Imaginação: lastro utópico no contar rosiano
Maria Aparecida Junqueira
Drijimiro andara - de tangerino, positivo, ajudador de arrieiro - às vastas terras e lugares. Nada encontrava, a não ser o real: coisas que vacilam por utopiedade.
(G.Rosa, "Lá, nas Campinas", Tutaméia)
Mas cada conta, segundo as regras da matemática, tem seu resultado. Estas regras não valem para o homem, a não ser que não se creia na sua ressurreição e no infinito. Eu creio firmemente. Por isso também espero uma literatura tão ilógica como a minha, que transforme o cosmo num sertão no qual a única realidade seja o inacreditável.
(G.Rosa, entrevista com Lorenz)
A topografia rosiana aponta para um lugar que é "nenhum lugar". Esse não lugar pode ser o sertão, pode ser a campina, pode ser o cosmo, pode ser o real. Em Grande sertão: veredas, Riobaldo diz também que o "sertão: é dentro da gente" (Rosa, 1976: 235), diz ainda que "o sertão é sem lugar" (Idem: 268), que o "sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte que o poder do lugar" (Idem: 22). Há neste lugar rosiano muita poesia e pouca lógica, há uma sabedoria na poesia que a distingue da lógica. "Lá, nas campinas", há um lugar lembrado com a intensidade da poesia.
Que lugar é esse? Que geografia recorta? Será a da alma, a do coração, a da imaginação? Que utopiedade abarca? Utopiedade é vocábulo rosiano de expressividade particular. De utopia + edade, seu sentido, segundo Martins (2001: 514), compreende: fantasia, quimera, sonho. Enfim, a nós interessa perguntar que gesto utópico Guimarães Rosa tece nesse seu contar e, ao traçá-lo, como finca suas raízes na utopia.
Antes de seguir, é preciso lembrar que o lugar das utopias é a imaginação humana. Enquanto tal, chama-nos para uma viagem a algum outro lugar. O substantivo "utopia" deriva do grego "topos", que significa "o lugar". É ainda precedido dos prefixos "eu" e "ou", que expressam "boa qualidade" ou a sua negação. De modo ambíguo, portanto, expressa "o lugar que é bom" e "o lugar que não existe". Lugar que, de tão bom, torna-se inalcançável (Paquot, 1996: 8). No senso comum, designa o sonho impossível, a proposta questionável, o projeto irrealizável.
Tomás Morus, jurista inglês, que viveu de 1478 a 1535, escreveu a primeira narrativa utópica. Intitulada A Utopia, essa narrativa retratava uma sociedade perfeita, porém de projeto irrealizável. Escrita em 1516, originou-se do relato de viagem de Américo Vespúcio. Morus também a entremeia com idéias de A República, de Platão. Constituída em dois livros, A Utopia trata dos malefícios da concentração de terras e também do trabalho agrícola. Revelando impulsionar a utopia, o desejo encerra a narrativa de Morus: "há nos utopianos uma porção de instituições que desejo ver estabelecidas nos nossos países. Desejo-o mais do que o espero" (Morus, 2000: 160). A utopia também não deve ser entendida, frisa Paquot (1996: 13), como um futuro, mas como um outro lugar, a ser localizado no aqui e agora.
Lugar inventado a partir do conhecido, o presente é pleno de passado. Há utopia em "Lá, nas campinas", conto de Tutaméia - terceiras estórias, de Guimarães Rosa. O personagem Drijimiro não pratica ações, o enredo é curto. O protagonista quase não fala. Quando criança, Drijimiro foi abandonado pelos pais, viera de lugar desconhecido, sua vida fora dura, mas saiu-se bem economicamente. Uma lembrança, entretanto, o perseguia: "Que jeito recobrar aquilo, o que ele pretendia mas que tudo?" (Rosa, 1985: 97). Onde encontrar o outro lugar, o lugar nenhum, e nele edificar o sonho?
Drijimiro, no ato de recordar, penetra na imagem/imaginação de si mesmo. "O fundo da vida" lhe surpreende, a saudade, a infância, um segredo no e do nenhum lugar - "Lá, nas campinas". O narrador imaginário entranha-se em busca de um "ponto afastado diverso", mesmo quando no reconhecimento de sua face, entre sensações, sentidos e sentimentos, era difícil apreender o - "Lá, nas campinas (...) durado na imaginação". Entretanto, a vida impunha desfigurações: "viver é obrigação sempre imediata" (Rosa, 1985: 97).
De sua infância, tudo ignorava, mas uma lembrança não lhe saía da cabeça. O que consegue recordar e constitui sua única fala é um lugar, que repete sempre. Lugar cifrado, enigmático, um fragmento de frase, um advérbio de lugar - "Lá, nas campinas", não lhe sai da memória. Diz o narrador que é "frase única, ficara-lhe, de no nenhum lugar antigamente: - ‘Lá, nas campinas...' - desinformada, inconsciente, absurda" (Rosa, 1985: 97). Na imaginação, "lá" é imagem utópica, lugar perdido que Drijimiro busca ultrapassar. Ultrapassar até mesmo o imaginário em busca de uma imagem que ressoe nele, uma utopia que lhe permita compreender o mundo, a existência em outras dimensões, apesar de o mundo se repetir: "O mundo se repete mal é porque há um imperceptível avanço" (Idem: 99), diz o narrador. Importa a Drijimiro mirar num ponto da memória o "nó de recordações". Lá é metáfora de totalidade: "do último íntimo, o mim de fundo (...). Só lugares" (Idem: 97). Para além ou aquém das muitas geografias sem fronteiras, "e estando nem onde nem longe, na infinição" (Idem: 98), expressa a dimensão arquetípica, o advérbio de lugar "lá", apontando para nenhum lugar, um lugar latente.
"Antes ele buscara, orfandante, por todo canto e parte. - ‘Lá, nas campinas...' - o que soubesse acaso. Tinha ninguém para lhe responder" (Idem: 98). Passou por diversas famílias. Acabou por esquecê-la: "Esqueceu-a, por fim. Calava reino perturbador; viver é obrigação sempre imediata" (Idem: 97). A recordação retorna no fim da vida, no final do conto.
Realidade sem perfeição, feita de injustiças sociais, abre a narrativa espaço para o pensamento utópico, no qual se aloja o sonho dourado, a fantasia e o imaginário. A narrativa organiza o mundo da imaginação, e a utopia é matéria de construção desse mundo que se quer perfeito. O protagonista pode circular no aqui e agora, em um não-lugar, um lugar sem nome, não mapeado na cartografia do real.
No caso de nosso protagonista, o desejo de reaver a memória de um lugar, posse de um lugar cujas coisas lembradas o restituem a si mesmo, não é a posse de um lugar real, é a saudade de um lugar perdido. Guimarães Rosa enraíza sua narrativa "Lá, nas campinas" no eixo das narrativas utópicas ao mostrar o imaginário materializando-se em linguagem, construindo-se a si mesmo, moldando em forma artística um lugar entrevisto na saudade, no desejo. O desejo é anterior à narrativa. O discurso e o narrar traduzem a força do falar, "falou (...) rebentado" o narrador imaginário para o narrador do conto. E todos ouvimos uma voz:
Está se ouvindo. Escura a voz, imesclada, amolecida; modula-se, porém, vibrando com insólitos harmônicos, no ele falar naquilo. Todo o mundo tem a incerteza do que afirma. Drijimiro, não: o pouco que pude entender-lhe, dos retalhos do verbo (Rosa, 1985: 97).
O narrador, também ouvinte e contador, de posse do coração de Drijimiro, sabe o que lhe vai n'alma. A linguagem tecida em discurso indireto deixa o narrador entrar no imaginário de Drijimiro, e não somente dizer, mas sentir o recordar silenciado na memória:
Nada diria, hermético feito um coco, se o fundo da vida não o surpreendesse, a só saudade atacando, não perdido o siso.
Teve recurso a mim. Contou, que me emocionou - "Lá, nas campinas..." - cada palavra tatala como uma bandeira branca - comunicado o tom - o narrador imaginário (Rosa, 1985: 97)".
Se o lugar da recordação não se apreende como posse, a narrativa tenta materializar o sentir:
Vinha-lhe a lembrança - do último íntimo, o mim de fundo - desmisturado milagre. Só lugares. Largo rasgado um quintal, o chão amarelo de oca, olhos-d'àgua jorrando de barrancos. A casa, depois de descida, em fojo de árvores. Tudo o orvalho: faísca-se, campo a fora, nos pendões dos capins passarinhos penduricam e se embalançam... (Rosa, 1985: 97)".
Esse é o primeiro momento de descrição desse não-lugar, narrado pelas vozes de Drijimiro e do narrador. A relação arguta de som sentido - "do último íntimo, o mim de fundo" - traduz o sentimento, o afeto, a saudade de um lugar não palpável, meramente delineado. A narrativa tece a utopia, essa vontade, essa necessidade de imaginar outras formas de espaço e tempo. Drijimiro tem saudade de lugar nenhum, busca sua verdade universal que não se traduz em realidade imediata, mas em verdade imaginária, inventada, que revela o ser e sua experiência histórica.
Se antes pobre, "estava agora bem de vida". Tangia a vida entre dois planos: realidade e imaginação; entre duas mulheres: Divída, sua esposa, "Dona Divída debruçava-se à janela, redondos os peitos, os perfumes instintivos" e Dona Tavica, "jasmim em ramalhete, tantas crianças a rodeavam"(Rosa, 1985: 98). Drijimiro, entretanto, "passava, debaixo de chapéu, gementes as botinas". Entre dois planos, não resolve o seu, continua atado à ausência desse não-lugar. Drijimiro prosperava, sabia negociar, mas o que adiantava, se aos seus olhos a vida era sem satisfação? "Esta vida, nunca conseguida", dizia. Preso a lugar entrevisto no imaginário, a personagem, orfandante, faz do nenhum lugar sua busca, no decorrer da vida.
A utopia, diz Ernest Bloch,
se segue à descoberta de si na experiência da criação [...]. A música, a pintura, a arte em geral permitem essa ultrapassagem, que expressa o impossível enfim realizado. Este ir-cada-vez-mais-longe-no-conhecimento-de-si, esta aproximação do amanhã de si mesmo, não depende de uma ação coletiva, e sim enraíza-se no duplo movimento da revolta e da esperança (Bloch apud Paquot, 1999: 21).
É essa descoberta de si mesmo que Drijimiro busca:
Uma campina - plano, nu campo, espaço - podendo ser no distante Rio Verde Pequeno, ou todo o contrário, abaixo do Abaeté, e estando nem onde nem longe, na infinição, a serra de atrás da serra [...], e precisava, tornava a partir, apertando-o o nó de recordações. Só achar o sítio além, durado na imaginação (Rosa, 1985: 98).
Apertado pelo nó de recordações, Drijimiro via-se "afortunado falsamente". Embora "bem de vida", a alma ruía. Drijimiro aparentando-se "tácito, afadigado", deixava-se ser visto como "velhaco", "silencioso mentiroso", e até ser chamado de "burro". O tempo deteriorava a alma, o físico, a vida fluía. A morte levava seu chefe Iô Nhô, seu amigo Rixío; envelhecia-o também, assim como suas duas mulheres.
Drijimiro foi perdendo seu dom de imaginar, revelado, também, num segundo momento de descrição do lugar nenhum. São lembranças de idéias do passado que emergem. Drijimiro, "já sem sair do lugar", relembra sem mostrar o sentimento, cedia ao destino:
Mas achava, já sem sair do lugar, pois onde, pois como, do de nas viagens aprendido, ou o que tinha em si, dia com sobras de aurora. Notava: cada pedrinha de areia um redargüir reluzente, até os vôos dos passarinhos eram atos. O ipê, meigo. O sol-poente cor de cobre - no tempo das queimadas - a lua verde e esverdeadas as estrelas. Ou como se combinam inesquecivelmente os cheiros de goiaba madura e suor fresco de cavalo (Rosa, 1985: 99).
Drijimiro agora já "ousava estar triste". Surge-lhe a terceira mulher: a Sobrinha do Padre: "parda magra, releixa para segar, feia de sorte. Sós frios olhos, árdua agravada, negra máscara de ossos, gritou, apontou-o, pôde com ele"(Rosa, 1985: 100). Era a morte, e atrás dela segue o padre. Drijimiro foge para o quintal. Aí se dá a terceira descrição do lugar procurado em toda a narrativa e no decorrer da vida:
Mas logo não sorriu, transparentemente, por firmitude e inquebranto. Falou, o que guardado sempre sem saber lhe ocupara o peito, rebentado: luz, o campo, pássaros, a casa entre bastas folhagens, amarelo o quintal da voçoroca, com miriqüilhos borbulhando nos barrancos... Tudo e mais, trabalhado completado, agora, tanto - revalor - como o que raia pela indescrição: a àgua azul das lavadeiras, lagoas que refletem os picos dos montes, as árvores e os pedidores de esmola (Rosa, 1985: 100).
Cores - azul e amarelo -, claridade, pássaros, água, lagoas, folhagens, tudo completado. Um lugar outro, um não-lugar, porque o lugar possível, o lugar da felicidade e do feliz, lugar utópico, imaginário. A campina e o Sertão. Recupera Drijimiro a memória desse lugar, paraíso possível? Fala de uma forma de sentir, fala de sensibilidades. O narrador que conta e o narrador imaginário reinventam no contar a sensibilidade, fazendo despontar outras formas de pensar e agir. Acolhe Guimarães Rosa, no seu narrar, a diferença da verdade imaginária, que busca em procedimentos de linguagem, inventar um corpus-lugar para o "Lá" consubstanciar-se em imagem latente, possível. Em Drijimiro,
Tudo era esquecimento, menos o coração - "Lá, nas campinas!..." - um morro de todo limite. O sol da manhã sendo o mesmo da tarde (Rosa, 1985: 100).
Drijimiro busca o lugar extraordinário, preconizado pelo imaginário, desenhado pelo coração. "Lá, nas campinas!... - um morro de todo limite", a confrontação do ser: razão e coração. No limite, o "lá" aponta para o sensível, o puro "ser-lá", e na sua impureza mostra "nas campinas...", o segredo, "o mim de fundo", que cada um deseja captar de si, em algum lugar, lugar nenhum da recordação. Diante do desejo, como apreender o discurso?
Então, ao narrador foge o fio. Toda estória pode resumir-se nisto: - Era uma vez uma vez, e nessa vez um homem. Súbito, sem sofrer, diz, afirma: - "Lá..." Mas não acho as palavras (Rosa, 1985: 100).
Mera função dêitica, o lugar nenhum é reduzido, simplesmente a "lá", essência máxima, na qual sujeito e lugar se encontram, identificação possível, materializada entre a redução de "Lá, nas campinas..." e a epígrafe do conto: "...nessas tão minhas lembranças eu mesmo desapareci." Suspendem o discurso, o narrador imaginário e o narrador do conto, no imaginário, apenas a imagem utópica de um lugar originário: "Lá, nas campinas..."
Bibliografia
MARTINS, Nilce Sant' Anna. O Léxico de Guimarães Rosa. São Paulo: EDUSP, 2001.
MORUS, Tomás. A Utopia. Lisboa: Guimarães Editores, 2000.
PAQUOT, Thierry.A utopia: ensaio acerca do ideal. Rio de Janeiro: Difel, 1999.
ROSA, J. Guimarães. . "Lá, nas campinas" In: ______ Tutaméia: terceiras estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
ROSA, J. Guimarães. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1976.
Maria Aparecida Junqueira Professora do Programa de Estudos Pós- Graduandos em Literatutra e Crítica Literária da PUC-SP
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