseqüências dos atos nela efetuados.  
Como nos mostra Barbara Heliodora, "tal configuração determina a reformulação ética dominante, até então primordialmente calcada em postulados teológicos e, também, a reformulação paulatina da posição do indivíduo e de sua participação na vida desse mesmo Estado nacional, que o fez deixar de ser vassalo de um senhor para ser cidadão de um país" (Heliodora, 2005: 17).
A inovação reside no acento da posição do indivíduo e de suas escolhas no âmbito societário. A forma dramática de Shakespeare[3]  - veículo de expressão - demonstra sua radicalidade na denúncia dos atos de violência e da montagem de obstáculos ao livre desenvolvimento da personalidade humana. Este período é marcado por intensas atividades políticas, de tal modo que seus ecos repercutem nas obras do poeta. "Em parte, ao menos", destaca Heliodora, "é justamente essa capacidade de discernimento político que dará à obra de Shakespeare a dimensão que falta a outros autores da época" (Heliodora, 2005:16-9).
De outra parte, a autora caracteriza a origem social do dramaturgo inglês nos seguintes termos:

...em resumo: tudo indica que no ambiente familiar, William Shakespeare recebeu influências conservadoras, oriundas de uma nítida ascensão da família na escala socioeconômica a partir do advento da dinastia Tudor. Mesmo admitindo uma ausência de proselitismo manifesto, será impossível negar que tudo a respeito da família Shakespeare conduziria fatalmente a uma predisposição receptiva em relação ao pensamento político dominante: mais do que isso, a longa carreira pública do pai, sempre no campo executivo, muito embora alguns de seus postos envolvessem ex officio algumas atividades judiciárias, deve sem dúvida ter dado ao jovem William uma noção bastante especial do que seria o homem político (Heliodora, 2005: 42).

A formação de Shakespeare foi influenciada também, em sua infância, pela entrada na Grammar School. Essa escola herdou a estrutura de ensino utilizada na Idade Média, que agregava as disciplinas no trivium (gramática, lógica e retórica) e no quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e música). Além disso, "até dos clássicos latinos, apenas um outro livro era estudado a fundo nas escolas inglesas: a Bíblia de Genebra, que também aparecerá com grande freqüência na obra de Shakespeare" (Heliodora, 2005: 45).
Todavia as Homilias [4] se traduziam num treinamento ideológico repetido, todos os domingos, em todas as igrejas britânicas, que possibilitou ao poeta, na medida em que fora recebendo estas informações, perceber o impacto das interpretações políticas dos acontecimentos. De acordo com nossa crítica de arte, os pensamentos medievais, com sua visão global do universo, somados a uma identificação intelectual, emocional e religiosa, marcaram de forma permanente a visão política de Shakespeare. Haja vista que "a natureza essencialmente conflitiva das lições sobre ordem e desordem, obediência e rebelião, bem e mal, subordinação e ambição prestava-se precipuamente à forma dramática e, em seus primeiros trabalhos para o teatro, William Shakespeare iria buscar nessa ideologia político-religiosa a própria essência de sua visão de homem e do Estado"  (Heliodora, 2005: 71).
As idéias dominantes do período elizabetano[5]  se caracterizavam por serem expressas por meio de uma comunicação fácil e universal, a saber, as homilias, que faziam parte da doutrinação imposta pela dinastia Tudor e permeavam os pensamentos da maioria dos ingleses. Tal visão, no entanto, não era a única fonte de preocupação de Shakespeare. Simultaneamente, as condições materiais de vida passavam por uma reformulação por causa do desenvolvimento das forças produtivas materiais. Esse processo de transformação criava novos sistemas de valores e maneiras de reprodução social.
Segundo Agnes Heller, o Renascimento surge "entre dois sistemas sociais e econômicos mais estáveis; entre o feudalismo, por um lado, e um estado de equilíbrio entre as forças feudais e burguesas, por outro. (...) As maneiras de viver dos homens do Renascimento e, portanto, o desenvolvimento do conceito renascentista do homem, tinham as suas raízes no processo através do qual os primórdios do capitalismo destruíram a relação natural entre o indivíduo e a comunidade, dissolveram os elos naturais que ligavam o homem à sua família, à sua situação social e ao seu lugar previamente definido na sociedade, e abalaram toda a hierarquia e estabilidade, tornando as relações sociais fluidas tanto no que se refere ao arranjo das classes e dos estratos sociais como ao lugar dos indivíduos neles" (Heller, 1982: 11).
 O Renascimento constituiu o processo de transição do feudalismo para o capitalismo, uma autêntica revolução - nas palavras de Engels - que afetou todas as esferas da vida dos indivíduos, como, por exemplo, sua maneira de pensar e valorar, de conduzir o enfrentamento prático da moral e da ética, da consciência religiosa até a arte e a ciência. Desse modo, possibilitou o surgimento de uma nova visão do mundo. Essa nova corrente de pensamento, que pode ser chamada humanista, acompanhou o desenvolvimento capitalista a partir das transformações das forças produtivas e das riquezas materiais e espirituais. A nova realidade possibilitou o desenvolvimento real dos indivíduos; a valoração do trabalho como sua condição de existência, desencadeia uma mudança radical na relação entre indivíduo e sociedade. Como acentua a filósofa húngara: "Foi nesta época (...) que surgiu pela primeira vez a exigência de uma humanização da vida quotidiana, de desenvolvimento de um tipo humano de comportamento" (Heller, 1982: 11).
A riqueza da vida cotidiana passa a adquirir valores como a liberdade, a igualdade, a comunidade e o universo infinito, entre outros, que se transformam nos temas principais do pensamento renascentista. A compreensão das possibilidades que se abriam para a criação humana na vida cotidiana "era assim levada a constituir a categoria fundamental da arte; mas, uma vez mais, não se restringia à arte, transformando-se em vez disso num fenômeno que se aplicava a tudo na vida, cujas propriedades especiais, tal como surgiam na arte, tinham de ser estudadas (compare-se Maquiavel e Leonardo)" (Heller, 1982: 131).
O homem político shakespeariano se configura como indivíduo inteiro, tendo consciência de seus atos e consequências. É um homem calcado em contradições e dúvidas que a vida e a própria realidade lhe impõem. Por essa razão, " esse homem feito de dúvidas, incertezas, indagações, porém cada vez mais obrigado a responder por seu destino, esse homem que finalmente, na Renascença, assumiu o livre arbítrio que o cristianismo lhe impusera, é que será o protagonista perfeito para a tragédia elizabetana" (Heliodora, 1998: 99).
A condição humana autônoma que aparece no teatro shakespeariano - dadas as suas circunstâncias e possibilidades, reveladas nas decisões e escolhas individuais que se expandem na universalidade - é uma das características do momento que Shakespeare vivia, assim como podemos afirmar que sua dramaturgia é humanista. Ibaney Chasin, em sua obra Monteverdi humana melodia, acentua esta dimensão da subjetividade que se expande e sente [6] como a "expressão clara de que o Renascimento é o mundo que gesta a individuação. Individuação que é também amargor infindo, que é crítica e autocrítica, caminho por entre fachos de luz e escolhos, vida ativa, drama humano, intenso e contínuo drama humano da autoconstrução" (Chasin, 2003: 374).
Na trilha lukacsiana, o autor infere que o desenvolvimento da subjetividade não se materializou " ‘apenas enquanto consciência do mundo, autoconsciência de si e busca de formação humana mais autêntica', mais do que isso, fez surgir uma nova afetividade humana" (Chasin, 2003: 374).
O meio de expressar sua visão de mundo foi a dramaturgia, que para ele, como vimos, era o espelho da realidade, em outras palavras, um instrumento que revela a trama concreta da vida.

Neste sentido, tem-se em Shakespeare a aproximação entre política e vida, na medida que nada separa as duas esferas, e uma vez que todos os indivíduos sofrem, direta ou indiretamente, os efeitos das ações políticas, sejam eles os filhos de Henrique IV, sejam Ofélia, Romeu, Julieta, soldados e tantos outros (...). Ao se considerar que Shakespeare não trata mais da zona fronteiriça entre deuses e homens, mas das fronteiras terrenas e existenciais que pressionam o ser humano, percebe-se que este dramaturgo propicia as referências necessárias para elaboração do recorte específico da política, ou seja, a política como tragédia, ao estabelecer como seu fundamento o conflito permanente e irresolúvel, motor do conhecimento e da ação humana (Chaia, 2006:78-81).

É importante destacar a natureza diferencial do estadista desta época. Sentencia Agnes Heller: "O Renascimento foi uma época que produziu de fato grandes personalidades políticas. Os políticos do mundo burguês nascente eram estadistas, não simples funcionários (o que tenderam a ser em períodos ‘acabados', menos agitados do desenvolvimento burguês) e, neste sentido, eram todos representantes daquilo que Maquiavel considerava a techné política". [7]
Se o Renascimento foi uma época incontrastável de possibilidades humanas autênticas, em nossos tempos sombrios, diferentemente do processo humanista de individuação, assistimos a um tempo de retrocesso e de ausência de horizontes, expressos por traços tais quais a solução positiva para os grandes capitais e manutenção da mesma sina negativa para os trabalhadores, a formação de uma multidão de desempregados, a desmedida da violência, a banalização do mal e a quebra de valores etc., combinadas ao naufrágio do purismo partidário do petismo, que se valia da reputação de manter a "ética na política".
Vale dizer que os indivíduos historicamente determinados são aquilo que fazem e o como o fazem. Esta é a raiz do modo de vida determinado dos indivíduos em seu processo de existência social . [8]
Mediando as reflexões do dramaturgo inglês e as relações entre indivíduo, política e vida social, conforme as palavras de Miguel Chaia:

as diferentes formas de exercício do poder dão significados distintos à vida dos indivíduos, à história de uma cidade ou ao destino de um povo. Abrem espaços inusitados para se observar os homens e suas práticas a partir do plano político sem, no entanto, condicioná-las a uma única causa. Esta forma de enfocar indivíduo e poder supõe a existência de dois pólos de forças: as ações humanas e a dinâmica autônoma do poder, que dão origem a um campo dramático centrado no trono do governante. Em Shakespeare, (...) o foco é dirigido à pessoa. (Chaia, 1995)

Isso é evidenciado quando os atos de indivíduos concretos se revelam despidos de uma postura humanista. A ética deveria ser a base de regência da conduta humana na própria vida, como revolucionamento permanente dos indivíduos sob nova base social; porém, a política burguesa, como "anel perpetuador", se põe como imagem e semelhança do capital, metabolismo social em que interesses mesquinhos, particularistas e egoístas prevalecem. 
Desde Maquiavel, são problematizados os elos e oposições entre o plano ético e o político.Na posição de Marx :[9]

na essência, ética e política necessariamente se excluem, pois ética, os valores racionais e universais, tal como entendidos em geral e abstratamente - como idéias orientadoras, tem por condições de possibilidade a inexistência ou a desconsideração de constrangimentos, desigualdades e insuficiência, debilidades sociais congênitas que fazem da política uma necessidade histórica e social, por decorrência do humano em nível restrito de desenvolvimento: por isso mesmo são sempre limitadas e, por princípios, transitórias. A única possibilidade da política ética é a política que nega a política, ou seja, só há política radical quando ela nega o próprio poder político, visando, portanto, a resoluções sociais. Assim, a ética está imediatamente presente porque recusa toda a forma de poder político, mesmo as que assumem transitoriamente rumo à sua extinção" (Chasin, 2000: 37).

Distante desta possibilidade superadora do capital e metapolítica, na atualidade, as denúncias de corrupção e os acontecimentos que permearam a vida nacional nos últimos meses ressaltaram uma questão que perpassa a história desde, pelo menos, o advento da vida moderna.
A ética, que é produto histórico, vivenciada e formulada por sujeitos ativos socialmente determinados [10], aparece de modo evidente na peça Júlio César, de William Shakespeare .[11] Discursando para o povo diante do corpo de César, Marco Antonio relembra todas as suas virtudes, todos seus feitos, respeitando e ovacionando seus atos. Por fim, lê seu testamento, incentivando a fúria do povo contra o "traidor". Desse modo, Marco Antonio irá vingar sua morte. Vale dizer que, ao fim de cada período do discurso político de Marco Antonio, pesa a sentença: "Brutus é um homem honrado"[12] . A armadilha que tangencia o poder é revelada: Ele era meu amigo, fiel e justo para comigo, mas Brutus diz que ele era ambicioso, e Brutus é um homem honrado. Ele trouxe muitos prisioneiros para Roma, cujo resgates abarrotaram os cofres do povo; isso era ambição em César? Quando os pobres choravam, César vertia lágrimas; a ambição devia ser feita de matéria mais dura. E, no entanto, Brutus diz que ele era ambicioso, e Brutus é um homem honrado. Os senhores todos viram que, nas Lupercais, por três vezes ofereci a ele uma coroa de rei, que três vezes ele recusou. Era isso ambição? (Shakespeare, 2003: 83)  
Neste sentido, conforme explica Miguel Chaia:

 Em Shakespeare, como em Maquiavel, o poder está sempre atraindo os homens - na maior parte das vezes a uma armadilha. A política constitui uma esfera com regras próprias, com tal intensidade, de forma que poucos resistem a seus efeitos. Pode até ser que a natureza do regime político (monarquia ou república) e os objetivos do exercício do poder (centralização, unificação, bem comum) atenuem o governo de um príncipe virtuoso ou afortunado (melhor se for os dois). Caso contrário, governar torna-se um pesadelo, senão um inferno (Chaia, 1995).

Na atual conjuntura do país, quem são nossos "homens honrados", nosso "príncipe virtuoso"? Transparece, todavia, o arrivismo, os conluios deslavados, o patrimonialismo; a mediocridade das personalidades políticas em busca de poder são reveladas quando se mostram seus horizontes sociais. O "nosso príncipe" sempre nos diz que de nada sabe. Esses políticos que se põem na perspectiva do trabalho acabam por favorecer o status quo. Ao praticar a "cultura do caixa dois", se colocam no mesmo plano dos seus pares e dos dispositivos que antigamente criticavam. Trata-se de ocultar o que todos sabem. Os atuais donos do poder saberão desarmar as futuras armadilhas por aquilo que seus atos desataram?
No palco da política brasileira, e por assim dizer, na condição geral do sistema do capital, que se matriza inteiramente no tecido social, a política que se constrói e se quer construir como democrática [13] nada mais é do que uma forma particular de dominação. Nasce das contradições sociais antagônicas. Em sua expressão liberal, a política dominante tenta minorar as injustiças sociais com programas de assistência, todavia ignora a reprodução social das desigualdades societárias, afirmando o pressuposto natural dos indivíduos egoístas. 
A subjetividade amesquinhada, contrária à dos tempos renascentistas, que configura os limites das personalidades de nosso tempo, transparece nas ilusões socialmente determinadas do então líder sindical, Lula, como se apresenta numa antiga entrevista: "Na verdade eu nem sei o que sou ideologicamente, eu sei que sou trabalhador que quer igualdade para a classe trabalhadora, uma sociedade justa onde não existam o rico e o pobre, onde o mundo viva como beneficiário daquilo que produz, que a terra seja para todo o mundo, que a educação seja para todos" (Entrevista de Lula, in: Escrita/Ensaio n.º 9, 1982: 52).  Uma vez no poder, com o andar da carruagem, revelam-se os seus limites, igual ou abaixo dos "trezentos picaretas" do parlamento que alardeava pôr no limbo da história. Desaparecem os beneficiários, a reforma agrária, o combate à corrupção e às alianças espúrias, fomentando a política que o iguala àqueles que repudiava.
Se o teatro, no período elizabetano, foi um meio de comunicação no qual se formavam consciências e que muitas vezes servia como arma política, William Shakespeare, em sua forte presença nos debates e no teatro brasileiro -  não à toa, como resposta à crise atual -, a tomar como ponto de referência o Ricardo III  de Celso Frateschi (Teatro Ágora), pode propiciar ou, pelo menos, estimular a reemergência de um pensamento crítico e humanista.
Ao tomarem uma posição sobre a crise, Toni Negri e G. Cocco assinalaram que, "na realidade, o poder é sempre corrupto, pois é fruto da corrupção da democracia, de sua limitação, de sua despotencialização, ou seja, da redução da potência de muitos ao poder de poucos". Porém, não basta apenas a simples denúncia da corrupção, uma vez que "a moral é a impotência posta em ação" (Marx). Há de se perspectivar a superação das contradições econômico-sociais que engendram essas formas de dominação.
Por fim, concluímos que, no Renascimento, o processo social de individuação se abria de um modo muito mais expansivo para a personalidade humana, e a arte do dramaturgo propiciou plenamente a compreensão e o autoconhecimento de nossa humanidade, de valores universais. Em nosso presente, auxilia a compreender a restrição das possibilidades de escolhas de destino, mesmo com o desenvolvimento acentuado das forças produtivas materiais e da capacidade humana de domínio da natureza, portanto de criar condições mais dignas de vida. Temos, ao contrário, um processo de estreitamento das individualidades.
Uma questão que nos acompanhou nesse trabalho foi a de saber se arte e vida, em tempos tão díspares, podem ser comparadas. Acredito que a arte, nos termos aristotélicos, nos forma e educa (pela catarsis), como indivíduos sociais que se transformam com os valores extraídos dos dramas humanos representados.
É válido terminar este texto com uma passagem do escritor, presente na peça Henrique IV[14] :

O Rei     -  Meu Deus! Se se pudesse ler o livro do destino
                  E ver a revolução dos tempos...
Wawick -  Em toda a vida humana há uma história
                  Que simboliza a natureza dos tempos que findaram;
                  A qual, sendo observada, permite profetizar,
                  Com grande aproximação, a substância das coisas
                  Que estão ainda por nascer, oculta ainda
                  Nas suas sementes e débil início
                  Tais coisas, incuba-as e fá-las desabrochar o tempo; {...}
              


Notas

1HELLER, Agnes. O Homem do Renascimento. Lisboa: Editorial Presença, 1984.
2HELLER, Agnes. op. cit., p. 15.
3"Antes de Shakespeare, os personagens literários são, relativamente, imutáveis. Homens e mulheres são representados envelhecendo e morrendo, mas não se desenvolvem a partir de alterações interiores, e sim em decorrência de seu relacionamento com os deuses. Em Shakespeare, os personagens não se revelam, mas se desenvolvem, e o fazem porque têm a capacidade de se auto-criarem. Às vezes, isso ocorre porque, involuntariamente, escutam a própria voz, falando consigo mesmos ou com terceiros. Para tais personagens, escutar a si mesmos constitui o nobre caminho para a individuação, e nenhum outro autor, antes ou depois de Shakespeare, realizou tão bem o verdadeiro milagre de criar vozes a um só tempo tão distintas e tão internamente coerentes para seus personagens principais, que somam mais de cem, e para centenas de personagens secundários, extremamente individualizados."  BLOOM, Harold. Shakespeare, a invenção do Humano. Cf. KOGUT, V. Entre Livros entre clássicos 2. São Paulo: Duetto Editorial, 2006, p. 17.
4"Foi para atender às deficiências do Clero que aparecem as homilias Tudor, o que fica bem claro pela resolução tomada na Convocação do Clero de 1542, onde fica dito que eles teriam como objetivo obstar aqueles erros que eram então, por pregadores ignorantes, espalhados entre o povo. As homilias passariam a ser obrigatoriamente lidas nas igrejas, aos domingos, em lugar dos sermões normalmente preparados por sacerdotes locais. Na verdade, a partir da publicação da primeira coletânea das homilias, ficavam os  sacerdotes proibidos de pregar sermões de sua própria autoria, a não ser com dispensa especial concedida pela alta hierarquia da igreja, inteiramente identificada com os interesses da coroa e do rei" (Heliodora, 2005:66)
5O período elizabetano ficou reconhecido por ser uma época de "triunfo, de enriquecimento e florescimento cultural é considerada a época de ouro da história inglesa e de Elizabeth(...)_Mas entre todos os méritos de Elizabeth como monarca estava de ser uma notável patrocinadora das artes, sobretudo de um gênero que só recentemente vinha alcançando legitimidade: o teatro" (Kogut, 2006: 18). Vale dizer que Elizabeth I regulamentou a profissão de ator e, assim, utilizava-se do teatro como uma arma de controle do povo e da corte
6Expressão que se vale Ibaney Chasin em sua obra sobre Monteverdi Humana Melodia. Tese de Doutorado apresentada ao Departamento de História, FFLCH. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2003. Segundo este autor, Maquiavel dispôs de modo categórico esta determinação ao dizer: "É que os homens, em geral, julgam mais pelos olhos do que pelas mãos, pois todos podem ver mas poucos são os que sabem sentir." (Maquiavel, 1973: 81)
7HELLER, Agnes. op. cit., p. 276.Grifos da autora.
8Em A Ideologia Alemã, Marx precisou que "este modo da produção não deve ser considerado só segundo o aspecto de ser a reprodução da existência física dos indivíduos. Ele já é antes uma maneira determinada de atividade desses indivíduos, uma maneira determinada de manifestar a sua vida, um modo de vida determinado. Os indivíduos são assim como manifestam a sua vida. O que eles são coincide portanto com a sua produção, tanto com o que produzem quanto também com o como produzem. Portanto, o que os indivíduos são depende das condições materiais da sua produção". (Marx & Engels, 1983: 186)
9Ana Selva Albinati, em seu estudo sobre os limites da crítica moralizante, escreveu: "A moral, enquanto prolongamento ideal de um estado de coisas social, encontra nessa objetividade seus próprios limites, que se expressam no seu conteúdo, nos seus valores. Ainda que, em virtude de se relacionarem com a totalidade social, e não apenas refletirem mecanicamente o modo de produção material, esses valores se dirijam em algum momento contra as solicitações do campo econômico, eles não têm, por si só, um potencial de transformação dessa realidade. (...) Marx critica a concepção idealista da história porque esta não se dá conta de que ‘não é a Crítica, mas sim a revolução que constitui a força motriz da história, da religião, da filosofia ou de qualquer outro tipo de teoria'." (Albinati, 2001: 135)
10Na posição marxiana, a consciência do indivíduo jamais poderá ser retirada do modo como ela é produzida historicamente. Assim é sob esta base material, o modo de vida determinado, que germinam e agem as idéias
socialmente determinadas. "A produção das idéias, representações, da consciência está de início imediatamente entrelaçada, na atividade material e no intercâmbio material dos homens, linguagem da vida efetiva. O representar, pensar, o intercâmbio intelectual dos homens aparecem aqui ainda como afluência direta do seu comportamento material. O mesmo vale para a produção intelectual tal como se apresenta na linguagem da política, das leis, da moral, da religião, da metafísica, etc., de um povo. Os homens são os produtores das suas representações, idéias, etc., mas os homens efetivos, atuantes, tal como são condicionados por um desenvolvimento determi¬nado das suas forças produtivas e do intercâmbio correspondente às mesmas, até as suas formações mais amplas. A consciência nunca pode ser outra coisa do que o ser //Sein// consciente, e o ser dos homens é o seu processo efetivo de vida". (Marx & Engels, 1983: 192-193).
11"Shakespeare privilegia a abordagem da política enquanto atividade humana e, assim, preocupa-se pela maneira como os indivíduos são afetados pelo exercício do poder." (CHAIA, Miguel. A natureza da política em Shakespeare e Maquiavel, 1995)
12"... Eu vim para enterrar César, não para elogiá-lo (...) e  Brutus é um homem honrado (...) Pois os homens perderam o raciocínio! (...) Por aqui passou o punhal do bem-amado Brutus (...) Proclamai-o pelas ruas: César está morto! ". (Julio César, cena II, Terceiro Ato)  
13Na posição marxista, a democracia. como uma forma política, "de uma maneira ou de outra maneira pertence ao anel perturbador da totalização recíproca entre sociedade civil e estado. É, decerto, parte de um circuito menos perverso que outros - não por isso deixa de ser um modo pelo qual a sociedade civil, ou melhor, seu setor ou setores dominantes reproduzem a formação política segundo sua própria imagem. Enquanto tal, expressa nexo e lógica que provêm de algo situado além de sua simples figura de canal e contorno. Em atividade, é muito mais do que mera catraca que organiza as ‘entradas'e as ‘saídas'. Tem o dom de abstrair e selecionar. Não se entra ou se sai por inteiro, nem tudo e nem todos têm acesso a todos os cantos. Sua mágica é reflexionar os crivos, as tramas e os urdumes da placenta em que é gerada, e da qual nunca arranca os pés". (Chasin, 2000: 97)
14HELLER, Agnes. In: op. cit., p.161. Grifos da autora.


            
Bibliografia

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Laura de Paula Rago Pós-graduanda em Jornalismo Cultural/PUC-SP

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