Os centenários de Machado e Rosa - Apresentação
A revista Cultura Crítica não poderia deixar de participar da celebração dos 100 anos da morte de Machado de Assis e 100 anos do nascimento de João Guimarães Rosa. Feliz coincidência de morte e nascimento de dois gênios da literatura brasileira.
Machado nos deixou definitivamente sua imensa obra em 1908, no dia 29 de setembro. Escreveu neste mesmo ano o último romance - Memorial de Aires.
Machado viveu longos anos dedicados aos poemas, contos, crônicas, peças e romances. Com penetrante visão da literatura, exerceu a crítica. Também nessa atividade o escritor fluminense se destacou. Seus escritos reflexivos constituíram um marco na história da crítica no Brasil. Entre seus embates, destaca-se a polêmica com Eça de Queirós, em torno do naturalismo.
Apegado aos conceitos clássicos - principalmente ao do sublime, elaborado por Longino -, não pôde compreender as transformações que realizava o realismo de Primo Basílio. Mas, pela seriedade de seus propósitos críticos, acabou por ressaltar a importância de Eça de Queirós, com quem se reconciliou mais tarde.
Um outro episódio, que não poderia ter a notoriedade de um enfrentamento como o com Eça de Queirós, remete a um Machado pensador da literatura. Trata-se da crítica ao jovem escritor Carvalho Junior, que inaugurou a poesia realista no Brasil, distinta da concepção parnasiana. Machado compungiu o poema Antropofagia, de Carvalho Junior, com ferozes observações contrárias ao realismo. Como Carvalho Junior morreu com pouco mais de 20 anos, deixou uma pequena amostra do que poderia fazer para emancipar a poesia do romantismo.
Machado de Assis se levantou contra o realismo de Eça e de Carvalho Junior, mas em favor de seu próprio realismo, marcado pela decomposição de valores da nova classe média e burguesa, que estavam se afirmando como classes sociais.
Em todos os aspectos de seus escritos, Machado esteve envolvido com a crítica. É um dos escritores mais completos - se não o mais completo de todos. Seus primeiros escritos foram publicados no periódico Marmota Fluminense, em 1855. Em 1908, completou 53 anos de trabalho de escritor e crítico. A imensa obra de Machado de Assis se deve à extraordinária disciplina intelectual e à perseverante convicção de que estava atuando em defesa da humanidade. Mas, é preciso separar Machado do culto à personalidade, tão em voga na critica do século XX.
João Guimarães Rosa nasceu em 27 de junho de 1908, portanto três meses antes da morte de Machado de Assis. Diferentemente de Machado, que, com 16 anos, publicava os primeiros poemas no Marmota, Guimarães é um escritor tardio. Tinha 28 anos quando escreveu o volume de poesia Magma (1936), mas se afirmaria um ano depois, com o volume de contos Sagarana (1937).
Em Sagarana, está toda a genialidade do escritor mineiro. Grande Sertão: Veredas (1956) será conseqüência. Na obra de Machado, há vários Machados, que indicam transformações dentro da evolução, ou evolução por transformações. Os escritos de Guimarães são um contínuo de Sagarana.
Faz justiça a avaliação histórica de Wilson Martins de que "Guimarães é daqueles escritores que já nascem clássicos". O que quer dizer que Sagarana emergiu como obra inovadora do conto brasileiro e universal.
Sagarana carrega uma passagem marcante em seu nascimento. Em 1938, Graciliano Ramos compõe o júri do concurso Humberto de Campos, promovido pela Livraria José Olympio. Feito o julgamento, restou a pendência: Sagarana, de um desconhecido médico que usava o pseudônimo de Viator, ou Maria Perigosa, de Luís Jardim. Graciliano Ramos ficou com Maria Perigosa.
Em 1946, Graciliano tem em suas mãos a 1ª edição de Sagarana, reconhece ali o grande escritor, e deseja que Guimarães "se dedique ao romance". Graciliano termina a sua Conversa de Bastidores assim: "Certamente ele fará um romance, romance que não lerei, pois, se for começado agora, estará pronto em 1956, quando os meus ossos começarem a esfarelar-se".
Em março de 1953, o criador de Vidas Secas morre; em maio de 1956, veio à luz Grande Sertão: Veredas. Até parece vingança. Guimarães Rosa fez um romance formado por inúmeros contos, ou seja, por inúmeros Sagaranas.
Chegamos à Cultura Crítica nº 7, número especial. Esperamos que os ensaios dedicados aos 100 anos de morte e vida de Machado e Rosa cumpram o objetivo de melhorar nossa compreensão desses dois escritores tão distantes e tão próximos, tão opostos e tão iguais.
Agradecimentos
Mais uma vez a revista contou com a colaboração de muitas pessoas. A professora Ana Salles Mariano teve participação fundamental na edição da revista, ajundando a organizar a publicação dos textos sobre Guimarães Rosa, além de elaborar um artigo próprio sobre as manifestações que a obra desse escritor gera. A sua colaboração viabilizou a publicação deste número comemorativo. Na sua pessoa, agradecemos a todos.
Erson Martins de Oliveira
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