Publicações

» Revista PUC Viva
loguinho_pucviva_novo

» Revista Cultura Crí-ti-ca
revista_puc_critica_logo

» Jornal PUC Viva
puc_viva_logo

» Twitter

twitter

» Facebook

facebook

» Youtube

youtube

» Vimeo

vimeo

 


Famigerada qualidade de vida

APROPUC-SP 18.03.09

Everaldo Nogueira

Há um século, nascia um conterrâneo que, num curto espaço de tempo, revolucionou a literatura brasileira em diversos sentidos. Médico, cônsul e diplomata, Guimarães Rosa - doravante GR - passou por diversas experiências profissionais que, sem dúvida alguma, ampliaram seu modo de ver o mundo e de representá-lo. Mais que isso: de interferir nele. No grande, no pequeno. Tal riqueza de percepção só nos é transmitida pelo conhecimento que temos de sua obra como escritor, a qual somente veio a ser devidamente reconhecida no ano de 1956, principalmente com a publicação de Grande Sertão: Veredas. O reconhecimento de sua obra resultou no ingresso na Academia Brasileira de Letras, honra que vivenciou três dias antes de morrer.
Imortalizado em sua produção literária, GR é estudado nas escolas de Ensino Médio por todo o país; é objeto de avaliação em exames vestibulares; é figura idolatrada nos cursos de Letras nas universidades. Há não muito tempo, sua obra foi representada na televisão, numa minissérie dirigida por Valter Avancini e produzida pela Rede Globo de Televisão, que, com atuações marcantes, sobretudo, de Toni Ramos e Bruna Lombardi, trouxe ao conhecimento do grande público o Grande Sertão: Veredas. Não só a televisão, mas também o cinema recentemente abordou a obra de GR: se, há muito mais tempo, pudemos conhecer a versão cinematográfica de Roberto Santos para "A hora e a vez de Augusto Matraga" - o último conto de Sagarana, mais recentemente, vimos a versão de "A terceira margem do rio", dirigida por Nelson Pereira dos Santos e, por fim, "Outras histórias", versão de Primeiras Histórias, dirigida por Pedro Bial. No ano passado, a documentarista Sandra Kogut levou às telas do cinema "Mutum", baseado em Campo Geral.
Vê-se que a obra de GR é mesmo lida e relida ao longo do tempo; interpretada e reinterpretada nos mais diversos suportes textuais. Riquíssimo material para a compreensão do processo literário como um todo, instrumento para a reflexão sobre o uso criativo da língua portuguesa, desafio para todos o que se entregam à árdua tarefa de traduzi-lo, o trabalho de GR também é essencial para as reflexões sobre o ensino de língua portuguesa. É o que pretendemos fazer aqui, tomando como base apenas um dos contos do autor. Embora GR seja um modelo indiscutível no que tange à questão da originalidade e do estilo, raramente seus textos figuram no rol de exemplos das gramáticas normativas. Logo, deduzimos que seus textos servem bem às aulas de literatura, e muito pouco às aulas de análise e reflexão sobre a língua.
Amplamente conhecido pelos leitores de GR e publicado entre outros vinte que compõem o livro Primeiras Estórias, de 1962, tomaremos aqui o conto "Famigerado" como base para fazermos nossas considerações acerca das contribuições do autor e do modo como seus textos podem auxiliar também no ensino de Língua Portuguesa. Evidentemente, dado o limite de espaço, focaremos neste artigo apenas um dos aspectos de ensino da língua portuguesa: sua modalidade oral. Esse é o nosso objetivo. GR tem sido estudado, como dissemos acima, em diversos níveis de formação. Muitos são os textos produzidos sobre a obra deste grande ícone da literatura brasileira, lido e conhecido em diversos países. Em sua maioria, os estudos têm se voltado para os aspectos literários, no sentido de localizar GR na estética modernista de cunho regionalista e de, nela, detectar marcas lingüísticas que revelam essa filiação do autor.
Outros estudos voltam-se majoritariamente para o campo propriamente lingüístico, no sentido de se estudarem os processos de criação lexical, sintática e semântica de GR.
Sem dúvida alguma, todos são absolutamente importantes para deslindar os muitos corredores que compõem o imenso espaço criado por GR. Em nosso caso, tentaremos traçar um percurso que não fugirá muito do que se tem feito, mas que procurará associar a obra deste autor ao ensino de Língua
Portuguesa. Para tanto, vamos nos valer aqui basicamente de duas áreas importantes, que temos procurado associar, em busca de frutos capazes de melhorar a qualidade de vida dos alunos que educamos: por um lado, trataremos da Historiografia Lingüística; por outro, da Educação Lingüística.
Em primeiro lugar, faremos uma breve exposição do que se entende hoje por Historiografia Lingüística, seus princípios teóricos e metodológicos. Posteriormente, trataremos da Educação Lingüística e seus postulados. Fundamentado o terreno onde pisaremos, nele teceremos as contribuições para a reflexão sobre GR.
Sabemos que, ao longo do século XX e início deste, a ciência avançou significativamente, graças ao advento de novas tecnologias, que propiciaram a releitura de muitos conceitos e práticas já há muito estabelecidos. Dentre as muitas áreas do saber, a Lingüística foi uma das que mais cresceram, sobretudo nas subáreas, a saber: teoria da enunciação, pragmática, análise do discurso, análise da conversação, sociolingüística - apenas para citar as mais evidenciadas.
O crescimento da Lingüística deu-se de tal modo que ela pôde se fortalecer internamente, superando o modelo estruturalista saussureano, e também crescer para longe de suas fronteiras, admitindo e propiciando o diálogo com outras disciplinas - fato que revela a tendência para o estabelecimento de grandes alianças em busca do saber. Assim, há associações como psicolingüística, sociolingüística, etnolingüística - uma verdadeira união de disciplinas que contribuem para o enriquecimento teórico e metodológico de todas as envolvidas no processo.
Seguindo o que já havia sido defendido por Thomas Khun (1962) acerca dos paradigmas e do modo como as ciências se constituem, criando o novo sem eliminar por completo o velho, novos estudos que associavam a História e a Lingüística fizeram surgir a Historiografia Lingüística (doravante, HL).
Ela nasce, portanto, como um campo de estudo interdisciplinar que toma como objeto a língua.
Com efeito, dada a complexidade que envolve esse objeto, a abordagem por meio da HL é diversificada. Assim, há grupos de pesquisa que estudam as teorias lingüísticas e seu desenvolvimento, influência recebida por cada autor e suas relações com o contexto em que se desenvolveram as idéias de determinado período. Outros grupos procuram pesquisar os estudos que se fizeram sobre a linguagem, do ponto de vista gramatical, de modo a reconstituir as reflexões realizadas no campo da história e descrição das regularidades lingüísticas.
Por fim, há outros que se debruçam sobre documentos escritos - de natureza diversa - a fim de entender como é que, pela materialização lingüística, nas suas relações com o contexto, propiciam a compreensão do homem e de sua história[1].
Neste artigo, como já dissemos, nossa intenção será mais voltada para essa última, com um dado a mais: focalização da HL no ensino de Língua Portuguesa. Para tanto, vamos nos valer dos princípios teóricos e metodológicos que este campo de estudo interdisciplinar faculta. A partir deles, observaremos o texto de GR, a fim de verificar como a linguagem utilizada e todo o contexto de sua realização podem ser, e muito, bem utilizados para o ensino de Língua Portuguesa, a despeito do que se ouve dizer comumente a respeito da pouca probabilidade de uso desse autor como modelo para aprendizagem da língua.
É preciso deixar muito claro que essa visão negativa acerca da linguagem de GR deve-se a uma outra visão, bem reducionista, do que se entende por língua. Para a HL, no molde em que a abordamos, segundo Koerner (1996), a língua é entendida não como código, apenas; não somente como o crescimento da Lingüística deu-se de tal modo que ela pôde se fortalecer internamente, superando o modelo estruturalista saussureano,  e também crescer para longe de suas fronteiras, admitindo e propiciando o diálogo com outras disciplinas - fato que revela a tendência para o estabelecimento de grandes alianças em busca do saber. conjunto de regras que põem um sistema em funcionamento tendo em vista o estabelecimento da comunicação entre as pessoas. Antes, a língua é entendida como prática social (cf. Hanks, 2008), como uma forma de interação pela qual as pessoas, em situações concretas, agem umas sobre as outras. Nesse sentido, ela não é vista fechada em si mesma, mas como parte integrante dos comportamentos sociais gerais, responsáveis pelo (in)sucesso que as pessoas têm em sua interação.
Na interação por meio da linguagem, há de se considerar sempre uma prática social que, dada a estabilidade das relações nela mantidas, faz surgir uma série de discursos que se tornam inerentes a ela. O surgimento dessa série de discursos caracteriza a outra dimensão da linguagem, que é a do discurso, isto é, ela é uma prática discursiva. Como tal, a linguagem materializa-se em textos concretos, em gêneros textuais observáveis em sua regularidade funcional, composicional, lingüística, de circulação e consumo (Bakthin, 1992).
A HL, essa área recente dos estudos da linguagem que tem se voltado para a abordagem de problemas de ordem lingüística, histórica e literária, dentre outras, sugere, do ponto de vista metodológico, alguns passos investigativos, a saber: seleção, organização interpretação e reconstrução dos documentos analisados. Guiada basicamente por três princípios metodológicos, a HL vem apresentando resultados interessantes nos campos acima referidos. São três os princípios norteadores da prática historiográfica: o da contextualização, o da imanência e o da adequação.
Dito de forma bem sucinta, esses princípios têm o objetivo de orientar o historiógrafo a lidar com o documento de forma mais precisa e menos suscetível a falhas de atribuição de influência, de interpretação inadequada etc. O primeiro princípio é o da contextualização, que implica fazer o levantamento do clima de opinião, do espírito da época, ou da atmosfera intelectual do momento estudado, bem como de seu contexto social, cultural e político. Por sua vez, o segundo princípio é o da imanência, pelo qual o historiógrafo da língua deve entender o corpus em perspectiva histórica, crítica e filológica, nos limites do próprio texto e do contexto histórico em que está inserido. Por fim, o terceiro princípio é o da adequação, que - como decorrência dos dois anteriores - permite ao historiógrafo aventurar-se a introduzir aproximação entre o vocabulário técnico em estudo e o vocabulário atual - especialmente quando se tratar de palavras remissivas a conceitos que evoluíram com o tempo. Esse último princípio, além de permitir que o historiógrafo torne seu estudo mais acessível ao cientista comum, possibilita, sobretudo, que não se cometam distorções de idéias dos autores pesquisados.
A observação desses princípios - separados, assim, apenas por uma questão metodológica, uma vez que estão envolvidos no mesmo processo - requer do historiógrafo uma competência que extrapola os limites do nível lingüístico e histórico. Requer, pois, um conhecimento quase enciclopédico e uma prática lúcida - para desvencilhar do texto o seu contexto e sua relação com o momento atual - e conciliadora, isto é, capaz de rearranjar o quadro analisado em uma nova perspectiva, não só descrevendo o objeto, mas também explicando-o e interpretando-o.
Tais princípios têm sido abordados por nós nos últimos congressos, como uma possibilidade de serem aplicados ao ensino de língua portuguesa. Eles, nesta feita, são então associados à prática da Educação Lingüística, uma educação para a cidadania, para melhoria da qualidade de vida dos cidadãos, por meio do domínio dos recursos de que a língua dispõe.
A Educação Lingüística - doravante, EL -, de acordo com Palma, Turazza e Nogueira Junior (2008), é entendida como processo de aprendizagem que visa a tornar o indivíduo capaz de utilizar a língua materna, conscientemente, nas diferentes situações comunicativas presentes na vida em sociedade, como forma de possibilitar seu desenvolvimento integral, garantindo-lhe a cidadania plena. O objetivo é focalizar, de forma harmoniosa, saberes pedagógicos e saberes lingüísticos, envolvidos nesse processo educativo, garantindo a diferença entre o saber científico, o saber a ensinar e o saber ensinado. A EL configura-se como uma nova área de pesquisa em relação ao ensino da língua materna.
Um dos motes da EL tem sido a afirmação de Evanildo Bechara (1985), segundo a qual o objetivo maior do ensino de língua portuguesa deve ser tornar o cidadão um poliglota em sua própria língua. Isso implica que o cidadão deva dominar, não só a estrutura e o funcionamento da língua nos mais diversos gêneros textuais, mas também que domine as competências básicas do falar, ouvir, escrever e ler nas inúmeras e variadas situações em que se encontrar num processo de interação.
É a essa última que queremos nos ater, sobretudo, na competência relacionada à manifestação lingüística oral, pela qual o cidadão deve se valer de uma série de habilidades que lhe tragam sucesso em sua interação ao falar e ao ouvir, habilidades essas que se juntam a outras, como a fina percepção de gestos, olhares e fisionomias que servem como ferramentas para contribuir na produção de sentido daquilo que se diz.
Sabe-se que a obra de GR está situada num momento histórico do Brasil bastante significativo. Há fatos importantes, dentre os quais podemos destacar a vigência do governo de JK e o desenvolvimentismo por ele proposto. Do ponto de vista da tecnologia, havia a instalação da indústria automobilística.
Na literatura, a Poesia Concretista, com Haroldo e Augusto de Campos, Décio Pignatari e outros, abria novas possibilidades de experimentação de linguagem e de produção de sentido. Da perspectiva musical, a inovação estava por conta  da Bossa Nova e do Samba, áreas em que se destacam João Gilberto, Vinícius de Moraes, Carlos Lyra - dentre tantos outros.
Já no teatro, não há como deixar de citar os teatros Arena e Oficina, que com sua irreverência traziam novos ares para a dramaturgia brasileira. Por fim, em relação à prática esportiva, vale frisar as conquistas de Copa do Mundo pelo selecionado brasileiro, tanto em 1958 quanto em 1962.
Como podemos notar, trata-se de um período de grandes novidades, de grandes inovações nos mais diversos campos da sociedade brasileira. Não há a menor sombra de dúvida de que a obra de GR vem compor este quadro de renovação: sua originalidade no trato da linguagem, bem como nas técnicas narrativas, inaugura um novo modo de expressão literária. Ao manejar sábia e produtivamente a palavra, ao reconstruir a sintaxe, ao sobrelevar o regionalismo e o sertão de modo tão paradoxalmente particular e universalizante, GR se espraia naquele espírito que pairava sobre sua época.
Conforme dissemos, a obra de GR é riquíssima em situações de interação social por meio da linguagem tanto em modalidade escrita quanto na oral. Vamos nos ater a esta última, pois na obra de GR, sobretudo no conto que analisaremos, estão presentes situações que requerem mais formalidade ou menos - e, portanto, mais policiamento no uso de registros lingüísticos, ou menos -; situações em que interagem pessoas das mais diversas idades; situações de absoluta tensão e de relaxamento.
"Famigerado" é um conto em que GR destaca a importância do bom uso e da interpretação da linguagem. Destaca ainda a relação entre duas pessoas de reconhecido poder social: um jagunço e um médico. O resultado da interação verbal entre ambos pode resultar na morte de uma terceira pessoa - também alguém que representa poder: um moço do Governo, que utilizou um termo não compreendido pelo jagunço.
Como este último não sabia se o termo o ofendia ou o elogiava, antes de tomar qualquer providência em relação ao moço, dirigiu-se ao médico (narrador) a fim de perguntar-lhe o sentido da palavra "famigerado".
Antes mesmo que se travasse o diálogo entre o médico e o jagunço, muitos elementos foram movidos por um e por outro em prol da produção de sentido que se dará ao texto oral produzido por ambos - do primeiro em relação ao segundo, desde o início do conto; já deste para aquele, ao longo de todo o conto. Independentemente da localização da formação da imagem mútua (ethos) no conto, note-se quão importante para a interação social por meio da linguagem oral é a percepção do outro não só naquilo que ele é como pessoa, mas também naquilo que ele representa socialmente. Na verdade, em cada interação estabelecida, o jogo se dá não entre duas pessoas, dois indivíduos ensimesmados, mas entre dois representantes de uma posição social. Esse aspecto da produção da linguagem é um tanto explicitado na obra de GR. No conto "Famigerado", podemos ver, por exemplo, a imagem que o médico faz do jagunço antes mesmo que comecem a conversar.
As seguintes expressões denunciam o modo como o médico vê o jagunço:
Parou-me à porta um tropel. [...] Um grupo de cavaleiros. Isto é, vendo melhor: um cavaleiro rente, frente à "Famigerado" é um conto em que GR destaca a importância do bom uso e da interpretação da linguagem. Destaca ainda a relação entre duas pessoas de reconhecido poder social: um jagunço e um médico. O resultado da interação verbal entre ambos pode resultar na morte de uma terceira pessoa... minha porta, equiparado, exato. [...] O cavaleiro esse - o oh-homem-oh - com cara de nenhum amigo. Sei o que é influência de fisionomia. Saíra e viera, aquele homem, para morrer em guerra. Saudou-me seco, curto pesadamente. Seu cavalo era alto, um alazão; bem arreado, ferrado, suado. E concebi grande dúvida. [...] Aquele homem, para proceder da forma, só podia ser um brabo sertanejo, jagunço até na escuma do bofe. Senti que não me ficava útil dar cara amena, mostras de temeroso. [...] Sei desse tipo valentão que nada alardeia, sem farroma. Mas avessado, estranhão, perverso brusco, podendo desfechar com algo, de repente, por um ésnão- és.
Expressões que denunciam o modo como o jagunço vê o médico:

  • Eu vim preguntar a vosmecê uma opinião sua explicada...
  • Saiba vosmecê que saí ind'hoje da Serra, que vim,

sem parar, essas seis léguas, expresso direto pra mor
de lhe preguntar a pregunta, pelo claro...

  • Lá, e por estes meios de caminho, tem nenhum ninguém

ciente...

  • Vosmecê mal não veja em minha grossaria no não

entender...

  • Pois... e o que é que é, em fala de pobre, linguagem de dia-de-semana?

Não é difícil notar que tanto o médico quanto o jagunço têm, um do outro, uma imagem positiva. Ambos se colocam em posição inferior, em função daquilo que eles representam socialmente. São duas representações sociais poderosas, fortes: um, pela possibilidade de resolver qualquer coisa por meio da força; outro, por dominar um conhecimento, dentre outras coisas, da linguagem - que, naquele caso específico, era uma questão de vida ou morte.
O grande respeito do jagunço pelo médico está explicitado, em primeiro lugar, pela expressão de tratamento utilizada em quase todos os enunciados que dirigiu ao médico: vosmecê. Vale lembrar que, naquela época, essa forma de tratamento denunciava formalidade, distanciamento, consideração, prestígio. É essa a representação que o jagunço faz do médico. Note-se, por exemplo, que quando Damázio fala com seus sequazes, não usa a forma vosmecê, mas sim você: Vocês podem ir, compadres. Vocês escutaram bem a
boa descrição...
O prestígio atribuído ao médico ainda se vê no fato de Damázio ter cavalgado seis léguas (aproximadamente 40 quilômetros) apenas para fazer ao médico a pergunta que o incomodava. Fez isso porque, conforme ele mesmo revela, no lugar de onde veio e nos lugares por onde passou não há ninguém ciente. Cumpre ainda observar que o referido prestígio implica um "autoposicionamento" do jagunço em situação inferior. Disso decorre seu pedido para que o médico não veja mal o fato de ele não entender certas coisas; decorre também a maneira como ele caracteriza sua própria linguagem: de pobre, de dia-de-semana.
Por sua vez, a imagem que o médico tem de Damázio é algo que lhe infunde medo; um medo criado, na verdade, em razão das muitas histórias ouvidas sobre aquele "feroz de estórias de léguas, com dezenas de carregadas mortes, homem perigosíssimo"; um medo que se resume bem em expressões como: "Com um pingo no i, ele me dissolvia. [...] O medo me miava." Ou ainda, em: "Tivesse aceitado de entrar ou um café, calmava-me."
Diante de toda aquela ferocidade, daquela fisionomia, daquela cara de nenhum amigo; diante daquela saudação seca e pesada; diante daquele "valentão", daquele "perverso brusco" que "pode desfechar com algo, de repente, por um és-não-és", toda a sabedoria desenvolvida, acumulada e reconhecida do médico nada valia. Por essa razão, ele também se colocava ...ser competente lingüisticamente não significa somente dominar as regras de combinação de elementos mórficos, de termos sintáticos ou de algo dessa natureza; não significa somente memorizar e reverberar a classificação de cada um desses elementos ou termos.
Ser competente lingüisticamente é saber adequar a linguagem ao contexto, à situação de produção em que os falantes estão envolvidos. numa posição socialmente inferior à do "bravo sertanejo". Disso decorre a escolha de cada palavra por ele utilizada em todos os enunciados dirigidos a Damázio. Mais que isso: é justamente pela conjugação de todas essas facetas componentes da imagem do jagunço que o médico toma a decisão de dizer qual o sentido mais apropriado para a palavra "famigerado".
Todos sabemos que "famigerado" pode assumir, dependendo do contexto, um sentido positivo, tal como o médico o faz, como também pode assumir um sentido negativo, como muito provavelmente quis dar o "moço do governo". Assim, essa palavra pode significar - de acordo com Houaiss (2001) - "tristemente afamado, assaltante, canalha". Com efeito, apesar de o médico afirmar que são neutras expressões como "famigerado",
ele faz o jagunço entender esse sentido positivo, mas na verdade, omite o sentido, porque se o fizesse, poderia redundar na morte do "moço do governo". Poderia também resultar em sua própria morte, se se confirmasse sua suspeita de alguém que pudesse, "por intriga" ou "invencionice", ter-lhe atribuído palavra de ofensa àquele homem. Embora o médico tenha oferecido, em primeiro lugar, a palavra "inóxio", que significa inócuo, mas também é sinônimo de "infesto", "pernicioso", "prejudicial", posteriormente destaca apenas que "famigerado" significa: "importante, que merece louvor, respeito".
Isso revela uma clara competência lingüística que leva o falante a adaptar sua linguagem ao contexto da interação em que está inserido.
Nesse detalhe, vemos o modo como GR ilustra o fato de que as imagens que temos das pessoas com quem falamos, levando em consideração a posição social que representam no momento da interação, determina a escolha das palavras com que compomos nossos enunciados, bem como o sentido que pretendemos atribuir a elas. Por essa razão, ensinar isso nas escolas, como conteúdo das aulas de Português (prioritariamente)
é parte de uma educação lingüística que certamente redundará na melhoria da qualidade de vida das pessoas, que passarão a ter em sua expressão lingüística uma ferramenta para obtenção de sucesso em sua interação social.
É esta uma das grandes lições que GR nos oferece em sua obra, sobretudo pelo trabalho eficaz com a linguagem: precisamos saber que a linguagem é uma ferramenta de usos múltiplos, tão múltiplos quanto são as situações em que nos inserimos. Assim, ser competente lingüisticamente não significa somente dominar as regras de combinação de elementos mórficos, de termos sintáticos ou de algo dessa natureza; não significa somente memorizar e reverberar a classificação de cada um desses elementos ou termos. Ser competente lingüisticamente é saber adequar a linguagem ao contexto, à situação de produção em que os falantes estão envolvidos. Claro está que essa competência lingüística não se manifesta
isoladamente. Com ela, há um conjunto de elementos que contribuem para a construção do sentido do que se diz e do que se faz durante uma interação por meio de linguagem verbal. Por intermédio de palavras e ações, devidamente modalizadas, as pessoas trabalham tanto para manter a boa imagem de si quanto para atacar a imagem do outro - o que, em Análise da Conversação ou do discurso oral, chama-se "proteção da face/ataque à face" ou de "estratégias de polidez". Atitudes do médico revelam isso. Dentre elas:
Convidar Damázio a entrar.
Perguntar (como médico) se Damázio estava doente.
Oferecer café e água a Damázio.
Chamar Damázio de "senhor".
Responder a pergunta de Damázio.
Desejar assemelhar-se a Damázio.
Todas essas são atitudes pelas quais o médico procura preservar sua face diante de Damázio, a fim de manter uma imagem positiva e confiável. De igual modo, também o jagunço demonstra atitudes e palavras pelas quais procura preservar sua face. Dentre elas:
Saudar o médico.
Manter o costume de não aceitar desmontar e entrar na casa do médico.
Responder às perguntas iniciais do médico.
Falar mais devagar para demonstrar calma.
Apresentar-se ao médico.
Pedir (e não mandar) que o médico lhe esclareça o sentido de "famigerado".
Colocar o médico como alguém superior em conhecimento
a todos os que já pôde conhecer.

 

Acalmar o médico em relação aos três homens (seus sequazes).
Reconhecer-se, nesse quesito, inferior ao médico.
Aceitar água oferecida pelo médico.
Afirmar que, noutra oportunidade, aceitaria entrar na casa do médico.
Agradecer o médico.
Querer apertar a mão do médico.
A análise de estratégias de proteção da face, por meio de gestos de polidez, pode levar-nos a compreender o quanto elas são determinantes de boa parte do sucesso de nossas interações verbais. Elas predispõem os interlocutores ao diálogo. Elas contribuem para a produção e compreensão do sentido. Elas devem, portanto, ser objeto de ensino nas aulas de Português, para que os alunos se tornem, cada vez mais, cidadãos polidos e proficientes nesse quesito da linguagem. Trata-se de uma competência que se estende no lingüístico ao não-lingüístico, ao conjunto de sinais que se unem à cadeia sonora falada, com a finalidade de enriquecer o que se diz. O trabalho com o desenvolvimento de tal proficiência certamente resultará na melhoria da qualidade de vida daqueles que assim forem educados.
Disso decorre que o ensino de língua é muito mais do que ensino de gramática. É ensino da própria dinâmica das interações sociais mediadas pela linguagem. Nesse sentido, é interessante observar, também pelo comportamento do médico, como a percepção de sinais não lingüísticos determina uma atitude de observação da própria maneira de produzir sentidos,algo como uma metacognição que propicia ao falante a possibilidade de fazer suas escolhas da maneira mais adequada possível. É de se notar, por exemplo, como no momento em que as imagens do jagunço vão se formando na mente do médico e juntando-se ao que ele já havia ouvido sobre aquele bravo sertanejo, o médico exerce controle sobre sua cognição:
Sei o que é influência de fisionomia. Saíra e viera, aquele homem, para morrer em guerra. Saudou-me seco, curto pesadamente. Seu cavalo era alto, um alazão; bem arreado, ferrado, suado. E concebi grande dúvida. "Famigerado"? Habitei preâmbulos; e sobre suas emoções: Senti que não me ficava útil dar cara amena, mostras de temeroso.
Claro está que todos falamos e pensamos sobre o que falamos. Poucos, porém, têm a clareza de que também é preciso fazer este exercício metacognitivo que vemos o médico-narrador fazer: pensar o próprio pensamento, pensar o antes da saída da palavra; conceber dúvidas e habitar preâmbulos. Ao colocar tais palavras na boca do narrador, GR abre a possibilidade de pôr diante de nós o processo de formação do nosso próprio pensar. Isso, sem dúvida, precisa ser objeto de ensino nas aulas de Português.
É evidente que essa consciência do processo de interação por meio da linguagem, que leva o falante a dominar a situação, fará com que ele possa elaborar melhor o conteúdo e a disposição dos elementos que constituem sua fala. Isso ganha muita força, na medida em que se sabe que, diferentemente da construção do texto escrito, a do texto oral exige dos falantes um planejamento de fala quase simultâneo à sua própria realização.
Esse controle que o falante exerce sobre sua produção lingüística, como já procuramos indicar, incide sobre o próprio processo de percepção de si mesmo, do entorno que envolve a situação de interação e, sobretudo, do outro. Não só naquilo que o outro, o interlocutor, representa socialmente, mas também nos seus gestos, entonações, pausas, correções, fisionomia etc., enfim, nesses sinais paralingüísticos, todo o controle do falante deve incidir.
A esse respeito, note-se como, em "Famigerado", os sentidos se constroem também com o auxílio da percepção dos sinais paralingüísticos: Sua voz se espaçava, querendo-se calma; a fala de gente de mais longe, talvez franciscano. Desfranziu-se, porém, quase sorriu. Com arranco, calou-se. Como arrependido de ter começado assim, de evidente. Levantou-se as feições. Se é que se riu: aquela crueldade de dentes. Encarar não me encarava, só se fito à meia esguelha. Latejava-lhe um orgulho indeciso. Carregara a celha. Causava outra inquietude, sua farrusca, a catadura de canibal. Eu tinha de entender as mínimas entonações, seguir seus propósitos e silêncios. Mas, o gesto que se seguiu, imperava-se de toda a rudeza primitiva, de sua presença dilatada.
Desnecessário se faz observar que estar atento não só à disposição linear das palavras que compõem o enunciado do jagunço, mas a todos os detalhes que compõem a sua fala, propiciou ao médico criar uma imagem adequada daquele com quem ele falava. Tal observação, conscientemente realizada, leva a interpretações que ampliam o sentido daquilo que foi simplesmente dito. O espaçamento da voz foi interpretado como um desejo de expressar calma; o sotaque revelou se tratar de alguém de mais longe; o calar-se de imediato representou arrependimento; o gesto que seguiu à pergunta principal do jagunço revelou sua rudeza primitiva e sua grandeza naquela situação.
De fato, assim como o médico estava consciente de que "tinha de entender as mínimas entonações, seguir seus propósitos e silêncios", também os falantes - agora em situação real, em nossos dias e sempre - devem compreender que o sentido das coisas que falamos e ouvimos não está circunscrito apenas ao enunciado linearmente disposto pelo nosso interlocutor, mas expande-se para todo o entorno da situação de interação, sobretudo, para os sinais paralingüísticos dos quais o interlocutor se vale.
O estudo desses sinais paralingüísticos destacados por GR em "Famigerado", bem como dos demais que compõem os diálogos por nós vivenciados - e diversificados de cultura para cultura -, deve fazer parte dos conteúdos das aulas de Português. Trata-se de um ponto importantíssimo na produção e compreensão de sentidos veiculados durante uma conversa. Tomar consciência disso é, sem dúvida, munir-se de ferramentas que tornarão os falantes mais eficazes e eficientes em sua interação por meio da linguagem - fato que, certamente, também contribuirá para a melhoria da qualidade de vida das pessoas.
Partindo já para "os finalmentes" deste artigo, é preciso dizer que co-memorar 100 anos de GR é uma atitude que requer de todos nós uma readequação do nosso próprio modo de ver, de abordar, de utilizar seus textos, como tentamos mostrar aqui. Mais do que instrumento para pensar a literatura e a língua, os escritos de GR revelam vastíssima possibilidade de refletir sobre o ensino da língua portuguesa.
Neste artigo, de modo muito simples, tomamos o conto"Famigerado" para fazer dele uma abordagem com base na HL e na EL. Pela primeira, vimos o contexto de produção da obra de GR, a análise do próprio conto sob o olhar da educação,
e, por fim, atentamos para a necessidade de se ter em conta a obra de GR como ferramenta para o ensino da língua. Por sua vez, da perspectiva da EL, tentamos mostrar como a abordagem de certos elementos do conto pode não só atuar para o aprimoramento da fruição estética e da reflexão sobre a língua, mas também para a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos.
Se aqui focamos a questão da conversação, da oralidade, enfim, dos aspectos relevantes numa interação social mediada pela linguagem em modalidade oral, fica exposta a necessidade de se refletir também sobre a modalidade escrita, sobre a questão estética, sobre o ponto de vista social, transcendental e imanente da obra de GR.
Certamente, haverá outros tantos anos para nos debruçarmos sobre a obra de GR, que inovou a linguagem e a estética literária de sua época, e que continua oferecendo-se a nós como prisma ao qual direcionamos nossos múltiplos olhares. Em "fala de pobre, linguagem de em dia-de-semana", tentamos contribuir com esta comemoração do centenário de GR.


Notas
1 Há, na PUC-SP, grupos de pesquisa que se dedicam a esses ramos da Historiografia.


Bibliografia
BAKHTIN, M. "Os gêneros do discurso". In: Estética da criação verbal, São Paulo, Martins Fontes, 1992.
PALMA, D.V.; TURAZZA, J.S.; NOGUEIRA JÚNIOR, J.E. "Educação lingüística e desafios na formação de professores."
In: BASTOS, Neusa Barbosa. Lusofonia - memória e diversidade cultural. São Paulo: Educ, 2008.
KOERNER, Konrad. Questões que persistem em Historiografia da Lingüística. Revista da Anpoll, vol 2. São Paulo: Humanitas, 1996.
KUHN, T S. The Structure of Scientific Revolutions. University of Chicago Press. Chicago, 1962.
PALMA, TURAZZA e NOGUEIRA JUNIOR (2008).
ROSA, João Guimarães. Primeiras estórias. - 40ª impressão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988.

 


 Everaldo Nogueira Prof Doutor em Lingua Portuguesa Vinculado ao departamento de Português da PUC-SP

  Voltar PDF  Versão em PDF E-mail  Encaminhar Imprimir  Imprimir

tv_apropuc3

Clique acima!
Apropuc no Youtube.

Busca

Enquete

O que você acha da implementação do ensino à distância na PUC SP?