O real dentro do imaginário do Rosa
José Osvaldo dos Santos
Fui ler Guimarães Rosa pela primeira vez aos vinte e poucos anos, motivado por pessoas que diziam que o Juca Bananeira era personagem do livro Sagarana. O Juca tinha um botequim em frente à minha loja, aqui em Cordisburgo. Esse boteco existe até hoje, no mesmo lugar. Fui procurar o Juca, e ele me contou que, quando menino, morava ao lado da casa onde nasceu o escritor, e por ser mais velho um pouco do que ele, os pais do Rosa pediam ao Juca para brincar, contar histórias e cantar modinhas para Guimarães Rosa, até quando ele completou dez anos e foi embora para Belo Horizonte para estudar.
O Juca me contou que ele fazia parte do conto "O burrinho pedrês", do livro Sagarana. Curioso para saber o que o Rosa contava do Juca, fui ler a história, e nela logo encontrei um dos vaqueiros que tocam uma boiada de uma fazenda situada em um lugar chamado Lages até Cordisburgo, com o nome de Juca Bananeira. Fui logo percebendo que o Guimarães lembrou do Juca na infância e o transformou em personagem do conto.
Conforme lia Sagarana, identificava pessoas, lugares e casos acontecidos aqui em Cordisburgo. Por conhecer tudo na região, comecei a achar o real dentro dessa literatura, o que foi se transformando numa coisa mágica. Demorei a ler Sagarana, pois toda vez que achava o real dentro das histórias, eu saía a indagar as pessoas sobre lugares e fatos acontecidos. Eu ficava muito impressionado em ouvir as pessoas daqui de Cordisburgo contarem os casos, pois parecia que elas tinham lido Guimarães, tamanha a semelhança com a obra. Depois da leitura de Sagarana, li os outros livros, sendo Grande Sertão: Veredas o último.
Então, fui sertão adentro conhecer mais esse mundo com que, com a magia da palavra, o Rosa já começava a me impressionar. Tomei amizade com os vaqueiros que viajaram com uma boiada em 1952, da Sirga, lugar na beira do rio São Francisco, até a fazenda São Francisco, em Aracaí, tendo como acompanhante Guimarães Rosa. O escritor anotou tudo que aconteceu na viagem em caderneta. Essas anotações foram importantíssimas para sua obra.
Esses homens do sertão me contaram o outro lado da viagem, coisas que o Guimarães não anotou. Eles diziam que foi pena eles também não possuírem uma caderneta para anotar o que o João Rosa (era assim que o chamavam) dizia.
Descobri que uma estrela iluminou Guimarães para que ele encontrasse sertanejos do mundo como Manuelzão, um vaqueiro filósofo, Zito, um vaqueiro poeta, que escreveu em versos toda a viagem, Bindoia, um vaqueiro cantador, Tião, um vaqueiro de idéias reservadas, e o menino Nicanor, garoto curioso que queria aprender a tocar boiada.
Ao lidar com esses vaqueiros, eu entendi que o escritor, com sua arte e magia, colocou na sua literatura em canto e poesia as palavras que saíam dos sertanejos.
O Zito, em uma de nossas conversas, me falava o seguinte "Brasinha, que encanto tem esse João Rosa, que as pessoas de todos os lugares ficam procurando as coisas aqui no sertão?"
Para as pessoas, essa simplicidade do sertanejo é o que engrandece a maneira da gente fazer a travessia da vida.
Acabei por conhecer todos os lugares que o Guimarães citou em seus livros, colocando neles o seu imaginário poético sempre misturado com o real. Como ele escreveu: "A vida da gente é muito misturada".
Passados alguns anos, em 1995 foi criado o Grupo de Contadores de Estórias Miguilim de Cordisburgo, pela prima do escritor, Calina Guimarães. Meu filho, o Guilherme, então com 13 anos, entrou para o grupo dos meninos que narravam trechos de textos da obra de Guimarães Rosa. Como pai, me senti na obrigação de ajudar a Calina na coordenação desse grupo. Motivado por esse projeto maravilhoso, que hoje envolve vários jovens da cidade, mergulhei na obra maravilhosa do nosso conterrâneo, que faz uma leitura da alma do homem por meio do sertanejo. Esse sertanejo, que apesar de brigar, matar, tocaiar, é ainda um homem que pensa com o coração, e Cordisburgo quer dizer: Cidade do Coração.
Em toda a literatura do Rosa, o amor aflora com uma intensidade maravilhosa. No meu entender, nunca teremos uma definição exata do que é o amor. A cada dia, a gente tem uma qualidade de amor, amor às pessoas, amor às coisas, amor à natureza, amor aos bichos; mas eu tenho certeza que Grande Sertão: Veredas é um romance que chega muito perto da definição exata do que é o amor. Grande Sertão: Veredas, o título do livro, na minha leitura, faz a gente imaginar o grande sertão como um lugar que mais parece um deserto, um lugar de sacrifícios e penitências; mas depois dos dois pontos vêm as veredas, que são os oásis desse deserto, dando um descanso nesse sofrimento. Dentro desse livro, a gente vai encontrar o questionamento entre o bem e o mal, Deus e o diabo, céu e inferno, um relato de uma travessia de vida do jagunço Riobaldo que retrata a travessia de todos nós, humanos.
Comecei a observar, como um bom sertanejo morador de Cordisburgo, que essa mistura de realidade e ficção está falando de nós. Quando me perguntam se o povo daqui lê Guimarães Rosa, eu respondo: "Eles não precisam ler, já são a obra, parecem sair de dentro dos livros." Esse sertão que inspirou Guimarães Rosa tornou-se do tamanho do mundo. Aqui, parece que o tempo é outro, demora a passar, temos tempo para tentar explicar para as pessoas esta "confusão em demasiado sossego", esses contrastes que apontam para o profano e o sagrado, para o imaginário e o real, para o amor e o desamor, para a alegria e a tristeza.
O Rosa simplesmente colocou em tudo isso uma poesia e musicalidade fantásticas, que só ele soube fazer. Quando o questionavam sobre sua obra, ele dizia: "Vá a Cordisburgo, você vai entender tudo". E realmente, quando as pessoas chegam aqui, começam a entender a magia que tem o lugar. Hoje, o povo de Cordisburgo se sente envaidecido ao saber que, daqui, partiu para o mundo o sertão que está dentro da gente. O carinho do Guimarães por este "só quase lugar, mas tão de repente bonito" continua sendo mágico.
Quando ouvimos os jovens contadores de estórias Miguilim narrarem textos na casa onde o escritor nasceu, é como se os anjos do Guimarães fossem chegando naquele lugar, e eu tenho certeza, ele está muito feliz com o que está acontecendo em Cordisburgo.
Mais feliz ainda ficou Rosa quando saímos de sua casa e, junto com um grupo de contadores de estórias, começamos a lançar a idéia de que eles narrassem textos da obra nos lugares geográficos reais que o escritor coloca as suas estórias. Partindo daí, criamos o grupo Caminhos do Sertão. Convidamos um violeiro, que começou a musicar os versos contidos na obra roseana, durante caminhadas em Cordisburgo e seus arredores, às quais demos o nome de caminhadas eco-literárias. Durante essas caminhadas, os contadores vão fazendo paradas, onde narram estórias embaladas pela música do violeiro. Durante o percurso, um narrador explica o conto que a caminhada retrata. E com esse evento, que tem atraído centenas de pessoas, a gente percebeu que todos começaram a entender melhor essa literatura por estarem no lugar real e ouvindo a musicalidade que tem a oralidade do povo sertanejo. O Guimarães pedia aos leitores que lessem seus livros em voz alta. Portanto, quando nos deparamos com o símbolo do infinito em seus livros, a gente tem certeza de que as estórias não acabam, não têm fim, são contadas a toda hora, vão se emendando, dando à nossa alma o descanso para essa travessia que todos têm a fazer.
Dessa obra literária, saiu também a idéia de criar um grupo de melhor idade chamado Estrelas do Sertão, que são mulheres que ouvem os jovens contarem textos do Rosa e pegam agulha e linha, começam a bordar coisas maravilhosas, inspiradas nas estórias roseanas. É um projeto chamado Guimarães na Ponta da Agulha.
Para mim, tudo se emenda na terra do Rosa, os Miguilins, as caminhadas, as bordadeiras, que representam o real que está dentro dessa ficção.
Em sua entrevista com Lorenz, Guimarães fala que "literatura tem de ser vida", e essa literatura toma vida exatamente em Cordisburgo, terra natal do escritor, na forma dos contadores de estórias, e em nós, povo cordisburguense, que nos sentimos orgulhosos de sermos parte dessa literatura, que a partir do sertão leva um ensinamento sagrado para a alma da humanidade.
No dizer do escritor, "Deus é paciência, o contrário é o diabo"
José Osvaldo dos Santos (Brasinha) Diretor cultural da Associação dos Amigos do Museu Casa Guimarães Rosa, Cordisburgo, Minas Gerais
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