Romeu e Julieta, tragédia escolhida por uma mulher
Syntia Alves
Histórias a respeito do amor proibido de um jovem casal não nos são novidade, assim como já não o eram em 1595-96, quando William Shakespeare escreveu a sua versão de Romeu e Julieta. Vindo da Grécia, conhecemos o amor de Piramo e Tisbe, separados pelo ódio das famílias e por um muro, por onde os jovens se amavam. Na Renascença, em 1476, Masuccio usava o veneno, ministrado por um frade, em Il Novellino, como um recurso para os amantes. Mais adiante, em 1530, Luigi Porto nos apresenta, em sua Historia novellamente ritrovata di due nobili amanti, uma trama bem semelhante à de Shakespeare, tendo Verona como cenário, e os Montecchi e Cappelletti como personagens. Porém, essas outras estórias de amores proibidos usavam a tragédia como meio de prevenir os jovens dos males dos "desejos desonestos" que escravizavam, além de coibir o "desrespeito à autoridade e ao conselho de pais e amigos" [1] que o amor provocava. O que torna Romeu e Julieta, de Shakespeare, a versão mais popular dessa história contada tantas vezes e de tantas formas não é a morte do casal e o amor impossível dos jovens, mas sim as trajetórias dos dois amantes. A moralizante condenação da juventude dá lugar à ênfase no conflito entre as duas famílias, criando um forte teor político e social.[2] O casal de amantes morrerá não por obedecerem a seus sentimentos e instintos, mas por se colocar em meio ao campo sangrento da luta entre suas famílias.
Romeu e Julieta é uma peça sobre amor. Durante os séculos se firmou como uma das maiores celebrações do amor incondicional, recíproco e que leva os amantes envolvidos à morte pelo excesso de vida e amor que anseiam por se consumar. Um amor tão intenso traz obrigatoriamente seu duplo, um ódio descomunal, mas na peça também o contrário acontece: o segundo supõe o primeiro. Em Shakespeare, o amor é tão justificado quanto o ódio, o que os iguala, anulando qualquer análise dicotômica.
Nas personagens de Julieta e Romeu, a ruptura do velho com o novo é o que mobiliza toda a trama. Shakespeare, fruto de uma geração nascida em berço elizabethano, expôs, nas personagens dos dois amantes, essa geração, então mais jovem, que clamava por liberdade para realizar suas vontades, viver seus sentimentos, desligar sua intimidade da comunidade. O dramaturgo usava suas peças para mostrar a existência de uma nova constituição social, uma sociedade onde Deus não era mais onipotente, e novas classes sociais surgiam e clamavam por seu lugar econômico e social .
Um elemento que aparece fortemente em Romeu e Julieta, mas que, muitas vezes, é negligenciado em montagens ou análises, é o modo como Shakespeare vê as mulheres que circundavam sua sociedade. O diálogo entre dois criados dos Capuleto, no começo do texto, indica o quanto a sociedade elizabethana considerava fracas as mulheres, intelectual e fisicamente, o que as tornaria manipuláveis pela vontade dos homens. Era esse o comportamento que delas se esperava. Shakespeare viria a se colocar contra essa opinião, o que não é de se estranhar, se lembrarmos de toda a importância que Elizabeth I teve na política e na nova constituição social da Inglaterra. Para negar o estereótipo da mulher, o dramaturgo constrói sua Julieta, inicialmente fraca, porém dona de uma força que, desconhecida para ela mesma, mobiliza toda a peça e surpreende seu espectador.
A história de Julieta é a história de uma mulher que se deu conta do que era e resolveu assumir um modo de seguir sua vida, tornado possível após a noite em que encontrou Romeu; a partir daí, ela tinha uma razão para se revelar. Até então, a vida de Julieta era viver em sua casa, com sua família, conhecendo a vida pública nos bancos da igreja que ela freqüentava. A guerra civil na qual Verona vivia talvez não tivesse tido importância para ela até o momento em que se apaixonou por Romeu. Para o jovem Montéquio, porém, as coisas eram diferentes. Além de já haver se envolvido com outras mulheres, Romeu vivia no centro da briga dos Capuleto e os Montéquio, acompanhava a rivalidade e as brigas armadas nas ruas. Para ele, a rivalidade entre as duas famílias não era uma tradição sem importância, mas sim uma história passada por gerações e uma realidade que ele via e vivia. Talvez por Romeu já iniciar a peça com ações de mais impacto, as montagens e leituras o privilegiem como o centro trágico da peça, mas o que se deve pensar é no que o casal constitui, não podendo-se pensar em Romeu sem Julieta, e nem em Julieta sem Romeu.
Com o encontro com sua amada Capuleto, Romeu é levado a se transformar. O jovem amante muda seu modo de ver a vida, de agir, e aceita até mudar de nome e deixar de ser um Montéquio. Já no começo, percebe-se que todo o exagero nas falas de Romeu - quando ele se sente apaixonado por Rosalina - diz respeito a ele mesmo e ao quanto essa paixão o destrói e torna infeliz. Mas, a partir do baile, Romeu passa a se concentrar em Julieta e a ser bem mais objetivo, mais decidido quando se descobre amado por sua amada, e também mais corajoso, coragem essa que irá resultar em seu banimento e na morte de Teobaldo. Romeu é o complemento da jovem Capuleto; sem ele, Julieta não é Julieta. O amor é vivido intensamente pelos dois.
Enquanto Shakespeare procura fazer mudanças em Romeu, constrói Julieta como uma mulher decidida e ativa. A princípio, isso pode parecer inverossímil, pois ela é apresentada como uma menina que sequer tem quatorze anos e que não conhece o mundo, por isso não se pode imaginar o que esta personagem traz consigo, o peso que ela terá na trama e como se apresentará no desenrolar da peça. Porém, a pouca idade de Julieta talvez seja mais um recurso de Shakespeare para mostrar a suposta ingenuidade e inexperiência feminina e para que a mudança de Julieta, ao conhecer o amor, seja maior, mais marcante. De outro modo, também pode ser mais uma forma de mostrar como não se sabe o que esperar de uma mulher quando o mundo se abre para ela.
A personalidade de Julieta só é revelada ao longo da peça, surpreendendo-nos com uma menina que se revela mulher forte e que age com a verdade ou a dissimulação segundo o que necessita para conseguir suas vontades. O momento em que ela precisa escolher entre a vida que ela quer e a vida que querem para ela - em que ela conhece e se apaixona por Romeu - é quando ela começa a sentir a vida pulsando dentro de si e passa a agir de acordo com suas vontades. Antes disso, Julieta era tida como mais uma menina criada igual a um animal adestrado, que obedece aos comandos de seus donos.
Poucas experiências eram permitidas às mulheres. Desta forma, esperava-se que elas fossem incapazes de atos ou decisões racionais, justificando, assim, os casamentos como um meio de cuidar destas que não eram capazes de responder por si. Na maioria dos casos, essa preocupação com as mulheres era apenas um discurso que trazia muitos interesses políticos, sociais e econômicos. Até o início do século XX, as alianças eram arranjadas entre meninas muito novas e homens já com mais experiência, futuro que também se reservava a Julieta. Assim a queriam: sem conhecimento sobre as coisas do mundo, nem sobre si mesma, e sem vontades próprias. Ideal para sair da casa de seu pai para entrar diretamente no lar do marido escolhido, e assim ficar com tudo o que é do pai da esposa. Nem sobre seu casamento Julieta pensava, apesar de ser esse o único futuro de uma moça, filha de pessoas socialmente importantes.
Antes de amar o jovem Montéquio, Julieta não conhece a sua própria força, sua vontade ativa que será despertada pelo amor. Por isso, no começo, ainda se coloca como obediente aos desejos de seus pais e acatando suas ordens, como se ela não tivesse vontades, e certamente era assim que ela era desejada pelos Capuleto. Julieta começa seguindo a educação recebida desde a infância e pensando nos casamentos, os quais, em nenhum momento, se relacionavam ao amor, mas sim a ligações por interesses sociais ou econômicos, relações nas quais os homens tinham autoridade sobre as suas esposas. Desta forma, cumprir-se-ia a regra social da época, em que o pai, se lhe falta um herdeiro homem para continuar cuidando de seus negócios, escolhia o mais apto a ocupar esse cargo, afinal uma filha mulher tem como função ser a responsável pela continuação da família, gerar novos herdeiros - e como essa função era importantíssima, as mulheres deveriam ser vigiadas, adestradas e aprisionadas física e emocionalmente, repelindo galanteios ou mesmo o amor, afim de poderem se controlar seus sentimentos e instintos.
Essa regra social, costumeira durante séculos, fica muito clara quando Julieta diz a seu pai que não quer se casar com Páris; a resposta do Sr. Capuleto é firme e resoluta. Deserda Julieta por seguir a própria vontade e não a ordem dada. Essa cena é importantíssima para se entender tanto como a mulher era vista na época, quanto o que significaria socialmente e para a própria mulher algum ato que saísse dos protocolos pré-estabelecidos. Porém, a história da Inglaterra - uma monarquia liderada por mãos femininas e sendo bem administrada pela rainha - e a história pessoal do dramaturgo nos dão a impressão de que as personagens contestadoras de Shakespeare [3] são mais uma mostra do quanto o autor considera haver de força e racionalidade nas ações femininas. E assim, a escolha de qual caminho a menina vai seguir, que ela mesma já tinha escolhido antes, agora é dada pelo pai: ele ordena, pensando que ainda é possível fazê-lo, que Julieta "use a mente e o coração" (III, v) e se case com o escolhido pelo pai, ou então terá a forca. O Capuleto diz claramente quais são suas preocupações: "impedir que o que é meu venha a ser seu" (III, v). Porém, Julieta já vinha mostrando ao longo da peça que pensa por si só. Por isso, não estranhamos quando vimos que ela não cede à chantagem do pai.
Antes de se apaixonar por Romeu, Julieta tem enorme ingenuidade a respeito do amor e nunca tinha se defrontado com a vida. O amor é que a amadurece, pois é ele que desperta sentimentos, mostra-lhe os instintos, e também a desliga da família e de seus valores, revela uma individualidade que se sobrepõe ao político, o que lhe torna capaz de agir contra as normas sociais. Julieta não tem qualquer dúvida a respeito de seu amor, nem mesmo do perigo de vivê-lo; é por ter consciência dos riscos e pela firmeza de suas decisões que seus atos parecem ser precipitados e sua emoção, irracional. Julieta não é impulsiva, mas sim decidida, firme, e foi de encontro ao destino que escolheu.
Julieta é uma personagem altamente transgressora. A ação inicial de contestar a briga das duas famílias de Verona fica nas mãos de Julieta, que é a primeira a se dar conta racionalmente deste fato como um problema, fato esse que, talvez, nunca tivesse tido importância em sua vida . Enquanto ela pensa nos problemas reais, Romeu fica divagando sobre o amor. É ela a parte racional deste amor proibido, que arma com a Ama e com o Frei, que engana sua família e Páris. É ela quem abre mão de tudo. Enquanto isso, não fica claro o que é importante para Romeu; quando de seu banimento, só lhe importa a distância que passaria a ter de Julieta. E até neste caso, não é Romeu quem escolhe seu destino, o qual lhe é imposto pelo príncipe de Verona. Com o destino de Romeu decidido, cabe a Julieta decidir o que fazer de sua vida. O Frei lhes dá a idéia de aproveitar o banimento de Romeu para fazer com que Julieta também saia da cidade, mas é ela quem tem de abrir mão de sua vida, afinal, para Romeu, o banimento era o único modo de vida após o assassinato de Teobaldo. É Julieta quem tem de mentir e enganar para ir viver com Romeu.
A jovem Capuleto é quem se depara com a resistência de uma sociedade dirigida por homens, é ela quem usa a racionalidade, dando-se conta da proibição e do perigo de seu amor, é Julieta quem resiste às normas sociais de um casamento que ela nunca nem pensou. É ela quem enfrenta seu pai e sua mãe dizendo não querer se casar com Páris, e a seguir, age com dissimulação, manipulando sua família afim de ganhar tempo para seu plano de viver com Romeu. Julieta se mostra passional em seu amor, mas muito racional em seus atos, não podendo ser enquadrada, aprisionada em algum molde de ação. As diferenças entre os dois amantes ficam evidentes em cada diálogo deles, fosse entre si, ou com outros personagens da peça. Logo que eles percebem a brincadeira que o destino lhes convidou a brincar, enquanto Romeu sofre por amor, como que se fosse de costume seus amores serem doídos, Julieta entende o que poderia significar toda a situação na qual eles se encontravam e que eles não negam, não tentam fugir. Ela coloca, mais uma vez, a questão da inimizade entre as duas famílias, prontificando-se a desobedecer toda a ordem estabelecida pelo ódio entre seus pais.
A questão da inimizade entre as duas famílias entra na vida de Julieta junto com o ódio, que traz consigo alegria e dor, e uma nova forma de vida: um amor que traz na sua sombra o ódio e que veio sem que ela percebesse, pois foi seu primeiro amor, uma sensação inédita para Julieta, um amor por aquele menino-homem, que poderia ter qualquer outro nome, e seria da mesma maneira intenso e violento. Agora, muito mais do que não ter outra escolha, ela não quis outra forma de vida senão a de saborear o agridoce de amar Romeu.
É o acaso que gera o encontro e o amor do casal, mas eles sabem usar a contingência para seguir as vontades que lhes foram despertadas. Assim, Julieta incita Romeu a agir: "chame-se outra coisa", "... com outro nome. Mude-o, Romeu" (II, ii), mostrando qual o caminho que ele deve seguir e, como em uma troca, Romeu deixa seu nome e fica com Julieta, como ela mesma diz. O amor que mudará a história dos Capuleto, dos Montéquio e de Verona, começa por despertar sentimentos e ações que antes dormiam nos dois amantes. Se Julieta era uma menina que não conhecia seus gostos e vontades e, ao amar Romeu, descobre sua força, ela não poderia mais viver uma vida que não fosse escolhida por si mesma. Da mesma forma, o amor que antes fazia a alma de Romeu pesada e seus pés, grudados ao chão, agora o faz leve e, assim, passar por cima de qualquer obstáculo. Romeu passa a sentir sua força e a força de suas vontades, tanto que o amor que deveria ser proibido é aceito e vivido, e as pulsões de Romeu tomam uma força que eclode na morte de Teobaldo.
Apesar de ser inegável o quanto Romeu se revela durante a peça, Julieta é quem, de fato, muda a trajetória da vida de todos os personagens, é a coragem dela que impulsiona Romeu, seus atos é que são definitivos para o desencadeamento da peça. Por negar toda a fragilidade com a qual ela é apresentada; por toda a racionalidade que ela mostra ter, pois é ela quem lembra que a questão do nome é um problema, não dos amantes, mas das famílias e da sociedade; sua insubmissão em não aceitar o casamento arranjado pelo pai, e assim agarrar os fios de liberdade que se mostravam em sua frente; não ouvia os conselhos da Ama e mostrava dissimulação fingindo-se arrependida por desobedecer o pai e aceitando o casamento com Paris, quando na verdade, tem um plano para fazer prevalecer a sua vontade; com tudo isso, Julieta mostra ser decidida em seus quereres. Mas a personagem de Julieta vai além disso, é vítima do ódio entre as famílias e do moralismo que cai sobre as mulheres, do caráter sempre público que as ações femininas tomavam, em qualquer momento de suas vidas; deveriam viver de maneira a serem bem quistas socialmente.
Julieta sabia o que era esperado dela: que fosse correta e renegasse seu amor e suas idéias de ficar com Romeu, isto é, deveria recusar o amor e aceitar um casamento aos moldes sociais da época. E, justamente por saber de sua condição, sua opção por dizer "adeus, pudores!" (II, ii) é muito mais contestadora do que se suas palavras fossem proferidas na ignorância. Julieta resiste contra as normas sociais em prol de sua liberdade de ação e de escolha do que deseja, resoluta e certa do que lhe acontecia, dizendo "Me ama? Eu sei que vai dizer que sim" (II, ii), perante um Romeu que necessita de suas juras de amor para poder continuar. Julieta mostra sua vontade ativa por sua maneira de pegar seu destino na mão, aceitando e vivendo-o, por quebrar as normas e regras para conseguir o que quer. E também por ser ela quem decide como se dará a relação com Romeu, e por estar disposta a dissimular e esconder suas vontades quando diz "mas, se pensar que eu fui fácil demais, serei severa e má, e direi não" (II, ii), seja para conseguir o que quer, no caso o amor de Romeu, seja para evitar ações mais drásticas, no caso, quando seu pai se altera e ameaça deserdá-la e bater-lhe pela sua rebeldia.
Julieta sabe o que quer, por mais que nunca tenha amado antes. Ela não precisa de provas, nem de experiências. Rompe com as normas sociais para ter o que quer e não pensa nas conseqüências que suas ações poderiam lhe trazer. Julieta é, sem dúvida, a ruptura entre o velho e o novo, e expressa a transição dos valores morais e políticos da cidade de Verona. A jovem sabe disso, sente o novo na vida que carrega em si, e vê os velhos pesados por costumes e valores que, para ela, não fazem sentido. É justamente desses velhos valores e costumes sociais que ela quer se libertar.
Se Julieta já havia mostrado sua personalidade forte, racional e decidida em aceitar o amor de Romeu, em passar por cima das convenções e proibições sociais, quando ela se depara com a morte de seu primo Teobaldo, provocada por seu amado Romeu - que por isso foi banido de Verona - e é obrigada a se casar com um homem a quem não ama, percebe não ter mais nada a perder. Seu amor estava arriscado pelo segundo casamento - pois Julieta já havia se casado escondido com Romeu -, sua família já começara a se desintegrar e não era mais camuflado o fato de que suas vontades não seriam respeitadas, mas sim, muito pelo contrário, punidas. E assim, a menina aceita completamente o destino que escolheu, segue com sua postura firme no plano de fugir com Romeu. Ela já havia entendido o quanto o ódio e o amor eram os verdadeiros donos do seu destino.
Antes da fuga, Julieta, de forma dissimulada, engana a todos: para seus pais, ela diz que aceita se casar com Páris; para a Ama, que sabia do casamento com Romeu, a jovem Capuleto diz que esquecerá seu amor, em virtude dos planos da família e visando a um bom futuro. Julieta finge aceitar o conselho da Ama, fazendo com que acredite que ela é a menina fraca que sempre disseram que era. Continua a mostrar que passará por uma menina submissa, indo à igreja para confessar sua rebeldia contra seu pai e assim obter absolvição. O que movia esse comportamento era, na verdade, a certeza de tudo o que a cercava, e assim ela rompe também seus laços com a Ama, que sempre foi sua única companheira, sua antiga amiga, e que passava a se colocar contra as vontades da menina. Julieta percebe que a Ama, diferentemente dela, muda de opinião de acordo com a ocasião. A velha não é como a menina, que arca com as conseqüências de seus atos, negando-os e mudando de idéia sobre as coisas e pessoas. Julieta decreta: "Doravante seguimos dois caminhos" (III, v), o que termina sua relação com a Ama, seguindo agora um caminho diferente, em direção à morte.
Julieta aceita o plano sugerido pelo Frei: tomará a poção que fará com que ela pareça morta, depois seguirá ao encontro com Romeu, que estava banido de Verona. O casal viveria, desta forma, longe do ódio de suas famílias. Além desse plano, a única alternativa que Julieta aceitaria seria a morte, mas não aceitaria trair o amor que entregou a Romeu, nem seu casamento, e muito menos suas vontades. A dissimulação de Julieta chega ao ponto máximo da peça, ela passa a se mostrar feliz para seus pais, arrependida pela rebeldia e disposta a se casar com Páris. Quando Julieta aceita tomar a poção dada pelo Frei é o único momento da peça em que a menina nos transmite medo: "Sinto o medo correndo em minhas veias, congelando o calor da minha vida" (IV, iii), mas mesmo assim não recua, não desiste e segue o caminho do seu destino, aceitando-o. Ela cogita a hipótese de o Frei ter dado a ela um veneno de fato para matá-la, e este não perder a honra da boda que ele mesmo sacralizou; pensa na hipótese de acordar muito antes de Romeu chegar para salvá-la, o que lhe levaria a morrer sufocada no jazigo, "sem poder respirar e sem Romeu" (IV, iii), como ela diz, e é isso o que de fato a apavora. Também teme enlouquecer ao acordar em meio aos mortos e seus cheiros, cercada por esses medos pavorosos. No entanto, por Romeu, ela bebe a poção, acima de qualquer medo que esteja sentindo, e aceita seu destino, seja o de reencontrar Romeu numa outra vida-vida ou numa vida-morte, seja uma possível loucura. É aberto, em frente de Julieta, um buraco escuro, e ela não sabe se há um chão para cair, se há espinhos ou se é o próprio jazigo que encontrará, quando a queda chegar ao fim. Sem nenhuma resposta, Julieta salta, pois para ela, a morte e a loucura se encontram em seu quarto, em sua família, na Ama, no casamento com Páris e no afastamento de Romeu. Com sua decisão e sua ação, a personagem mostra-se livre para escolher o caminho que irá tomar, se mostra forte para enfrentar seus medos e as grades sociais e políticas nas quais quiseram aprisioná-la. Julieta nega o que lhe foi imposto por ser mulher, nega o que esperavam que ela fizesse, e faz o que deseja, sem cogitar que seriam ações sem volta.
Durante toda a peça, tudo esteve contra o amor do jovem casal: as famílias, o Estado, a indiferença da natureza e o capricho do tempo. A farsa, que havia começado com o casamento proibido, segue para seu final trágico: Julieta é dada como morta. A notícia corre com tamanha rapidez que até Romeu, o único que não deveria, cai na farsa montada pelo Frei e por Julieta, e resolve encontrá-la na morte.
No jazigo de Julieta, Romeu encontra Páris chorando pela morte daquela que nem chegou a desposar. Os dois cavalheiros se encontram e travam uma luta pelo amor da jovem, mesmo que este amor já não valha de mais nada, pois o objeto do amor, no imaginário de ambos, já não existe mais, e talvez nesse embate esteja a maior prova de amor de Romeu. Após matar Páris, bebendo o veneno, Romeu morre rapidamente aos pés de sua amada Julieta, completando sua prova de amor, que até então poderia ser duvidoso por terem sido vãos seus outros amores. Ao despertar de sua falsa morte e se deparar com a cena de horror que a cerca, com seu amor e com Páris mortos, Julieta percebe que seu plano não deu certo, que não há mais forma de vida, pois sua vida estava ligada a Romeu. Para Shakespeare, como afirma Bloom, "morre o amor ou morrem os amantes". Os amantes se vão para que o amor fique. Julieta então crava impulsivamente no peito um punhal e morre de forma bem mais bruta que Romeu, diretamente por suas mãos. Julieta encara duas vezes a morte, duas vezes a única forma de não sucumbirem suas vontades, sua vida.
O amor em meio ao ódio é descoberto e dá sentido a todo o derramamento de sangue, que colore as vidas dos que ficaram para ver o hediondo espetáculo no sepulcro dos Capuleto. A tragédia termina com o desfecho digno de amantes que correm de encontro ao próprio fim. Julieta e Romeu comparecem ao encontro que foi marcado, anos antes, por seus antepassados, é um acaso ocasionado por outros e cumprido pelo jovem casal. A rixa tem fim com a morte do casal, e a "mais triste história" (V, iii), como diz o Príncipe, não vem simplesmente para dar lugar à restauração da ordem, mas vem como uma ironia que dá fim à briga com o fim da sucessão dos Capuleto e dos Montéquio.
Julieta carrega toda a subjetividade e individualidade que é latente na época e em Shakespeare. Para ela, o amor foi mais importante do que as contingências sociais, o conflito político e as relações de poder das duas famílias. No amor de Julieta e Romeu, não havia o político, o social, mas foram esses fatores que os fizeram escolher a morte e o fim trágico, que eram, para eles, os únicos meios para chegar a um final feliz.
A moral que Shakespeare coloca na peça não é a dos dois amantes que se entregam a um afeto proibido, mas sim do horror à desordem pública, à guerra civil, às juras de morte que aconteciam na briga das duas famílias. Foi preciso perder algo que lhes era muito caro para que sua rixa tivesse fim, o que não havia sido obtido pelo poder político e nem pelo religioso. As duas famílias entregam seus filhos como uma oferenda aos deuses, um sacrifício sangrento, fim violento de toda uma trajetória não menos violenta, pois não seria permitido outro fim para os amantes, como pronunciou o Frei: "O violento prazer tem fim violento" (III, vi).
Notas
1No Romeu e Julieta traduzido por Barbara Heliodora, a autora cita Tucker Brooke como referência de uma análise bem pontual desta mudança de postura dos dramaturgos abandonando as idéias da escola clássica de cuidado com os atos passionais.
2Refiro-me à idéia de que Shakespeare deixou mulher, filhos e a posição estável que sua família tinha em Stratford para viver uma outra vida, em Londres, exercendo uma profissão sem prestígio na época.
3Refiro-me a outras personagens femininas de Shakespeare, das quais duas foram analisadas em minha dissertação de mestrado, "Mulheres de Shakespeare - do amor à loucura", 2005, PUC-SP.
Bibliografia
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BALANDIER, Georges, O Poder em Cena, Brasília, Ed. Universidade de Brasília, 1980.
BERTHOLD, Margot - História Mundial do Teatro, São Paulo, Editora Perspectiva, 2000.
BLOOM, Harold - Shakespeare: a invenção do humano -Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 2001.
BOQUET, Guy - Teatro e Sociedade: Shakespeare, São Paulo, Editora Perspectiva, 1989.
BRANDÃO, Junito de Souza - Teatro Grego - Tragédia e Comédia, Petrópolis, Vozes, 1985.
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DULEY, Georges e Michelle Perrot - História das Mulheres do Ocidente - Do Renascimento a Idade Média, Porto, Edições Afrontamento, 1991.
História das Mulheres do Ocidente - O Século XX. Porto, Edições Afrontamento, 1991.
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A Expressão Dramática do Homem Político em Shakespeare, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1978.
SHAKESPEARE, William - Romeu e Julieta. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1997. Tradução: Barbara Heliodora.
Syntia Alves Doutoranda do Programa de Ciências Sociais da PUC-SP e pesquisadora do Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política do Programa de pós-graduação da PUC-SP.
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