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Home >> Revista Cultura Crítica >> 07, machado e rosa: 100 anos, 1º semestre de 2008 >> "Guimarães é inigualável" - Entrevista Dr. José Mindlin para Cultura Crítica 7

"Guimarães é inigualável" - Entrevista Dr. José Mindlin para Cultura Crítica 7

APROPUC-SP 18.03.09

Dr. José Mindlin concedeu entrevista para a revista Cultura Crítica em sua biblioteca, a maior biblioteca particular do Brasil, no bairro do Brooklin, na cidade de São Paulo, em 14 de maio de 2008. Na oportunidade, Mindlin pôde mostrar algumas das suas preciosidades, adquiridas ao longo de quase oitenta anos dedicados aos livros e à divulgação da leitura. Entre elas, estão os originais de Grande Sertão: Veredas e de Sagarana. Com sua paciência, amabilidade, humor e cultura, falou de Guimarães Rosa, a quem conheceu pessoalmente, e da obra roseana.

CC - Como foi seu primeiro contato com Guimarães Rosa?
M   - Guimarães Rosa era muito amigo de meu irmão arquiteto e de minha cunhada, Vera Bocaiúva Cunha, que era gravadora e pintora. Eles me disseram para procurar Rosa em Paris, em 1946. Era a época da Conferência da Paz, e Rosa estava na delegação brasileira. Nós nos encontramos e fizemos uma ótima camaradagem. Ele era simpático. Foi fácil estabelecer um contato. A conversa foi muito agradável. Para se ter uma idéia da intimidade que se criou, lembro que ele me perguntou se eu não queria adquirir uma coleção de livros eróticos que ele havia formado, mas que não podia levar para o Brasil, porque tinha duas filhas e naquela época o preconceito com livros eróticos era forte. O livro erótico na França era chamado de livro da segunda fileira, da fileira de trás da prateleira. Eu disse a ele que estava na mesma situação. Eu também não podia levar a coleção para o Brasil, pois também tinha duas filhas. Posteriormente minhas filhas reclamaram da minha recusa.
Guimarães era uma pessoa muito alinhada, usava gravatinha borboleta e ternos perfeitos. O que a gente na época chamava de almofadinha.

CC - A pessoa de Guimarães indicava o grande autor?
M  -  Ele não me deu em todas as nossas conversas a menor indicação de que fosse escritor. E quando eu voltei para o Brasil, Sagarana estava sendo lançado. Achei que não deveria ser coisa boa, pensando no aspecto fútil de Guimarães. Ele tinha uma dupla personalidade, no aspecto pessoal e social, Guimarães tinha uma certa vaidade e futilidade, não tinha nada de intelectual. A outra personalidade era do gênio. Guimarães foi absolutamente genial.
Eu não sei como é possível a tradução de Corpo de Baile, do Grande Sertão e do próprio Sagarana. Embora ele acompanhasse as traduções e parecem que elas eram boas. Mas seria quase inviável que ele escrevesse em outra língua, como o francês ou inglês, porque toda obra dele encarna o sertão, o sertanejo, o cangaceiro e o homem do campo... mas seria um escritor universal. Com as traduções que estão saindo, ele já entrou na categoria dos grandes. E vai continuar. Aparecer outro Rosa não é impossível, mas não é fácil.


CC - O senhor levaria a obra de Guimarães para uma ilha deserta?
M - Costumo dizer que, se eu tivesse de ir para uma ilha deserta, levaria não um, mas três autores. Machado... Memórias Póstumas de Brás Cubas é imbatível... levaria toda a obra de Machado. A obra de Guimarães Rosa... e a obra de Proust... Em busca do tempo perdido. Eu acho que é uma glória para nós Guimarães ter existido.

CC - Qual é a contribuição original de Rosa?
M - Está no conhecimento da alma brasileira. Os tipos que ele descreve são da essência, do bem e do mal. Por exemplo, a forma como ele descreve os bandidos nos deixa horrorizados. E tem a criatividade... a imaginação. Quando você abre um livro do Guimarães Rosa, entra num mundo novo, diferente dos outros escritores.  Ele ainda poderia ter feito muita coisa se não tivesse morrido cedo. Ele era muito meticuloso com seus escritos.

CC - O senhor pode dar um exemplo dessa meticulosidade?
Eu também era amigo do Edoardo Bizzarri, que traduziu para o italiano a obra de Rosa, e que me pediu para que eu falasse com Rosa para que ele permitisse a publicação da correspondência entre eles sobre a tradução. A correspondência entre eles, que acabou por ser publicada, é muito interessante. Eu tenho os originais dessa correspondência. Nela, o Bizzarri faz inúmeras perguntas, e Rosa respondia de maneira meticulosa. O que mostra a preocupação de Rosa sobre a origem das palavras, e em que obras determinadas palavras foram empregadas no curso do tempo. É admirável a meticulosidade de Rosa. É esse Rosa que vai ficar para a história.

CC - Esse acompanhamento, esse cuidado que Rosa tinha com as traduções, não só a tradução para o italiano, mas também, por exemplo, para o alemão, que foi uma tradução maravilhosa, deu luz a suas obras também para nós, leitores brasileiros...
M - Sem dúvida.

CC - A primeira obra que o senhor leu de Rosa foi Corpo de Baile? Qual foi sua surpresa?
M - Sim, eu li primeiro Corpo de Baile, depois Sagarana, e logo em seguida Grande Sertão. Eu fiquei não só surpreso como convertido. Virei um roseano contumaz e fanático. Eu acho que ele é inigualável.

CC - Algumas pessoas dizem que a obra e os livros de Rosa são de difícil acesso, que a leitura é complicada; ao mesmo tempo, muita gente simples lê Guimarães e ama seus romances. Por que isso acontece?
M - Antes de tudo, a obra de Guimarães é uma obra de arte. A pessoa que não entrou no universo do Rosa acha a sua leitura difícil. Mas, uma vez dentro desse universo, não há mais problema. Eu tive um problema parecido com a obra de Proust. No início, as leituras eram muito difíceis. Eu estava quase abandonando Proust, quando encontrei Tristão de Ataíde, Alceu de Amoroso Lima. Em conversa, querendo bancar o espirituoso, disse que Proust descrevia o sono tão bem que a gente adormecia. Tristão de Ataíde me disse que eu estava muito enganado. E recomendou que eu lesse as primeiras cinqüenta páginas com todo o esforço que fosse necessário, sem abandonar. Se, depois de ter lido as cinqüenta páginas, eu não tivesse penetrado no universo de Proust, deveria ler da mesma maneira mais cinqüenta páginas. Se fizesse isso, não largaria Proust mais. Foi exatamente o que aconteceu. Eu coloco Rosa e Proust nesse plano de dificuldade. São comparáveis. Depois que se adentra em seus universos, tudo fica mais fácil.

CC - Estamos no ano de comemoração dos cem anos de nascimento de Rosa e dos cem anos da morte de Machado, dois autores de épocas diferentes. Qual a relação que se pode fazer entre esses dois ícones da literatura brasileira?
M - Machado de Assis conserva todo o sabor do século XIX. É o Brasil vivo dessa época. Rosa fez uma coisa completamente diferente, no entanto, são obras que se completam. O Brasil só com o Machado não seria suficiente; e só com o Rosa, também não. Eu diria que, para se ter uma idéia do Brasil sertão e do Brasil urbano, é preciso conhecer a obra dos dois. Machado de Assis não foi só romancista e contista, ele escreveu uma série de crônicas. Só elas já fariam de Machado um grande escritor.

CC - Essas crônicas saíram nos jornais da época de Machado, e tiveram uma penetração em um setor da sociedade. Elas, de alguma maneira, retratavam as transformações políticas e sociais que a cidade do Rio de Janeiro e o país estavam passando.
M - Nelas havia bom humor, sátira política, diferentemente dos livros, nos quais Machado era sempre casmurro, embora um casmurro satírico. Há muitos bons escritores brasileiros, além de Machado e Rosa, mas ninguém chegou a esse plano.

CC - No Brasil, Rosa tem o reconhecimento que merece?
M - Hoje, sim. Muitos jovens me procuram para conversar sobre Rosa. Todos esses jovens já entraram no universo desse autor. Ele tem uma popularidade muito grande. Sua obra é bem-divulgada.

CC - Nessa divulgação de Rosa, assim como na divulgação de qualquer escritor, qual é o papel da escola e dos professores?
M -  O primeiro instrumento de criação do gosto pela leitura é a leitura em casa, com os pais e o com o acesso direto aos livros. Mas, na situação de nossa população, as casas que têm biblioteca são uma minoria. A responsabilidade da introdução à leitura passa para a escola. Hoje, na escola, o grande problema não são os alunos, mas são os professores, que infelizmente viram sua profissão degradada. Muitos professores não lêem, não por desinteresse, mas por impossibilidade. Embora quem goste de ler sempre ache tempo. A gente faz o tempo. Minha própria leitura é feita da soma de pequenos tempos, de acordo com as minhas possibilidades.

CC - A sua biblioteca, além de ser grande, guarda muitas preciosidades. Entre elas, quais são as da obra de Guimarães?
M - Posso citar e mostrar algumas. Aqui está a terceira edição do Sagarana, mas é a primeira do José Olympio, quando ele passou a ser o editor do Rosa. Este é o exemplar que foi do Rosa, no qual ele preparou a quarta edição. Ele tinha muito capricho, as páginas estão com diversas anotações. Até seu nome ele altera em todas as páginas, trocando o "J." por "João". Naquele momento, Rosa considerava a quarta a edição definitiva. Quando saiu a quarta, Rosa não resistiu e preparou a quinta edição, com novas alterações.
Aqui estão os dois volumes originais do Corpo de Baile, e aqui o original do Grande Sertão, com muitas alterações. Ele datilografava, e depois fazia as correções. Este é o exemplar que foi enviado à gráfica para impressão.

CC -Para a cultura brasileira, qual é a importância da preservação desses originais?
M - Você conhece o processo de criação literária do autor, no caso Guimarães Rosa. Se, por exemplo, Graciliano Ramos usasse computador, "O Mundo Coberto de Penas", que depois foi batizado de "Vidas Secas", não seria conhecido. Para a criação literária, a preservação desses originais tem grande importância.


 

 

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