100 anos Machado; Quincas Borba – 117 anos
Erson Martins de Oliveira
Há 117 anos aparecia Quincas Borba, publicado em 1891. Mas, seu nascimento começou há 122 anos. Em junho de 1886, Machado de Assis deu a esse romance os primeiros sinais de vida, ocupando páginas da revista A Estação, na forma de folhetim. Em 29 de setembro de 1908, morre o arquiteto de Memórias Póstumas de Brás Cubas, romance editado em 1881, que marca a passagem de Machado de Assis para a fase realista e que abre caminho para Quincas Borba.
Em 4 de outubro de 1908, portanto poucos dias depois da morte do escritor, o crítico Araripe Júnior publica no Jornal do Comércio do Rio de Janeiro um artigo que revela uma curiosa passagem sobre Quincas Borba. Relata que encontrou, na Livraria Garnier, Machado de Assis, que lhe perguntou - "Até quando pretende você dar-me pancada?"
Araripe Júnior sentiu o peso da inquirição. E se indaga: "O que seria? O meu bom amigo sorria amargamente. Convenci-me, pois, de que, nos artigos, alguma coisa escapara, inconscientemente, que o magoou, razão por que deixei inédito o último artigo, que seria oportuno publicar agora."
O crítico decide rever o artigo de 16 de janeiro de 1892, no qual afirma que "as mulheres do autor de Quincas Borba são, em regra, incolores, sem expressão". A explicação dessa caracterização, no entanto, Araripe Júnior encontrou na psicologia do escritor, para quem "o motivo dessa fraqueza acha-se no talento de quem as imaginou". Machado de Assis, por ser um "asceta dos livros" e viver "retraído ao gabinete", não poderia pintar a personagem feminina como Shakespeare, Bocaccio, Byron e Dumas pai.
Araripe era um destacado crítico da época, não poderia evidentemente se ater a esse tipo de explicação; e procura então fundamentar literariamente sua afirmação, mas nenhuma das alusões crítico-literárias se sobrepôs à observação de ordem pessoal. Dias antes, em 12 de janeiro de 1892, no mesmo jornal, Araripe tinha feito considerações na mesma linha do condimento pessoal. Afirma:
Machado do Assis continuou sua vida com a pertinácia de que são capazes os Narcisos literários. Apaixonado do próprio espírito, procurando em toda a parte o reflexo de si mesmo, nos livros, nas bibliotecas, nos museus, nas coleções, nos jornais, nos teatros, nos salões, nas reuniões de amigos, na Rua do Ouvidor; ruminando a originalidade de suas obras, entre a preocupação do aplauso popular e o horror à vulgaridade; flagelado continuamente pela obsessão do novo e pela imposição dos clássicos, Machado de Assis fortaleceu-se na idéia e aprimorou-se na forma, mas hoje, como ontem, como em 1870, posso afirmá-lo, não mudou uma linha do seu primitivo eixo (Júnior, 1963, v. 2: 292).
Na explicação das personagens, Araripe Júnior não dá trégua: "Não há, nessa linha, nem observação, nem psicologia, embora o autor se proponha estudar caracteres e fazer retratos d'aprés nature" (Júnior, 1963, v. 2: 293).
Está claro que a pergunta de Machado de Assis - "Até quando pretende você dar-me pancada?" - vai além das avaliações de Araripe Júnior sobre as personagens femininas. No artigo de 4 de outubro de 1908, o crítico procura retirar o tom pessoal de seus ataques.
O episódio nos deixa a imagem do quanto a literatura de Machado de Assis foi envolta por uma atmosfera de hostilidade e de incompreensão pela crítica de seu tempo.
Encontramos visão semelhante em Sílvio Romero. Em 1882, no ensaio Sobre Machado de Assis e Luís Delfino, Sílvio Romero esparge biles:
O SR. MACHADO DE ASSIS passa atualmente pelo mestre incomparável do romance nacional. É para o Brasil o que Zola é para a França. Diante de um talento, de um estilista, de um crítico sincero, de um romancista de força, de um homem, avistar um meticuloso, um lamuriento, um burilador de frases banais, um homenzinho sem crenças... é uma irrisão. (...) O autor de Iaiá Garcia, frívolo de inofensivo como é, é tanto mais para ser combatido, quanto pela dubiedade de seu caráter político e literário e nada pode ajudar a geração que se levanta e a quem se insinua por amigo. Não tendo, por circunstância da juventude, uma educação científica indispensável a quem quer ocupar-se hoje com certas questões, e aparecendo no mundo literário há cerca de vinte e cinco anos, o Sr. Machado de Assis é um desses tipos de transição, criaturas infelizes, pouco ajudadas pela natureza, entes problemáticos, que não representam, que não podem representar um papel mais ou menos saliente no desenvolvimento intelectual de um povo (SílvioRomero, 1980: 143).
Sílvio Romero - o mais bem formado e conceituado crítico e historiador da literatura brasileira do século XIX - não só desqualifica sem assombro a obra machadiana como ataca com prepotência elitista o operário que escapou das engrenagens da sociedade de classe e alçou-se à condição de fértil escritor. Na história de vida do criador de Quincas Borba, o extraordinário não está no fato de não ter "uma educação científica indispensável", mas sim no fato de ter usado a inteligência, a disciplina de estudo autodidata e o apoio de pessoas que reconheceram seus esforços para romper a "circunstância da juventude", que era de pobreza. Primeiro, operário tipógrafo; depois, revisor; e, finalmente, alto funcionário público, cargo que indiscutivelmente tolheu politicamente Machado de Assis, acusado de virar as costas ao movimento abolicionista e republicano. Como revisor, adquiriu conhecimentos práticos da língua; como escritor, alcançou altitude clássica.
Mas, na importante obra inaugural da História da Literatura Brasileira, no 5º volume, no capítulo "Machado de Assis", que já traz a data da morte do escritor, Sílvio Romero mantém inteiramente suas opiniões de 1882. Faz o seguinte balanço crítico-historiográfico: "Machado de Assis não conseguiu criar um verdadeiro e completo tipo vivo, real, ao gosto e com a maestria dos grandes gênios inventivos das letras". Ou então, categoricamente: "O Machado de Assis dos últimos anos era fundamentalmente o mesmo eclético de trinta ou quarenta anos atrás: meio clássico, meio romântico, meio realista, uma espécie de juste-milieu literários, um homem de meias-tintas, de meias palavras, de meias idéias, de meios sistemas, agravado apenas pelo meio humorístico, que não lhe ia bem, porque não ficava a caráter num ânimo tão calmo, tão sereno, tão sensato, tão equilibrado, como era o autor de Tu Só, Tu, Puro Amor."
Com Sílvio Romero, ficou assentada como defeito a indecisão de Machado de Assis entre o romantismo e o realismo, homem de temperamento fechado, pessimista, moralista, de estilo limitado e indeciso. As virtudes encontradas por Sílvio Romero são: criou verdadeiros tipos sociais e psicológicos; observou os costumes; esmerou a correção e a propriedade dos termos; algumas páginas de Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba mostram talento criador.
Sílvio Romero elogia o fato de a literatura machadiana estar povoada de "vários tipos brasileiros, genuinamente brasileiros". E por ter criado "verdadeiros tipos sociais e psicológicos, que são nossos em carne e osso, e essas são as criações fundamentais de uma literatura". Sem dúvida, o crítico tocou em um dos pontos centrais da obra de Machado de Assis. O que não é aceitável, no entanto, é a referência que faz a Machado de Assis quanto a ser mulato. "Ele é um dos nossos, um genuíno representante da sub-raça brasileira cruzada" (Romero, 1980: 1502). A qualificação determinista de sub-raça expressa uma visão racista, marcante no século XIX.
Em sua História da Literatura Brasileira, Luciana Stegagno Picchio refere-se a esse tipo de prejuízo. "A crítica, desde a de gosto psicanalítico até a de intenção sociológica, ocupou-se e preocupou-se bastante com a cor da pele de Machado de Assis, a ela atribuindo psicossomaticamente todos os males que afligiram o homem, da gagueira à epilepsia (...)". Assinala com exemplos de outros importantes intelectuais que se referiram ao autor em termos raciais: José Veríssimo ("mulato, foi na realidade, um grego de tempos de ouro") e Joaquim Nabuco ("Machado para mim era um branco, e creio que como tal ele se julgava"), que aliás foi seu amigo (Picchio, 1997: 276).
Relatamos, em grandes linhas, o julgamento reprovativo de dois dos mais eminentes críticos contemporâneos de Machado de Assis. Fizemos questão de mostrar os absurdos dos ataques pessoais e qualificações raciais.
O século XX, ao contrário, foi de descoberta da obra machadiana, tendo à frente José Veríssimo, logo nos seus primórdios. Passou a ser o escritor mais estudado. Não é caso de comentar a valorização da crítica. É preciso apenas constatar algumas referências díspares sobre Quincas Borba, tema de nosso ensaio.
Lúcia Miguel-Pereira considera Quincas Borba inferior a Memórias Póstumas de Brás Cubas. Isso se deve, segundo a biógrafa de Machado, a que houve interrupção no seu trabalho de redação, publicado em forma de folhetim, de 1886 a 1891. Outras considerações são irrelevantes, por serem hipóteses, como a de não ter sido escrito em primeira pessoa ou ter faltado ao escritor inspiração.
Afrânio Coutinho tem avaliação distinta: "Quincas Borba (...) é muito mais rico de vida e substância humana que o romance anterior. A atitude sarcástica e falsa do Brás Cubas cede lugar a uma severa dramaticidade, que suporta a medida do trágico" (Coutinho, 1997: 162).
O crítico ressalta o trabalho artesanal, meditado e planejado do romance. Quincas Borba é exemplar, nesse sentido. Cita um estudo, de Antônio José Chediak, apresentado em 1959, no qual se demonstra que Machado de Assis não tinha nada de espontâneo e que se valia de conhecimentos estéticos. Nessa ordem de valor literário, Afrânio Coutinho destaca Quincas Borba como uma obra arquitetada. "A composição de Quincas Borba obedeceu a um grande esforço, submetendo-o a sucessivos planejamentos e replanejamentos, cortes e transposições, seleções e reajustes, reduções e eliminações, do que resultou uma obra inteiramente nova, como se pode verificar comparando a primeira versão publicada em A Estação, entre 1886 e 1891, e a definitiva em volume: até a ordem da narrativa na entrada é diferente" (Coutinho apud Assis, Obra Completa:[GK1] 44)
Temístocles Linhares equaciona a importância de Quincas Borba formando tríade com Memórias e Dom Casmurro. Critica a "pretensa inferioridade do segundo romance sobre o primeiro, como querem alguns críticos, absorvidos num jogo de preferência bastante discutível, a verdade que ressalta é que Quincas Borba sobrevive à gloria de Memórias Póstumas e ao êxito de Dom Casmurro, não se inferiorizando absolutamente a qualquer um dos dois" (pág 392, História Critica do Romance Brasileiro, vol. 1).
Considerações sobre Quincas Borba.
Quincas Borba surge como personagem no romance Memórias Póstumas de Brás Cubas. Ocupa o lugar de um pensador estóico, que chegou a uma "receita moral", que "retifica o espírito humano, suprime a dor, assegura a felicidade, e enche de imensa glória nosso país". Denominou-a de "Humanitas, principio das cousas". Quincas Borba explica a Brás Cubas que, se há alguma coisa que supere a "amargura da vida", essa coisa é a descoberta, em si próprio, de alcançar "a verdade e a felicidade".
O encontro de Brás Cubas com Quincas Borba estabelece um contraponto no enredo. Ocorre no momento em que Brás Cubas já tinha vivido os maiores reveses na vida: morte da mãe, fracasso da candidatura para a Câmara de Deputados, morte do pai, disputa familiar pela herança, perda de Virgília para Lobo Neves.
O acaso tornou-o mais rico com o achado de "cinco contos" em um embrulho. O acaso também lhe pôs no caminho a filosofia metafísica de Quincas Borba. Virgília estava casada, mas lhe pertencia, seria amante. Novamente a perderia. Mais uma sucessão de fracasso: torna-se deputado numa Câmara que de nada servia, acabou perdendo-a; a conselho de Quincas Borba, funda um jornal baseado no Humanitismo, cheio de promessas liberais, seis meses depois estava velho e morria; nova tentativa de casamento, morre Nhá-lolo, acometida de febre amarela.
O romance caminha para o fim com as mortes de D. Plácida, Lobo Neves e Marcela. No encontro com Quincas Borba e primeiro contato com sua filosofia, Brás Cubas teve um lampejo de consciência de que seu passado fora "roto, abjeto, mendigo e gatuno".
De família abastada, educação materna moralizadora e inspiração aristocrática arquitetada pelo pai, Brás Cubas percorreu um caminho de queda sobre queda, até terminar seus dias na mais plena solidão. Os desastres, desgraças e ruínas de uma vida estão atados às demais personagens, que se expõem e revelam toda miséria humana.
Esse relato se desenvolve na forma de memória de um morto, que, por já não estar entre os vivos, pode observar à distância o meio social burguês e pequeno burguês que se animava sob o Segundo Império. É nesse mesmo meio que um alienado - Quincas Borba - edifica a teoria alienante do "princípio das coisas", a partir do qual se justificam as guerras, a fome, a eliminação dos adversários e toda sorte de flagelo.
O destino inevitável dos homens é eternamente lutarem uns contra os outros, vencerem os fortes, submeterem-se os fracos. A esta lei ahistórica, aconselha o filósofo, Brás Cubas deve se acomodar e tirar proveito próprio. Quincas Borba dispõe a alegoria da guerra dos cachorros pelo osso a Rubião, para que Humanitas seja colocada ao seu alcance.
No penúltimo capítulo, Quincas Borba partira para Minas e voltara ao Rio de Janeiro, quatro meses depois, com a demência agravada, conta que havia destruído os volumosos manuscritos para poder aperfeiçoar seu Humanitas. "Morreu pouco tempo depois, em minha casa, jurando e repetindo sempre que a dor era uma ilusão, e que Pangloss, o caluniado Pangloss, não era tão tolo como o supôs Voltaire" - assim termina o penúltimo capítulo.
O romance Quincas Borba inicia com um retrospecto aos quatro meses de presença do filósofo em Barbacena (Minas Gerais), a sua volta ao Rio e morte. "Este Quincas Borba, se acaso me fizeste o favor de ler Memórias Póstumas de Brás Cubas, é aquele mesmo náufrago da existência, que ali aparece, mendigo, herdeiro inopinado, e inventor de uma filosofia."
Nomeia seu cachorro de "Quincas Borba", seguindo o princípio de que Humanitas está em todas as coisas. Explica a Rubião, seu futuro herdeiro, que pretendia, após a morte, sobreviver no nome do cachorro. Disserta sobre sua filosofia por meio da alegoria da guerra pelas batatas, como o fez para Brás Cubas com a guerra pelo osso. "Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor as batatas."
Registra um testamento, deixa Rubião rico, com a condição testamentária de cuidar bem do cachorro Quincas Borba. O morto esperava que Rubião se tornasse herdeiro também do Humanitas, mas de fato não acreditava em sua inteligência. O novo rico identificou-se com a parábola das batatas: abandonaria a pacata e provinciana Barbacena pela urbanidade da Corte. Rubião desenvolve o sentimento de proprietário. De reles professor, a capitalista.
Essa base material determinará o curso dos acontecimentos de uma personagem proveniente da pequena burguesia. Via de regra, os comentários críticos sobre Quincas Borba - e também sobre Brás Cubas - apenas assinalam o enriquecimento como um fato entre outros, não lhe dando o devido relevo. Referem-se ao realismo psicológico, à análise machadiana da miséria humana e à crítica de valores morais. No entanto, principalmente neste segundo romance da fase realista do escritor fluminense, o plano psicológico se insere no plano das relações materiais, das riquezas e dos jogos mercantis.
O encontro casual com Palha e Sofia, na estação de Vassouras, marca o destino material e psicológico de Rubião, provinciano, incauto, ingênuo e tolo. Conhecem-se comentando o progresso da estrada de ferro, a situação da agricultura, o problema da escravidão e a política do governo. "Sofia escutava apenas; movia tão-somente os olhos, que sabia bonitos, fitando-os ora no marido, ora no interlocutor."
A herança universal de Rubião embeveceu Palha; os encantos de Sofia embeveceram Rubião.
De posse da casa de Botafogo, Rubião já é um homem mudado. Sua consciência e vontade encarnam a situação de homem rico, que será servido por criados brancos estrangeiros; que terá bajuladores ao seu redor; que preencherá o tempo ao bel-prazer; que fará da ociosidade o modo de vida.
O casto homem tortura sua mente com o "pecado" de estar atraído pela mulher de seu amigo. Mas seu amigo usa os encantos da mulher para prender o homem rico a seus negócios, que eram parcos. E a mulher maneja seus encantos para ajudar o marido.
Os episódios vão se encadeando de forma que as contradições entre os interesses materiais e os sentimentos terminem quase sempre em crises morais, remorsos e arrependimentos. As torturas psicológicas acabam invariavelmente em hipocrisia. Pela extensão, tais manifestações ganham projeção social.
Rubião, com toda ingenuidade, não escapa ao uso da riqueza para se manter próximo de Sofia, embora não fizesse cálculo algum e não tivesse sequer uma ponta de consciência de que seu desprendimento com o dinheiro faculta-lhe comprar o almejado. Comprar não só o convívio com Sofia e a esperança de tê-la, como também o acesso à quixotesca glória aristocrática.
Rubião trava conhecimento com o venal e fracassado advogado Camacho, que o atrai para pôr dinheiro no jornaleco Atalaia. Deixa-se extorquir, cego pela busca de um lugar que o tirasse do anonimato, que o personificasse e que lhe atribuísse deferência na seleta plêiade da Corte.
A mais refinada ingenuidade está em acreditar que um pequeno burguês, dono de uma pródiga herança, pudesse alcançar os pícaros da aristocracia do Segundo Império. E a mais grosseira ingenuidade está em defender até o último momento as boas intenções dos Palha.
O drama de ciúme desencadeado pelo garboso Carlos Maria, que acabou se submetendo a um casamento arranjado com a roceira Maria Benedita, burilada pela prima Sofia para ser citadina e prendada por dotes aristocráticos femininos, é apenas um condimento na teia das relações alienantes que tecem e em que se enredam as personagens.
A trama romântica de paixão, rejeição, ciúme e sofrimento não vale por si mesma, embora domine a fábula romanesca. Serve de meio para as contradições materiais se manifestarem e se mostrarem como pano de fundo das contradições no âmbito da psicologia social. Certamente, não há relação e determinação mecânicas.
Carlos Maria lançou-se a seduzir Sofia por necessidade egocêntrica; Sofia foi atraída pelo esbelto rapaz por necessidade de amor, e mostrou-se disposta a cometer adultério por desejo. Assim, deixou transparecer que ajudava seu marido a saquear Rubião também por interesse próprio, e que o casamento já não passava de uma comunhão de interesses. Palha servia-se dos encantos de Sofia para suas transações comerciais; e Sofia valia-se das transações de Palha para adentrar a mais alta roda da sociedade burguesa e aristocrática. Carlos Maria aceita o casamento arranjado por sua prima, D. Fernanda, mulher do deputado Teófilo, cuja vida se resumia a trabalhar por um posto de Ministro. Sem decisão própria, Carlos Maria cai na obscuridade da vida familiar. E Rubião sente-se aliviado, dissipando as conjecturas sobre um caso clandestino entre Sofia e Carlos Maria.
A impertinente figura do major Siqueira, um funcionário público, faz parte do círculo de amizade de Palha até o momento em que este enriquece e seus negócios comerciais prosperam, enquanto o major cai no limbo, ao passar para a reserva. Já não é convidado para as festas, e torna-se indesejável. Existência plebéia não combina com vida burguesa, paraíso que é alcançado graças ao tino comercial e aos cálculos, que incluíram a beleza atrativa de sua mulher e os desejos compulsivos de Rubião.
Siqueira carregava um peso - a filha Tonica, solteirona; e uma missão, arranjar um casamento. O novo rico de Barbacena despontou como cobiça, mas a perfeita transação para o major esbarrou no obstáculo Sofia, que manobra os movimentos de Rubião com maestria. Essa estória ficará para trás, com a ascensão econômico-social de Palha e a decadência de Rubião. Tonica arranjará um marido, funcionário público pobre, viúvo, com dois filhos, um deles tuberculoso. O pretendente morre, e Tonica segue seu destino de mulher rejeitada e solitária. Completa-se o quadro de penúria e desolação da família Siqueira.
Rubião tinha um capital, mas não era capitalista. Esbanjou com futilidades, parasitismos, presentes, contribuições, assistencialismos etc. Calçou os negócios de Palha, que se tornou administrador dos bens do amigo. Financiou o Atalaia, do embusteiro Camacho. Uma das poucas, senão a única causa justa em que gastou foi com a doença e o enterro de Freitas. Esse é o quadro revelador da esfera parasitária da sociedade de classe, na segunda metade do século XIX, observada por Machado de Assis.
O provinciano de Barbacena abandonou seu lugar de origem para conquistar a capital do Império, tornou-se uma peça das forças sociais capitalistas, foi espoliado e levado à loucura. Quincas Borba canino seguiu a trajetória da decadência final de seu segundo dono.
Rubião, perturbado, aspirava fazer de Sofia uma imperatriz, e transformou-se em Napoleão III. "Já o tempo não passava por ele como por um vadio sem idéias. Rubião, à falta delas, tinha agora imaginação" - assim vê o narrador o momento de ruptura mental da personagem principal.
Enquanto a mente doentia de Rubião delirava sobre a nobreza de Sofia, esta, com a mente sadia, galgava o posto de mulher aburguesada, que, agora, triunfante podia corrigir a estatura do marido, ainda atado ao passado de poucas posses e, por isso, acostumado a não se mostrar superior. "Você esteve hoje insuportável; parecia um criado" - censurava Sofia.
Já era tempo de descartar a amizade de Rubião. "Rosas, quando recentes, importam-se pouco ou nada com a cólera dos outros; mas, se definham, tudo lhes serve para vexar a alma humana." Bela representação do narrador - do artista Machado de Assis - para "Um triste homem sem encantos, (...), e talvez generoso, mas repugnante, não?"
Já haviam tirado de Rubião o que lhes encantava, sobrava o homem repugnante. Mas, para sobreviver a tudo, o herdeiro de Quincas Borba torna-se Napoleão III, que declara o amor mais profundo a Sofia, que é tomada do mais profundo espanto. Rubião não se veste de Napoleão I, do qual também tem um busto, mas de Napoleão III, uma caricatura histórica. Chega-se, assim, ao ápice da tragédia social do meio pequeno burguês e burguês.
Foi necessário que D. Fernanda, que mal conhecia Rubião, interpelasse se não era o caso de submetê-lo a um tratamento. É nesse momento que a falsidade e a mesquinhez de Sofia escala o ponto mais elevado da "miséria humana" (qualificativo usado abstratamente pela crítica), não da miséria humana em geral, como se fosse uma qualidade intrínseca, mas da miséria do pequeno burguês que enriquece às custas de Rubião, e que, depois de explorada e esgotada, renega a fonte em que bebera.
Teófilo pergunta a Sofia o que Rubião fazia. Resposta: "Nada, nem agora nem antes. Era rico - mas gastador. Conhecemo-lo quando veio de Minas, e fomos, por assim dizer, o seu guia no Rio de Janeiro, aonde não voltara desde longos anos. Bom homem. Sempre com luxo, lembra-se? Mas não há riqueza inesgotável, quando se entra pelo capital; foi o que ele fez. Hoje creio que tenha pouco..." A relação de Rubião com a riqueza não despertou ambições de mais riqueza. Serviu-lhe para mudar materialmente sua vida, passando a ser servido, bajulado e assediado pelos novos amigos, que descobriram a solidão e superficialidade do anfitrião como meio para bons dividendos. Os aproveitadores, frente a um Rubião empobrecido e desvairado, terminam por acusá-lo de não ter agido como capitalista ou avaro pequeno burguês.
A idéia de D. Fernanda de que se poderia nomear um curador para usar o que restava da riqueza de Rubião para tratá-lo convenientemente despertou a ira em Palha, que indaga a Sofia que interesse teria afinal D. Fernanda. Palha achava uma amolação ter de recolher e gerir "algum resto de dinheiro que ainda houvesse". Que o fizesse, então, Teófilo. Sofia aconselha Palha a não ser menos generoso do que D. Fernanda, que com ele não conviveu. Era de bom tom mostrar, aos olhos dos conhecidos, a generosidade. A sugestão de D. Fernanda e de seu marido deputado causava transtorno, mas no final das contas poderia ser útil, um gesto em favor de Rubião ajudaria a acobertar qualquer suspeita do quanto o utilizaram para chegar aonde chegaram.
Machado de Assis, assim, desenha e pinta máscaras sociais para suas personagens e as remove com apurado bisturi, expondo as cavidades do rosto. Aqui está em essência o segredo de seu leve estilo de narrar e de seu refinado modo de refletir na linguagem a paisagem dos valores sociais imperantes e da correspondente psicologia social dominante.
Sílvio Romero considera o maior mérito de Machado de Assis o de ter adentrado no plano psicológico das personagens. Na esteira do crítico sergipano, floresceu a visão de um Machado de Assis puramente subjetivo, criador do romance psicológico e representante do realismo psicológico, em que as relações sociais não passam de pano de fundo secundário. Sobram explicações de ordem biográfica para o fenômeno psíquico-literário, como o de um Machado de Assis ressentido, angustiado e recalcado. Daí se envereda pelo pessimismo e apego do escritor a Pascal e Schopenhauer.
O crítico Silveira Bueno é quem melhor expressa a visão "psicologisante" sobre a obra machadiana.
No romance inaugurou Machado de Assis o gênero, que depois dele não teve continuadores, do romance psicológico, onde o temperamento das personagens é tudo e nada a natureza, o ambiente em que elas se movem e vivem. Foi um produto do caráter introspectivo do autor, o lado digno de aplausos de uma enfermidade que só piedade e revolta nos poderia causar, a epilepsia. Nenhum dos seus romances lhe entrou pelos olhos, mas lhe vieram todos do seu interior, da sua imaginação que sabia combinar e concertar lembranças da vida. Queremos dizer que nenhum dos seus romances foi fruto de observação, objetivamente passado no ambiente social do Rio de Janeiro, mas foram combinações, arquiteturas, construções que se levantaram do interior do artista, obras compostas de mil passagens e recordações que lhe haviam ficado no fundo da memória. Por isto mesmo são todos quase iguais, ou pelo menos, com passagens que se repetem, variadas apenas as circunstâncias (Bueno, 1968: 138).
Afrânio Coutinho, comparando Quincas Borba com Memórias Póstumas de Brás Cubas, explica que a "motivação psicológica da ação das personagens é muito mais fina e sutil. Sofia, por exemplo, tem uma complexidade maior que Virgília, as suas ações emergem de um fundo irracional que ilustra melhor a precariedade e a incerteza do ser humano, do que o jogo simplista das causas evidentes que move as personagens do primeiro romance".
A comparação é verificável até a constatação da ação das personagens de Quincas Borba ser mais fina e sutil, mas não o é quanto à comprovação baseada no fundo irracional das ações. Não há nenhum fundo irracional e nada de irracional nos atos de Sofia e de qualquer outra personagem de Quincas Borba. Há claras determinações causais, de ordem econômico-social. Ocorre que esse tipo de crítica faz do Machado de Assis um escritor dicotômico e metafísico: predomina o estético em detrimento do social. O que quer dizer predominância da forma em detrimento do conteúdo. Com isso, esvazia-se todo sentido crítico-social dos seus romances; e perde-se o real valor das leis artísticas, que Machado de Assis tão bem dominava e conhecia.
A decisão de Virgília de preterir Brás Cubas e casar-se com Lobo Neves por interesse foi um ato rápido e inesperado, "com um ímpeto cesariano", como expõe o narrador, reconhecendo uma virada brusca na vida de Brás Cubas e Virgília. Lobo Neves tinha costas largas que garantiam sua candidatura contra a de Brás Cubas. Derrotou assim o rival do mesmo partido, e com isso arrebatou Virgília, que via no casamento a possibilidade de alcançar o título de baronesa. Há esquematismo nessa decisão, ajustado à forma da memória. Mas, o fundamental é que Virgilia não tem uma interferência socialmente ativa nos acontecimentos, como tem Sofia. Nisso consiste o equívoco de atribuir a suas ações um fundo irracional.
Justamente o contrário, as ações dessa magnífica personagem, que veio de baixa camada social, fez-se dama burguesa, saiu do anonimato feminino imposto pelo patriarcalismo e se sobrepôs ao marido, têm a ver com o meio social pequeno burguês e a ascensão para a classe de cima, burguesa. Mais uma comprovação: Sofia manipula os sentimentos de Rubião em função de interesses bem definidos, traçados pelo marido, mas também tem seus sentimentos manipulados por Carlos Maria, que, no caso, não é motivado por razões materiais, mas sim psicológicas.
Sofia não trai o marido com Rubião, embora Palha a tenha empurrado para a consecução. Não se jogou nos braços de Rubião porque não gostou dele, mas também porque não foi necessário. Podia obter o que queria apenas com a sedução. Estava disposta, no entanto, a trair Palha com um narciso, e muito sofreu por não ter conseguido. O que evidenciou que Sofia não aceitou servir de instrumento aos desígnios do marido apenas por interesse, mas também porque estava propensa à traição. O casamento, para Sofia, estava falido. Os laços não eram de amor.
Notamos que o plano narrativo de Quincas Borba é constituído de duas grandes seqüências. A primeira, em que o novo rico constrói laços em uma nova realidade, e a segunda, em que o novo rico já pobre vive a ruptura dos laços construídos e enlouquece. Os capítulos curtos vão compondo seqüências de construção e desconstrução dos laços sociais.
A abertura do romance compõe-se de uma seqüência que transforma Rubião de pobre em rico e que o leva a se deslocar de espaço sócio-geográfico, com a particularidade de que os primeiros capítulos focam o presente da vida de Rubião, e os demais servem de retrospectiva. O final se compõe do retorno ao ponto de partida, Rubião retrocede à condição anterior de pobre, mas completamente despersonalizado. Rubião buscou um novo ser, e para isso, despersonalizou-se do pobre professor, porém não se transformou em um novo ser como homem rico, assim não pôde se personalizar, e perde o equilíbrio mental. O plano psicológico da despersonalização que levou à alienação mental se assenta no plano das relações socioeconômicas que se interpenetram.
Na dialética dos planos, encontramos a construção rigorosa do romance e a dimensão de seu sentido geral e dos sentidos particulares enredados nos conflitos. Quaisquer outras personagens se manifestarão nesse movimento narrativo. Sem alongar a exposição, com o enriquecimento, Palha e Sofia vão rompendo os laços constitutivos de seu meio social original. Sofia encontra sua personalização, ascendendo no meio social pequeno burguês por meio dos negócios do marido. Rubião, para tornar-se um novo homem, teria de ascender economicamente, multiplicando o capital. Não bastou ter o dinheiro da herança (parasitário) e adentrar a um novo meio, precisava incorporar-se às regras e valores desse meio. Não o fez, o meio social o destruiu.
Observamos que os valores sociais imersos no enredo de Quincas Borba não resultam de uma metafísica machadiana moralizante. Machado de Assis passou o bisturi em muitas relações, como a ordem geral do casamento e do amor na sociedade burguesa, que saia do escravismo e transitava para a forma mais acabada do capitalismo. Quincas Borba é de uma atualidade gritante, provavelmente mais do que a de seu tempo.
Nesse sentido, Quincas Borba expressa uma observação mais clara e profunda do escritor do que a refletida em Memórias Póstumas de Brás Cubas. As personagens do romance Quincas Borba compartilham, conformam, encarnam e expressam as contradições do meio social em suas ações e psicologias. Tomadas dentro dessa arquitetura, perdem relevo os juízos ou prejuízos assentes de que a obra de Machado de Assis é prenhe de pessimismo frente à vida, à dor, ao lado mau da natureza humana, e outras abstrações do gênero.
Bibliografia
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Erson Martins de Oliveira Professor do Departamento de Arte da PUC SP
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