Os exemplares narradores de Joaquim Maria Machado de Assis e de João Guimarães Rosa
Adelaide Caramuru Cezar
Eu, leitor amigo, aceito a teoria do meu velho Marcolini, não só pela verossimilhança, que é muita vez toda a verdade, mas porque a minha vida se casa bem à definição (Assis, 1959: 34).
Ah, não é por falar: mas, desde do começo, me achavam sofismado de ladino (Rosa, 2001: 30).
Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) e João Guimarães Rosa (1908-1967), além da presença significativa do ano de 1908 na vida de cada um, têm em comum a criação de dois exemplares narradores: Dom Casmurro e Riobaldo. Ambos foram por seus autores criados como sujeitos envelhecidos que se põem a rememorar o passado no qual se fazem presentes duas fortes figuras femininas: Capitu e Diadorim. Representam, no entanto, figuras antagônicas da cultura brasileira, sendo ambas representativas de nossa dinâmica social, conforme se pretende neste artigo demonstrar.
Dom Casmurro, como Machado de Assis, é homem da cidade. Trata-se de personagem do Segundo Império. Diferentemente de seu criador, teve sua origem na classe dominante fluminense, e por toda sua vida se manteve entre os favorecidos pela sorte, tendo crescido e vivido, como Machado, na cidade do Rio de Janeiro. Riobaldo, por sua vez, tal qual João Guimarães Rosa, é homem do sertão mineiro. Lá viveu sua idade adulta, na primeira metade do século XX. Filho bastardo, o sertanejo foi, durante grande parte de sua vida, jagunço. Apenas depois da morte de Diadorim tornou-se homem de posses, barranqueiro, uma vez que herdou duas fazendas de seu pai e casou-se com rica herdeira, também sertaneja: Otacília. Os dois envelhecidos narradores pertencem, pois, a mundos e a séculos diferentes, e como tais, possuem especificidades comportamentais, marcando cada um em seu respectivo espaço e tempo exemplaridades de entes pertencentes à estrutura social brasileira.
Dom Casmurro rememora para, cautelosamente, injuriar, e desta forma, acalmar sua própria consciência, tal qual afirma no final do segundo capítulo do romance: "Talvez a narração me desse a ilusão, e as sombras viessem perpassar ligeiras, como ao poeta, não o do trem, mas o do Fausto: Aí vindes outra vez, inquietas sombras?..." (Assis, 1959: 10). Riobaldo rememora para compreender seu estar no mundo e a problemática do destino que colocou Diadorim em sua vida e, por meio de sua presença, deu-lhe rumos não previstos, conforme afirma no episódio de seu primeiro encontro com o então por ele denominado Menino: "Por que foi que eu conheci aquele Menino? O senhor não conheceu, compadre meu Quelemém não conheceu, milhões de milhares de pessoas não conheceram" (Rosa, 2001: 126). Riobaldo também rememora porque precisa justificar a si mesmo e ao outro, no caso, seu interlocutor, a razão de escolhas empreendidas. Tal qual Édipo, Riobaldo parece a todo tempo estar a afirmar a seu interlocutor: "Foi Apolo! Foi sim, meu amigo!/ Foi Apolo o autor de meus males,/ De meus males terríveis; foi ele!/ Mas fui eu quem vazou os meus olhos./ Mais ninguém. Fui eu mesmo, o infeliz!" (Sófocles, 1998: 88). Mythos e logos estão no romance de João Guimarães Rosa constantemente lado a lado, tal qual na afirmação de Édipo.
Filho único de viúva economicamente bem situada, Bento Santiago, o futuro casmurro narrador a caracterizar-se como "homem calado e metido consigo" (Assis, 1959: 6), teve sempre suas vontades efetivadas. Acostumado a ser cercado de atenções, jamais pôde imaginar que sua companheira, oriunda de classe social inferior, pudesse vir a ter idéias próprias, cuidando de expressá-las devidamente. No momento em que se torna proprietário, o mando sobe-lhe à cabeça, e, contrariado pela independência de Capitu e imaginando uma possível traição, seguro de seu poder, determina não apenas o destino dela, enviando-a a Europa, como também o do filho, Ezequiel, que crê ser a comprovação da traição de sua mulher com Escobar. Uma vez cometidas tais atrocidades com esposa e filho, o envelhecido casmurro narrador precisa acalmar sua consciência. Para tanto, quer minuciosamente relatar a seu leitor, parceiro de classe social, sua história de vida, na qual, conforme afirma, cantou "um duo terníssimo, depois um trio, depois um quatuor..." (Assis, 1959: 34). Dom Casmurro escreve seu livro porque quer aplacar sua culpa, e, para tanto, precisa fazer crer que Capitu foi verdadeiramente culpada, contando com sua especificidade narrativa e com a ingenuidade e até mesmo cumplicidade do leitor, seu parceiro social.
Filho natural de Bigri e Selorico Mendes, tendo passado a infância junto à mãe praticamente miserável, a adolescência como filho bastardo de fazendeiro que se faz crer ser seu padrinho, a idade adulta como jagunço defendendo interesses que lhe são estranhos, Riobaldo, o futuro narrador caracterizado por suas preocupações existenciais, diferentemente de Bento Santiago, teve de gradativamente construir seu próprio espaço sócio-econômico, de forma a permitir-lhe, na velhice, estar de "range-rede" a refletir, durante três dias, juntamente com seu interlocutor urbano, sobre suas experiências de vida. Acostumado a muitas lutas e aos valores do mundo dos jagunços, Riobaldo não se perdoa o fato de não ter reconhecido a feminilidade de Diadorim, aquela que, tida como homem, mostrou-lhe com carinho o mundo, seja aquele da jagunçagem, seja aquele do amor. A narração de Riobaldo visa à remissão desta culpa e, para isso, solicita a participação ativa de seu interlocutor, que, conforme está sempre a ressaltar, é senhor de conhecimento diferente do seu: o conhecimento lógico-racional próprio do universo urbano. Riobaldo, homem do sertão, precisa do outro, seu interlocutor, para deixar mais clara sua história de vida, que por ele só pode ser vista pelas lentes míticas que caracterizam a visão do homem interiorano. Riobaldo, homem também iniciado nas letras, precisa ainda justificar a si mesmo escolhas empreendidas. Para tanto, quer contar com a competência judicativa do interlocutor que, ao final do romance, pelo que diz o narrador, parece aliviar a tensão do sertanejo: "Amável o senhor me ouviu, minha idéia confirmou: que o Diabo não existe. Pois não? O senhor é um homem soberano, circunspecto. Amigos somos" (Rosa, 2001: 624).
Silviano Santiago, em "Retórica da Verossimilhança", ateve-se à maneira como o envelhecido narrador de Dom Casmurro reconstrói seu passado de maneira a persuadir o leitor da culpabilidade de Capitu e, concomitantemente, tornar sua consciência mais leve. O apriorismo é apontado como característica primeira do romance. O narrador casmurro objetiva demonstrar que os atos de Capitu mulher podem ser julgados pelo comportamento de Capitu menina; como se lê no romance, "uma estava dentro da outra, como a fruta dentro da casca" (Assis, 1959: 441). Dada a presença de tal objetivo, o narrador, segundo Silviano Santiago, dedica dois terços de seu romance à adolescência do casal, e apenas um terço à maturidade. Visava-se descrever "a fruta dentro da casca", esquecendo-se, no entanto, de que o narrador sexagenário, suburbano, calado, metido consigo, não está dentro do apresentado menino dócil e angelical, sempre a acatar passivamente as determinações de sua mãe. O apriorismo do romance diz, pois, respeito apenas a Capitu, a quem o casmurro narrador julga, enquanto quer, pela estruturação de seu relato, conduzir o leitor à situação de parceria com seu julgamento: culpada.
Para demonstração da tese da verdade da natureza, "a fruta dentro da casca", o narrador machadiano vale-se, segundo Silviano Santiago, de dois procedimentos: o persuasivo, do qual dá conta muito bem, dada sua formação jurídica, e o justificativo, marcado pela formação moral-religiosa de ex-seminarista.
Como jurista, a grande preocupação do narrador machadiano está voltada para o público, que deve julgar Capitu segundo as palavras por ele escritas. Objetiva-se a persuasão, tomando, no entanto, não a verdade como suporte, mas a verossimilhança, conforme consta na primeira epígrafe deste artigo. Aquilo que relata não lhe foi resgatado pela memória, que constantemente revela ao leitor ser muito fraca, mas antes pela imaginação que, segundo suas próprias palavras, o caracteriza desde menino.
Como ex-seminarista, o narrador carrega o caráter justificativo da condenação impingida por Bento Santiago adulto a sua mulher. Acontece que as justificativas apresentadas nas especificidades de Capitu menina para os possíveis comportamentos de Capitu mulher nunca são assumidas pelo narrador. O que é dito de Capitu provém do discurso de José Dias e de tia Justina, dois agregados. A partir das colocações deles, tidas pelo narrador como prováveis, é construído o texto dirigido ao leitor. Assim sendo, a maldade do olhar é apresentada como característica do outro, não de sua mãe ou de seu tio, seus iguais, não do dócil adolescente que foi o narrador, mas de personagens tidas como inferiores na estrutura social: os agregados. Por meio desse procedimento, o casmurro narrador defende Bento Santiago adulto, que acusou sua mulher de adultério, sem comprometê-lo com o veredicto de Capitu.
Diferentemente do urbano narrador criado por Machado de Assis, Riobaldo não usa da escrita para reviver o vivido. Seria incoerente se dela fizesse uso, pois, enquanto o primeiro era advogado e ex-seminarista, pertencente à classe dominante, o narrador criado por João Guimarães Rosa freqüentou por pouco tempo a escola primária de mestre Lucas, no Curralinho: "Soletrei, anos e meio, meante cartilha, memória e palmatória. Tive Mestre Lucas, no Curralinho, decorei gramática, as operações, regra-de-três, até geografia e estudo pátrio. Em folhas grandes de papel, com capricho desenhei bonitos mapas" (Rosa, 2001: 30).
O passado, reconstruído oralmente por Riobaldo e futuramente retomado pelo interlocutor urbano, que faz dele escritura, tem dois objetivos distintos: (1) a compreensão de sua história de vida, sempre marcada pelo destino, e (2) a auto-justificação de seu pacto com o diabo. Essa duplicidade de objetivos marca a duplicidade do narrador-protagonista: jagunço com valores míticos; letrado com valores racionais.
Riobaldo, jagunço sertanejo, pauta sua vida pela visão mítica da existência, acreditando em destino, em oráculo, em pacto com o diabo no qual comparecem "porca com ninhada de pintos", "galinha puxando barrigada de leitões", no qual há "cheiro de breu queimado", "assinatura com sangue"... Em contrapartida, Riobaldo, letrado sertanejo, homem que ascendeu à posição de mando, tornando-se poderoso fazendeiro, efetivou escolha, o pacto com o diabo, movido por ambição desmedida. Normalmente pacato e obediente, Riobaldo, quando nas Veredas Mortas, parece chamar por um daimõn, um gênio do mal, a fim de que este lhe modifique a personalidade, sempre apresentada como passiva e cordial.
Quando decide pelo pacto, Riobaldo, conforme relata o envelhecido narrador, sabe, e gradativamente mais vai sabendo da fragilidade de ser jagunço. Já se deu conta de que poderia ter sido traído por Zé Bebelo na Fazenda dos Tucanos. Mais adiante, percebe que, por um acaso, poderia ser reduzido a escravo de qualquer Seo Habão. Infeliz, está sempre a pensar "e, que é que eu era? Um raso jagunço, cachorrando por este sertão" (Rosa, 2001: 420). Em oposição, busca pela especificidade de Hermógenes. Como que invejoso da inteireza deste chefe, define-o como "arrenegado, senhoraço, destemido. Ruim, mas inteirado, legítimo, para toda certeza, a maldade pura" (Rosa, 2001: 425). Oscilando ainda entre fazer e não fazer o pacto, depara-se com Seo Habão, e com clareza dá-se conta de que "fazendeiro-mór é sujeito da terra definitivo, mas (que) jagunço não passa de ser homem muito provisório" (Rosa, 2001: 425). Dentre as duas alternativas possíveis, fazer ou não fazer o pacto, apenas a primeira lhe permite a saída de seu universo comezinho, que tanto o incomoda e faz dele um ser tão desprotegido, tão à mercê do acaso.
Riobaldo é um narrador bastante sagaz. É com inteligência que apresenta a seu interlocutor os prós e os contras à iniciativa do pacto com o diabo. Faz-se de sonso ao falar de "porca com ninhada de pintos", "galinha puxando barrigada de leitões", no qual há "cheiro de breu queimado", "assinatura com sangue"... Em verdade, revela-se, nas quatro páginas dedicadas ao pacto e nas que lhe são subseqüentes, um ser cuja essência reside na ambição desmedida de ultrapassagem dos limites humanos, transmutando-se, desta forma, em ente que, objetivando realizações além das possibilidades, recorre, sem medo da morte ou da danação, a ações descabidas. Querendo mostrar-se como "muito pobre coitado", em verdade, Riobaldo, ao pactuar com o diabo, revela seu vínculo com a tradição ocidental, com Goethe e Thomas Mann, cujos Faustos, conforme apontou Roberto Schwarz em "Grande Sertão e Dr. Faustus", são, em verdade,
o espírito da negação, interior ao homem, diabo encarnado que não precisa de convocação para comparecer, que permite a Mefistófeles dizer de Fausto: "inda que ao diabo não se tivesse entregue,/ seu caminho seria a perdição"; que faz Riobaldo dizer: "que quando um tem noção de resolver a vender a alma sua, que é porque ela já estava vendida, sem se saber"; que faz o demônio de Thomas Mann dizer: "Nós apenas partejamos, trazemos à luz o que já existia" (Schwarz, 1965: 32).
Joaquim Maria Machado de Assis morreu no dia 29 de setembro de 1908, na cidade do Rio de Janeiro. João Guimarães Rosa nasceu no dia 27 de junho de 1908, na cidade mineira denominada Cordisburgo: cidade do coração. Dom Casmurro e Riobaldo são narradores por eles criados. Primam pelo caráter suspeitoso que os envolve. São figuras ficcionais que estão como que a enredar seus leitores na tentativa de imporem seus valores. Em sua presença, cumprem a tarefa de desvendamento. Conduzem à visão de dois exemplares representantes da sociedade brasileira na qual (1) a classe dominante não tem limites no relacionamento com o outro, o mais pobre, tal qual o casmurro narrador de Machado de Assis em seu relacionamento com Capitu; (2) o processo de ascensão social não prima pelo comportamento ético, sendo um exercício destemido da lei do vale tudo, tal qual a conduta do aqui enfocado narrador rosiano. Resta ao leitor o regozijo diante da culpa criada por Machado de Assis e por Rosa para seus narradores-personagens, necessitando do outro para aplacá-la. Havendo a culpa, haverá a correção dos rumos?
Pode-se, pois, concluir que Dom Casmurro e Riobaldo são figuras marcantes da história social brasileira. Cada um de seus autores, ao criar tais narradores-protagonistas, mostrou-se, conforme preconizou Machado de Assis em "Instinto de Nacionalidade", "homem do seu tempo e do seu país" (Assis, 1997: 804).
Bibliografia
ASSIS, Joaquim Maria Machado de. Notícia da atual literatura brasileira. Instinto de Nacionalidade. In: ______. Obra Completa. v. III. Rio de Janeiro: Aguilar, 1997
ASSIS, Joaquim Maria Machado de. Dom Casmurro. Rio de Janeiro: Jackson, 1959.
ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
SANTIAGO, Silviano. Retórica da Verossimilhança. In: ______. Uma literatura nos trópicos: ensaios sobre dependência cultural. São Paulo: Perspectiva, 1978.
SCHWARZ, Roberto. A sereia e o desconfiado. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965.
SÓFOCLES. Édipo-rei. In: _________. A trilogia tebana. Tradução de Mário da Gama Kury. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
Adelaide Caramuru Cezar Professora de Literatura Brasileira na Universidade Estadual de Londrina
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